Baseando-se no perfil traçado para cada indexador entrevistado, podem-se identificar e comparar os fatores que interferem nesse tipo de atividade. O Quadro 17 os sintetiza.
Verifica-se que alguns fatores interferentes em Análise de assunto independem do tempo de experiência em indexação, podendo afetar tanto um indexador novato quanto um experiente. Um exemplo disso é o tempo para se dedicar ao trabalho, defendido tanto por E5 e E6 (indexadores experientes), como, também, por E4 (indexador novato). Interrupções e falta de concentração podem afetar sobremaneira a execução de uma atividade essencialmente intelectual, que exige reflexões, inferências, deduções, raciocínio, busca de informações na memória e utilização do conhecimento prévio.
Esses são fatores dificilmente mencionados na literatura consultada, que é, na sua maioria, de autores estrangeiros. O acúmulo de atividades para um mesmo profissional é uma realidade na maioria das bibliotecas brasileiras. Com raras exceções, o que se observa é a presença de um único profissional que acumula, além de toda a parte documentária (incluindo processamento técnico, referência, empréstimo, etc.), atividades que extrapolam sua área de atuação, provocando um desvio de seu trabalho informacional e, conseqüentemente, prejudicando-o na atividade intelectual de Análise de assunto. Durante as entrevistas, esse aspecto é citado várias vezes pelos indexadores, principalmente por E4 e E5.
Fica também, evidente, a necessidade de se conhecer a área em que se está atuando, e esse é um fator apontado por todos os entrevistados, independentemente do tempo de experiência de cada um em indexação. A maturidade adquirida durante anos de experiência, sem dúvida, auxilia nessa atividade, mas sempre que o profissional se dçfronta com uma nova área, certamente obstáculos surgem no seu trabalho de indexar. Pode-se questionar, aqui, se isso não se dá com profissionais de qualquer área, atuando em qualquer fúnção. Talvez sim, mas o que se sabe agora é que, pela especificidade do campo de trabalho ora em estudo, em que se lida com o tratamento de informações registradas e publicadas por terceiros, esse fator “conhecer a área de atuação” torna-se por um lado, decisivo e, por outro lado, muito complexo. Como viabilizar previamente esse tempo necessário para exercer a responsabilidade de indexar seria um desafio a ser perseguido por indexadores.
QUADRO 17
FATORES INTERFFRENTES NA ANÁLISE DE ASSUNTO DOS INDEXADORES
INDEXADOR GRUPO FATORES INTERFERENTES EP Experiente Conhecimento da área de atuação
Sistematização da área El Pouco experiente Barreira da língua
Análise de artigos muito técnicos Conhecimento da terminologia da área Contato com o usuário
E2 Pouco experiente Especialidade na área de atuação
Atualização dos vocabulários controlados E3 Novato Barreira da língua
Conhecimento da terminologia da área E4 Novato Conhecimento das técnicas de Indexação
Conhecimento da área de atuação Tempo para dedicar à Indexação E5 Experiente Conhecimento da área de atuação
Tempo para dedicar à Indexação
Conhecimento das técnicas de Indexação E6 Experiente Familiaridade com a área de atuação
Fatores circunstanciais (estar ou não concentrado, ser ou nãc Interrompido)
Estilo dos autores dos textos
O domínio da terminologia de uma área é um fator muito importante nesse processo de Análise de assunto, e pode ser adquirido com muitas leituras, tempo de experiência e contato com o usuário, que formula suas questões de acordo com a terminologia adotada na sua área. Em certas áreas, como a Química, pode ser necessário, inclusive, um treinamento formal. Esse
contato com o usuário é enfatizado por El (pouco experiente), mas também lembrado por E4 (novato), E5 e E6 (experientes).
Outro fator negativo mencionado é a barreira da língua, lembrado por El (indexador pouco experiente) e detectado na fala de E4 (indexador novato), este tendo afirmado que os termos de Botânica são tão complicados que “parece inglês”. A falta do domínio da língua, principalmente do inglês, interfere negativamente no trabalho do indexador. Ele pode deparar- se com documentos em qualquer língua, inclusive em línguas raras, dependendo da área de atuação. Logicamente, nesses casos, necessita da ajuda de tradutores, mas um mínimo de conhecimento do inglês nesse tipo de atividade torna-se imprescindível, considerando-se que a maior parte das publicações científicas é publicada nessa língua, ou, pelo menos, traduzida para ela. Além disso, há a necessidade da utilização de instrumentos de recuperação da informação, como os Serviços de Indexação e Resumos (SIR), em documentos impressos ou em bases de dados computadorizadas, que publicam índices e abstracts em várias áreas do conhecimento, de abrangência internacional, tendo, todos eles, uma versão em língua inglesa.
Aos fatores incluídos no Quadro 17, acrescentam-se outros, que são “observados” no comportamento dos entrevistados durante as entrevistas. Fala-se muito, neste trabalho, em fatores cognitivos, lingüísticos e lógicos que podem interferir no processo de Análise de assunto, e sabe-se que esses são, muitas vezes, difíceis de serem identificados, por fazerem parte da personalidade dos indivíduos, e nem sempre serem explicitados. Como exemplo de fator cognitivo identificado durante o “pensar alto” dos entrevistados pode-se citar o “medo de errar”, comentário feito por EP (experiente) e E2 (pouco experiente), e demonstrado também por E3 (novato). O surgimento desse fator depende muito das circunstâncias em que a análise é feita (no caso em estudo, diante de um entrevistador), e do conhecimento da área de assunto do texto analisado. As conseqüências de um erro na Análise de assunto são previsíveis, e podem comprometer todo o Sistema de Recuperação da Informação, pois, definindo-se inadequadamente os termos, o documento poderá ficar perdido e nunca ser localizado através do índice. Como o indexador tem consciência desse risco, eis aí a causa do medo de errar.
A ansiedade é outro fator psicológico manifestado durante as entrevistas, principalmente na 3" Parte, que corresponde aos protocolos verbais. Os indexadores que demonstram mais ansiedade são E2 (pouco experiente) e E4 (novato), mas o fator é também comentado por E6 (experiente). Como pode ser observado, ele independe do tempo de
experiência na indexação e, como já foi afirmado, a impressão que se tem é a de que os indexadores se sentem avaliados durante a entrevista, por isso ficam ansiosos. Na rotina do dia-a-dia, é bem provável que isso não aconteça.
A atenção na leitura e a concentração na analise são também observados como fatores psicológicos que interferem no processo. Alguns profissionais têm mais facilidade em se concentrar, mesmo na presença de outras pessoas, como é o exemplo de E5 (experiente), que se aprofunda bastante na análise dos textos. O mesmo já não ocorre com E2 (pouco experiente), que se mostra disperso, fugindo à análise com comentários sem qualquer ligação com o conteúdo dos textos; esse comportamento pode ser justificado justamente pela insegurança em ser avaliado, mesmo que tenha sido deixado muito claro pelo pesquisador que isso não ocorrería em momento algum.
Um exemplo de fator lingüístico interferente seria o apontado por E2 (pouco experiente): deficiência oriunda do ensino básico, de onde podem surgir dificuldades de entendimento até mesmo do português. Essa deficiência é também outra realidade brasileira, principalmente para aqueles que não têm a oportunidade de estudar em boas escolas, e torna- se um problema para toda a vida do indivíduo. Aliado a esse fator está um outro, muito importante: a falta do hábito de leitura, já detectada em pesquisas com grupos de universitários. Apesar de este não ter sido citado pelos entrevistados, acredita-se que deva ser, pelo menos, mencionado.
O conhecimento da Lingüística Textual é também um exemplo de fator lingüístico, pois sabe-se que o indexador que domina e reconhece tipologia e estrutura textuais, e tem noções de coesão e coerência, certamente tem seu trabalho facilitado durante a Análise de assunto de um texto. Esse fator é mencionado por E5 e E6, ambos indexadores experientes e, ligado a ele, está outro, incluído no Quadro 17, que é o estilo do autor do documento, citado por E6. A forma como o texto é escrito pode facilitar ou dificultar a análise, tudo dependendo da objetividade com que o autor expõe suas idéias.
Um fator lógico é a necessidade de se ter um raciocínio lógico para desenvolver esse tipo de atividade, citado por E6 como requisito para a Análise de assunto. A pessoa que tem qualquer tipo de problema mental não consegue fazer abstrações e inferências e tudo o mais que envolve a lógica do pensamento humano.
Sabe-se que esses fatores cognitivos, lingüisticos e lógicos estão implícitos em todo o processo de Análise de assunto, mas reconhece-se que identificá-los e avaliá-los em profundidade envolvería outras pesquisas.
Após o término dessa análise comparativa de estudo de casos de indexadores, podem ser tecidas algumas considerações a respeito dos grupos de indexadores pesquisados. Com a descrição exaustiva dos dados obtidos durante as entrevistas, tem-se a impressão de que não há características em comum que possam distinguir cada grupo de indexadores. O tempo de experiência, aspecto que dividiu os grupos, não faz com que os indexadores tenham a mesma percepção do processo de Análise de assunto, ou que apontem os mesmos fatores interferentes nesse processo, podendo-se verificar que um mesmo fator é apresentado tanto por um indexador experiente, quanto por um pouco experiente ou, ainda, por um novato.
O próximo item complementa essas idéias, e traz uma análise comparativa entre o processo de Análise de assunto em duas disciplinas de áreas diferentes do conhecimento, consideradas opostas sob vários aspectos.
8.3 Análise comparativa entre o processo de Análise de assunto de textos das disciplinas