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Para facilitar o estudo das ciências, desde as sociedades primitivas já eram elaboradas classificações empíricas, passando pelo processo evolutivo das classificações elaboradas pelo homem, na antigüidade, como as categorias de Aristóteles. Muito se tem discutido e pesquisado na procura de uma melhor forma de se estudarem as ciências, com suas inúmeras áreas.

As primeiras classificações científicas das plantas e dos animais foram feitas pelos gregos da época clássica, e já apresentavam tentativas de sistematização das tradições populares. Eram práticas incorporadas de superstições e crendices, mas imbuídas de espírito lógico e, por muito tempo, satisfizeram às necessidades da humanidade culta ocidental.

A respeito da classificação das ciências, CAMPOS (1973) cita uma sentença de Albert Einstein:

Se (...) a ciência é, fundamentalmente um esforço do espírito humano para dispor em certa ordem os fenômenos obsenados em nosso mundo, de modo a obter com eles um sistema coerente e, assim, tentar a reconstrução de nossa experiência através de conceitos, parece inconcebível cpie se queira falar hoje em documentação científica prescindindo, ao mesmo tempo, de

qualquer sistema de classificação das ciências, (p. 15)

A ciência e sua classificação são estudadas por SPEZIALI (1973) e consideradas essencial mente como um processo histórico sujeito a um desenvolvimento contínuo. Essa abordagem permitiría identificar as grandes correntes de pensamento dominantes em cada período e a estrutura subjacente a elas. O autor desenvolve seu estudo considerando diferentes períodos históricos na Grécia antiga, na Roma antiga, nos Territórios Árabes, na China e no Irã, assim como no século XVII, na Renascença e na Idade Moderna.

A classificação de Aristóteles, proposta no séc. IV a.C., foi utilizada durante cerca de dois mil anos. Um de seus mais significativos legados foi a distinção entre o aspecto formal e o aspecto material do ser.

A história mostra que o esquema aristotélico influenciou as tentativas de classificação que vieram posteriormente. Fala-se em “ascenção e queda do sistema de Aristóteles” (VICKERY, 1980), por ter o mesmo começado a desaparecer no início do

século XVIII e ter sido considerado extinto no século XIX. No entanto, não se sabia o que tomaria seu lugar. Apesar de todos os esforços, feitos pelos classifícadores do século XIX, para se encontrar um novo sistema que substituísse o esquema aristotélico, não se chegou um resultado positivo.

Todas as classificações, até então, tinham como ponto em comum a subjetividade na escolha das características pelas quais as ciências eram agrupadas. Os classifícadores tiveram por objetivo encontrar um ponto racional para efetuar o agrupamento ou a ordenação do acervo de conhecimentos acumulados. Posteriormente, essa base objetiva foi abandonada em favor das distinções subjetivas, mentais e idealistas. Já as classificações das ciências, no final do século XIX e início do século XX, tiveram como características a repetição de pontos de vista subjetivos e o empirismo, tendo sido desconsiderada a teoria. Isso pode ser visto como um retrocesso na evolução do método científico e, para VICKERY, pode ser um sintoma de fracasso, pois toda atividade científica tem sua base teórica.

A expansão de limites entre os campos científicos e a sua interseção colocam em cena os aspectos da interdisciplinaridade das ciências. Esta idéia é de SANTAELLA (1992), na discussão sobre a classificação das ciências, quando, então levanta algumas questões aqui pertinentes, a respeito de interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade:

- Como realizá-las (inter e trans) na falta de qualquer espécie de guia e de

sinalização de percurso ?

Como transpor as fronteiras cuidadosamente protegidas dos departamentos em que cada campo do saber se confina?

- De que modo enfrentar a impossibilidade de diálogo imposta pela extrema especialização das diferentes áreas do conhecimento?

- Como superar as desconfianças mútuas geradas como sub-produtos da especialidade ? (p. 101)

Para as ciências em geral, a classificação é uma preocupação constante. As Ciências Sociais e Humanas preocupam-se porque estão lidando com processos humanos, dos quais a classificação é um aspecto central. E para todas as outras ciências a classificação é uma parte crucial da metodologia cientítica (GARCIA MARCO & NAVARRO, 1993).

As ciências são geralmente classificadas em formais, que são as lógico- matemáticas, e reais (ou fatuais), que lidam com fatos. As ciências reais podem ser

classificadas em dois grupos: as naturais (Física, Quimica, Biologia) e as humanas (Psicologia, Sociologia, Economia, etc.). Também são divididas por tipos:

(a) Ciências Biológicas: estudam a Botânica, a Zoologia; (b) Ciências Exatas: as ciências matemáticas;

(c) Ciências Sociais: aquelas cujo objeto de estudo são os diferentes aspectos das sociedades humanas; a Sociologia.

(d) Ciências Humanas: as que estudam o comportamento do homem individual ou coletivamente, como entre outras, a Psicologia, a Filosofia, a Lingüística e a História.

A fragmentação das Ciências Humanas é discutida por Walker Percy (citado por SANTAELLA, 1992), que fez uma crítica à situação das modernas ciências do homem, apontando para sua incoerência interna. Segundo ele,

...algo de esquisito ocorre. Não se trata apenas do fato, que se costuma apresentar como desculpa, de que o objeto de estudo, o homem, é complexo e difícil. No caso do cosmos e das partículas subatômicas, por exemplo, sob certo sentido, as áreas de ignorância vão sendo erodidas com alguma segurança na medida em que as ciências a\>ançam. No caso das ciências do homem, ao contrário, a incoerência é crônica e parece ser intratável

(p. 102).

O autor acrescenta que aceitamos a explicação de que, afinal, a mente é enormemente mais complicada do que uma molécula de cloreto de sódio, ou mesmo que uma célula nervosa. Para ele, ...as ciências naturais, como fruto de seu desenvolvimento

interno, parecem estar naturalmente tendendo para a inter e a transdisciplinaridade, no caso das ciências humanas, as tentativas em direção ao diálogo acabam sempre redundando em panacéias estéreis, (p. 102)

Essas questões sintetizam toda a problemática presente na tentativa de abordagem conjunta de um mesmo objeto por dois ou mais campos científicos, na procura de clareza e soluções que só os estudos interdisciplinares possibilitam.

Na pesquisa bibliográfica, feita para este estudo, foram identificadas opiniões de autores acerca de características específicas de algumas áreas do conhecimento, aqui registradas:

...as ciências sociais, em geral, ainda não têm desenvolvido qualquer corpo teórico coerente; além disso, o usual primeiro estágio da taxonomia, ou a denominação e classificação de elementos de um assunto, não é, com frequência, alcançado (FARRADANE, 1976, p.93).

Um problema fundamental em indexação e classificação em ciências sociais é que pessoas diferentes têm diferentes formas de 'carving up' a literatura. Consequentemente, elas vêem diferentes coisas em documentos. Se fosse pedido a um número de cientistas sociais para inventar um título para um dado documento, eles iriam provcn>eImente responder de várias maneiras. Essas variações não seriam simplesmente gramaticais, mas devido ao fato de que eles teriam escolhido focar em diferentes aspectos do documento, como os significantes (SWIFT, WINN & BRAMER, 1977, p.90).

Nas ciências sociais, muitas vezes, o que chamamos de pesquisa básica não passa de investigações de aplicação menos imediata do que outras. O critério pode ser bastante elástico e portanto exige uma caracterização clara de seu conteúdo. (...) Particularmente nas ciências sociais, o acesso ao conhecimento muitas vezes é difícil. A evidência é fracionada, dispersa e mesmo contraditória. Torna-se, então, necessário investigar, levantar, selecionar e julgar criticamente o material e as interpretações existentes (...) A investigação em ciências sociais raramente é óbvia, simples ou sumária. Os universos de investigação podem ser grandes demais (a população do Brasil), os conceitos podem ser evasivos ou dúbios (medir educação), ou o número de variáveis que agem simultaneamente pode ser excessivo... (CASTRO, 1978)

D. W. Langridge argumentou que, enquanto as ciências usam linguagem artificial que permite produção de definição precisa e classes mutuamente exclusivas, as humanidades usam linguagem natural onde cada termo tem uma série de significados (citado por WIBERLEY, 1983,p.421).

...poderia se esperar menos inconsistência na indexação entre termos de documentos em uma área de assunto, como por exemplo, Botânica, que em uma área de assunto como Sociologia. Isso é, naturalmente, porque a linguagem da Botânica é mais normativa que a de Sociologia (BLAIR,

1986, p.229).

...enquanto nas Ciências Exatas o vocabulário especializado (...) tem grandes chances de se transformar automaticamente na LD (linguagem documentária), independentemente dos problemas de controle, hierarquização e tradução que possam acarretar, nas Ciências Humanas existe uma enorme margem de confusão entre LN (Linguagem Natural) e LD, na medida em que o vocabulário especializado se encontra ligado a escolas de pensamento e ideologias veiculadas através da LN. Esta questão leva-nos a afirmar que as dificuldades da AD (análise documentária) crescem em proporção ao uso em textos/documentos científicos da

linguagem natural, por conseguinte, ao ter-se como objeto os discursos em Ciências Humanas (CUNHA, 1987, p.40).

Na realidade, as Ciências Exatas caracterizam-se pelo emprego de sistemas simbólicos próprios e exigências epistemológicas testadas por validação, enquanto nas Ciências Humanas dominam dialetos' estritamente aparentados a esta ou àquela língua natural, cujos sistemas simbólicos restringem-se a locais e campos específicos, sem exigências epistemológicas concretas de validação (CUNHA, 1987, p.40)

Artigos de pesquisa científica e acadêmica são altamente complexos, documentos ricos em informação. Embora todos eles devam servir ao mesmo propósito de relatar resultados de pesquisa de seu contexto disciplinar, é esse contexto que molda tanto seu conteúdo, quanto sua forma. Autores podem construir seus artigos em torno de estruturas convencionais, como seções de introduções, metodologia, resultados e discussão, mas muita variação pode existir. Esse formato é, naturalmente, o modelo clássico para o científico, e mais recentemente, o artigo científico- social destacado por Van Dijk (...) Essa não é, entretanto, a forma que humanistas tipicamente usam. Eles raramente incluem seções tipo descobertas', resultados' ou mesmo metodologia'. Ao contrário, no conteúdo de escritos humanistas faltam seções padronizadas... (TIBBO,

1992, p.37).

Ao contrário de pesquisadores nas ciências sociais e ciências, humanistas tendem a colaborar menos frequentemente com colegas. Parte disso, vem da sincronia que os liga a seus assuntos: como o artista, que tem visão singular sobre sua percepção do mundo, o especialista, à sua própria maneira, tem um conceito singular, ou uma explanação de porque certos fenômenos estéticos operam num trabalho... (STEBELMAN, 1994, p.63).

Diferenças entre as áreas devem ser levadas em consideração ao se estudarem indexadores atuando em cada uma delas. Sabe-se, por exemplo, que um dos fatores facilitadores na determinação de assuntos na área de Ciências Biológicas é a existência de uma taxonomia, que são as classes de assuntos já dispostas sistematicamente, o que não ocorre na área das Ciências Sociais e Humanas.

PINTO MOLINA (1994) faz uma diferenciação entre a produção textual das Ciências Naturais e Ciências Sociais e Humanas. Para ela, devido ao grande número de especialistas nas Ciências Naturais, os cientistas freqüentemente lidam com domínios estreitos do conhecimento, para os quais existem estilos de escrita extremamente precisos. A macroestrutura textual é bem definida, o que toma a análise facilitada, sendo o conteúdo

quase completamente determinado pelo autor e o papel do receptor como intérprete é nitidamente diminuído.

Ao contrário, os autores, nas Ciências Sociais e Humanas, estudam questões mais amplas, que podem ser analisadas sob diferentes pontos de vista. O tipo de texto tem estilos mutáveis e esses dependem da personalidade do autor, sendo várias as margens de interpretação que possibilitam. Outro aspecto apontado é que os vocabulários rigorosos, em muitas ciências, contrastam com os brandos vocabulários das Ciências Sociais. Surge, nesse contexto, a importância do estudo das línguas de especialidade, que formam a terminologia de cada campo do conhecimento.

Duas disciplinas, uma da área de Ciências Sociais e Humanas, a Sociologia, e outra da área de Ciências Biológicas, a Botânica, são assuntos dos textos aplicados para análise nesta pesquisa.

A Sociologia estuda os aspectos sociais da vida humana, tendo como objetivo adquirir conhecimento relativo ao homem e à sociedade. Como ciência, estuda os fatos tal como se apresentam, descrevendo-os, analisando-os e explicando-os. Segundo MARTINS (1984) ...a sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório. Para alguns

ela representa uma poderosa arma a serviço dos interesses dominantes, para outros ela é a expressão teórica dos movimentos revolucionários, (p.7) Sabe-se que alguns obstáculos

interferem no desenvolvimento da Sociologia como ciência, como a inexistência de uma terminologia clara e precisa, a tendência a subjetivar os fatos sociais, a dificuldade de experimentação, por lidar com seres humanos, e a precariedade dos instrumentos de análise.

Quanto à Botânica, é uma ciência que tem por objeto o conhecimento das plantas e o estudo dos vegetais em geral. E considerada como ciência pura, subdividindo-se em vários ramos, dentre eles a botânica sistemática ou taxonomia, que tem por escopo a ordenação e a classificação das plantas; a morfologia geral, que se ocupa da forma e estrutura das plantas, e cujo campo abrange o arranjo e as relações entre os órgãos, a estrutura interna do corpo vegetal (anatomia) e a estrutura das células (citologia); e a fisiologia geral, dedicada ao estudo dos processos vitais e funções da planta e de seus órgãos, tecidos e células consideradas isoladamente.

As informações superficiais citadas já permitem verificar aspectos diferenciados nas características das duas disciplinas, destacando-se a subjetividade presente nos estudos sociológicos, e a objetividade existente na taxonomia das classes de assuntos em Botânica. Diante dessa diversidade entre características das diversas áreas do conhecimento, torna-se fundamental, para o indexador, conhecer a terminologia adotada em seu campo de atuação, tema abordado no próximo item.