Nesta fase o personalismo político se transmutou da figura do coronel para a ascensão do César pelas massas. Devido aos impasses de governabilidade e a decorrente crise gerados pelo confronto de forças entre as oligarquias locais e o governo central, a liderança política populista emergiu como a solução que harmonizaria os interesses de liberais e conservadores.
De modo semelhante como se deu a proclamação da República, a Revolução de 1930 seria mais uma tentativa de trazer o progresso para o país sem a participação popular. Segundo Faoro, a situação calamitosa do país pedia ordem, uma liderança que contivesse os ânimos das classes médias e populares. Embora o gaúcho Getúlio tenha sido apoiado por Minas Gerais, fazia-se necessário um governo que fosse superior ao estadualismo e as oligarquias, “um Estado orientador, alheado das competições, paternalista na essência, controlado por um líder sedimentado numa burocracia superior, estamental e sem obediência a imposições de classe” (FAORO, 2008; p.777)
É importante frisar também que tanto no período da ditadura Vargas quanto na ditadura militar que se estendeu de 1964 a 1985, foi esta a justificativa adotada pelos golpistas: “para o país voltar ao eixo democrático, é necessário nos períodos de ingovernabilidade e conflito um governo forte e autoritário”.
O golpe que levou Getúlio ao poder e posteriormente a Constituição de 1937
propiciaram a reorganização da estrutura patrimonialista e do sistema estamental, centralizando novamente o poder no Brasil. Nesse sentido, a estratégia adotada para o regresso patrimonialista foi a garantia da disciplina social por meio das concessões
28 O termo política do café-com-leite faz referência a alternância do poder durante a Primeira República entre os estados de São Paulo, produtor de café, e Minas Gerais, produtor de leite.
jurídicas ao proletariado, criando-se dessa forma a falsa ilusão do rompimento dos intermediários entre o ditador e o povo. Enquanto os sindicatos representavam as demandas do poder privado, possibilitando assim uma aproximação entre governantes e governados, a concentração e personificação do poder no presidente eram o símbolo máximo do poder público. Assim surgia o populismo no Brasil, pela conciliação entre o público e o privado na figura do presidente.
“...tal formulação acabava por combinar as mais lídimas tradições da sociedade brasileira - fundada no poder centralizado do patriarca rural – com os mais vigorosos imperativos da política. Tradição e modernidade se fundiam harmoniosamente no empreendimento que consagrava a um só tempo, o reforço do sistema presidencial e a construção mítica da figura do seu representante como uma encarnação do Estado e da nação. Organizacional e simbolicamente, a função presidencial era estratégica e demandava investimento cuidadoso”. (GOMES, 1998; p. 522)
Dessa forma, a democracia de massas que ocorreu no Brasil não corresponde totalmente a tipologia proposta por Manin. Embora houvesse posições políticas definidas por classes, isso não significou por aqui um declínio do personalismo político. Muito pelo contrário, a personalização do poder na sociedade de massas brasileira levou a criação de um mito: o presidente Getúlio Vargas. Conhecido como “o pai dos pobres” devido ao grande apoio popular do qual desfrutava, tornou-se um modelo de liderança política do imaginário político país, que ficou conhecido na literatura como “presidencialismo imperial” ou “sistema presidencial plebiscitário”.
Partilharam desse modelo, em maior ou menor grau, embora não fossem ditadores, todos os presidentes que vieram depois de Getúlio como Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, João Goulart, e até hoje este é referência para as lideranças atuais. Todavia esse modelo que pareceu ser uma solução para o conflito entre público e privado na década de 1930 passou a ser questionado a partir dos anos 1970, sendo acusado de alimentar traços nefastos da cultura política brasileira, como o personalismo, o clientelismo, um sistema partidário artificial, a indiferença ideológica do eleitorado, e pelo atraso do ponto de vista institucional. Mitos como o do proletariado revolucionário e do eleitorado politizado caíram por terra. Por outro lado, passou-se a levar em consideração uma variável antes colocada em segundo plano, a dimensão subjetiva do voto.
A ética dos fidalgos, uma independência que coroou o antigo príncipe, a escravidão, votações censitárias, voto de cabresto, coronelismo, golpes de estado, ditaduras e a ausência de uma burguesia nacional com valores revolucionários, são alguns dos fenômenos que contribuíram para uma permanente confusão no Brasil entre as esferas pública e privada. O que deveria ser assunto de todos por quase toda a história desse país foi decidido por poucos.
Ao fazer uma análise do histórico da participação política e das legislações eleitorais que o Brasil já teve, nota-se que as principais dificuldades do estabelecimento da democracia representativa sempre estiveram diretamente vinculadas a duas constantes: a exclusão da maioria da população das decisões políticas, pelo menos da Independência até a 1988, com exceção dos intervalos de 1932 a 1937 e de 1945 a 1964, e a uma legislação eleitoral que se fundamentava na teoria das elites, que se definia simploriamente na linguagem popular pelo jargão “política é coisa de branco”.
Em sua análise da história política do Brasil, Faoro atenta assim como Holanda e Viana para o forte traço conservador da cultura política brasileira, no sentido de que esta é uma história sem rupturas. Na visão do autor, as mudanças no país, do reinado de D. João VI a Getúlio Vargas, sempre foram orientadas de cima para baixo, ocorrendo de forma pacífica, por meio de acomodações e trocas de favores. Este mecanismo sem dúvida favoreceu o enraizamento do personalismo na política brasileira em detrimento de uma maior participação popular.
Por isso, se a cultura política brasileira se desenvolveu tendo por base valores considerados negativos as práticas democráticas, com a introdução dos meios de comunicação na política e a redemocratização política a partir 1985, muitos desses valores se reafirmaram, outros se enfraqueceram e novos estão amadurecendo.
Sendo assim, serão analisadas a seguir as implicações da difusão das tecnologias analógicas e digitais entre a população, no sentido de avaliar as mudanças subjetivas que estas acarretaram para, enfim, se alcançar ao propósito desse capítulo: a análise das campanhas eleitorais.