Outro valor reiterado na edificação dos simulacros em ambos os meios é o machismo. No website Daspu ele é apresentado pontualmente pela canção Funk da
Daspu. Como analisado no capítulo 1, a sonoridade da canção traz um narrador
masculino para sancionar a performance da mulher, a quem atribui um papel de competência profissional no exercício da sexualidade como prostituta.
Não é a própria figura feminina quem exalta a si mesma, tampouco afirma um lugar de igualdade diante do masculino. A voz que lhe é concedida pelo
destinador é restrita aos gemidos emitidos por ela em face aos dizeres do homem que aprova sua performance sexual e profissional como prostituta e modelo. A articulação desse valor se apresenta de forma adversa da lógica feminista, como descrita por Fogeyrollas-Schwebel (2009) no Dicionário Crítico do Feminismo:
O feminismo como movimento de luta coletivo só se manifestou como tal na segunda metade do século XX. Essas lutas partem do reconhecimento das mulheres como específica e sistematicamente oprimidas, na certeza de que as relações entre homens e mulheres não estão inscritas na natureza, e que existe a possibilidade política de sua transformação. A reivindicação de direitos nasce do descompasso entre a afirmação dos princípios universais de igualdade e as realidades da divisão desigual dos poderes entre homens e mulheres.101
A difusão de práticas sociais e o desempenho de funções sociais igualitárias entre homens e mulheres passou a ser almejado pelo movimento feminista em sua segunda onda, que emergiu com o advento da pílula contraceptiva. Sua popularização permitiu às mulheres analisarem e confrontarem o exercício de papéis sociais vinculados ao matrimônio, maternidade e trabalho restrito ao lar. Esses questionamentos incitaram transformações que desvincularam, em diferentes níveis e sociedades, a atuação feminina na esfera social restrita exclusivamente a esses papéis.
A busca por igualdade de direitos e deveres com os homens levou muitas mulheres a optarem pela maternidade, programá-la, ou decidir não experimentá-la, as inseriu em postos de trabalho ocupados histórica e exclusivamente por homens, possibilitou o desenvolvimento de carreiras políticas e acadêmicas, contribuiu para a dessacralização da castidade e descaracterizou o casamento e a constituição familiar como eixos centrais da existência feminina – como pregava a educação institucional moderna.
Diante de tantas conquistas femininas acerca de transformações sociais pós-modernas, a mulher Daspu ainda é apresentada no website institucional da marca sob a égide masculina. Seu destinador não lhe atribui voz para que ela cante suas proezas sexuais, sociais, seu posicionamento como profissional do sexo ou como modelo: esse papel é delegado ao narrador masculino da canção, que comparece como figura de autoridade do social para exaltar suas performances!
Essa caracterização, criada pelo destinador institucional da marca como moldura para que o simulacro de sua prostituta seja visível, se apresenta como uma contradição no discurso que engendra para ela, em lhe confere um poder-fazer ser admirada no cenário do cabaré, onde é colocada sob um palco no qual ela exibe sua própria moda, a moda da sexualidade, exercendo um poder de visibilidade sobre a identidade que ali afirma.
Para que esse discurso fosse consistente com a proposta de emancipação do lugar social das prostitutas de um estatuto de visibilidade pejorativa ou estereotipada para um engendrado por axiologias positivadoras da identidade pretendida a ser mostrada por elas, a marcação e afirmação desse lugar poderia ser atribuída às próprias prostitutas vinculadas à marca, ou mesmo a outras mulheres que endossem sua inserção no contexto social.
A pretensão emancipatória da visibilidade social feminina observada no
website Daspu se coloca, portanto, como pseudo-feminista, tendendo à lógica
machista como regulamentadora dos investimentos que intencionam uma mudança efetiva em sua percepção identitária. Esse traço é reiterado junto ao destinador do jornal Folha de S. Paulo, na matéria “Gravações de Camila Pitanga param o trânsito e ajudam ‘colegas’ de Bebel”, analisada no ítem 2.4. A isotopia do enquadramento machista é materializada no discurso das prostitutas reais, que citam o discurso sobre o ideal da persongem Bebel: receber uma “ajuda financeira substancial” de um homem, e que isso lhes possibilite uma forma de vida longe da prostituição.
Apesar de Gabriela Leite ter sido apresentada na matéria como uma autoridade no saber parecer prostituta que teria ajudado Camila a construir figurativamente a personagem Bebel, seu discurso de assentimento com o exercício da profissão é limitado a uma frase, na qual refuta a possibilidade de todas as prostitutas desejarem, de fato, deixarem a profissão. Ao ser mostrada sancionando os fazeres de Bebel, a figura de autoridade de Daspu tem seu discurso nivelado à afirmação do machismo que contradiz a lógica do que prega a construção do simulacro feminino da marca.
Embora o movimento feminista tenha proposto e efetivado avanços na dinâmica social entre gêneros, sua adoção não se deu de maneira radical ou igualitária nas sociedades orientais que absorveram seus impactos. O simulacro do social brasileiro contemporâneo é, portanto, recuperado no que evidencia as
relações entre gêneros figurativizadas pela presença das mulheres Daspu nos meios digital e impresso.
Sua análise aponta que embora os lugares de afirmação de segmentos sociais sejam buscados por mecanismos de afirmação via visibilidade midiática, uma parcela da autoridade que avaliza essa construção remete aos moldes sociais tradicionais, em que a autonomia para efetivá-la é, ainda, atribuída ao homem. A
dominação masculina, título-tema da obra de Bourdieu (2010) fora amplamente
discutida pelo autor como produto de um sistema cultural secular, que promulgou os valores machistas como sustentáculos do contexto social via quatro instituições principais, a Família, a Igreja, a Escola e o Estado, que:
[...] objetivamente orquestradas, tinham de atuar conjuntamente sobre as estruturas inconscientes. A Família é sem dúvida a que assume o papel principal na reprodução da dominação e da visão masculinas; na família se impõe a experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divisão, assegurada pelo direito e inscrita na linguagem. A Igreja, por sua vez, habitada pelo profundo anti-feminismo de um clero disposto a condenar todas as faltas femininas à decência, especialmente no que se refere à indumentária, é notória reprodutora de uma visão pessimista das mulheres e da feminilidade, inculca (ou inculcava) explicitamente uma moral pró-familiar, inteiramente dominada pelos valores patriarcais, especificamente pelo dogma da inferioridade natural das mulheres. Atua, ainda, de maneira mais indireta, sobre a estrutura histórica do inconsciente, especialmente através do simbolismo dos textos sagrados, da liturgia e inclusive do espaço e do tempo religioso (assinalado pela correspondência entre a estrutura do ano litúrgico e a do ano agrário). Em determinadas épocas, pode se apoiar em um sistema de oposições éticas correspondente a um modelo cosmológico para justificar a hierarquia no seio da família, monarquia de direito divino baseada na autoridade do pai, e para impor uma visão de mundo e do lugar ao qual corresponde a mulher através de uma autêntica propaganda iconográfica. A Escola, finalmente, inclusive quando está liberada do poder da Igreja, segue transmitindo os pressupostos da representação patriarcal (baseada na homologação e na a relação homem/mulher e a relação adulto/criança), e sobretudo, quiçá, os inscritos em suas próprias estruturas hierárquicas, todas elas com conotações sexuais, entre as diferentes escolas ou as distintas faculdades, [...] de representar as suas aptidões e inclinações, em suma, tudo que contribui para fazer unicamente os destinos sociais senão também a intimidade das imagens de um mesmo. Na realidade, se trata da totalidade da cultura “docta”, veiculada pela instituição escolar, que [...] não pararam de transmitir, até uma época recente, alguns modos de pensamento e modelos arcaicos (como, por exemplo, o peso da tradição aristotélica que faz do homem o princípio ativo e a mulher o princípio passivo) e a um discurso oficial sobre o segundo sexo [...]. Para completar o senso dos fatores
institucionais da reprodução da divisão dos sexos, conviria tomar em consideração o papel do Estado, que veio a ratificar e incrementar as prescrições e proscrições do patriarcado privado com as de um patriarcado público, inscrito em todas as instituições encarregadas de gerenciar e regular a existência cotidiana da ordem doméstica. Sem alcançar o grau dos estados paternalistas e autoritários [...] relações perfeitas da divisão ultraconservadora que converte a família patriarcal no principio e no modelo da ordem social como ordem moral, baseado na preeminência absoluta dos homens em relação às mulheres, dos adultos em relação às crianças, da identificação da moralidade com a força, com a valentia e com o domínio do corpo, sede das tentações e dos desejos, os Estados modernos se inscreveram no direito da família, e muito especialmente, nas regras que regulam os estado civil dos cidadãos, todos os princípios fundamentais da visão androcêntrica. 102
A partir do pensamento de Bourdieu, infere-se que as instituições propagadoras da visão androcêntrica tem operado em processos seculares para promover e manter o status quo. Embora o feminismo tenha pleiteado avanços na práxis de seus valores junto aos sujeitos, a ruptura total com a ordem administrada pelas instituições reguladoras do sistema social não se efetivou no contemporâneo. Apesar de seu caráter contraditório com o discurso feminista, a marca Daspu encontrou na comunicação uma forma de fazer circular sua identidade de prostituta, sem romper com a perspectiva de enunciação da grade de leitura machista verificada no social.
Ao inserir figuras de prostitutas em contextos de visibilidade midiática, lança sua busca por um lugar diferenciado daquele negativado, como historicamente lhes tem sido atribuído, mas falha nessa construção porque acaba por trazer à tona a prostituta estereotipada, marginaliazada, submissa a o homem, que é mostrada como valorizada desde que adicionada de valores reiterados pelo status quo, como a própria midiatização. Dela é pedido que não seja si mesma, somente prostituta.
A sensibilização proposta pelo jogo de visibilidade midiática construído por um destinador institucional, privado, e um destinador jornalístico que re-enuncia e publiciza os simulacros das prostitutas Daspu diversifica a circulação de seus valores para um público maior, constitui uma escapatória ao modelo de transmissão axiológica às organizações tradicionais que fomentam o arranjo entre grupos sociais. Resta, agora, proceder com a análise da formulação estratégica que permitiu as proposições de Daspu para o seu modelo de mulher.
102 BOURDIEU, P. La dominación masculina. Trad. Joaquin Jordá. Editorial Anagrama: Barcelona, 2010, p. 107-110. Tradução nossa.