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Videre forskning

5. Avslutning

5.2 Videre forskning

Na América Latina os estudos CTS emergem no final dos anos 1960, centrando-se “na reflexão da Ciência e da Tecnologia como uma competência das políticas públicas” (VACCAREZZA, 2004, p. 56, tradução livre).

Segundo Linsingen (2007, p. 7), os estudos CTS, mesmo não sendo realizados por uma comunidade de pesquisadores considerada “explicitamente identificada como CTS”, consolidaram-se e construíram o que diversos autores relatam como o Pensamento Latino- Americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade – PLACTS (VACCAREZZA, 2004; SISMONDO, 2006).

Para Vaccarezza (2004, p. 56, tradução livre), o pensamento CTS latino-americano no fim da década de 1960 surgiu a partir de muitas publicações que apontavam críticas

[...] à situação da Ciência e da Tecnologia e de alguns aspectos da política estatal nessa matéria. Desde meados dos anos 1950 e 1960, organismos internacionais como a UNESCO e a OEA se constituíram como pontes institucionais-chave para a introdução de políticas de Ciência e Tecnologia na América Latina. Isso se constitui em uma transferência relativamente acrítica em relação à defasagem em Ciências e Tecnologia em relação aos Estados Unidos.

Segundo Núñez (2001), essa perspectiva desenvolveu-se juntamente com a compreensão da dinâmica social da Ciência e da Tecnologia em um contexto de subdesenvolvimento e dependência vivido pelos países latino-americanos, o que também limitou o alcance desse pensamento. Contudo, desde sua origem, o Pensamento Latino- Americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade foi freado pela globalização neoliberal.

Segundo Vaccarezza (1998), o pensamento latino-americano de CTS se desenvolveu de modo coerente, mesmo possuindo diferenças entre seus distintos seguidores, e se destaca por suas discussões de caráter social e estrutural sobre a Ciência e a Tecnologia, incluindo suas políticas específicas. Segundo o autor, esse pensamento se constituiu como autônomo ao refutar a “transferência acrítica e descontextualizada de ideias, marcos conceituais, crenças, formatos institucionais e usos administrativos dos países centrais aos periféricos” (VACCAREZZA, 1998, p. 24, tradução livre). Segundo o autor, os principais fundadores do Pensamento Latino-Americano de CTS são:

Jorge Sábado (1975, 1982), Almicar Herrera (1971), Óscar Varsavsky (1969, 1971), Miguel Wionseck, Máximo Halty-Carrére (1986), Francisco Sagasti (1984), Osvaldo Sunkel, Marcel Roche (1968), José Leite López (1978), para mencionar somente alguns. Entre eles se concentram cientistas envolvidos em ciências exatas e naturais que se tornaram pensadores sociais e ideólogos, a partir de reflexões de suas próprias experiências como pesquisadores, bem como economistas que canalizaram o pensamento da CEPEAL (Comissão Econômica para a América Latina) para a questão da Ciência e da Tecnologia. (VACCAREZZA, 2004, p. 56, tradução livre).

Mesmo possuindo legitimidade, o pensamento latino-americano de CTS não se apresenta como um campo homogêneo, pois

[...] muitos aspectos da Ciência e da Tecnologia como componentes CTS e de seu próprio desenvolvimento são afetados pela diversidade. Contudo, por outro lado as similitudes podem autorizar uma aproximação coletiva da questão e, por outro lado, em muitos aspectos o pensamento latino-americano sobre CTS se projetou como um discurso sobre a América Latina em seu conjunto e seus incentivadores estão adquirindo, com frequência, liderança regional. (VACCAREZZA, 1998, p. 14, tradução livre).

O desenvolvimento dos estudos CTS na América Latina não se assemelha ao observado nas tradições europeia e norte-americana, e sua origem não esteve diretamente relacionada aos estudos dos processos educativos. Nesse sentindo, para Dagnino (2007, p. 28),

[...] a preocupação dos fundadores do Pensamento Latino[-]Americano (PLACTS) esteve centrada nos obstáculos estruturais à utilização do conhecimento produzido em ambientes precipuamente dedicados à pesquisa e naqueles orientados à produção de bens e serviços. Causados pela escassa demanda, do modelo econômico-social vigente, por conhecimento localmente produzido, eles eram entendidos como inerentes à condição periférica, dependente e mimética de nossa Sociedade.

Mesmo sendo um campo heterogêneo, os estudos CTS, na América Latina, segundo Vaccarezza (1998), foram mais influenciados pela tradição europeia do que pela norte- americana. Contudo, diferentemente dessas tradições, os estudos latinos, possuem um enfoque em discussões sobre a Ciência e a Tecnologia em contextos socioculturais determinados e diferenciados, abrangendo, portanto, análises críticas que incorporam as características do desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia da região e os processos que determinam a assimilação tecnológica por meio da industrialização nacional. Especificamente, o Pensamento Latino-Americano de CTS está direcionado à discussão do papel do Estado no desenvolvimento científico-tecnológico, diferenciando-se das linhas que abordam os problemas sobre política científica e das análises sobre a implementação e inserção de inovações científicas e tecnológicas.

Para Linsingen (2007), o Pensamento Latino-Americano de CTS possui em comum com os estudos CTS europeus e norte-americanos as discussões sobre a não neutralidade e não universalidade da Ciência e da Tecnologia, sendo processos dependentes do contexto em que são desenvolvidos. Kreimer (2007, p. 1-2, tradução livre) destaca a existência de um paradoxo em relação a esse contexto, pois,

[...] enquanto os países menos desenvolvidos tentam produzir conhecimento científico, localmente, eles estão sujeitos a uma relação de dependência do conhecimento, particularmente tecnológico, produzido nos países industrializados.

Segundo Dagnino (2009, p. 97), a dependência dos países latinos, sobretudo tecnológica, ocorre predominantemente pela “relação de realimentação” que existe devido ao “fenômeno da dependência” entre os países que se colocam em uma “condição periférica”. Para o autor,

[...] o fato de que em cada país as políticas produtivas (industrial, agrícola etc.) e econômicas (fiscal, monetária creditícia, de comércio exterior etc.) tenham assumido contornos distintos, embora sempre emolduradas pela globalização como processo histórico e o neoliberalismo como diretriz explicativo-normativa, parece fornecer uma das chaves necessárias para entender as trajetórias das duas últimas décadas. Nesse sentido, é importante ressaltar algumas distinções importantes. No caso brasileiro e argentino a reflexão sobre CTS teve como gatilho a preocupação com uma PCT (Política Científica e Tecnológica) ineficaz, que existia num ambiente universitário, bastante politizado, de ciências duras. (DAGNINO, 2009, p. 111).

Kreimer e Thomas (2004) destacam que no decorrer das décadas de 1960 a 1990 os Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade na América Latina (ECTSAL) não apresentaram um desenvolvimento linear, podendo ser subdivididos em três gerações, considerando-se as origens dos pesquisadores envolvidos.

A primeira geração foi formada por engenheiros e economistas, que possuíam pouca inserção internacional e institucional, o que representou uma fase em que as pesquisas desenvolvidas foram pouco originais.

A segunda geração já incluía, além de engenheiros com pós-graduação em ciências sociais, investigadores de várias áreas, como sociologia e economia. Diferentemente da geração anterior, os envolvidos com os estudos CTS passaram a realizar suas pesquisas dentro de instituições de ensino superior, bem como vincular seus estudos a grupos internacionais, além de passarem a ter temáticas teórico-metodológicas.

A terceira geração passou a abranger pesquisadores e pós-graduandos de diversas áreas, todos institucionalizados, com vínculos internacionais, e que por consequência buscam um alto rigor acadêmico em seus estudos.

Nessa direção, os estudos CTS desenvolvidos na América Latina, segundo Vessuri (2001), buscam, além da ruptura da visão tradicional da Ciência e da Tecnologia como construções neutras e não influenciadas pela sociedade, a desvinculação dos referenciais teóricos europeus e norte-americanos e a construção de seu próprio referencial. Segundo o autor, isso será possível quando os investigadores assumirem

[...] a ciência como cultura, a passagem do predomínio de atores sociais que são “porteiros” que abrem as portas para as tecnologias forâneas do mundo desenvolvido ao apogeu de vetores tecnológicos endógenos, a reestruturação de disciplinas científicas que constituem reservatórios de conhecimentos elaborados por outras culturas (o caso da antropologia, por exemplo), a reavaliação do sentido comum local e a reconstrução de tradições, assim como a participação social na criação de tecnologia. (VESSURI, 2001, p. 242, tradução livre).

Vaccarezza (2011, p. 56, tradução livre), ao discutir a atual situação do movimento CTS na América Latina, relata que desde seu início as principais mudanças são relacionadas:

a) à complexidade temática; b) à profissionalização (tanto dos seus desenvolvedores como das instituições lócus da produção CTS e dos meios de comunicação); c) à constituição de uma comunidade intelectual CTS mais integrada; d) à maior dependência intelectual das correntes de pensamento internacional sobre o tema (tanto como compreensão quanto teorização das relações entre a ciência, a tecnologia e o social, como no que diz respeito à proposta de intervenção, seja em atividades políticas e administrativas, seja em atividades científicas e tecnológicas); e) mais baixos potenciais das propostas sobre o papel, função ou localização da ciência e da tecnologia para a resolução dos problemas da região.

Nesse contexto de desenvolvimento histórico dos estudos CTS na América Latina, Vaccarezza (2011) destaca que o seu status atual passou de movimento para campo de estudos multidisciplinar, ao realizar comparações com as pesquisas desenvolvidas na União Europeia. O autor também discute que existe uma deficiência no desenvolvimento do campo CTS na região, a qual poderia ser explicada pela pouca atenção dada à discussão da natureza da Ciência e da Tecnologia no processo educacional. Para o autor, a inclusão efetiva das discussões CTS no ensino é uma ação adiada

[...] não só por se restringir a facilitar a compreensão do conteúdo estático da ciência mas para compreender a dinâmica da produção, de modo a romper a exclusão do esotérico e a sociedade se apropriar do conteúdo e evolução do conhecimento. (VACCAREZZA, 2011, p. 62, tradução livre).

Linsingen (2007) destaca que em países como Argentina, Colômbia, México, Brasil, Cuba e Chile há uma crescente preocupação das universidades no que tange ao desenvolvimento de pesquisas e à implementação das discussões CTS no âmbito educacional. Especificamente no contexto nacional, o autor cita que estudos CTS têm sido desenvolvidos, principalmente, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de Brasília (UnB), com suas particularidades devido às suas origens e objetivos.