O campo de estudos sobre representações sociais fez-se inaugurado a partir da obra de Serge Moscovici, em 1961, La psychanalyse, son image et son public (MOSCOVICI, 1976), na qual ele apresenta sua pesquisa sobre como a psicanálise foi sendo socializada e apropriada pela população parisiense, transformando-se em saber do senso comum, com usos e funções sociais diferenciados. Neste trabalho, o autor introduziu o termo “representação social”, cunhado a partir das “representações coletivas”, descritas pelo sociólogo Durkheim14.
Atendendo ao mister que Durkheim delegou à Psicologia Social, de estudar “de que modo as representações se atraem e se excluem, se fundem umas com as outras ou se distinguem”, Moscovici vai se afastando da perspectiva sociologista extrema, construindo um espaço teórico-conceitual psicossociológico próprio, no qual as Representações Sociais são “tanto um conjunto de fenômenos, quanto o conceito que os engloba, e a teoria construída para explicá-los”. SÁ (1993, p.19).
Encontramos, em artigo de SPINK (1996), considerações sobre a constituição desse campo de estudos, desde a emergência da teoria das representações sociais no contexto da Psicologia Social, seu estatuto teórico, bem como o debate epistemológico na interface com a Filosofia da Ciência. Ela ressalta que existe atualmente uma crítica ao representacionismo, fundamentada na forma de conceber conhecimento que produz ou é produzido pelas antinomias entre sujeito e objeto, e entre o externo e o interno.
14DURKHEIM, E., apud MOSCOVICI, Serge.A Representação Social da Psicanálise,, p.25,São Paulo, Editora Zahar, 1978
No mesmo artigo, Spink refere-se à recusa de Moscovici em apresentar a noção nuclear de sua teoria, uma vez que, para ele, a definição (de representação social) deveria ser decorrência da acumulação de dados empíricos (p.174). Ela nos exemplifica, apontando quatro definições:
1. princípios geradores de tomadas de posições associadas às inserções específicas no conjunto das relações sociais e organizadores dos processos simbólicos que intervém em nossas relações sociais. WILLEM DOISE, 1986.
2. as representações sociais concernem do pensamento do cotidiano e o estoque de idéias que dá coerência às nossas crenças religiosas, idéias políticas e às conexões que criamos tão espontaneamente quanto respiramos. SERGE MOSCOVICI, 1988.
3. Uma forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, que tem objetivos práticos e contribui para a construção de uma realidade comum a um grupo social. DENISE JODELET, 1989.
4. formas de conhecimento peculiares à realidade social, que emergem na vida cotidiana no decorrer da comunicação interpessoal e tem por objetivo a compreensão e controle do ambiente físico-social. ANNAMARIA SILVANA DE ROSA, 1993.
cujo denominador comum, extraído por WAGNER (1996, p.175), é que esse tipo de conhecimento é um conjunto de crenças, imagens, metáforas e símbolos compartilhados coletivamente por um grupo, uma comunidade, sociedade ou cultura..”.
Sem pretender a formulação de um conceito definitivo de RS, mas atentando a esses aspectos comuns encontrados nas diversas definições apresentadas por
seus teóricos, pode-se dizer que a representação social é uma modalidade de conhecimento de senso comum, que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre as pessoas, produzida de forma compartilhada .
JODELET (2001, p.17), destaca a função “orientadora” das representações sociais quando afirma que
elas nos guiam no modo de nomear e definir conjuntamente os diferentes aspectos da realidade diária, no modo de interpretar esses aspectos, tomar decisões e, eventualmente, posicionar-se frente a eles de forma defensiva.
Para Moscovici, as representações sociais são dinâmicas, de natureza móvel e
circulante, sendo um modo específico de conhecer e de comunicar aquilo que se
conhece. (ANADON e MACHADO,2001, p.12)
BANCHS (2000) reportando-se ao processo de interação social e de intercâmbio verbal, como espaços de construção de representações, de produção de sentidos, compartilha da
concepção da realidade social como um processo contínuo de construção e não como realidade construída que se nos impõe, ao estilo durkheimiano, (p.3)
e afirma que
conteúdo (das representações) e contexto são indissociáveis, pois produzem influência bilateralmente (p.11),
na mesma linha em que REY (2003, p.126), ressalta o caráter de produto/produtor da realidade social das RS:
Esses momentos de inteligibilidade que com freqüência são considerados como “verdades” inquestionáveis, no nível do sentido comum, são, em grande parte, responsáveis pela organização do tecido social de uma determinada época histórica, assim como pela institucionalização de certos espaços de comunicação. Nesse complexo processo da subjetividade social, pelo qual o mundo adquire sentido para os sujeitos que o vivem, as RS se integram em complexos processos, que têm aparecido por meio de diferentes categorias na literatura, como discurso, imaginário social, etc., todas as quais apontam para os processos humanos definidores da realidade social. De fato, todos esses conceitos, de uma forma ou outra, são dirigidos pela idéia de que a realidade social expressa uma ontologia diferente da realidade dessubjetivada.
As representações sociais se formam a partir de dois processos fundamentais: objetivação e ancoragem.
A objetivação consiste em dar a um esquema conceitual uma contrapartida concreta, uma imagem, uma forma específica ao conhecimento. É, segundo Jodelet , ir materializando a palavra15. No processo da objetivação, há duas operações essenciais: naturalizar, ou transportar os elementos objetivos para o meio cognitivo, e classificar, introduzindo uma ordem que se adapte à ordem pré existente, a fim de atenuar o choque do novo conceito.(MOSCOVICI, 1978, p.113). Segundo SÁ (1996, p.47), “a objetivação consiste em uma “operação imaginante e estruturante”, pela qual se dá forma – ou figura- específica ao conhecimento acerca do objeto.”
15 JODELET, D., apud SÁ, Celso P., IN SPINK, M.J., O Conhecimento no Cotidiano: as representações sociais na perspectiva da Psicologia Social, São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993, p.39
A ancoragem é o enraizamento, através da atribuição de valores, do novo conceito. De acordo com Jodelet, é a integração cognitiva do objeto
representado a um sistema de pensamento social pré-existente16. Para
Moscovici , ancorar é classificar e denominar (SÁ, 1996, p.46), e no processo de ancoragem, não existe neutralidade.
Os teóricos do Grupo Midi (Abric, Flament, Rouquette, Vergès, Moliner, Guimelli) desenvolveram a teoria do núcleo central, conceito do qual Abric é precursor , situando-o da seguinte forma:
Uma representação social é um sistema sócio-cognitivo que apresenta uma organização específica: ela se organiza em torno de e por um núcleo central – constituído de um número bem limitado de elementos – que lhe dá sua significação (função geradora) e determina as relações entre seus elementos constitutivos (função organizadora). (ABRIC, 2003, P.59)
O núcleo central é um subconjunto das representações, e se constitui no elemento mais estável das mesmas, sendo, dessa forma, resistente a mudanças. No funcionamento das representações, ainda Flament demonstra o papel decisivo dos elementos periféricos - não-pertencentes ao núcleo central - que são atualizadores e contextualizadores da representação, e mais flexíveis e móveis que os elementos do núcleo central.( SÁ,1996 ) .É através do sistema periférico que a representação social pode se ancorar na realidade mais atual, nas características do contexto imediato em que se produz.
Abric aponta também a existência de uma “zona muda”, na expressão da representação social, que é constituída por elementos contra-normativos, ou
16 JODELET, D. apud SÁ, Celso P. .Núcleo Central das Representações Sociais- Petrópolis, R.J.: Vozes, 1996, p.46
seja, “não verbalizados pelo sujeito, nos métodos clássicos de coleta de dados”, pela crença de que “possam levar a uma má imagem dele próprio.”(ABRIC, 2003, p.61). Propõe a criação de instrumentos de coleta de dados que permitam que esses elementos não sejam mascarados nem escondidos, através da redução da pressão normativa.
Por seu potencial desvelador e explicativo, é crescente o interesse pela teoria das Representações Sociais como instrumento teórico e metodológico para o desenvolvimento do trabalho de pesquisadores das mais diversas áreas .
Na esfera da Educação, essas pesquisas têm proliferado, principalmente a partir do final da década de 80, mais acentuadamente nos anos 90 e nesse raiar do século 21. Na medida em que trazem à luz da investigação o contexto sócio- político que envolve os professores, os alunos, os pais, a constituição ideológica que efetivamente direciona suas ações e demandas, permitem o subsídio ao desenvolvimento de práticas educativas mais pertinentes à correção das desigualdades sociais que se reproduzem e até se acentuam no âmbito escolar. Como mostra o estudo de SOUSA (2002), num levantamento das produções acadêmicas em Educação no Programa de Psicologia da Educação da PUCSP, e pesquisas avaliativas da Fundação Carlos Chagas, de 1983 a 2001, foram identificadas 37 pesquisas que se fundamentaram na teoria das Representações Sociais em contextos educacionais, para desvelar e analisar a constituição ideológica das Representações Sociais, suas construções a partir de experiências traumáticas ou em situações de exclusão, como subsídio para diagnóstico de sistemas e programas educacionais, com enfoque nas Representações Sociais produzidas e propagadas pela mídia, e ainda para pesquisar as possibilidades de construção e reconstrução de Representações Sociais.
Dentre as muitas pesquisas em Educação que se utilizam desse referencial teórico-metodológico, podemos destacar a de RANGEL (1998), que, focalizando a formação reflexiva de professores, estuda RS dos mesmos sobre o “bom professor“ e o “bom aluno”; a de DUARTE (1998), entendendo a escola como espaço simbólico das RS, a partir de pesquisa realizada numa escola pública de Belém do Pará ; a de PAREDES (2001), que versa sobre as RS de professores universitários a respeito de sua atividade profissional ; a de GARCIA, R.(2002), analisando RS de professores sobre o projeto pedagógico; a de VARLOTTA (2002), que levanta o papel da escola na constituição das RS de alunos do ensino médio sobre ciência; a de SILVA, L.C.(2002), que oferece subsídios à ação preventiva do professor quanto ao uso/abuso de drogas, a partir do desvelamento das RS sobre drogas de jovens escolarizados; e a de PLACCO (2002), que nos apresenta pesquisa desenvolvida acerca das RS de jovens sobre a violência , com fins de subsidiar o trabalho de prevenção nas escolas.
Avaliando a produção de pesquisas em Educação, GILLY (1989, p.71-78 ) aponta que a representação social orienta a atenção sobre o papel de conjuntos
organizados de significações sociais no processo educativo. Entende as
representações sociais como resultado de situações contraditórias, de pressões, de uma situação complexa, e enumera diversos caminhos em que o estudo das mesmas pode contribuir para a compreensão das ações e interações na esfera educacional, bem como reitera cuidados para que não se olhe a representação social como panacéia universal, nem sejam cometidos equívocos em sua pesquisa.