Os estudos de Valera e Vidal (2002), propõem o espaço pessoal como um mecanismo ambiental necessário para o alcance da privacidade. Aqui seguem as definições do conceito necessárias para a compreensão de tal dinamismo.
Espaço Pessoal, para Sommer (1973), pode ser empregado de duas formas. Primeiramente, para definir a zona emocionalmente carregada, que cada pessoa possui a sua volta, e que regula os espaços entre ela e as demais pessoas. Também pode ser usado para definir o processo de demarcação e personalização dos espaços utilizados pelas pessoas.
De acordo com Torvisco (2002), “El espacio personal se refiere al área situada alrededor del cuerpo humano donde no se puede entrar sin causar malestar.” 19 (p.101).
Gifford (2002) propõe que o fenômeno de espaço pessoal deve ser compreendido como o espaço interpessoal e que este modifica de acordo com as situações vividas pela pessoa, sendo também alusivo da experiência subjetiva. Envolve inclusive a percepção das pessoas sobre as distâncias estabelecidas.
Torvisco (2002) propõe que o espaço pessoal pode ser compreendido “(...) como um mecanismo de regulación de los limites interpersonales y de mantenimiento del nivel de respuestas a la invasión del próprio espacio”. 20 (p.107).
Torvisco (2002) analisa a função do espaço pessoal de autoproteção contra as ameaças físicas e emocionais que advém das interações humanas, tendo em vista a possibilidade de regular a quantidade e qualidade dos estímulos sensoriais por meio da
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“O espaço pessoal se refere à área situada ao redor do corpo humano onde não se pode entrar sem causar mal estar.” (Tradução livre da autora.)
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“(...) como um mecanismo de regulação dos limites interpessoais e de manutenção do nível de respostas à invasão do próprio espaço.” (Tradução livre da autora.)
permissão ou controle do que poderá ou não adentrar a zona emocionalmente carregada de cada pessoa. Por meio do espaço pessoal, é possível dominar as agressões advindas nas relações.
Outra função do espaço pessoal também analisada por Torvisco (2002) refere-se à comunicação e regulação da intimidade. Por meio do espaço pessoal, cada pessoa comunica para as demais as informações e o tipo de interação e intimidade a serem estabelecidas.
Sommer (1973) discorre sobre a invasão do espaço pessoal, referindo-se ao desrespeito às fronteiras do eu da pessoa. Desta forma, só ocorre de pessoa para pessoa, ou de pessoa para quem é percebido como pessoa. As invasões também podem ser analisadas em aspectos da comunicação não verbal.
De acordo com Gifford (2002), quando ocorre a invasão, advém na pessoa que se sente invadida, uma eclosão de sentimentos negativos. Por outro lado há diferenças entre os sentimentos que advém na pessoa em situações envolvendo amigos e em situações envolvendo estranhos.
Por outro lado, Sommer (1973) propõe que a defesa do espaço pessoal envolve gesto, postura e localização, e deve trazer um sentido claro para outras pessoas.
3.3.1 Distâncias interpessoais
Torvisco (2002) propõe que a distância pessoal implica a existência de variáveis tais como as características das pessoas e a relação entre estas. A proximidade tem relação direta com a amizade e ao sentimento de gostar da outra pessoa. Outro fator a ser considerado é a diferença cultural, de forma que diferentes culturas compreendem a
distância interpessoal e o toque de diferentes formas, podendo causar mal estar ou não.
Desta forma, estudos a respeito do espaço pessoal podem ser úteis à intervenção do profissional da área de saúde, haja vista a possibilidade de compreensão das particularidades ou diferenças individuais sobre a percepção de mal estar ou bem estar nas relações estabelecidas. Estas diferentes percepções a respeito dos toques, formas de aproximação ou de abordagem, podem levar a uma comunicação mais ou menos harmoniosa junto aos pacientes, aos familiares, e demais profissionais.
3.3.2 Influências sobre o espaço pessoal
Segundo Gifford (2002) as influências sobre o espaço pessoal envolvem quatro vertentes: pessoais, sociais, físicas e culturais. A vertente pessoal envolve, por sua vez, características como sexo, idade, personalidade, transtornos psicológicos e tendência à violência.
Também é proposto pelo autor em questão que é difícil mensurar o espaço pessoal em crianças, tendo em vista sua pouca mobilidade. Percebem-se diferenças entre as crianças, havendo aquelas que se sentem à vontade com o abraço e aquelas que resistem ao contato. São poucas as pesquisas desenvolvidas sobre este tema. De qualquer forma o autor coloca que o espaço pessoal aumenta conforme a idade.
Günther e Cunha (2004) realizam um estudo do manual Environmental
Psychology em suas várias edições, e salientam pesquisas acerca do espaço pessoal
na infância. Colocam que o espaço pessoal se estabelece por volta de 45 e 63 meses, e antes dos cinco anos a criança não possui um padrão estável.
Novas pesquisas poderiam destrinchar este tema baseando-se em teorias acerca do amadurecimento humano, em especial a abordagem winnicottiana. Pensando nas fases mais primitivas do amadurecimento como as de maior dependência ambiental, a sensibilidade da criança ao ambiente deve ser, portanto, maior neste período. Talvez por isso a criança experimente maior sofrimento quando submetida a ambientes invasivos, sem que por isso consiga se expressar de forma objetiva e verbal, mas a partir de expressões subjetivas e não verbais; ou seja, será que ambientes sentidos como invasivos a levam a uma maior necessidade (e não necessariamente expressão) de afastamento? A criança ainda está aprendendo as funções de autoproteção, e ao mesmo tempo, para que elas estejam bem desenvolvidas, será necessário um ambiente não invasivo, de tranqüilidade, daí a inconsistência em seus padrões?
As vertentes sociais, de acordo com Gifford (2002) referem-se à atração, à amizade e ao conhecimento do outro; ao medo e à segurança; à cooperação e à competição; e ao poder e ao status. As vertentes físicas, por sua vez, envolvem as influências do contexto físico na interação. Por último, as vertentes culturais e religiosas, donde propõe-se que diferentes culturas e crenças religiosas exercem diferentes influências sobre as distâncias interpessoais, conforme também já colocado anteriormente.
3.4 Considerações sobre a privacidade, espaço pessoal e o ambiente