1. Innledning
1.6 Metode, refleksjoner over eget arbeid, og posisjon i analysen
Embora já tenha teorizado a respeito, sem querer cansar os leitores me parece conveniente retomar alguns achados da pesquisa. Lukács (1989, 2003) sustenta que a consciência individual é constituída a partir da consciência coletiva (de classe) e isso é apreendido por meio da integração do pensamento individual ao conjunto da vida social. A consolidação da consciência de classe foi organizada, neste estudo, a partir das categorias relações de classe e visões de mundo. Perspectiva aferida por meio da trajetória dos recicladores e sua participação no FRVS que pode ser percebida em diversas situações, com destaque para as relacionadas às restrições econômicas e as explorações vivenciadas por eles, abordadas no capítulo 4 e neste.
As relações de classes se expressam, principalmente, nos relatos que evidenciam a exploração. A exploração é identificada tanto nos casos em que os recicladores relatam seus históricos de trabalho em lugares convencionais quanto nas suas atuais relações com os compradores e com o Estado, representando, assim, a lógica de exploração apresentada por Wright (2015a), na qual há apropriação direta do excedente do explorado pelo explorador, conforme abordado nos capítulos 2 e 4.
Assim, a partir de Wright (2015a), entende-se que os recicladores constituem uma classe explorada e não oprimida, pois a opressão econômica não exploratória para Wright significa que não há apropriação direta por parte do explorador. Em casos como esse, ser oprimido seria pior, pois, sendo explorados, portanto produtivos para o capital, podem melhorar suas condições de exploração e reter aos poucos parte do valor que produzem. Essa luta se dá a partir da autogestão, frente ao estado e também frente aos compradores de materiais recicláveis, materializada nas cooperativas e na articulação política maior por meio do FRVS.
Tendo em vista que nada garante que as classes se façam presente na vida política apenas por serem classes, entende-se que a organização coletiva dos recicladores do Vale dos Sinos constitui-se em um espaço significativo de encontro e de formações, que exerce papel relevante na trajetória dos participantes, seja para sua vida profissional, seja no que se refere a questões pessoais.
Na perspectiva materialista histórica (Marx & Engels, 1977), nascer em determinada classe influenciará objetivamente nas escolhas que os indivíduos poderão fazer; mas as classes não nascem plenas, já dispondo de consciência de si e para si: nascem, isso sim, como ser social que, em potência, carrega um vir a ser possível e mesmo necessário em razão da dinâmica estrutural do modo de produção em que estão inseridas (Iasi, 1999).
Nesse sentido, compreende-se, a partir de Iasi (1999), que as mudanças da consciência não estão além da luta política e da materialidade em que esta se insere. O processo coletivo constitui-se no meio e no produto das transformações. A pesquisa de campo realizada aponta que há um processo de construção de visões de mundo, negando a consciência como essência, mas indicando movimento de reflexões que possui avanços e retrocessos, com muitas contradições, mas que, de todo modo, necessita da força do coletivo.
A classe não se encontra à revelia dos seus próprios agentes. Portanto, constitui-se em um processo de trocas de informações, a partir das vivências e o engajamento ocorre quando os atores percebem que podem exercer alguma ação (práxis) para alterar a realidade percebida. Reconhecer-se como protagonista também é um dos resultados identificados a partir da participação dos recicladores no FRVS, ao mesmo tempo em que se constata que sozinho não é possível alcançar mudanças significativas.
Já no que se refere à síntese da categoria visão de mundo, aponta-se o papel fundamental que as condições materiais de pobreza e exploração no mundo do trabalho tiveram na vida dos entrevistados. Os depoimentos reforçam o significado da experiência de um trabalho formal como parâmetro, a inserção política dos recicladores, tanto sindical como partidária e de ações vinculadas aos movimentos da igreja, comunidades eclesiais de base e a teologia da
libertação, que tiveram papel significativo para a constituição de visões de mundo crítica dos entrevistados, assim como teve um papel importante na formação das cooperativas a partir de projetos e da contribuição de apoiadores.
Nesse sentido, é necessário que se supram necessidades básicas para que se consiga avançar em perspectivas de superação de sua condição. Comer, beber e ter onde morar constituem interesses que antecedem a possibilidade de se imaginar a reivindicação por melhores salários, ou o desejo por outro tipo de sociedade.
Nesse sentido, Iasi (2004, 2012) define três formas de consciência, assim tipologicamente desenhadas: alienação subjetiva; consciência em si e consciência para si. A passagem de uma para outra se constitui em processo não linear que se dá por intermédio do grupo.
Os aspectos que podem ser identificados, no campo da pesquisa, como forma de alienação subjetiva estão associados aos momentos em que os recicladores relatam não perceber criticamente a sua situação, expresso em falas como “sentia que tinha algo estranho, mas continuava no trabalho, precisava do dinheiro” (R5). Trabalhavam - muitas vezes - defendendo seus patrões, mesmo que suas condições de trabalho e econômicas fossem inadequadas. Ou seja, não havia uma questão mais objetiva e clara que percebessem como questionável.
O processo para perceberem sua condição de classe trabalhadora explorada, com a apropriação direta do fruto de seu trabalho pelo patrão, deu-se, em um primeiro momento, via participações em espaços coletivos como sindicatos, grupos vinculados à igreja voltados para a teologia da libertação ou, no mínimo, em diálogos com outras pessoas que possibilitaram esse “clique”, como alguns recicladores, durante as entrevistas, denominaram o seu processo de mudança de visão de mundo.
No momento posterior, quando se encontraram desempregados, a maioria devido à crise das fábricas do complexo coureiro-calçadistas, a opção por consolidar espaços de trabalho coletivos foi influenciada pelo momento histórico, situação econômica e incentivada pelas entidades de apoio parceiras. Nesses debates, outros elementos surgem, como por exemplo, a autogestão.
Compreende-se, a partir de Lukács, que o fato de se perceber como explorado não representa tomada de consciência. A consciência de classe não é a mesma coisa que a consciência psicológica de sua situação de classe e também se sabe que não se pode dizer que um operário tenha consciência de classe por entender que é explorado. Mas é o ser do trabalhador enquanto classe que define o curso histórico que ele deve seguir, e não o que ele pensa sobre si próprio. Neste estudo, entende-se que os recicladores compõem uma classe a partir de sua consolidação história, permanente e com pautas claras.