A pesquisa GEM21 (Global Entrepreneurship Monitor) foi concebida com o objetivo de se aprofundar no conhecimento sobre o empreendedorismo, tomando-o como o principal propulsor do crescimento econômico.
Para o GEM (2008), o foco do estudo do empreendedorismo deverá ser centrado no empreendedor:
O empreendedorismo é um fenômeno complexo e abrange uma variedade de contextos, porém, as pessoas são os agentes primários nos movimentos de instalação, iniciação e manutenção de novos empreendimentos (GEM, 2008, p.132).
Com periodicidade anual, os dados sobre empreendedorismo são capturados por esta pesquisa com as seguintes finalidades (GEM, 2010, p. 25):
- Medir diferenças no nível de atividade empreendedora entre os países, identificando os diversos tipos e fases de desenvolvimento;
- Descobrir os fatores que determinam em cada país seu nível de atividade empreendedora;
- Identificar políticas públicas que possam favorecer a atividade empreendedora local.
Até a pesquisa de 200822, o tratamento dado aos países não fazia distinção com relação ao seu estágio de desenvolvimento econômico. A inclusão de maior número de países na base de pesquisa passou a dificultar a compreensão das estatísticas apresentadas. Para facilitar a comparação entre países com características econômicas homogêneas, a partir de 2009, as pesquisas passaram a ser publicadas incluindo também o agrupamento segundo este critério, conforme a classificação descrita no Quadro 2 a seguir.
21 Concebido em 1999, o GEM é o maior projeto de pesquisa sobre a atividade empreendedora, cobrindo mais de
60 países consorciados com indiscutível representatividade em termos econômicos (aproximadamente 95% do PIB mundial) e demográficos (mais de dois terços da população mundial). As ações tomadas com base nestas informações têm apoiado o conhecimento e o desenvolvimento da atividade empreendedora em todo o mundo (GEM, 2009, p.3).
22 Deve-se salientar que, como os relatórios são publicados no ano seguinte ao da realização da pesquisa, existe
uma defasagem entre o ano do título do relatório e o ano de sua referência catalográfica. Desta maneira, o Relatório GEM da pesquisa realizada em 2009 aparece na citação como (GEM, 2010).
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CLASSIFICAÇÃO CARACTERÍSTICA ECÔNOMICA OPORTUNIDADE EMPREENDEDORA
Factor-Driven
São países com baixos níveis de desenvolvimento econômico, que têm tipicamente um grande setor agrícola, que fornece subsistência para maior parte da população, que, na sua maioria, ainda vive no campo.
O resultado do excesso de oferta de mão de obra alimenta o empreendedorismo de subsistência em aglomerações regionais, com os trabalhadores procurando criar oportunidades de autoemprego com a finalidade de ganhar a vida.
Efficiency-Driven
São países com o setor industrial em desenvolvimento, onde começam surgir instituições para apoiar a industrialização na busca de maior produtividade por meio de economias de escala.
Oportunidades de desenvolvimento para micro e pequenas empresas na indústria de transformação, que atuam em pequena escala, para suprir as grandes empresas.
Innovation-Driven
São países com economia amadurecida, onde a ênfase na atividade industrial muda em direção a uma expansão de setores voltados a prover serviços de elevado valor agregado, para atender a uma população cada vez mais rica.
As oportunidades de desenvolvimento estão tipicamente associadas à criação de novas empresas baseadas no conhecimento e no empreendedorismo inovador.
Quadro 2: Características econômicas e oportunidades empreendedoras em países com diferentes estágios de desenvolvimento econômico.
Fonte: Adaptado da Pesquisa GEM 2009.
Na pesquisa de 2009, o Brasil foi enquadrado como um país do grupo Efficiency- Driven, com uma população economicamente ativa de 123.046.000 pessoas23 (60.819.000 homens e 62.227.000 mulheres), dos quais, cerca de 33.000.000 desempenhavam alguma atividade empreendedora.
A seguir são relatadas as principais características do empreendedorismo obtidas com base no Relatório GEM da pesquisa, realizada no ano de 2009, no Brasil:
- Taxas da atividade empreendedora no país:
Tabela 1: Taxa da atividade empreendedora no Brasil – comparativo 2008 e 2009. TAXA24 (%) TEN25 TEI26 TEA27 TEE28
2009 5,8 9,5 15,3 11,8
2008 2,9 9,1 12,0 14,6
Fonte: Pesquisa GEM 2009 (2010, p. 46) e Pesquisa GEM 2008 (2009, p. 150-153).
23A população economicamente ativa (pessoas entre 18 a 64 anos) que, ao invés da população total do país, é
utilizada como base de referência para apuração das estatísticas (proporções) apuradas pelo GEM.
24Todas as taxas são obtidas em função da base da população economicamente ativa do país.
25TEN – Taxa de Empreendedores Nascentes (empreendedores envolvidos em negócios ainda em fase de
estruturação que ainda não pagaram salários ou remuneraram os sócios por mais de três meses).
26TEI – Taxa de Empreendedores Novos envolvidos em novos negócios que pagaram salários ou remuneraram
os sócios por mais de três meses e menos de 42 meses.
27 TEA – Taxa de Empreendedores Iniciais, que corresponde à soma dos nascentes e novos, ou seja, com menos
de 42 meses de existência, período que se considera crítico para a sobrevivência de um empreendimento.
28 TEE – Taxa de Empreendedores Estabelecidos que pagaram salários ou remuneraram os sócios por mais de
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No ano de 2009, o Brasil obteve sua maior TEA (Empreendedores Novos) histórica, restabelecendo sua supremacia sobre TEE (Empreendedores Estabelecidos). Mais de 18 milhões de pessoas estiveram ocupadas com o início de uma atividade empreendedora. Esta taxa é 37% acima da média dos 22 países classificados como Efficiency-Driven, ocupando o sexto lugar no “ranking” destes países29. Destaca-se ainda que a taxa TEN (Empreendedores Nascentes) cresceu 54% em relação a 2008, pela cultura que se instalou no país favorável ao empreendedorismo como alternativa ao emprego tradicional.
- Motivação empreendedora:
Tabela 2: Evolução histórica da motivação para empreender no Brasil MOTIVAÇÃO OPORTUNIDADE NECESSIDADE RELAÇÃO O/N
2009 61% 39% 1,6 2008 67% 33% 2,0 2007 58% 42% 1,4 2006 52% 48% 1,1 2005 53% 47% 1,1 2004 53% 47% 1,1 2003 56% 44% 1,3 2002 44% 56% 0,8
Fonte: Pesquisa GEM 2009 (2010, p. 146) e Pesquisa GEM 2008 (2009, p. 154-155).
A relação entre empreendedores por oportunidade e empreendedor por necessidade, caiu para 1,6 em 2009, motivado pela falta de emprego em função da crise do início do ano, mantendo a tendência de se empreender por iniciativa própria e não pela circunstância.
- Perfil demográfico:
Tabela 3: Perfil demográfico do empreendedor brasileiro – gênero, idade e escolaridade CARACTERÍTICA INICIAIS (%) ESTABELECIDOS (%)
GÊNERO HOMEM 47, 0 62,7 MULHER 53, 0 37,3 FAIXA ETÁRIA (ANOS) 18 A 24 20,8 7,8 25 A 34 31,7 26,6 35 A 44 28,8 28,1 45 A 54 15,0 26,5 55 A 64 4,3 11,3 ESCOLARIDADE (ANOS DE ESTUDO) Sem educação 1,0 3,1 1 a 4 27,6 36,3 5 a 11 52,7 46,9 Acima de 11 18,7 13,7
Fonte: Pesquisa GEM 2009 (2010, p. 145)
29 Na sua frente estão classificados: Colômbia - 22,4%, Peru - 20,9%, China - 18,8%, República Dominicana -
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Em relação ao gênero, a pesquisa de 2009 mostra que, na nova geração de empreendedores, prevalecem as mulheres Isto reflete a tendência de sua emancipação na sociedade (oportunidade) ou o número crescente de lares hoje mantidos exclusivamente pelas mulheres (necessidade).
Quanto à faixa etária, nota-se que, cada vez mais, os brasileiros estão ingressando mais jovens no empreendedorismo (50% com idade inferior a 35 anos nos empreendedores iniciais, contra 50% abaixo de 44 anos comparado aos empreendedores estabelecidos).
Para a escolaridade, a pesquisa revelou que o ensino formal, da maneira que hoje está estruturado, não aumentava as chances de sucesso do empreendedor. Isto podia ser observado pelo fato de que os empreendedores estabelecidos possuíam, em média, menos tempo de estudo formal do que os iniciais.
- Aspectos mercadológicos:
Tabela 4: Condições mercadológicas do empreendedorismo no Brasil.
Fonte: Pesquisa GEM 2009 (2010, p. 147).
Pela pesquisa, os empreendimentos brasileiros possuiam baixo teor de inovação tecnológica, sujeitos a muita concorrência, utilizam processos obsoletos de fabricação e possuem pouca perspectiva de geração de empregos como alternativa para superação de crises internas. Estes fatores dificultam a manutenção de vantagens competitivas sustentáveis e elevam a uma condição de concorrência predatória por ofertas de preço.
CONHECIMENTO DO PRODUTO (INOVAÇÃO)
Ninguém acha novo 83,5%
Novo para alguns 11,1%
Novo para todos 5,4% QUANTIDADES DE CONCORRENTES Muitos 67,6% Poucos 26,4% Nenhum 6,0% IDADE DA TECNOLOGIA DE PROCESSOS Mais de 5 anos 82,2% De 1 a 5 anos 11,6% Menos de 1 ano 6,2% EXPECTATIVA DE EXPORTAÇÃO Nenhum cliente 89,5% Até 50% clientes 6,8% Maior que 25% 3,7% CRIAÇÃO DE EMPREGO Nenhuma vaga 50,6% De 1 a 5 vagas 34,2% Acima de 6 vagas 15,2%
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- Atitudes e percepções empreendedoras:
Tabela 5: Atitudes e percepções empreendedoras no Brasil comparado com países do grupo Efficiency-Driven
PESQUISA Percepção de oportunidade Percepção de capacidade Medo de fracasso Intenção de empreender Empreender como carreira BRASIL 48% 57% 30% 21% 80% Efficiency-Driven 38% 59% 33% 21% 72%
Fonte: Pesquisa GEM 2009 (2010, p. 46).
Praticamente, metade da população economicamente ativa do país afirma ter percepção para identificar novas oportunidades de negócio e capacidade para realizá-las. Apenas 30% têm medo de fracassar na tentativa de iniciar um negócio, 21% declaram ter intenção de fazê-lo e 80% consideram o empreendedorismo como uma opção de carreira aceitável. Estes dados permitem vislumbrar a manutenção da tendência de crescimento na taxa de novos empreendimentos.
As considerações anteriores permitiram alcançar uma definição para empreendedorismo como resultado do ato de empreender, sua evolução histórica e presença da atividade empreendedora no Brasil. Porém, todo ato pressupõe um ator, este de maior importância que o próprio ato, neste caso o “ser” empreendedor, cujas características, motivações e capacidades a serem desenvolvidas, são discutidas a seguir.
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