Em seis dias, entre “cigarras & cigarros”, Mário de Andrade compôs Macunaíma. Tal impulsão criadora adveio da ânsia de concentrar num romance seus incansáveis estudos e observações sobre a mitologia indígena, o folclore nacional, os costumes e a linguagem cotidiana dos brasileiros. De sua erudição emergiu a idéia de empregar um processo narrativo que alude a uma determinada forma musical, construída por justaposições de trechos de procedências variadas: a rapsódia. A realização desse projeto resultou numa “[...] linguagem pessoal e artística, construída também pelo processo de colagem, pela combinação de vocábulos e torneios sintáticos.”45
Pode-se dizer que o Beatnik, à maneira do Modernista, era um pesquisador inveterado que explorava e anotava tudo que fosse de seu (excêntrico) interesse. Nesse sentido, tal como a rapsódia, o cut-up era o método mais adequado para fundir, num restrito número de páginas, seus amontoados de escritos que iam desde estudos sobre gângsteres, passando por religiões remotas, até costumes tribais e rurais, e obviamente seu extenso e aprofundado conhecimento sobre farmacologia e toxicologia.
Assim, a experiência lingüística em Naked Lunch também implica na ação do escritor em mobilizar esse repertório de estudos e pesquisas – além de suas leituras, que foram mais bem aproveitadas na criação de paródias. Semelhante ao procedimento de Mário, esses mais variados assuntos não eram transpostos ipsis verbis no texto literário, mas, acabavam por ter suas características reutilizadas, rearranjadas e recombinadas entre si. No caso de Burroughs, elementos provenientes de suas experiências pessoais também eram adicionados e, com o devido verniz literário, formavam cenas e eventos mirabolantes, de mesmo teor dos trechos que se seguem:
I decided to lop him off if it meant a smother party. (This is a rural English custom designed to eliminate aged and bedfast dependants. A family so
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afflicted throws a ‘smother party’ where the guests pile mattresses on the old liability, climb up on top of the mattresses and lush themselves out.) The Rube is a drag on the industry and should be led out into the skid rows of the world. (This is an African practice. Official known as the ‘Leader Out’ has the function of taking old characters out into the jungle and leaving them there.). 46(BURROUGHS, 1993, p.23).
In England and especially in Edinburgh the citizens bubble coal gas through Klim – a horrible form of powdered milk tasting like rancid chalk – and pick up on the results. They hock everything to pay the gas bill, and when the man comes around to shut it off for the non-payment, you can hear their screams for miles. When a citizen is sick from needing it he says, ‘I got the klinks’ or ‘That old stove climbing up my back.’.47 (BURROUGHS, 1993,
p.37).
The Agouti Society has turned out for a Chimu Fiesta. (The Chimu of ancient Peru were much given to sodomy and occasionally staged bloody battles with clubs, running up several hundred casualties in the course of an afternoon.) The youths, sneering and goosing each other with clubs, troop out to the field.48(BURROUGHS,1993, p. 44).
Ou ainda:
Provident junkies, known as squirrels, keep stashes against a bust. Every time I take a shot I let a few drops fall into my vest pocket, the lining is stiff with stuff. I had a plastic dropper in my shoe and a safety-pin stuck in my belt. You know how this pin and dropper routine is put down: ‘She seized a safety-pin caked with blood and rust, gouged a great hole in her leg which seemed to hang open like an obscene, festering mouth waiting for unspeakable congress with the dropper which she now plunged out of sight into the gaping wound. But her hideous galvanized need (hunger of insects in dry places) has broken the dropper off deep in the flesh of her ravaged thigh (looking rather like a poster on soil erosion). But what does she care? She does not even bother to remove the splintered glass, looking down at her bloody haunch with the cold blank eyes of a meat trader. What does she care for the atom bomb, the bed bugs, the cancer rent, Friendly Finance waiting to repossess her delinquent flesh?’”49(BURROUGHS, 1993, p.23).
46 “Decidi eliminá-lo ainda que isso significasse organizar uma ‘festa de liquidação’. (Trata-se de um costume
rural inglês, destinado a eliminar os dependentes velhos e doentes. Uma família afligida por esse problema organiza uma ‘festa de liquidação’: os convidados empilham colchões sobre o velho inútil, trepam em cima dos colchões e ficam dando cambalhotas.) O Rube é uma carga para a indústria e precisa ser levado para os confins do mundo. (É uma prática africana. O oficiante conhecido como ‘chefe de expulsão’ tem a função de levar as pessoas velhas para a floresta e lá abandoná-las.).” (BURROUGHS, 1984, p. 22).
47 “Na Inglaterra especialmente em Edimburgo os cidadãos filtram gás de cozinha através de Klim – espécie de
leite em pó que sabe a giz estragado – e tiram proveito do resultado. Eles fazem qualquer coisa pra pagar a conta de gás e quando aparece o homem para fechá-la por falta de pagamento, pode-se ouvir os gritos deles por quilômetros de distância. Quando um cidadão fica doente por falta do produto, ele diz ‘Sofro de clink’, ou ‘Esse velho fogão está subindo pelas minhas costas’.” (BURROUGHS, 1984, p.38).
48 “A Sociedade Agouti havia organizado uma Fiesta Chimu. (Os Chimu do antigo Peru eram muito dados à
sodomia e de vez em quando encenavam sangrentas batalhas com porretes que resultavam em várias centenas de mortos no decorrer de uma tarde.) Os jovens, zombando e bolinando uns aos outros com porretes, galopam para o campo.” (BURROUGHS, 1984, p.46).
49 “Drogados previdentes, conhecidos como ‘esquilos’, guardam sua reserva; em caso de prisão... Toda vez que
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Verifica-se que o emprego do cut-up atua, também, em justapor valores nocionais de campos semânticos diferentes, como no último excerto transposto. Burroughs chegou a revelar que com o exercício do cut-up costumava fundir várias e diametralmente opostas qualidades em um único personagem - e eu acrescentaria que isso também serviu para lugares.
Entretanto, se a “rapsódia” e o “cut-up” compartilham semelhanças no que se refere aos meios de criação, eles divergem nos fins. Com intenção de discutir essa idéia, citarei o subseqüente trecho de João Alexandre Barbosa, em “A Modernidade no Romance”, a respeito de Macunaíma:
Embora possuindo uma estruturação romanesca capaz de responder aos itens de construção de qualquer narrativa – heróis, anti-heróis, peripécias, tempo espaço –, o livro de Mário de Andrade, antes ‘rapsódia’ que ‘romance’, como o próprio autor deixou explícito, contorna as dificuldades de uma queda nas armadilhas realistas do século XIX pela invenção de uma escrita que permite não apenas a ruptura daquelas mesmas características narrativas, levando o texto para os limites do imaginário fabuloso, como ainda a interpelação de toda uma leitura crítica interna de concepção da própria cultura brasileira. [...] Neste sentido, o seu modernismo não está apenas no trato desafogado e rebelde com a língua, como ainda na maneira de fazê-lo responder a uma mais profunda desarticulação entre literatura e realidade. 50
Ora, a fuga do romance de tendências “realistas” está bastante presente tanto no emprego da rapsódia quanto do cut-up, assim como “a profunda desarticulação entre literatura e realidade”. No entanto, o termo “rapsódia” se refere ao formato da obra, a sua “estruturação romanesca”, que embora sendo desrealizada, em relação ao convencional, seu encadeamento narrativo é passível de ser apreendido sem muita dificuldade. Já em Naked Lunch, o cut-up abole qualquer ordem discursiva linear.
Eu tinha um conta-gotas de plástico no sapato e um alfinete de segurança enfiado no cinto. A gente sabe como é essa rotina de alfinete e conta-gotas: ‘Ela pegou o alfinete de segurança manchado de sangue seco e oxidado, abriu um grande buraco na perna que parecia se oferecer como uma boca obscena e inflamada, esperando inexpressável comunhão com o conta-gotas, que ela mergulha na ferida aberta. Mas sua espantosa e galvanizada necessidade (fome dos insetos em lugares secos) quebrou o conta-gotas fundo na carne torturada da coxa (parecendo mais um cartaz sobre erosão do solo). Que lhe importa? Ela não se preocupa sequer em retirar o vidro picado, olhando a própria anca ensangüentada com um olhar branco e frio de açougueiro. Que lhe importa a bomba atômica, os percevejos na cama, o aluguel do câncer, a companhia financeira esperando para possuir sua carne adolescente ?’” (BURROUGHS, 1984, p.22).
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Não obstante, Barbosa (1990 p. 125) chega a assinalar que “a moldura mitológica e lendária do livro” foi fruto de “penosa erudição do autor”, que deu “coerência à fábula” e conferiu “rigor ao imaginário”. Em relação às duas últimas apreciações, também não se pode notar o mesmo em Naked Lunch.
Para finalizar a despretensiosa aproximação entre Mário e Burroughs, ambos os escritores, em seus respectivos livros aqui abordados, apresentam notável ligação com um modelo literário bastante remoto, notem a declaração de Burroughs:
De minha parte, prefiro ver meu trabalho na velha tradição da novela picaresca, do Satyricon de Petrônio, do Unfortunate Traveller ou Voyage à
Bout de la Nuit, de Céline, que narra as aventuras de um anti-herói que se
depara com uma série de incidentes mas sem nenhuma progressão lógica. É a mais antiga forma de romance.51
Esse elemento é facilmente verificado em Naked Lunch, assim como em Macunaíma. Entretanto, antes de pegar a proposição de Burroughs e definir a obra por intermédio da novela picaresca, prefiro apontar que tal gênero narrativo é mais um entre outros – o romance policial, a ficção científica, o relato de viajante, livro de memórias – que têm suas fronteiras expandidas e não delimitadas em Naked Lunch. Nesse sentido, pode-se afirmar que o principal expediente de incorporação desses gêneros está sob os auspícios da “paródia”.
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