Os grupos de auto-advocacia, com o objetivo de facilitar a ação dos participantes, organizaram formas para o levantamento de informações sobre o indivíduo e sobre suas aspirações. Esses documentos são organizados de forma simples e clara, com a intenção de minimizar as dificuldades que possam vir a ser encontradas pelos participantes. Servem para determinar o que o indivíduo está buscando e quais os suportes que poderão ser agilizados.
O contato inicial é feito através do preenchimento (pelo auto-advogado ou de alguém que registre exatamente o que ele propõe) de um documento de identificação formado por partes claramente determinadas, buscando as seguintes
informações:
Quem – quem a pessoa procurou junto ao grupo de auto-advocacia: nome, telefone, endereço e função.
Quandofoi feito o contato – data e hora do contato inicial.
O que você deseja– em poucas palavras, expor o que está sendo pleiteado. O que foi dito– quais foram as orientações recebidas.
Nos documentos utilizados noProtection & Advocacy, Inc– PAI (1998) pode-se encontrar exemplos de cadastro para a referida documentação.
Outros documentos tais como relatórios e registros de busca de informações e apoio devem ser organizados pelos grupos para que o auto-advogado possa exercitar adequadamente suas ações, sentindo-se seguro e amparado, controlando de forma autônoma a situação da qual é parte principal.
Diferente das ações praticadas por terceiros, na auto-advocacia o indivíduo é o responsável por sua participação, por dar voz as suas reivindicações as quais, sem sombra de dúvida, representam o real da situação, uma vez que parte daquele que vive as conseqüências da mesma.
Sendo assim, existem documentos explicativos que dão à pessoa a idéia exata da importância de se ter clareza e exatidão quando se busca a resolução para algum problema. Dessa forma, é importante detalhar bem o problema, deixando as generalidades de lado. Cada parte do documento deve estar composta por questões que nortearão as ações, permitindo uma organização que possa trazer resultados e indicar caminhos para a solução.
Os auto-advogados são também orientados a elaborar um documento no qual seja retratado o registro das horas e dos passos dados para a resolução do
problema, o Problem Worksheet22, o qual deverá registrar: a) Data do fato
b) Problema ou conseqüência
c) Facilitador, agência ou pessoa envolvida
d) Exposição dos fatos com respostas para as seguintes questões: 1. O que aconteceu?
2. Quem estava envolvido? 3. Em que local o fato se deu? 4. Por que o fato aconteceu?
Esse documento vem complementado por formulários nos quais o auto- advogado irá colocar sua satisfação ou insatisfação frente à resolução, encaminhando para os órgãos responsáveis e solicitando com clareza as providências que forem julgadas necessárias.
Além disso, sugere-se que uma ficha de identificação seja minuciosamente preenchida para permitir uma identificação clara do solicitante.
Ainda como documento orientador, o movimento de auto-advocacia produziu um manual – ADA- Americans with Disabilities Act,23 especialmente construído para orientar pessoas com deficiências acerca de seus direitos e da aplicação dos mesmos.
O ADA foi organizado juntamente com várias organizações: National Resource
Center on Community Integration, Center Human Policy, School of Education, Syracuse University por meio do U.S Department of Education, Office of Special
Education ND Rehabilitative Services, National Institute on Disability and
22
Ficha de passos para solução de problemas
Rehabilitation Research.
O objetivo do manual é, além de esclarecer a função do ADA e os princípios da auto-advocacia, facilitar as ações para as pessoas com deficiência, sem qualquer discriminação ou tentativa de dirigir de forma total as ações. Denominado ADA
Basicsconstitui documento orientador de ações de grupos de auto-advocacia.
4.4
ALGUNS
RESULTADOS
DO
MOVIMENTO
DE
AUTO-
ADVOCACIA
Muitos são os resultados das ações da auto-advocacia. Porém, talvez se possa afirmar que o resultado mais significativo foi transformar pessoas consideradas incapacitadas em pessoas que podem e devem conhecer e defender seus direitos, garantindo uma participação efetiva no plano social como um todo.
A realização individual expande-se para uma visão mais ampla, o que dá, para as pessoas envolvidas, a certeza de que sua voz e suas aspirações serão ouvidas e atendidas, mediante as indicações que elas próprias venham a fazer de suas necessidades. É, como indica Goffman (1988), a saída de uma identidade social virtual para uma identidade social real, sendo que a primeira é construída a partir
das afirmativas em relação àquilo que o indivíduo que está à nossa frente deveria ser (p.12) enquanto a segunda está baseada nos atributos que ele, na realidade,
prova possuir (p.12).
Além disso, a auto-advocacia não tem a pretensão de transformar pessoas cujo estigma seja fator de um posicionamento social de inferioridade em pessoas que passam por um torturante aprendizado que pode vir a transformá-las em exemplos de dedicação e luta. Pelo contrário, o movimento de auto-advocacia tem como
objetivo instrumentalizar a pessoa com deficiência para que possa exercer seu papel de cidadão, sem uma busca dos motivos que ela julga ter para ser estigmatizada numa visão apelativa e caritativa. Aos auto-advogados cabe mostrar sua capacidade de buscar soluções dentro de suas próprias limitações, sem que essas sejam minimizadas ou maximizadas.
Muitos são os exemplos que podem ilustrar a eficácia desse movimento. Um deles está representado pelo próprio Bonnie Shoultz, autor do livroWe can speak for
ourselves (1982) e que emite em seu texto More thoughts on self advocacy: the
movement, the group and the individual (2004) a seguinte opinião:
Auto-advocacia é um movimento e uma atividade individual, realizada por nós e que está fazendo a diferença para todos nós. O meu sonho é que algum dia, a sociedade em geral adote e acate alguns dos valores forjados por auto-advogados que eu conheço.(mimeo)
Kennedy & Killius expõem a sua opinião no textoSpeaking for yourself(1986):
Como coordenadores de auto advocacia do Center on Human Policy, nós falamos com profissionais, pais e com o público em geral para informá-los que as pessoas com deficiência têm direitos. Nós queremos que todos saibam que nós podemos tomar decisões e falar por nós mesmos.(mimeo)
A declaração reforça a certeza que existe de que os auto-advogados têm clareza de sua missão e de seu papel frente ao movimento, o que faz supor um aprendizado sobre os direitos e as formas de agir necessárias para o sucesso. Essa certeza vem expressa no mesmo texto:
Nós também ensinamos pessoas com problemas de desenvolvimento e retardo mental que eles têm direitos à auto-determinação e a viver de forma tão independente quanto possível. Como nós vivemos em instituições por anos, sabemos o que isso significa para outras pessoas.(KENNEDY&
KILLIUS, 1986, p.1)
experiências e sugestões de trabalhos cujo objetivo seja facilitar as ações e a vida comunitária dos auto-advogados, incluindo relatos de se viver fora da instituição, em casa própria, contando com os apoios necessários que garantam o sucesso, sem situações constrangedoras que dêem margem ao reforçamento de opiniões contrárias ao processo de autonomia das pessoas com deficiência mental ou com paralisia cerebral. Essa experiência vem relatada no livro de Klein (2000) que define o objetivo da obra:
A intenção desse livro foi abordar uma série de temas e oferecer pistas para aquelas pessoas que querem morar em um lugar próprio. Não estamos oferecendo um pacote de serviços que se pode aplicar a todos, mas sim idéias, opiniões e experiências de pessoas que estão lutando para encontrar a resposta a muitas perguntas surgidas no texto. Colocar perguntas corretas é a chave para que se possa orientar pessoas na direção correta.(p.111)
Coloca, também, um dos fundamentos da auto-advocacia cujo objetivo é tornar a pessoas com deficiência participante de todas as situações a que todo cidadão está sujeito:
No passado tentamos sem êxito eliminar a dor dessas pessoas criando entornos simulados nos quais estariam supostamente protegidos das batalhas da vida. Agora devemos, como disse George Ducharme, caminhar com a gente ao invés de caminhar pela gente. Isso significa que temos que viver com as pessoas quando se passa por altos e baixos, ao invés de tentar eliminá-los artificialmente. A vida das pessoas muda com o tempo por isso é importante que caminhemos ao seu lado nos momentos de luta.(p.111)
Outro indicativo do sucesso do movimento de auto-advocacia pode ser visto no grande número de associações com esse objetivo que hoje existem e atuam. Essas associações seguem os preceitos do movimento, buscando auxiliar os pares com ações, cursos e conferências que permitem uma conscientização das pessoas com
deficiência sobre os direitos e as formas de buscar soluções.