Esta fase do personalismo político no Brasil compreende a intensificação do populismo e a construção das imagens dos políticos a partir dos meios de comunicação, que passaram a mediar a relação entre governantes e governados. Dessa maneira, ocorre
uma mudança de lócus da produção da cultura política, que deixa de ser da alçada dos partidos e se torna um atributo da esfera midiática.
Com a difusão dos meios de comunicação de massa no Brasil, como o rádio (a partir de 1930) e a televisão (a partir de 1950), da internet (a partir de 1990) e das redes sociais (a partir dos anos 2000) entre a população brasileira, estas tecnologias se tornaram fundamentais tanto para o processo da construção da imagem pública quanto para a formação da opinião pública. Para se ter uma ideia da predominância desses meios no cotidiano do brasileiro, as estatísticas revelam que atualmente 96,6% dos brasileiros assistem à televisão e 80,3% ouvem rádio29.
Na realidade esta sessão e o próximo subcapítulo praticamente se confundem. Dizemos isso porque as transformações na subjetividade do eleitor e na própria concepção do eu na política, oriundas dos condicionamentos das tecnologias de comunicação, sejam elas massivas ou digitais, estão associadas diretamente as mudanças nas campanhas políticas decorrentes da introdução dessas mesmas tecnologias e ao surgimento do marketing político.
Por isso, preferiu-se abordar nessa parte a relação entre tecnologia e subjetividade antes de tratar das campanhas eleitorais com o intuito que essa explanação contribua para um melhor entendimento dessa fase do personalismo político no Brasil na leitura do próximo subcapítulo.
Conforme foi possível observar ao longo do texto, a exaltação da personalidade nas sociedades modernas, e em específico na sociedade brasileira, é um fenômeno que se expressa tanto no cotidiano dos cidadãos quanto na vida política do país. Uma das possibilidades da inserção das tecnologias de comunicação no dia a dia das pessoas é exatamente a da intensificação desse fenômeno. Nas palavras de Mancini e Swanson, a acentuação do personalismo político se configura pela “coexistência do velho e do novo no mesmo lugar”, a partir de uma combinação entre a cultura política personalista e a americanização das campanhas.
De acordo com Paula Sibilia, o avanço tecnológico e a difusão dos meios de comunicação resultaram em um deslocamento na personalidade do indivíduo, que deixa a esfera da intimidade e passa para a aquela que autora denomina como “extimidade”, ou seja, a esfera da exibição da intimidade.
29 Informações extraídas da pesquisa Hábitos de Informação e Formação da Opinião Pública Brasileira realizada por Meta Pesquisas a pedido do governo federal em março de 2010.
Ao retornar ao século XIX, a autora relata que os indivíduos daquele tempo, condicionados pela imprensa escrita e pelo aquecido mercado de romances, se orientavam por valores como o individualismo e a intimidade privada, possuíam personalidades introdirigidas, que buscavam a constante reflexão sobre si mesmo na solidão. É neste momento também que surgem os quartos particulares, redutos da intimidade do eu, onde esse Homo psychologicus, como define a autora, realizava o
exercício introspectivo por meio de uma prática que virou febre neste século: os diários secretos.
“Era necessário dispor de um recinto próprio, separado do ambiente público e da intromissão de outrem por muros sólidos e portas fechadas, não apenas para poder se tornar uma boa escritora, mas também para poder ser alguém: para se tornar um sujeito, para ter condições de produzir a própria subjetividade”. (SIBILIA, 2008; p.56)
Segundo a autora, a prática da introspecção, que tem origem no pensamento de Santo Agostinho, é resgatada junto a outros valores da antiguidade pelos iluministas e permitiu a definição de limites bem definidos entre o que era considerado público e o que era considerado privado. Enquanto o público se definia por tudo aquilo que fosse relacionado ao Estado e ao interesse coletivo, o privado dizia respeito às relações pessoais e familiares, àquilo que acontecia dentro dos lares burgueses.
Já nos séculos XX e XXI, a inserção do rádio, da televisão, da internet e mais recente das redes sociais de internet nas relações sociais foram gradualmente transformando a subjetividade dos indivíduos, que passaram a valorizar a visibilidade, a publicização da intimidade, a ansiedade, a conexão constante e o presente continuum.
Em sua argumentação Sibilia recorda como a megalomania e a excentricidade, características pelas quais Nietzsche fora criticado no final do século XIX pela sociedade industrial, nos séculos XX e XXI se tornaram “os modos de ser e estar no mundo” da maioria dos indivíduos. O indivíduo passou a desenvolver uma personalidade alterdirigida, ou seja, que se identifica pelo reconhecimento e exposição ao outro.
Essa transformação da subjetividade condicionada pela tecnologia resultou na abertura dos diários íntimos, processo esse que atinge seu ápice nos blogs de internet, pelos quais os indivíduos narram suas vidas a milhares de pessoas do mundo todo diariamente, numa espécie de prática confessional. Esse comportamento dos confidentes “que desejam se tornar as personalidades do momento converge com outra vontade
geral do público contemporâneo: a avidez de bisbilhotar e consumir vidas alheias”. (SIBILIA,2008; p. 78)
A partir da exibição da intimidade e da espetacularização da personalidade pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) ocorre um borramento dos limites entre público e privado que fundamentavam as subjetividades modernas. Pelas webcams e computadores pessoais, todas essas pessoas adentram a intimidade dos quartos particulares.
Para autora estamos vivendo uma época limítrofe, “a passagem de um regime de poder, para um outro projeto político, sociocultural e econômico”. Deixamos a sociedade disciplinar que foi analisada por Michel Foucault, cuja base era o capitalismo industrial que vigorou do final do século XVIII até meados do século XX, para o que Deleuze denominou como sociedade de controle e Debord como sociedade do espetáculo. Enquanto na sociedade disciplinar se desenvolveram “corpos dóceis e úteis”, que compartilhavam de uma subjetividade hegemônica que favoreciam o bom funcionamento do capitalismo industrial, na sociedade de controle o “regime de poder” se caracteriza pela base nas tecnologias digitais que permitem uma visibilidade full time e estimulam o consumo exacerbado, a superprodução e a criatividade remunerada. Assim, o Homo psychologicus se transmuta em Homo tecnologicus ou no Homo Videns proposto por Sartori.
Para explicar esse processo de transição Sibilia retoma as reflexões de Guy Debord a respeito da passagem do mundo do ser para o do ter e atualmente para o do parecer. Este autor desenvolve a crítica da sociedade do espetáculo pontuando que, se antes do século XIX, o homem se definia pelo que ele de fato era, por sua essência, com o capitalismo industrial este passou a ser definido pelo que tinha, por suas posses. Por fim, com a transição da sociedade industrial para a sociedade do espetáculo, ocorreu um “deslizamento do ter em parecer”. Trata-se de uma sociedade que se rege pelas aparências e pela visibilidade, que condicionada pelos meios de comunicação se baseia na fascinação pela imagem e na contemplação passiva. Sob a lógica do “o que é bom aparece”, aquele que não tem visibilidade simplesmente não é. O pobre, por exemplo, é o invisível. Assim, o que importa não é mais necessariamente ser ou ter mas mostrar-se.
“Nesta cultura de aparências, do espetáculo e da visibilidade, já não parece haver motivos para mergulhar naquelas sondagens em busca de sentidos abissais perdidos dentro de si mesmo. Em lugar disso, tendências
exibicionistas e performáticas alimentam a procura de um efeito: o reconhecimento nos olhos alheios e, sobretudo, o cobiçado troféu de ser visto” (SIBILIA, 2008; p.111)
Este culto ao cotidiano e a exaltação da pessoa que se iniciaram com a televisão, foram aprimorados pela internet, pelos blogs e agora pelos microblogs como o Twitter, cujas mensagens não podem ultrapassar os 140 caracteres. Nestes microblogs os indivíduos devem responder instantaneamente a pergunta central: “O que você está fazendo?”
Entretanto não necessariamente os indivíduos respondem com veracidade essa questão. O anonimato e os recursos interativos das TICs possibilitam a construção de um eu de acordo com as conveniências do indivíduo, que pela internet pode criar uma nova versão de si mesmo, construir sua própria personalidade. Parafraseando Clarice Lispector, “escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano, e é solitário” e da mesma maneira escolher o próprio avatar também.
A autora ainda vai mais além e tece a crítica a respeito da exposição do cotidiano nesses blogs e microblogs, que funcionam como vitrines onde a intimidade das pessoas não passa de uma mercadoria. Prova disso são as inúmeras modalidades de blogs e perfis das redes sociais que se tornaram produtos da indústria cultural, como os blogs eróticos, os reality shows e blogs pessoais que se tornaram livros ou filmes ou que são patrocinados.
Até mesmo a exaltada interatividade a qual fazem referência os ciberentusiastas nessas condições se caracteriza como uma das “mais perfeitas formas de espetáculo”, já que a viabiliza de forma altamente sofisticada as relações sociais mediadas pelas imagens pelas quais Debord define esta sociedade. Os indivíduos não se contentam mais em contemplar as celebridades. Agora querem participar do dia a dia dos seus ídolos através da interação pelas redes sociais.
No âmbito da política, a exibição da intimidade e o culto à personalidade inerentes à sociedade do espetáculo se manifestam pelo fenômeno do personalismo político, que se caracteriza essencialmente pela exaltação das pessoas em detrimento dos partidos e propostas.
“Assim foram se consolidando as “tiranias da intimidade”, que compreendem tanto uma atitude de passividade e indiferença com relação aos assuntos públicos quanto uma crescente concentração no espaço privado e conflitos
íntimos. Esse refúgio na privacidade não exprime apenas uma preocupação exclusiva com as pequenas histórias e com as emoções particulares que afligem cada um, mas também uma avaliação da ação política (exterior e pública) somente a partir do que esta sugere acerca da personalidade de quem a realiza”. (SIBILIA, 2008; p. 61)
Tendo em vista essas transformações na subjetividade do cidadão-eleitor e nos valores da sociedade contemporânea de modo geral, os políticos passaram a investir cada vez mais na construção de suas imagens pelos meios de comunicação, e mais recentemente, na administração de suas imagens pela internet. O eleitor, que anteriormente atribuía legitimidade ao poder pela devoção religiosa, pelas relações pessoais ou pela adoração ao estadista, agora se orienta pela admiração à celebridade midiática. Embora a imagem pública seja apenas uma dentre outras variáveis que influenciam a decisão do voto e esta não seja uma pesquisa a respeito do comportamento eleitoral, com toda certeza esta é uma variável de grande relevância nesse âmbito e fundamental para a sustentação das lideranças políticas no poder e do sistema político vigente.
Com relação a política brasileira, desde os tempos dos populistas os veículos de comunicação tem sido apropriados para promoção política. A partir de então, devido a crescimento populacional e a introdução dos mass media no cotidiano dos eleitores, as tecnologias se tornaram mediadoras das relações entre governantes e governados e as lideranças políticas se transformaram em lideranças midiáticas. Assim, o prestígio e o apoio dos cidadãos passaram a ter como origem a presença positiva nos meios de comunicação.
Somado a isso, conforme bem pontuam Manin (1995), Mancini e Swanson (1996) e Azevedo (1998), a estrutura do sistema majoritário, que coloca o chefe do executivo no centro do cenário político, o sistema de lista aberta e a permissiva legislação partidária brasileira, que não penaliza o político “infiel” na troca de legenda, incitam uma preferência do político ao partido do ponto de vista do eleitor e o fenômeno da personalização do poder.
Ademais, outro fato que colaborou para a intensificação do personalismo midiático é a liberação dos meios de comunicação para a realização das campanhas eleitorais, período no qual os políticos devem convencer os eleitores sobre suas propostas, se tornando a melhor escolha do eleitor na decisão do voto.
Na próxima sessão serão estudados os elementos básicos presentes nas campanhas eleitorais contemporâneas e como essas adquirem uma nova dimensão a partir da difusão da TV, que redundou, entre outros fatores, no aprofundamento da espetacularização da política e na criação do marketing político.
1.4Elementos básicos da campanha eleitoral e espetacularização da Política: a