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Adquirir uma língua significa apropriar-se de um sistema que é compartilhado pelos falantes de uma dada comunidade lingüística. Sabe-se que essa apropriação constitui-se em um processo bastante complexo, uma vez que a criança precisa adquirir vários sub-sistemas da língua para poder se comunicar. Embora funcionem conjuntamente e sofram influências mútuas durante o período de aquisição da linguagem, esses subsistemas podem ser didaticamente divididos. Assim, podemos proceder ao estudo da fonologia, da morfologia, da sintaxe, da semântica, da pragmática ou do léxico de uma língua.

De acordo com Biderman (2001), ao adquirir uma língua o sujeito se depara com duas forças distintas: as coerções impostas pelo sistema lingüístico e sua liberdade relativa em servir-se dos elementos da língua. Em alguns subsistemas, essa liberdade será reduzida (como no domínio fonológico ou morfológico), enquanto em outros (como o domínio sintático e lexical) ela será mais livremente exercida.

Essa relatividade em relação à liberdade de escolha do falante com relação ao uso dos elementos lingüísticos caracteriza as duas faces da aquisição da linguagem. Por um lado, o sujeito precisa incorporar uma gramática ou um sistema de regras, enquanto que, de outro lado, necessita apropriar-se do léxico, representado pelo vocabulário de sua língua.

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Embora se considere pertinente e importante essa distinção para os estudos sobre o léxico, e se compreenda aqui que este trabalho se debruce sobre o vocabulário de quatro crianças para determinar características do léxico infantil do português brasileiro, durante a tese estes dois termos serão utilizados indistintamente.

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Com relação à gramática, é possível afirmar que um indivíduo normal adquire sua competência lingüística completa aproximadamente no início da adolescência. Com relação ao léxico, no entanto, nenhum falante de qualquer língua jamais será plenamente competente. Isto porque a gramática é um sistema fechado e o léxico constitui-se em um sistema aberto.

Gonçalves (1977, p. 37-38) também divide a aquisição da língua em seus componentes gramaticais e lexicais. Segundo a autora, enquanto a gramática é um sistema fechado, composto pelas regras de combinação entre os elementos significantes, o léxico constitui-se num sistema aberto, sendo o elemento lingüístico que mais sofre variações na língua. A gramática, por outro lado, é praticamente estática, sendo o acréscimo ou diminuição de seus elementos responsável por gerar uma mudança no sistema da língua.

Vilela (1994) salienta ainda que, embora tradicionalmente se caracterize o léxico como um sistema aberto e infinito e a gramática como um sistema fechado e finito, tal divisão no momento da inventariação das unidades pode trazer dificuldades, principalmente ao se levar em conta questões diacrônicas, pelas quais um elemento gramatical pode se lexicalizar ou, de forma contrária, um elemento lexical se gramaticalizar.

Apesar dessas características, que conferem ao léxico uma certa liberdade em termos de aquisição de seus elementos, acredita-se que seja possível estabelecer certos padrões que são invariáveis para qualquer criança em qualquer língua. Os estudos ainda incipientes na área da aquisição lexical inicial buscam estabelecer esses padrões através da comprovação empírica fornecida pelos dados de fala infantil.

Dessa forma, Nelson (1973), em estudo pioneiro sobre o tema, ao descrever através de diário a aquisição lexical inicial de 18 crianças falantes de inglês, estabeleceu os seguintes parâmetros. Por volta dos 15 meses (mais especificamente entre 13 e 19 meses), o vocabulário das crianças girava em torno de dez palavras. Aos 20 meses, em média (entre 14 e 24 meses), o léxico já era de 50 palavras e aos 24 meses, a média de palavras produzidas pelas crianças do estudo era de 186 vocábulos (variando entre 28 e 436 palavras).

Fenson et al. (1993) encontrou dados semelhantes ao analisar o vocabulário

de 1789 crianças coletados transversalmente através de listas de palavras. O vocabulário de dez palavras é referido por volta dos 13 meses (entre 8 e 16 meses),

subindo para 50 vocábulos em torno dos 17 meses (entre 10 e 24 meses). Aos dois anos, a média de palavras produzidas pelas crianças dos corpus era de 310 itens

(variando entre 41 e 668 palavras).

As diferenças encontradas entre estes dois estudos podem ser atribuídas a questões de metodologia. Enquanto no trabalho de Nelson (1973) a coleta de dados foi longitudinal e com uma amostra relativamente pequena, no caso de Fenson et al.

(1993) ela foi transversal e com um número bem maior de crianças. Além disso, no primeiro trabalho o método de utilização foi o diário, buscando uma coleta mais próxima da fala espontânea da criança, enquanto no segundo utilizaram-se listas de palavras para a coleta de dados, através do instrumento Mac Arthur Comunicative Development Inventories (CDI)6. Barrett (1997) chama a atenção para o fato de que medidas do número de palavras produzidas pelas crianças de forma espontânea podem subestimar a velocidade de crescimento do vocabulário inicial, sendo as medidas de compreensão um parâmetro mais preciso para caracterizar o domínio do léxico infantil.

Note-se, ainda, na análise dos dois trabalhos, a enorme variação individual, ilustrada principalmente no número de palavras do vocabulário das crianças aos 24 meses, que vão de 28 a 668 palavras no âmbito geral. Essa variação indica que, embora seja possível postular padrões para a aquisição do léxico, a variação individual, assim como em outros subsistemas adquiridos pela criança durante a apropriação da linguagem, é muito grande7.

Nelson (1973) atribuiu essas variações a diferenças de estilo entre as crianças pesquisadas por ele. Segundo o autor, podem-se postular dois tipos de crianças quanto ao léxico: as referenciais, aquelas em que mais da metade do vocabulário composto pelas primeiras cinqüenta palavras refere-se a nomes de objetos, e as expressivas, que, ao contrário, apresentam menos de 50% de seu vocabulário das primeiras cinqüenta palavras composta por nomes de objetos.

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Instrumento de coleta de dados a partir da resposta dos pais a respeito do conhecimento do vocabulário de seus filhos. É composto por dois formulários (um para a faixa etária de 8 a 16 meses – denominado Palavras e Gestos - e outro para crianças de 16 a 30 meses – denominado Palavras e Sentenças), elaborado por Fenson et al. (1993). Seu objetivo é fornecer informações sobre o curso do desenvolvimento lingüístico desde os primeiros sinais gestuais não-verbais até a expansão do vocabulário inicial e o início da gramática, sendo a princípio elaborado para fins de pesquisa e, posteriormente, para fins clínicos. Sua eficácia já foi comprovada em diversos estudos e os formulários passaram a ser adaptados para vários idiomas. No Brasil, a professora Doutora Elizabeth Reis Teixeira, da Universidade Federal da Bahia, recebeu autorização formal, em 1998, para executar a adaptação e normatização dos Inventários Evolutivos Infantis Mac Arthur para o português.

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Para uma revisão a respeito das diferenças individuais na aquisição inicial da linguagem, consultar Bates, Dale e Thal (1997), sobre a variação individual na fonologia, ver Lamprecht et al., 2004.

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Barrett (1989) esclarece que o primeiro grupo orienta seus atos de fala aos objetos – pedem, chamam a atenção, comentam -, enquanto o segundo os orienta socialmente – brincam, manipulam, comentam sobre pessoas.

A idéia de que estas diferenças estilísticas individuais estejam relacionadas a diferentes habilidades tem sido proposta desde que Nelson (1973) introduziu a dicotomia entre referencial e expressivo. Snyder et al. (1981) encontraram uma

correlação positiva entre o tamanho do vocabulário e uma alta proporção de nomes aos 1:1. Bates, Bretherton e Snyder (1988) consideraram a preferência inicial por nomes como um indicador de padrões lingüísticos mais avançados. Entretanto, estudos mais recentes mudaram a visão de que a preferência por nomes facilita um maior desenvolvimento da linguagem. Bates et al. (1994) e Pine et al. (1997) não

encontraram relação entre um estilo referencial no início do desenvolvimento lexical e habilidades lingüísticas tardias. Lieven et al. (1992) não consideram o estilo

referencial uma estratégia superior. Ao invés disso, sugerem que existem caminhos alternativos para adquirir linguagem, os quais são realmente efetivos.

Bates et al. (1994), em estudo realizado com 1803 crianças através do CDI

Mac Arthur para o inglês, tentam buscar as relações existentes entre a composição e o desenvolvimento do vocabulário infantil com o estilo de cada criança. Ao analisar essa amostra, os autores replicam estudos anteriores com amostras menores que postulam uma variação entre um estilo referencial (ou holístico), com preponderância de substantivos comuns, e um estilo gramatical (ou analítico), onde prevaleceria o uso de palavras funcionais. Concluem que esses estilos são, na verdade, confundidos com mudanças na composição dos léxicos iniciais, que, segundo eles, podem ser descritas pela atuação de três “ondas” de reorganização:

1. Um aumento inicial na porcentagem de nomes comuns entre 0 e 100 palavras, seguido por um decréscimo proporcional;

2. Um aumento lento e linear dos verbos e outros predicativos, com um ganho substancial entre 100 e 400 palavras;

3. Um aumento não proporcional do uso de palavras gramaticais entre 0 e 400 palavras, seguido por um aumento brusco entre 400 e 680 palavras.

Pine et al. (1997) encontrou tendências similares. Durante o período no qual o

vocabulário cresceu das 50 para as 100 palavras, houve um aumento expressivo nos nomes, na classe de outras palavras (que incluía os verbos) e em frases

congeladas. Durante o mesmo período, os termos onomatopéicos, os nomes próprios e os termos interativos (palavras com função social ou pragmática) decresceram significativamente.

Com base nesses resultados, é preciso ainda admitir que o curso de aprendizado lexical de todas as crianças exibe períodos de crescimento entre o linear e o não-linear, também comuns na aquisição de outros subsistemas da língua.8

Um dos períodos descritos na literatura que foge a este padrão de linearidade é, justamente, a explosão de vocabulário, caracterizada como um aumento súbito na aquisição de novas palavras durante o segundo ano de vida (Bloom, 1973; Nelson, 1973; Halliday, 1975, só para citar os estudos pioneiros nesta área).

Fenson et al. (1993) também chamaram a atenção para o fato de que, ao lado

dessa análise quantitativa, era necessário descrever qualitativamente o desenvolvimento do léxico infantil, através de sua decomposição em termos de categorias gramaticais.

Em estudo pioneiro da utilização do CDI Mac Arthur, os autores concluíram que o desenvolvimento lexical infantil obedece a três tendências gerais9

1. uma maior proporção de substantivos comuns entre 0 – 100 palavras, estabilizando-se neste ponto e decaindo após a marca das 200 palavras;

2. um aumento na proporção de verbos entre os períodos de 50 – 100 palavras e 400 – 500 palavras, para estabilizar a partir daí;

3. um aumento no número de adjetivos a partir do período das 50 – 100 palavras.

Este duplo caráter dos estudos sobre a aquisição lexical guiou a escolha dos temas a serem discutidos nesta tese. Do ponto de vista quantitativo, buscou-se responder sobre a existência ou não do fenômeno da explosão de vocabulário durante o processo de aquisição no português brasileiro. Do ponto de vista qualitativo, se analisou a composição do vocabulário das crianças que faziam parte do corpus em termos de categorias gramaticais, para responder, em última instância,

sobre a atuação da hipótese do viés nominal durante a aquisição lexical inicial do português brasileiro.

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Para uma revisão a respeito dessas regressões na fonologia, ver Lamprecht et al.(2004).

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Períodos semelhantes às “ondas” de reorganização descritas por Bates et al. (1994) discutidos anteriormente, que utilizou como base o mesmo corpus de estudo.

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A fim de se mostrar um panorama dos estudos que vêm sendo realizados nesses dois sentidos, principalmente em outras línguas, passa-se, a seguir, à descrição de alguns trabalhos nessas áreas e seus resultados.