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Inicialmente, cabe relembrar que, na interpretação dos dados, é importante que se tenha em mente que a análise não se ateve apenas ao que apresentaram os percentuais, números e valores apurados, pois foi dada liberdade aos entrevistados para se manifestar sobre cada item, fato que, além de valorizar a pesquisa, permitiu

que se inferissem outros juízos de entendimento não mensuráveis, mas importantes para uma análise mais real e uma conclusão mais lógica da pesquisa.

No mercado cultural catarinense, percebe-se uma unidade de pensamento desenvolvimentista e socialista, tanto por parte da classe empresarial quanto pelos produtores culturais. Essa unidade torna-se visível, tendo em vista os objetivos mercadológicos similares que ambos mantêm, caracterizados, principalmente, pela justificativa da manutenção do espaço no mercado, perante os concorrentes, e também em virtude da necessidade de interação com a comunidade na qual a organização está inserida, possivelmente, pela percepção do ambiente globalizado em que se encontram as empresas pesquisadas. Verifica-se, também que:

• a compreensão da importância do mercado local para o desenvolvimento e a aceitação de outros mercados na prospecção dos negócios, nos dados elencados nos gráficos 1 e 7, demonstram predominância da preocupação das empresas com o contexto comunitário em que estão inseridas, preocupação essa nem sempre harmônica com os interesses do produtor cultural;

• nada obstante que a pesquisa tenha apontado que 100% dos entrevistados compreendiam o conceito de responsabilidade social, ambos empresários e produtores culturais ainda a confundem com a mera filantropia;

• mesmo se valendo em grande percentual das leis de incentivo à cultura, ambos os confrontados mostram pouco conhecimento delas, prejudicando seu pleno aproveitamento em projetos culturais, e percebe-se, ainda, que a regulamentação não é bem clara para quem a lei foi promulgada;

• não há ainda nas empresas a cultura de prestar contas de suas ações na área social, sendo, em algumas, por certo pudor de divulgar “caridade” ou filantropia e em outras porque não se conscientizaram de que a divulgação de seu balanço social fortalece a marca e melhora a sua imagem perante acionistas e consumidores;

• o aparente altruísmo do financiamento privado que surge na forma dissimulada de uma generosidade abnegada das empresas, na realidade, pode escamotear o fato de que os patrocinadores e produtores culturais, ao mesmo tempo em que conseguem publicidade às custas de renúncia fiscal, conseguem igualmente, de certa maneira, determinar os programas culturais de acordo com suas conveniências;

• a desregulamentação geral do mercado cultural realizada pelo governo Collor ainda não foi corrigida convenientemente. Os orçamentos escassos fazem com que o Poder Público, também por omissão proposital, deixe as decisões sobre o que se produz em termos de arte e cultura nas mãos dos setores de marketing das empresas. Na verdade, o percentual alto apontando para a burocracia do governo indica que a dificuldade está mais no fato de os recursos orçamentários de quaisquer esferas do Poder Público serem pouco significativos, levando as próprias instituições públicas a concorrer com os produtores culturais por financiamento privado;

• as empresas concentram-se nas agências de marketing, como meio mais utilizado para se beneficiar das leis de incentivo à cultura, o que significa que o marketing quer que a atividade ou o projeto que apóia tenha êxito, desde que tal projeto ou atividade sirva aos propósitos publicitários da

empresa. Os produtores culturais seguem a reboque esse raciocínio, porquanto é o critério do marketing que está definindo o conteúdo da atividade ou do projeto cultural;

• o volume de investimentos anuais em responsabilidade social, na área cultural, é proporcional ao volume de recursos captados no Sul do País, cuja concentração é muitas vezes maior no Sudeste: Sudeste R$293,5 milhões e Sul R$41,8 milhões, no ano de 2003 (RADIOBRÁS, 2004).;

• embora a pesquisa aponte um entendimento de o que seja responsabilidade social, isso, de modo geral, não se traduz na prática. As empresas têm cada vez mais investido no Terceiro Setor, seja em parcerias ou em fundações próprias, mas objetivando quase sempre apenas suas metas de marketing. No caso, por exemplo, de projetos culturais, elas privilegiam artistas consagrados e de apelo popular. Ainda, grande parte dos projetos apresentados às empresas, visando à captação de recursos, pecam pela falta de criatividade e inovação e todos acabam trazendo as mesmas referências e jargões do Terceiro Setor;

• a quantidade de projetos culturais, aos quais a população tem acesso gratuito, é proporcional àqueles executados com incentivo de alguma lei. Fica evidente, pois, que o marketing empresarial vale-se do incentivo fiscal para promover projetos que tenham grande apelo popular e cujas exibições podem garantir público expressivo, visando, é claro, a potencializar ao máximo a exposição de sua marca ou do produto que comercializa.

Contemplando o universo pesquisado, vem de pronto a discussão do porquê é necessário ter clareza das dimensões desse universo, diferenciando-se a cultura no plano cotidiano daquela que ocorre no contexto organizado. Essa distinção tem a ver com as diversas estratégias que podem facilitar as formas de articulação entre as várias instâncias do Poder Público, que deveriam estar formulando políticas, cada qual na sua alçada, além de trazer uma diretriz clara quando se busca uma divisão de responsabilidades eficaz entre as esferas federal, estadual e municipal, bem como quando se enfrenta o problema das formas de associação entre o público e o privado (parcerias e fontes de financiamento).

Talvez pela falta de políticas públicas bem formuladas, percebam-se novas necessidades que vêm sendo supridas por associações de vários tipos, tanto para a promoção de projetos de natureza artística e cultural quanto para a manutenção de outras instituições, como museus, teatros, cinematecas etc. É, na verdade, um movimento saudável, em que se busca diversificação de atividades fora da tutela do Poder Público e, em conseqüência, participação de um espectro mais amplo da sociedade. No Gráfico 11, 75% dos entrevistados dizem que procuram parceria com outras áreas da cultura. Ainda, 10% dos entrevistados já prescindem até da procura por incentivos fiscais.

Infere-se, também, que os problemas existentes hoje quanto à captação de recursos via leis de incentivo fiscal têm relação com o fato de produtores culturais, grandes e pequenos, lutarem pelos mesmos recursos, num universo ao qual se juntam as instituições públicas de orçamentos exangues, o que provoca concorrência desfavorável aos produtores independentes. Por isso, os profissionais da área cultural têm de improvisar no marketing, área que normalmente não

dominam, porque não tem a ver com a criação deles, em decorrência de o que se verifica nos gráficos 5 e 9.

Detecta-se na pesquisa que problemas recorrentes, com relação à concentração de recursos ainda existente na região Sudeste, e as seqüelas, ainda não curadas, da desarticulação das instituições federais responsáveis pelo patrimônio histórico e artístico nacional e pelas atividades artísticas e culturais podem estar perto da solução, com as mudanças que estão sendo feitas na Lei Rouanet, principal instrumento para financiar projetos culturais no Brasil. A idéia é investir menos em projetos que o mercado pode financiar e fortalecer a produção local em todas as regiões do País.

5 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES