Escrita laboriosa, árdua leitura. Ler não implica apenas um esforço intelectual, mas também físico e, assim, suas dificuldades são, como as do ato de escrever, de ordem vária: o difícil manuseio de inúmeros volumes, a pouca luminosidade, a diversidade dos estilos de escritura e dos sistemas de abreviação, a qualidade do material sobre o qual se escreve, a diferença entre a linguagem dos textos e a fala quotidiana.
Entende-se, assim, que a leitura não consistisse numa atividade comum. Os homens de então não conviviam, como nós, com a onipresença da escrita. Decifrar um texto difícil, até o século XIII, muitas vezes exigia esforços conjuntos de bons leitores.
Na prática, superavam-se os problemas colocados quase que a cada palavra por meio da vocalização. O sentido é em grande parte provocado pelo ritmo. Este sugere, por exemplo, certas palavras cujo início apenas fora decifrado. Sua continuação, antes mesmo da leitura, é deduzida por uma necessidade rítmica. As rimas também desempenham um papel importante nesse processo.55
A leitura em voz alta era a regra e as exceções chamavam a atenção. Assim, em suas Confissões, Santo Agostinho não esconde a surpresa em constatar que Santo Ambrósio lia apenas com os olhos.
Estudos citados por Zumthor afirmam que há uma velocidade mínima abaixo da qual a leitura torna-se desinteressante: 4 a 8 palavras por segundo. Um leitor medieval não profissional dificilmente atingia essa meta. E, mesmo entre os profissionais, poucos poderiam se vangloriar de, graças a seu ritmo, manter a atenção de um auditório por um período muito extenso.
A leitura silenciosa tornou-se menos incomum por volta do século XIII e intensificou- se nos séculos seguintes, mas, até o século XV, a leitura articulada continuou sendo a regra. O próprio romance, gênero que nos interessa aqui, não nasceu para ser usufruído individualmente pelo leitor em sua intimidade. Apesar de ser o primeiro gênero em francês antigo não destinado ao canto, ele visava a uma leitura em voz alta diante de um refinado público de ouvintes.
Poucos indivíduos eram capazes de ler. A estimativa de 1% a 2% da população, por volta do ano 1000, parece otimista a Zumthor! Pertencer à Igreja não garantia aptidão para a
55 ROUSSE, M. Introduction. In: CHRÉTIEN DE TROYES. Yvain ou le Chevalier au Lion. Paris: Flammarion,
leitura: criticou-se periodicamente o analfabetismo do baixo clero. Até o século XIII, a maioria dos nobres era iletrada e, entre eles, as mulheres pareciam dominar mais a leitura que os homens.
O aumento do número de leitores entre os séculos XII e XIV — em razão de objetivos pragmáticos, relacionados a questões de administração e contabilidade e, portanto, desvinculados de qualquer abertura ao poético — não transformou uma realidade estendida até pelo menos o século XIX, ainda que progressivamente atenuada: a grande desproporção entre o número limitado de pessoas aptas a uma leitura fluente e o vasto público visado pela poesia. Isso significa que o fato de não saber ler não exclui a maioria da população das trocas culturais, já que estas se efetivavam por meio da oralidade.
Mas o que e por que se lia? Lia-se para reverenciar a Deus, para se instruir e para se deleitar. Assim, os leitores cercavam-se de textos de devoção, de textos históricos e científicos, e de textos poéticos, embora, como vimos, os limites entre o histórico, o filosófico, o científico e o ficcional pudessem ser bastante tênues.
Não cabe aqui empreender um levantamento exaustivo de todos os tipos de leitura realizáveis na época de Chrétien: a Bíblia, breviários, livros de Horas, bestiários, lapidários, livros de maravilhas, crônicas, romances, etc. Mais condizente com a proposta deste tópico ― mostrar o quanto o ato de ler e o de escrever na época de Chrétien diferem de nossos hábitos contemporâneos ― é lembrar que só a partir do século XIV surge o livro como o conhecemos: textos de um autor reunidos em torno de seu nome. Antes disso, predominava, na composição dos manuscritos, uma aparente despreocupação com a coerência textual e com o que consideramos o acabamento do texto. Assim, raramente um texto é precedido de título ou do nome do autor. Quando mencionadas, essas informações aparecem apenas no explicit. Além disso, fato ainda mais estranho para nós, encontravam-se textos de naturezas diferentes encadernados conjuntamente: um mesmo códice podia conter textos produzidos em diversas datas, com temáticas e funções distintas e até mesmo em diferentes línguas!
Enfim, diante de tantas dificuldades de leitura e de escrita, não surpreende que o livro consistisse num objeto raro e precioso. A quantidade de livros nas bibliotecas era pequena. Um erudito possuía cerca de dez livros, quantidade transportável. Ao longo dos anos, podia aumentar ou apenas modificar sua coleção, por meio de cópias, de trocas e, mais raramente, de compras. Os primeiros indícios de um comércio de livros datam apenas do século XIII, em Paris e Bolonha.
No entanto, como já foi dito, não se deve imaginar que as pessoas desprovidas do acesso direto aos livros por meio da leitura estivessem privadas do conhecimento veiculado pelos textos, já que este era partilhado pela leitura coletiva em voz alta.
Michel Rousse afirma que, em razão das dificuldades mencionadas, não se poderia ler mais de mil octossílabos em uma hora. Isso significa que a leitura de um romance era dividida em sessões. Ele calcula, para Yvain ou le Chevalier au Lion, dez sessões, compreendendo entre setecentos e oitocentos versos, e propõe uma interessante e original subdivisão da obra, não apenas por seu conteúdo, mas considerando, sobretudo, a capacidade média de atenção por parte de um auditório.56 Esta era certamente levada em conta no momento da composição do texto e, provavelmente, o poeta organizava a progressão de seu romance de modo a propiciar a divisão em sessões de leitura.57