• No results found

Compêndio de História do Brasil e de História Geral São Paulo: Editora Nacional

História do Brasil: 50ª edição, 1966. História Geral: 6ª edição, 1969.

Figura 64: capa Hermida, História do Brasil. Figura 65: capa Hermida, História Geral.

4.2.1. O autor

Antonio José Borges Hermida nasceu em 1917 e formou-se na Faculdade Nacional de Filosofia. Foi autor de vários livros didáticos de História Geral e História do Brasil voltados para o Ensino Fundamental e para o Médio. Hermida lecionou na prefeitura do Rio de Janeiro, no Colégio Pedro 2º e na Escola Arte e Instrução.

Suas coleções foram publicadas pela Companhia Editora Nacional, e estão entre as mais utilizadas nas escolas brasileiras entre os anos 1960 e 1970. Segundo Másculo64, a tiragem anual de seu Compêndio de História do Brasil

variava entre 150.000 e 250.000 exemplares nesse período.

64MÁSCULO, José Cássio. A coleção Sergio Buarque de Hollanda: livros didáticos e ensino de

história. 2008. Tese (Doutorado em história da educação) – Faculdade de Educação, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008, p. 60.

4.2.2. O conteúdo do livro

Este livro está dividido em dois volumes com o primeiro contemplando História do Brasil e o segundo, História Geral.

O volume de História do Brasil desenvolve uma narrativa tópica e cronológica dos acontecimentos, valorizando a história de cunho nacionalista, com base nos feitos dos “grandes personagens” de nossa história.

A propaganda nacionalista, em especial no período do Estado Novo (1937-1945), espraiou-se por meio de diversos mecanismos, e o ensino de História, mediado pelos livros didáticos, foi um dos mais poderosos. Tanto que deixou raízes profundas no sistema educacional brasileiro, não tendo sido alterado substancialmente até os anos 1980.65

No texto central, a relação entre o fato e o contexto histórico praticamente inexiste, valorizando-se os eventos e os seus representantes, como Cabral, os bandeirantes (figura 66), Tiradentes, D. Pedro I, Deodoro da Fonseca e outros mais. Trata-se de uma história repleta de heroísmo, que valoriza mais as lideranças políticas (figura 67), em detrimento dos movimentos sociais.

Figura 66: Hermida, História do Brasil, p. 38. Figura 67: Hermida, História do Brasil, p. 323.

65ABUD, Kátia Maria. Colonização e sentimento nacional: uma leitura dos livros didáticos de História da Era Vargas. In: I Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 1998, Lisboa. Anais do I Congresso Luso- Brasileiro de História da Educação. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1998.

A figura 66 retrata o quadro de 1903 do artista Benedito Calixto, Domingos Jorge Velho e o tenente Antonio Fernandes Abreu, e foi extraída do livro didático de Hermida dos anos 1970. Trata-se de uma reprodução colorida, diferente das imagens da edição do autor analisadas neste trabalho, em que predominava o preto e branco.

A obra de Hermida, como os demais didáticos daquele período, faziam uma leitura positiva da figura do bandeirante, relacionada ao processo de interiorização do Brasil colonial. A ação dos bandeirantes é aceita como a grande responsável pela ocupação e colonização das regiões de Mato Grosso, Goiás e, sobretudo, Minas Gerais, vista como a “parte boa de São Paulo”, naquela época uma vila pobre, alagadiça e isolada.

Esta leitura, que predominou nos livros didáticos de história daquele período, tem sido desconstruída pelas coleções mais recentes, desde os anos 1980, que não negam a importância dos bandeirantes no processo de interiorização da colônia, mas passaram a apresentá-los também como mercenários no apresamento de índios e negros para alimentar o contrabando de escravos. Eram ainda contratados pela oligarquia rural para reprimir e dissolver qualquer movimento social que colocasse em questão o latifúndio e o trabalho escravo, como foi o caso do bandeirante Domingos Jorge Velho, contratado por senhores de engenho para destruir o quilombo dos Palmares e eliminar o seu líder Zumbi. Apesar dessa leitura, observamos que, na memória coletiva, sobretudo entre paulistas, o bandeirante ainda é visto positivamente como o herói desbravador e o primeiro grande representante da importância de São Paulo para história do Brasil.

Desde o final do século XIX, as obras didáticas retratavam o bandeirante como o herói robusto e desbravador, em contraste com as representações das populações indígenas, associadas a atos selvagens como a antropofagia. Inclusive, a própria figura do bandeirante, um mestiço mameluco, era representada nos livros através de um homem branco, quase um ariano, como mostra a imagem canonizada de Domingos Jorge Velho (figura 66).

Na composição da sociedade colonial brasileira, obras de Hermida já não acentuavam esses atos, mas ainda alimentavam uma leitura etnocêntrica, do branco, cristão e colonizador, diante do índio “selvagem”, civilizado pelos jesuítas e que está sempre em uma condição de inferioridade cultural (figura 68).

Fig. 68: Hermida, História do Brasil, p. 13.

O volume de História Geral também está fundamentado em uma narrativa tópica e cronológica, partindo sempre de uma leitura eurocêntrica, apesar de apresentar um diferencial no capítulo 6 da unidade de História Antiga e Medieval, que faz um breve relato histórico da China e da Índia na antiguidade, destacando aspectos culturais e religiosos, como o bramanismo e o budismo. Na maioria das coleções, inclusive nas duas mais recentes analisadas nesta pesquisa, a Antiguidade Oriental está limitada às sociedades hidráulicas do Oriente Próximo e Médio, seguido depois pelo estudo do mundo greco-romano, que encerra a Idade Antiga.

Apesar da leitura histórica mais política, que predominou nos livros didáticos desse período, esta obra apresenta um capítulo sobre costumes e características da família na Grécia antiga, mais condizente com a narrativa da chamada história da vida privada, presente nas coleções didáticas editadas a partir do final do século passado. Podemos destacar ainda os três últimos capítulos desse volume, que se diferenciam do restante da obra (A ciência e a técnica: as grandes descobertas e invenções; O domínio da terra e as grandes explorações

geográficas; As letras, as artes e as conquistas sociais.) por apresentarem uma leitura mais temática e interdisciplinar.

Os dois volumes não apresentam exercícios no curso do texto, diferentemente das imagens, presentes tanto ao longo do texto como também na abertura das unidades e dos capítulos. A maioria delas está legendada, mas poucas contêm fonte, além de não apresentarem propostas de atividade para os alunos.

Grande parte das imagens era composta por reproduções de ilustrações criadas pela própria editora com bico de pena (figura 69). Assim como na obra de Souto Maior, apesar dos limites dos recursos técnicos da época, as imagens apresentavam uma boa visibilidade, inclusive se comparada com livros editados algumas décadas depois (fontes 3 e 4 deste trabalho), valorizando, sobretudo, retratos de personagens. Entretanto, não contemplavam nenhuma atividade de análise iconográfica, comprovando as conclusões dos trabalhos de Munakata (1997) e de Másculo (2008), de que os livros didáticos de Borges Hermida utilizavam a iconografia apenas como ilustração.

Apesar da capa e da folha de guarda serem coloridas, prevaleceram ilustrações em preto e branco, com algumas apresentadas em três cores.

(técnica usual nos didáticos mais recentes), trazem uma sobreposição do mapa de um estado brasileiro, conferindo uma noção de área (tamanho) da região retratada no tema, como a figura 70, que compara o tamanho da Mesopotâmia com o estado de Goiás.

Observa-se na figura 71, uma fixação do autor com assinaturas de “homens ilustres do Brasil”, o que pode ser justificado pela própria leitura histórica dessa obra que, como já foi observado, valorizava a leitura política.

Figura 71: Hermida, História do Brasil, p. 342.

A figura 71, com a legenda “Assinatura de homens ilustres do Brasil e da América”, contem as assinaturas de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Bernardo O’Higgins e Lincoln, entre outras lideranças americanas, valorizando os estadistas do continente. Entretanto, nota-se também, a presença de figuras ilustres que se destacaram na arte em geral e na literatura como Castro Alves e Machado de Assis.

“Questionário” (figura 73) de 15 questões dissertativas, com comando mais voltado para memorização (Quem?, Quando?, O que foi? etc).

Figura 72: Hermida, História do Brasil, p. 83.

Figura 73: Hermida, História do Brasil, p. 316.

Tanto no resumo como no questionário podemos perceber a preocupação com um conhecimento histórico mais factual, representado por comandos bem

objetivos que não valorizavam a análise crítica dos fatos, o que tornava o aprendizado de História um exercício desgastante de permanente memorização de datas, nomes e fatos. Eventualmente, o final do capítulo apresenta um texto para leitura (figura 74), raramente contendo fonte ou com proposta de atividade.

Figura 75: Hermida, História Geral, página 164.

O final de cada unidade apresenta 4 exercícios de fixação (figuras 75 e 76) para preencher lacunas ou relacionar colunas, valorizando nomes de personagens históricos, datas, eventos, nomes de cidades, conquistas etc., como o exemplo das atividades propostas na figura abaixo. Essas características predominavam nos didáticos dos anos 1960 e induzia os alunos a memorizarem nomes e datas e a usarem o texto, quase que apenas na busca de respostas para os exercícios.

4.2.3. A estrutura do livro

Volume 1

Compêndio de História do Brasil 15 cm/20 cm com 341 páginas

Na iconografia esse volume apresenta uma total de 151 imagens sem proposta de atividade ao aluno, com as seguintes características: 140 em preto e branco e 11 com três cores, 38 com fonte e 144 com legenda. Quanto ao gênero as imagens estão divididas em: 15 mapas, 3 gráficos/tabelas, 39 personagens retrato nenhuma charge ou caricatura e 94 imagens gerais, incluindo 14 assinaturas.

A escrita está organizada em duas unidades com 15 capítulos, apresentando ainda, 8 textos para leitura e 15 resumos além do texto central.

Toda unidade 1 é dedicada ao período colonial, onde os dois primeiros capítulos analisam a expansão marítima o descobrimento e a formação do povo brasileiro. Os capítulos 3 e 4 destacam as características gerais que marcaram a colonização nas etapas açucareira e mineradora, associadas à administração colonial através do sistema de capitânias hereditárias e do governo geral. Essa unidade prossegue com os temas invasões, expansão geográfica e a defesa do território, sendo finalizada com a crise do sistema colonial que destaca o sentimento nacional e o processo de independência.

A unidade 2 com 9 capítulos analisa o Brasil no Império e na República, desde a independência e o Primeiro Reinado, passando pelo Período Regencial e pelo Segundo Reinado, ingressando no período republicano, analisado desde a República Velha até o governo de João Goulart no início dos anos 1960.

Os exercícios somam 233 e não contemplam leitura de imagem e nem questões de exames vestibulares. São 225 questões dissertativas e 8 atividades de fixação da matéria com exercícios de preenchimento de lacunas e associação de colunas. Desse total, 28 exercícios estão mais voltados para reflexão e 205 para memorização.

Volume 2

Compêndio de História Geral; 6ª edição, 1969. 15 cm/20 cm com 356 páginas

Na iconografia, esse volume é composto por um total de 194 imagens sem proposta de atividade ao aluno, com as seguintes características: 182 em preto e branco e 12 com três cores, 13 com fonte e 176 com legenda.

Quanto ao gênero, as imagens estão divididas em: 16 mapas, nenhum gráfico ou tabela, 65 personagens retrato, nenhuma charge ou caricatura e 113 imagens gerais, incluindo 12 assinaturas.

A escrita desse volume está organizada em duas unidades com 53 capítulos, que, além do texto central, apresentam 53 resumos e 4 textos para leitura com fonte, mas sem proposta de atividade ao aluno.

A unidade 1 sobre História Antiga e Medieval destaca os seguintes capítulos: O estudo da História e da Pré-história; O Egito antigo; Os povos da Mesopotâmia; Os hebreus; Os povos indo-europeus: medos e persas; China e Índia; O comércio marítimo: cretenses e fenícios; A antiguidade oriental e o monoteísmo hebraico; Tempos primitivos e heroicos na Grécia antiga; A família e a religião na Grécia; Formação da cidade grega; As cidades gregas: as guerras; A Macedônia: Filipe e Alexandre; A fundação de Roma e a realeza; A república romana e as lutas internas; As conquistas da república romana; Júlio César e a fundação do império; O império romano; O cristianismo; Os povos bárbaros; As grandes invasões; Os francos e o império de Carlos Magno; O império do Oriente; Os árabes; A Igreja; A civilização cristã ocidental; Os Estados da Europa ocidental; As cruzadas; A guerra dos 100 anos.

Unidade 2 analisa a história Moderna e Contemporânea através dos seguintes capítulos: O início da idade moderna e as grandes invenções; As grandes navegações; O Renascimento; A reforma protestante; A reação católica: Santo Inácio de Loyola; As guerras de religião; O novo mundo: o indígena; O absolutismo em França; A monarquia parlamentar inglesa: Cromwell; Os déspotas esclarecidos; A independência dos Estados Unidos; Revolução francesa; Napoleão Bonaparte; A independência das colônias espanholas na América; A França no século XX; Unidade alemã e italiana; A era vitoriana e o império britânico; Os Estados Unidos no século XIX; As nações latinas da América; A guerra de 1914; A

domínio da Terra e as grandes explorações geográficas; As letras, as artes e as conquistas sociais.

Os exercícios somam 810 e não contemplam leitura de imagem e nem questões de exames vestibulares. São 795 questões dissertativas e 15 atividades de fixação da matéria incluindo vocabulário e exercícios de preenchimento de lacunas e de associação de colunas. Desse total, 106 exercícios estão mais voltados para reflexão e 704 para memorização.

Somados os 2 volumes, esta obra apresenta os seguintes dados: Dimensões

697 páginas, com cada volume medindo 15 cm por 20 cm. Imagens

Total de 345 sem proposta de atividade ao aluno, sendo: 322 em preto e branco e 23 em três cores;

320 com legenda e 51 com fonte. Gênero das imagens:

31 mapas;

3 gráficos/tabelas;

104 personagens retrato; 0 charge/caricatura;

207 imagens gerais incluindo 26 assinaturas. A escrita

4 unidades com 68 capítulos

68 resumos e 12 textos para leitura

Total de exercícios: 1043, sendo 1020 dissertativas (“Questionário”) e 23 exercícios variados (vocabulário, lacunas, colunas).

Os exercícios não contemplam leitura de imagem e nem questões de exames vestibulares.

Questões mais voltadas para reflexão: 134 Questões mais voltadas para memorização: 909

Os dados coletados de composição e gênero das imagens podem ser visualizados de acordo com as tabelas a seguir:

Tabela 11: Composição de imagens em HERMIDA Imagens HERMIDA % do total Com Legenda 320 92,8% Sem Legenda 25 7,2% Com Fonte 51 14,8% Sem Fonte 294 85,2% Com Atividade 0 0% Sem Atividade 345 100% Colorida 23 6,7% Em preto e branco 322 93,3% TOTAL DE IMAGENS 345 100%

Tabela 12: Gêneros de imagens em HERMIDA

Classificação IMAGENS -

HERMIDA % do Total

Gerais 207 60,0%

Mapas 31 9,0%

Gráficos e Tabelas 3 0,9%

Charges, Caricaturas e Quadrinhos 0 0,0%

Retrato 104 30,1%

Este trabalho pesquisou a imagem e a escrita nos livros didáticos de História para o Ensino Médio, a partir dos dois livros mais vendidos ao governo federal até esse momento pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Para a identificação de permanências e mudanças nesse material, foram analisadas também duas importantes coleções editadas na fase inicial do PNLD, que ainda não contemplava História no Ensino Médio, e outras duas obras anteriores à implantação desse programa.

Conforme já foi observado, apesar do crescente uso dos recursos em multimídia no ensino escolar, o livro didático vem se mantendo como um dos principais elementos no processo de ensino e aprendizagem, sobretudo nas escolas públicas, além de nas últimas décadas estar constantemente presente em pesquisas acadêmicas. Se essas já são razões suficientes para destacar a relevância do livro didático, cabe ainda ressaltar que este tema vai ao encontro da própria linha de pesquisa interdisciplinar que norteia este curso de “Educação, Arte e História da Cultura”, uma vez que a análise do livro didático de História transita tanto na Educação, como na História e na Arte, esta última atendida pela vasta iconografia com presença crescente nas obras didáticas mais recentes.

A comparação da imagem e da escrita em livros publicados em épocas distintas confirmou que, a concepção de história presente nesse tipo de literatura refletia a corrente historiográfica que predominava no meio acadêmico. Nesse sentido, esta pesquisa preocupou-se em realizar uma leitura afastada do maniqueísmo e do anacronismo, uma vez que os didáticos editados sob o PNLD não devem ser considerados melhores ou piores em relação aos anteriores, mas apenas diferentes em suas propostas de aprendizado, e que, assim, devem ser analisados à luz do momento histórico em que foram escritos e publicados.

Essa questão, no entanto, não impediu que fossem identificadas mudanças positivas na imagem e na escrita dos livros didáticos editados sob o PNLD, motivadas inclusive pelo próprio interesse comercial, visto que a aprovação de uma coleção por esse programa garante milhões de livros comprados pelo governo. Conforme afirmou a entrevistada Maria Raquel Apolinário, responsável pelo editorial de História e de Filosofia da Editora Moderna, “...isso não é ruim, já que o resultado objetivo do programa, a seleção de livros didáticos avaliados pelas

universidades, tem garantido para as escolas públicas do país um recurso pedagógico de excelência”. Nesse sentido, o PNLD tem contribuído para adequar os livros, em seu conjunto, aos critérios que orientam a avaliação, tanto nos aspectos que dizem respeito ao conteúdo conceitual da disciplina quanto às expectativas relacionadas ao desenvolvimento de competências cognitivas e à formação para a cidadania. Para Maria Raquel, essas mudanças significam que, “ao compor cada página do livro, autores e editores ficam atentos ao rigor conceitual, ao uso de recursos que facilitem a compreensão dos conteúdos e à necessidade de formar cidadãos críticos, autônomos e cooperativos”.

Para o entrevistado Lafayette Megale, editor de livros didáticos desde 1971 e hoje responsável pela edição de livros de História da Atual-Saraiva “...o PNLD não impôs normas específicas para composição da escrita, da imagem e do visual dos livros didáticos de História, fez, ao contrário, grandes exigências no que se refere a conceitos, a processo histórico, a atividades que, não se propondo apenas cobrar o exposto, leve o estudante à análise dos acontecimentos históricos. O programa insiste muito ainda nos seguintes tópicos: o recurso e a análise de fontes primárias, o estudo de documentos e imagens, as relações entre passado e presente, a interdisciplinaridade ao longo das narrativas históricas, a seleção de conteúdos, a inclusão de temas antes tratados apenas ocasionalmente, como indígenas, negros, afrodescendentes, história da África e da Ásia, presença feminina ao longo da História nas diversas civilizações”.

Apesar de Lafayette destacar a presença de interdisciplinaridade nas obras publicadas pós-PNLD, essa pesquisa demonstrou um avanço muito pequeno nesse sentido, reduzido a alguns exercícios de exames vestibulares e, sobretudo, do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), que vem valorizando questões interdisciplinares. Da mesma forma, a história de povos indígenas, da África e da Ásia ainda permanece muito superficial e quase sempre apresentada de forma transversal, diante do eurocentrismo que ainda predomina na leitura didática de História.

O PNLD ainda tem solicitado às editoras que introduzam aos poucos uma quantidade de recursos multimídia nos estudos históricos através dos chamados objetos educacionais digitais. Numa época em que a tecnologia de informação colabora para simplificar e automatizar o conhecimento, o comportamento cada vez mais imediatista dos jovens contemporâneos contrasta com os paradigmas de uma

recursos tecnologias não tem conseguido superar a importância do professor e sua relação com o aluno para construção do aprendizado, como pode ser observado nas entrevistas com editores e professores, através das respostas das questões 7 e 8.

A análise do currículo foi outra questão considerada por este trabalho, uma vez que nas discussões e debates que tratam da relação entre a História presente nos livros didáticos e a História na literatura acadêmica, o currículo é um dos temas mais frequentes, envolvendo a atenção de autoridades, professores e educadores como Michael Apple (2006), para quem o currículo não é apenas uma transposição de informações, sendo que o fundamental nessa questão não é saber como o conhecimento será transmitido, e, sim, qual o conhecimento que será transmitido, visto que o currículo reflete interesses de classes sociais, segundo as suas ideologias. No Brasil, a importância dessa questão pode ser atestada pelas várias