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Metodediskusjon

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Os primeiros escritos de Freire em torno da categoria ―ser mais‖ ocorrem desde a ―Pedagogia do oprimido‖. Nela, reconhece que

a desumanização, que não se verifica, apenas, nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que, de forma diferente, nos a roubam, é distorção da vocação do ser mais. É distorção possível na história, mas não vocação histórica. Na verdade, se admitíssemos que a desumanização é vocação histórica dos homens, nada mais teríamos que fazer, a não ser adotar uma atitude cínica ou de total desespero. A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como ―seres para si‖, não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas resultado de uma ―ordem‖ injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos (FREIRE, 2000a, p. 30).

Freire traduz alguns dos elementos que distinguem e, por sua vez, também inibem o ―humano em ser mais‖. Assim, logo cedo em sua obra, alerta para em questão: a possibilidade de se ―ser menos‖, da desumanização. A coerência argumentativa subjetiva o compromisso irredutível pela luta que materializa a humanização. Para além de um humanista, Freire se permite afirmar que é um caçador de humanização, um humanizador.

O caráter dialógico da humanização agrega o valor epistemológico. Logo, é possível ultrapassar os modos ingênuos e mediatizados da realidade presente na vida de homens adejados pela desumanização. Sua luta é pela superação do saber de senso comum que reduz e condiciona pela superação do cientificismo que sustenta o saber da dominação, que se naturaliza e sustenta a exploração do outro. Sua luta, ainda, é pela superação da dicotomia entre esses saberes.

Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isto implica no reconhecimento crítico, a ―razão‖ desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais (FREIRE, 2000a, p. 34).

A existência humana não é pensada como causa ou acidente, mas porque o homem age no mundo, transforma-o, inventa-o também. ―Por isto tudo é que a humanização é uma ‗coisa‘ que possui como direito exclusivo, como atributo herdado. A humanização é apenas

sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão‖ (FREIRE, 2000a, p. 46).

Assim, o ponto de partida da humanização está no próprio homem, movimentado por situações-limite constantes.

Mas, como não há homens sem mundo, sem realidade, o movimento parte das relações homens-mundo. Daí que este ponto de partida esteja sempre nos homens no seu aqui e no seu agora que constituem a situação em que se encontram ora imersos, ora emersos, ora insertados. Somente a partir desta situação, que lhes determina a própria percepção que dela estão tendo, é que podem mover-se. E, para fazê-lo, autenticamente, é necessário, inclusive, que a situação em que estão não lhes apareça como algo fatal e intransponível, mas como uma situação desafiadora, que apenas os limita (FREIRE, 2000a, p. 73-74).

O homem, para Freire, é um ser inconcluso, mas consciente de sua inconclusão e de seu permanente movimento; move-se na busca do ―ser mais‖. Isso não pode ser pela concessão, mas por sua condição.

A seguir, observa-se que a obra freireana, pela narrativa da humanização, se fortalece na obra ―Conscientização: teoria e prática da libertação‖. Eleva o tom e denuncia a falta de sentido da injustiça, da exploração, da opressão que desembocam na desumanização. Alerta para a intencionalidade dos homens e, como tal, a ética pela denúncia da desumanização, ―ser menos‖, mas também pelo anúncio da humanização, o ―ser mais‖.

[...] podem ser proféticos os que anunciam e denunciam, comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo, para que os homens possam ser mais. Os homens reacionários, os homens opressores não podem ser utópicos. Não podem ser proféticos e, portanto, não podem ter esperança (FREIRE, 2001, p. 16).

Continua Freire, problematizando os estratagemas que emitem a luta pela humanização:

Em resumo, as situações-limite implicam na existência de pessoas que são servidas direta ou indiretamente por estas situações, e outras para as quais elas possuem um caráter negativo e domesticado. Quando estas últimas percebem tais situações como a fronteira entre ser e ser mais humano, melhor que a fronteira entre ser e não ser, começam a atuar de maneira mais e mais crítica para alcançar o ―possível não experimentado‖ contido nesta percepção. Por outra parte, aqueles que são servidos pela situação-limite atual vêem o possível não experimentado

como uma situação-limite ameaçadora, que deve ser impedida de realizar-se, e atuam para manter o ―status quo‖ (FREIRE, 2001, p. 34).

Seu combate exige interferência, decisão, opção, luta.

Contudo, a esperança não consiste em cruzar os braços e esperar. Na medida em que lute, estou amadurecido para a esperança. Se combato com a esperança, tenho o direito de confiar. O diálogo, como encontro de homens que pretendem ser mais lucidamente humanos, não pode praticar-se num clima carregado de desesperança. Se os que dialogam não esperam nada de seus esforços, seu encontro é vazio, estéril, burocrático, cansativo (FREIRE, 2001, p. 98).

Freire, ao longo da obra, exprime que o legado da humanização também se instaura na educação crítica como uma "futuridade revolucionária‖. Sendo profética, porta a esperança. E a esperança, como lembra o autor, é da natureza histórica do homem. Afirma que os homens são seres de superação – que vão à frente e olham para o futuro, seres para os quais a imobilidade pode representar ameaça fatal. Os homens veem o passado como meio para compreender quem são e o que são, a fim de construírem o futuro com mais sabedoria. A educação de futuridade revolucionária identifica-se com o movimento que compromete o ―ser mais‖, pois é genuinamente humana (FREIRE, 2001).

Em ―A importância do ato de ler‖, Freire observa-se como Freire pensava no humano, em como seu projeto ascendia à sua libertação: uma libertação argumentativa pela leitura como provação à alteração do estado de hegemonia de minoridade inconsciente para uma contra-hegemonia com estado de menoridade.

Esta "leitura‖ mais crítica da "leitura‖ anterior menos crítica do mundo possibilitava aos grupos populares, às vezes em posição fatalista em face das injustiças, uma compreensão diferente de sua indigência. É neste sentido que a leitura crítica da realidade, dando-se num processo de alfabetização ou não e associada, sobretudo, a certas práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica (FREIRE, 1989, p. 24).

Também na obra ―Pedagogia da esperança‖ compreende que, diferentemente dos outros animais, incapazes de transformar a vida em existência, o ser humano está apto a se engajar na luta pela busca e pela defesa da igualdade de possibilidades também humanas. Por esse fio, Freire acredita que reside aí a necessidade de fabricar o conceito de igualdade.

Na obra, perpetua a ideia de legitimação da humanização como contraponto à desumanização, como segue:

É por estarmos sendo este ser em permanente procura, curioso, ―tomando distância‖ de si mesmo e da vida que porta; é por estarmos sendo este ser dado à aventura e à ―paixão de conhecer‖, para o que se faz indispensável a liberdade que, constituindo-se na luta por ela, só é possível porque, "programados‖, não somos, porém, determinados; é por estarmos sendo assim que vimos nos vocacionando para a humanização e que temos, na desumanização, fato concreto na história, a distorção da vocação. Jamais, porém, outra vocação humana. Nem uma nem outra, humanização e desumanização, são destino certo, dado, sina ou fado. Por isso mesmo é que uma é vocação e outra, distorção da vocação (FREIRE, 2000b, p. 99).

Continua com a advertência de que não se pode cruzar os braços fatalistamente frente à miséria, entre outras, esvaziando-se da responsabilidade com discurso cínico e morno. Discurso que fala da impossibilidade de mudar porque a realidade é mesmo assim; discurso da acomodação ou de sua defesa; discurso da exaltação do silêncio imposto de que resulta a imobilidade dos silenciados; discurso do elogio da adaptação tomada como fado ou sina – um discurso negador da humanização de cuja responsabilidade não se pode eximir. Recupera que a adaptação às situações negadoras da humanização apenas é aceita como consequência da experiência dominadora, ou como exercício de resistência, como tática na luta política. Dá-se a impressão de aceitação, condição de silenciado para bem lutar, quando puder, contra a negação de si mesmo (FREIRE, 2000c).

O discurso para o enfrentamento da desumanização é largamente assinalado na obra ―Pedagogia da indignação‖. Nela continua a advertência:

É preciso, porém, que tenhamos na resistência que nos preserva vivos, na compreensão do futuro como problema e na vocação para o ser mais como expressão da natureza humana em processo de estar sendo, fundamentos para a nossa rebeldia e não para a nossa resignação em face das ofensas que nos destroem o ser. Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmamos (FREIRE, 2000c, p. 81).

A narrativa da acomodação, da sua defesa, o discurso da exaltação do silêncio imposto é o que resulta da imobilidade dos silenciados. Esta questão, a da legitimidade da raiva contra a docilidade fatalista diante da negação das gentes foi um tema que esteve implícito, foi o núcleo de sua reflexão na maior parte de sua obra.

6 PERCURSOS ENTRE OS “MEDOS E OUSADIAS” NA BUSCA PELO “SER

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