Figura 22- Mosaico de desenhos corpo-espaço.
Fonte: desenhos produzidos por Cida, Muleke, JB, Bob Marley, Gabiru alado e organizados pela pesquisadora (APÊNDICE Q - U).
Com relação ao lazer, trazemos alguns trechos referente a questões pessoais para sua escolha ligadas, principalmente, a lembrança da infância e a necessidade de atividade física prazerosa para ajudar no emagrecimento:
O meu desenho representa o lazer aqui é uma bola, aqui era pra ser um balançador. [...]Porque na minha infância eu brincava de tudo isso. Isso tudo eu brinquei na minha infância (ela se remetia ao balançador, escorregador e a bola) (ROSA). Aqui era quando eu era criança. Aqui é uma criancinha gorda que vivia comendo coxinha e coca-cola. Eu gostava do Cheppitos (uma lanchonete), aí, um belo dia começou a vir um som. Foi a Zumba. Olha, a gata ficou só a tripa. Engordou de novo, mas de vez em quando dá uma dançadinha e fica coisada. Minha vida é a Zumba ou não. Eu gosto demais da Zumba. Meu Deus, que é isso? (MAJÚ). [...]Tá aqui o meu desenho né? AH, meu nome é Ari, todo mundo sabe. Só que esse desenho representa muito pra mim. Que foi na época da minha infância. E todas as coisas tem um significado grande pra mim. [...] quando eu emagreci eu falei que eu emagreci não por mim, mas pelos outros porque eu era muito rotulado e isso ficava isso na minha cabeça. [...] Quando a gente sentou para escolher a temática da pesquisa a gente falou diversos temas aí a gente parou na Zumba. E a Zumba pra mim, ela é uma atividade física aonde proporciona benefícios que é o emagrecimento (ARI).
Eu desenhei uma pracinha por causa do tema de lazer. [...] Isso aqui é parecido com a praça do condomínio. A gente se encontra lá pra falar besteira, a gente joga muita bola lá no condomínio, o restante é mais coisa do meu dia-a-dia" (GABIRU ALADO).
Eu desenhei um campo e o lago. Lago Jacareí. Porque eu gosto tanto de futebol, como gosto de ir para o Lago (MULEKE).
Podemos observar que tanto os que pesquisaram esporte quanto lazer trouxeram identificações pessoais baseando-se prioritariamente no prazer ou no desejo, que segundo Charlot (2002) em conjunto com sentido e a atividade intelectual do estudante são pontos chaves para o ensino. Ele afirma que se um docente puder resolver estas questões referente ao desejo, a atividade e sentido ele será bem-sucedido, no entanto, reconhece que não é uma tarefa fácil.
Nesse sentido, Freire (2014) propõe a necessidade do respeito aos saberes do educando, algo que podemos observar neste estudo referente a escolha pelas temáticas investigativas feitas pelos jovens. No entanto, ele acrescenta a necessidade de ser estabelecido uma relação de “intimidade” entre experiência social e os saberes curriculares, fazendo com que o mesmo aprenda e ressignifique o que já sabe. Algo que muitos não compreendem em sua teoria do conhecimento, por achar que ele privilegia a experiência em detrimentos dos saberes-conceito construídos pela humanidade.
Vale ressaltar, que cada um de nós tem uma história singular na escola que se constrói a partir de relações sociais, por isso, o ser humano é 100% social e 100% singular, chegando ao total de 100% que o compõe, já que, a ideia não é de soma e sim de multiplicação quando se olha para um ser humano em seu processo de saber/aprender (CHARLOT, 2002).
Neste caminho, outros jovens relataram a escolha da temática de pesquisa trazendo a multiplicidade de relações (14) subdivididos em duas categorias: pessoal- pesquisa-comunidade (8) e interpessoal-pesquisa (6).
Com relação ao lazer, percebemos que há implicação pessoal com as diferentes formas de práticas de lazer e suas respectivas fases da vida, como também, a conscientização pela necessidade de trabalhar com a comunidade buscando desvelar outros espaços possíveis:
Aqui está representando eu, a menina aqui, aqui uma caixa de som, não sei se dá pra entender, aqui o símbolo da música. [...] E quando eu era pequena queria ser dançarina profissional, e eu já participei de dança entendeu? Isso era na escola municipal, depois parou de ter as aulas de dança e como eu não tinha dinheiro, condições financeiras para pagar eu desisti. Nunca mais procurei nada. Mas eu continuo gostando muito de dança. Só que agora por diversão. Lazer porque eu gosto de música. Lá no Castelão tem a Zumba e de vez em quando eu vou, porque eu gosto. E é isso. E também, outra coisa, eu escolhi esse tema pra poder pesquisar
e saber sobre as áreas de lazer que tinha nos bairros para poder usufruir delas (FLOR DE LIZ).
Eu desenhei um caminho com duas plaquinhas, qualidade de vida e sedentarismo. O caminho que escolhi foi qualidade de vida, o lazer. A gente escolheu esse tema mais por ser uma área bem próxima da gente, porque no Barroso/Castelão a área que a gente pegou, o foco lá é mais lazer na comunidade. [...] A busca do tema foi pela qualidade de vida da comunidade. Tanto idosos, crianças e adolescentes. Eu desenhei uma bicicleta, um peso, uma bola de vôlei, que eu jogo vôlei, futebol que eu já joguei [...] (LÚCIA).
Nos trechos acima, reafirmamos a necessidade do diálogo com os educandos, que como fenômeno humano se revela pela palavra, portanto, esta não é privilégio de uns, mas direito de todos. Assim, a existência humana não pode ser muda, existir humanamente é pronunciar o mundo, que se volta aos que pronunciaram exigindo um novo pronunciamento, sua modificação (FREIRE, 1987).
Importante ressaltar o olhar para o lazer como direito como para a problematização da falta de espaços:
[...]Aqui é um bairro, no caso o Montese, aqui é a árvore, a casa e a mocinha. Uma jovem aqui e ela está pensando. Vou ler o pensamento dela ‘Fico triste em saber que no meu bairro não tem lugar para praticar o lazer’ Porque eu escolhi o tema lazer? Porque que aqui no bairro é muito difícil ter lugares pra gente praticar o lazer. Muitas pessoas tem que se deslocar da sua casa para outros bairros em busca disso e os que tem é mais quadra pros meninos e pras mulheres assim, tem Zumba que é uma prática de lazer, a dança né? E para as crianças também é muito difícil. De vez em quando é que tem um pula-pula lá na rua e tudo. Porque parque aqui mesmo não tem, é por isso que tem pessoas que tem que se deslocar de sua casa em busca do lazer, sendo que no seu bairro era pra ter né? É isso, o que representa porque escolhi o tema. Eu vou ser sincera. Eu lembrei disso que não tem e também que eu achei fácil. Achei que ia ser fácil (risos pesarosos). E a mais difícil foi a nossa. (BIANCA).
Percebemos que há o reconhecimento de um direito negado tanto pela falta de lugares para prática do lazer como, a necessidade de escolher um tema mais fácil para investigar dado a realidade escolar marcada por muitas atividades. Como também, a necessidade de espaços seguros para sua utilização:
Eu escolhi o tema lazer porque lazer é tudo de felicidade na vida. E eu me identifico com isso. Eu já queria isso desde o início do Núcleo, eu ia escolher ou cultura ou lazer. Porque no primeiro ano eu escolhi cultura. Aí eu quis investigar mais sobre o lazer. [...] Lá no Pátio do Círculo Operário em frente a praça. Que tem a praça, o pátio e a praça do Círculo Operário no Montese. Fica lá pra banda do Montese chegando no Vila União. Foi como ela disse, eu aprofundei mais no bairro Montese no primeiro ano. Aí eu vi que não tinha tantos lugares pra praticar lazer e o povo não sabia que era lazer, porque envolveu lazer e cultura no primeiro ano. Porque a cultura também envolve o lazer. (GUERRINHA).
Aqui é ele fazendo uma prática de lazer com seu animal de estimação, cachorro. Porque aqui no Montese não tem muito canto, mas tem poucos que ainda da pra fazer a prática, só que hoje, em dia, é muito perigoso. No Montese na quadra aqui os meninos marcaram de jogar bola pra assim sair da rotina de casa. A gente começou a jogar, na primeira partida houve uns três tiros, só que eu não sei pra onde foi. Aí a
galera não bate racha por isso aí. Não joga bola por isso aí. [...] Porque assim, mesmo sendo perigoso você ainda pratica o lazer, mas tendo uma cautela, um cuidado, indo cedo, voltando cedo, não indo muito tarde, não demorando muito, não fica dando bobeira (MIKE).
Estes dois relatos acima, são de jovens que fizeram parte do mesmo grupo de pesquisa, no entanto, a significação que trouxeram foram diferentes. O primeiro levou em conta a experiência positiva do ano anterior com pesquisa; a relação com o lazer caracterizada como “felicidade” e o problema da falta de espaços para o lazer, enquanto que, o segundo, trouxe a experiência cotidiana de insegurança que impossibilita a prática de lazer em espaços públicos fazendo uma cobrança indireta por segurança para assim poder ter o direito a usufruir desses lugares.
Percebemos claramente diferentes meios para olhar para o mesmo fenômeno dentro de uma mesma comunidade, possibilitando incluir a diversidade de relações existente no aprender conforme cada sujeito. A pesquisa pelo seu caráter puramente reflexivo impulsiona constantemente no desvelamento da realidade, quanto mais problematizam mais se sentem desafiados, já que, o desafio inicia na própria captação do problema, pois ele se conecta a outros fazendo-os enxergar questões mais amplas que interferem diretamente sobre o que investigam (FREIRE, 1987).
Algo que pode ser percebido em menor quantidade se comparados a relação pessoal, no entanto, traz reflexões pertinentes ao exercício da docência. Tanto no esporte quanto no lazer houve escolhas baseadas na relação interpessoal-pesquisa (6) dentro como fora da escola, pelo laço afetivo com determinadas pessoas que são interessadas pelo tema e conseguem gerar mobilização, pelo fato de que aprender é um processo relacional.
Percebemos a influência da família reverberando no contexto escolar tanto relacionado ao lazer, como podemos ver:
Eu me interessei em procurar esse projeto por causa da minha mãe que me via dentro de casa e não tinha muito lazer. Aí ela mandou eu ir e eu fui. Desde então, não parei mais. Eu não convivia muito com gente da minha idade. [...] a gente ficou amiga, por causa da dança e tal. Aí minha mãe pediu pra ela me incentivar a ir pra dança já que ela fazia a mais tempo que eu (VALENTE).
Vale ressaltar, que ninguém pode aprender a partir da experiência do outro, “a menos que essa experiência seja de algum modo revivida e tornada própria” (LARROSA, 2015, p. 32), em outras palavras, que o sujeito se torne receptivo, sensível ao que vai lhe acontecer, se torne, portanto, em sujeito da experiência. Desse modo, percebemos também a influência entre os membros de um grupo, conforme podemos observar:
Aqui, o que desenhei. Eu ia desenhar uma ex mas só que... terminei a pouco tempo. Vamos dizer que eu não escolhi, tive um grupo que não deu certo. Aí teve que... antes era sobre saúde, eu acho. Aí acabou que a gente desinteressada, aí eu decidi sair aí como a outra pessoa ia ficar pressionada desfez o grupo. Ai quando elas três me chamaram Ane, Jane e Ká eu fiquei muito admirado. A Jane me conhecia. Antigamente, ela sabia que eu fazia essa arte. Eu fiquei honrado, eu me senti valorizado quando elas me chamaram (JB).
Aqui é um menino que expressa no desenho o que ele sente, então, ele tá tipo expressando, ele desenhou uma mulher [...] Eu aprendi a ver a arte de uma forma diferente porque é diferente das que ficam no museu e tal. Eles fazem por aí para demonstrar o que eles pensam. Mostra nossa realidade. É isso. [...] Eu (antes da pesquisa) via como vandalismo. Eu via alguns. Não era todas.[...] Achei interessante. (JANE).
Aqui eu fiz um meninozinho grafitando né? Ai as pessoas achando ruim, os policiais, sei lá o que diabo é. Aí depois, como obrigaram ele a limpar lá porque acharam que era pichação, alguma coisa assim. Aqui é tipo um carro com grafite, com nome grafite é arte porque muitas pessoas acham que é só em muro, essas coisas, só nessas coisas pode grafitar mas não é não. Tem várias outras coisas. Com minha vida nada (tem a ver), até porque eu não grafito. Assim, eu não sou muito de desenhar. Porque eu não sei, mas sempre achei bonito, gosto né? Porque é interessante ver as pessoas fazendo um grafite demonstrando o que ela sente. Ai a professora deu um palpite ai a gente ‘Pois vamos falar de grafite’. Ela falou arte urbana, mas a gente especificou no grafite, porque é diferente dos outros e é uma arte que a gente gosta e a Jane desenha (ANE).
Estas duas jovens fazem parte do mesmo grupo de pesquisa e se complementam em suas palavras, para justificarem os motivos que as levaram a fazer tal escolha, no entanto, Ane demonstra mais claramente o desejo por aquilo que lhe falta, que é saber desenhar e se ancora na potencialidade desenvolvida por um dos membros do seu grupo, enquanto que Jane demonstra a ausência de expressão em si, que ela consegue captar no outro quando ele faz o grafite.
REPRESENTAÇÕES DO LAZER
Importante trazer à tona questão que estão relacionadas com a identificação com o lazer que são: as fases da vida, muitos trazem lembranças da infância, os objetos usados para o lazer:
O meu desenho representa o lazer aqui é uma bola, aqui era pra ser um balançador [...]Como se fosse um menino de rua, aqueles que ficam brincando de bola na rua. (ROSA).
E outros, trazem questões mais atuais, referente a fase da juventude em que se encontram:
[...]Porque a Zumba é mais para idosos. Mas tem gente jovem fazendo. [...] Porque o jovem pode fazer academia, tem mais disposição e o idoso não. Também depende das condições financeiras da pessoa. Às vezes, a pessoa que não tem condição vai para uma Zumba que é grátis (MAJÚ).
Eu desenhei um campo e o lago. Lago Jacareí. Porque eu gosto tanto de futebol, como gosto de ir para o Lago (MULEKE).
Eu desenhei uma pracinha por causa do tema de lazer. [...] Isso aqui é parecido com a praça do condomínio. A gente se encontra lá pra falar besteira, a gente joga muita bola lá no condomínio [...] (GABIRU ALADO).
Eu desenhei uma bicicleta, um peso, uma bola de vôlei, que eu jogo vôlei, futebol que eu já joguei [...] (LÚCIA).
[...] Conheci umas pessoas legais também que é a galera do CCT, um grupo no whatsapp que nós criamos para fazer reuniões e encontros, encontros mensais e reuniões semanais, são encontros para dançar. A gente vai pra dançar que é dia de terça e quinta. Aí depois que a acaba a dança aí nós faz reunião, ai a gente toca violão, faz brincadeira, dança, essas coisas. [...] Nosso lema é fazer reuniões e encontros pra é, pra cantar, tocar violão, dançar, essas coisas (VALENTE).
Outros transcendem trazendo em suas palavras o que incorporaram sobre lazer:
[...] Não é só você sair. Você pode praticar o lazer dentro de casa e é isso (BIANCA).
Porque o lazer é tudo de bom na vida. É alegria, felicidade, tudo. Tudo que nós pratica de lazer é bom. [...] Aí, eu faço tudo de lazer. Tudo pra mim é lazer. Eu saiu muito pra festa, pra shopping, também pratico lazer dentro de casa, danço muito dentro de casa, assisto filme, faço tudo de lazer. Tudo de lazer eu tô querendo fazer. A toda hora. [...] É apenas ser feliz. Justamente o lazer traz felicidade, alegria. Se a pessoa pratica o lazer, ela vai se sentir alegre, ela vai se divertir naquele momento. [...] Tenho muito (lazer na escola). Conversando com os amigos, brincando toda hora (GUERRINHA).
[...] Eu jogo bola, saiu com os amigos, saio por aí, saio pro shopping, pra beber, eu saio pra curtir com eles (MIKE).
Embora saibamos que o lazer é um direito garantido por lei, pela Constituição de 1988, ele não é experimentado igualmente por todos. Algumas barreiras contribuem para isso como a econômica como a social. Por isso, que reforçamos o caráter pedagógico que o lazer traz na fala desses jovens.