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Em sua história, o canal PBS (Public Broadcast Service) dos Estados Unidos levou ao ar um documentário diferente: em 1973, um lar de classe média em Santa Barbara, na Califórnia, permitiu a presença constante de câmeras. Em trezentas horas de material bruto, que depois foram transformadas em doze episódios de uma hora cada, a família Loud teve capturados a separação dos progenitores e a revelação da homossexualidade de um dos filhos. Esse era An American Family, precursor de títulos muito bem-sucedidos como o reality show The Real World (MTV, 1992-dias atuais) que, com 27 temporadas, é um dos programas mais longos da história da televisão mundial. A locução de abertura, feita pelos próprios participantes de cada temporada, explica a premissa do show: “Esta é a história verdadeira... de sete desconhecidos... escolhidos para viver em uma casa... trabalhar juntos e ter suas vidas gravadas... para descobrir o que acontece.... quando as pessoas deixam a educação de lado... e começam a “jogar a real”... The Real World”. Produtores do The Real World disseram que, em sua primeira edição, encontraram dificuldade para recrutar o elenco. A maioria dos entrevistados recusava-se a participar por não se sentir confortável com a ideia de ser vigiado 24 horas por dia para um programa de TV. Mais tarde, no final dos anos 1990, após o sucesso de Survivor (CBS, 2000-) e Big Brother (CBS, 2000-2006, Showtime 2 2007-2012, TVGN 2013-), a concorrência para participar do programa superou o número das inscrições para a Universidade de Harvard (ANDREJEVIC, 2004, p. 17).

Em Maio de 1998, as publicações especializadas em televisão previam o que estava por vir nas grades de programação:

É uma verdade: a reality TV é o curso principal da dieta dos telespectadores norte-americanos, que permanecem famintos por melodramas da vida real. Relativamente baratos de produzir, infinitamente diversos em termos de conteúdo, suficientemente interessantes para atrair audiências estáveis e globais o bastante para

conquistar compradores de emissoras internacionais. (Reel Screen, 1998 apud Dovey, 2000, p. 17, tradução nossa)34

Pesquisadores costumam estabelecer o estopim do sucesso da reality TV no verão do ano 2000, quando dois fenômenos de audiência mantiveram milhões de norte-americanos hipnotizados adiante da televisão. Survivor, um reality show sobre um grupo de pessoas vivendo situações extremas em busca do prêmio de 1 milhão de dólares, era o maior sucesso da temporada em toda a história da televisão norte-americana. Logo atrás havia o Big Brother, mostrando a convivência de um grupo de jovens confinados em uma casa, novamente motivados por um grande prêmio em dinheiro.

O Big Brother foi criado pelo holandês John de Mol, inspirado no projeto Biosfera 2, realizado nos Estados Unidos entre 1991 e 1993. Trata-se de um domo de 17 mil metros quadrados construído no deserto do Arizona, onde um grupo de oitenta cientistas viveria fechado por dois anos (Veja, 21/11/2001).

O gênero reality TV, ou TV realidade, surge quando técnicas documentais são utilizadas não para mostrar locais e culturas remotas, mas para estudar a vida de figuras próximas, contemporâneas, como representantes das “personalidades reais”. O sitcom, bem como os programas em geral calcados em círculos familiares, antecipou o reality show ao basear-se no cotidiano de pessoas comuns, mostrando sua vida privada, mesmo que de uma forma por vezes idealizada (ANDREJEVIC, 2003, p. 65-66).

Os formatos baseados em surveillance, ou seja, vigilância eletrônica, a partir desses dois “estouros iniciais”, começaram um movimento de propagação contínua até termos uma grande quantidade de reality shows televisionados. Desde o cotidiano de crianças participando de concursos de beleza, caminhoneiros que fazem entregas através de pistas congeladas e lojistas que                                                                                                                          

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“It’s a fact: Reality-based programming is a main course in the diet of North American television viewers, who are still hungry for true-life melodrama. Relatively inexpensive to produce, infinitely diverse in content, sufficiently interesting to attract stable, core audiences and global enough to appeal to international television buyers, this year’s new reality-based shows continue to trend to inform, titillate, gross out and fascinate audiences with real-life stories.”

negociam crânios de macacos até celebridades que abriram as portas de suas casas 24 horas por dia. Ozzy Osbourne, Kim Kardashian, Paris Hilton, Gene Simmons e tantos (muitos) outros. Diz Andrejevic (2003, p. 3, tradução nossa): “Os formatos da reality TV multiplicaram-se ao ponto de se tornarem paródias de sua premissa inicial de permitir o acesso às interações não roteirizadas de pessoas que não são artistas profissionais”35.

A reality TV parece suprir os desejos de ambas as partes envolvidas: os produtores só veem vantagens em lançar programas do gênero e os telespectadores parecem adorar consumi-los.

Do ponto de vista das emissoras de televisão, reality shows são produtos ideais por sua razão entre investimento e retorno. Um exemplo brasileiro, veiculado pela Rede Globo, ilustra muito bem o que acontece nas televisões ao redor do mundo: “Manter o Big Brother no ar custa por mês cerca de quinze vezes menos do que sustentar uma novela das 8 pelo mesmo período” (Veja, 13/6/2007). Segundo Fernando Oliveira, do IG, cada inserção de trinta segundos no intervalo da novela das 8 (ou “das 9”, como diz o colunista) custa, em média, R$ 450 mil reais (IG NA TV, outubro de 2012). Essa mesma média de custo por inserção é aplicada aos intervalos do Big Brother, no ar logo após a novela. Trata-se de um produto tão rentável que, apesar de a atração ter perdido audiência com o passar dos anos, a Rede Globo não cogita interromper a fórmula tão cedo.

Entretanto, se o Big Brother Brasil perdeu força, isso não significa que a reality TV tenha perdido público no país. O investimento de TVs abertas e principalmente de canais a cabo em novos formatos do gênero é crescente, especialmente a partir do decreto de lei n. 12.485, que determina cotas obrigatórias de veiculação de conteúdo produzido no Brasil. Além de serem opções econômicas e, portanto, menos arriscadas de produção, possuem chances razoáveis de resultarem em números satisfatórios de audiência.  

                                                                                                                         

35 “Reality TV formats have multiplied to the point they have become self-conscious parodies of

their original premise of access to the unscripted interactions of people who are not professional entertainers.”

Um estudo de 2001 feito pela American Demographics determinou que 45% de todos os norte-americanos assistem a programas categorizados como reality TV. Além disso, descobriu-se que um quinto desse percentual – o que corresponde a um em cada onze norte-americanos – considera-se “fanático” por um show em particular ou por vários (ANDREJEVIC, 2003, p. 9).

Nos anos 1990, devido à grande concentração de renda, os Estados Unidos conheceram uma maior desigualdade social. Exemplo disso é a diferença entre o pagamento do maior cargo de uma empresa (CEO, Chief Executive Officer) e o de um trabalhador mediano, que nos anos 1970 costumava ser de, em média, 39 vezes e que, trinta anos depois, já era de mil vezes o salário de um trabalhador mediano. O hiato entre os mais ricos e a classe média tornou-se maior, dificultando a desejada ascensão de classes sociais. O fato de pessoas comuns, geralmente sem nenhuma aptidão artística, cativarem olhares na televisão, desfrutando de determinado sucesso em shows como o Big Brother, fez com que o reality show se tornasse uma espécie de loteria da televisão. A mensagem era a de que qualquer espectador poderia estar em diante das câmeras. Na mesma época em que esses shows fizeram sucesso, a loteria norte-americana movimentava 35 bilhões de dólares, um aumento expressivo se comparado ao rendimento do final dos anos 1970: um bilhão de dólares. Tanto os reality shows quanto a loteria são o que Andrejevic (2003, p. 68) chama de uma versão fast food do sonho americano funcionando como uma compensação pela centralização de riqueza e poder.

Ao mesmo tempo, Dovey (2000, p. 57) discute que frentes pós- modernistas apontam para uma mudança que ele chama de “novo regime da verdade”, agora baseado em experiências de primeiro plano, individuais, subjetivas, em contraste com o desgaste de verdades generalizadas. As mudanças nos formatos televisivos, de objetivo para subjetivo, de transparente para reflexivo e em direção a um “teatro das intimidades” é consequência não apenas de uma mudança econômica das mídias de massa, mas de desenvolvimentos importantes no relacionamento entre cultura e identidade.

Renato Janine Ribeiro, filósofo brasileiro e professor na Universidade de São Paulo, esteve presente na FAAP no dia 9 de abril de 2012 com a palestra “A falsa intimidade: a vida que todo mundo vê”. A intimidade foi discutida partindo- se do princípio de que receber influências do contexto cultural é algo construído individualmente. As diferenças dos hábitos sexuais entre indígenas e europeus nos primórdios do Brasil colonial denotam a diferença dos conceitos de intimidade para ambos os povos, como mostra o historiador e padre Eduardo Hoornaert no texto A questão do corpo nos documentos da primeira evangelização, na obra Família, mulher, sexualidade e igreja na História do Brasil, organizada pela historiadora Maria Luiza Marcílio:

Parece que a convivência entre o homem e a mulher era bastante erotizada em geral. O sexo não era assunto reservado à intimidade e isso deve ter perturbado os europeus, acostumados a uma rígida redução da vida sexual à esfera íntima. (HOORNAERT in MARCÍLIO, 1993, p. 21)

Essa discussão insere-se em um contexto em que celulares, camcorders36, webcams, reality shows e redes sociais formam uma conjuntura tecnológica única na história. Nunca foi tão simples, tentador e involuntário expor-se. Seja para conhecidos ou desconhecidos. “Estes espaços estão cheios de vozes proclamando e celebrando sua própria esquisitice, articulando seus medos e segredos mais íntimos, representando a banalidade de suas próprias subjetividades extraordinárias” (DOVEY, 2000, p. 4). Trata-se do nosso novo espaço público.

Estar exposto, sob constante vigilância, é um pesadelo presente em culturas diversas, como no mito asteca de Tezcatlipoca, o espelho fumegante, que reflete o futuro do mundo e dos homens (LEÃO, 2002, p. 123). Espelhos como esse, que tudo podem ver, são retratados também em histórias como a da Branca de Neve. É através do espelho mágico que a rainha má pode vigiar tudo                                                                                                                          

o que acontece em seu reino. O espelho fumegante também assemelha-se à “teletela” da obra 1984, escrita por George Orwell e publicada em 1949. A “teletela” é um dispositivo de vigilância parecido com uma televisão, que permite ver e ser visto. Através dele, o Estado consegue controlar todos os cidadãos individualmente. A obra trata-se de uma distopia, uma representação literária de um estado indesejável possível de ser evitado, mas ainda assim uma realidade concebível para o futuro da sociedade, segundo citação que David Lyon faz de James Rule, ambos pesquisadores da surveillance. Para Rule, os únicos limites para a realização do pesadelo Orwelliano eram as capacidades de vigilância, entre outras, as limitações tecnológicas (RULE apud LYON, 1994, p. 57). Essa afirmação de Rule data de 1973. No mesmo ano, a primeira rede interna de computadores (ethernet) foi criada por Robert Metcalfe e pela Xerox37, e a primeira ligação via telefone celular foi feita, em 3 de abril, por Martin Cooper38. Lúcia Leão, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em sua obra A estética do labirinto, compara as webcams espalhadas pelo mundo com o mito do espelho fumegante (LEÃO, 2002, p. 124). Essas câmeras permitem que vejamos avenidas, cidades, atrações turísticas e até o espaço em tempo real. Trata-se de uma demonstração do quanto evoluímos em termos de recursos para a vigilância eletrônica desde a época da obra de James Rule.

Ironicamente, a sociedade em 1984 vivia sob o regime totalitário do Big Brother, personagem homônimo ao maior sucesso dos primórdios da reality TV em todo o mundo.

O Big Brother trouxe uma repaginada hollywoodiana do conceito atrelado ao seu nome, tornando-se um panfleto para os benefícios da vigilância de alta tecnologia. Não se trata de uma compilação televisiva de momentos excepcionais documentados, mas sim de uma fiscalização por parte da                                                                                                                          

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BELLIS, Mary. Inventors of the Modern Computer. Disponível em:

<http://inventors.about.com/library/weekly/aa111598.htm>. Acesso em: 4 mar. 2014.

38  SMITH, Graham. The day the mobile phone went public 38 years ago, leaving New Yorkers

bemused and bewildered. Mail Online, 5 abr. 2011. Disponível em:

<http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1373272/The-day-Martin-Cooper-took-mobile- phone-public-leaving-New-Yorkers-bemused-bewildered.html>. Acesso em: 4 mar. 2014.  

audiência, que acompanha o dia a dia e o ritmo da vida das pessoas enclausuradas. O programa ajudou a reposicionar o papel da vigilância e ressaltou as vantagens não apenas de vigiar, mas de ser vigiado (ANDREJEVIC, 2003, p. 102).

Considerando a exposição que celulares, webcams e camcorders tornaram possível, de fato os números contabilizados acerca da produção de vídeos do tipo confessionário, chamados videologs, são bastante expressivos. Sobretudo no popular YouTube, “uma plataforma projetada para permitir a participação cultural [audiovisual] de pessoas comuns” (BURGUESS; GREEN, 2009), cujo slogan é Broadcast Yourself (“Divulgue-se”). Quarenta por cento do material de produção dos usuários “comuns” do YouTube enquadra-se na categoria videolog.

Afirmar, no entanto, que essa exposição é fruto da miniaturização e da facilidade de operação das câmeras mais recentes é depositar em um determinismo tecnológico as consequências de todo um contexto cultural. Câmeras portáteis com foco no mercado doméstico estão disponíveis desde 1964, quando a Sony lançou a CV-2000/TCV-2010, o primeiro modelo com fitas de meia polegada39.

Figura 12. Um dos modelos Sony CV-2000/TCV-2010, lançado em 1965.

                                                                                                                         

39 Rewind Museum – Reel to Reel Video. Disponível em:

Mesmo que a qualidade da captação e a facilidade de uso não tenham atingido os patamares atuais até os anos 1990, muitos artistas e documentaristas encontraram-se fascinados pelo estilo íntimo, confessional e despretensioso do vídeo40. O diferencial é que as portas da televisão continuavam fechadas para esse tipo de produção, que até então nunca tinha sido dominante na cultura popular. No século XXI, a situação parece se reverter (DOVEY, 2000, p. 57).

Dirigir-se diretamente à câmera, enquanto espectadores assumem um papel de confidentes anônimos, é um processo que faz parte do Big Brother e que pode ter influenciado a produção em massa desse tipo de vídeo por parte dos interatores, aqueles que habitam a internet e produzem conteúdo. Os próprios produtores do Big Brother Brasil, durante os períodos de seleção dos candidatos a entrar na casa, por diversas edições encorajaram a produção desses vídeos como forma de inscrição.

Os formatos de produção audiovisual que utilizam a linguagem da camcorder e das câmeras de vigilância parecem hipnotizar suas audiências. Bill Nichols, professor da San Francisco State University e pesquisador de documentários, faz uma alusão à pornografia e à ambivalência entre prazer e insatisfação para explicar o êxito dessas atrações.

A ambivalência deriva da dependência do outro para um senso de identidade que, em sua coerência imaginária ou autonomia, nega a centralidade do outro sobre quem ele é dependente. Na pornografia, essa ambivalência envolve um desejo paradoxal por prazer que não é totalmente disponível. A pornografia pretende prover prazer, mas não completamente. O prazer que é representado permanece diferido, talvez indefinidamente, em favor da sua representação fetichista. O resultado é um sujeito preso a um desejo pelo prazer oscilatório per

se. A realização do prazer é adiada a favor da perpetuação de um

                                                                                                                         

40 Mais sobre videoarte confessional em Documentário em primeira pessoa: relatos íntimos no

conjunto de representações encenadas de desejo (por mais pornografia). (NICHOLS, 1994, p. 74, tradução nossa)41

A partir dessa afirmação, é possível traçar um paralelo com o que diz o professor Hille Koskela da University of Hellsinki em seu artigo “Webcams, TV Shows and Mobile Phones: Empowering Exhibitionism”: “Há uma fascinação voyeur em observar, mas, reciprocamente, uma fascinação exibicionista em ser visto” (KOSKELA, 2004, p. 301). Existe uma satisfação em expor os sentimentos mais profundos e legítimos, pois eles supostamente carregam como qualidade a verdade. Para Jon Dovey, a possibilidade de se deixar observar e revelar é, por nós, erroneamente associada à liberdade (DOVEY, 2000, p. 105).

Permitir ser observado dentro de casa é sujeitar esse momento à vigilância tradicionalmente associada ao local de trabalho (ANDREJEVIC, 2003, p. 105). O lar, já considerado um paraíso livre da vida pública, torna-se cada vez mais o local de vigilância por excelência (LYON, 1994, p. 16).

Existe uma semelhança na vigilância aplicada ao nosso dia a dia em relação à da casa do Big Brother, ou seja, temos consciência da existência de câmeras, mas não sabemos exatamente onde elas se encontram e nem sempre percebemos sua presença. Apesar das demandas por regulação dos sistemas de vigilância que nos cercam, chegamos a um ponto em que a tecnologia, a miniaturização e a camuflagem de câmeras permitem que elas estejam em

                                                                                                                         

41 “Ambivalence derives from the dependence on the other for a sense of identity which, in its

imaginary coherence or autonomy, denies the centrality of the other upon whom it is dependent. In pornography this ambivalence involves a paradoxical desire for a pleasure that is not one, is not fully available. Pornography sets out to please but not to please entirely. It affords pleasure but not the please that is (only) represented. The pleasure that is represented remains deferred, perhaps indefinitely, in favor of its (fetishistic) representation. The result is a gendered viewing subject caught up in a desire for this oscillatory pleasure per se. The completion of desire is deferred in favour of perpetuating a set of staged representations or desire (for more pornography)”.

qualquer lugar. “[...] chamei esta era de infinitas representações de the cam era (a era das câmeras)”42 (KOSKELA, 2003, p. 299, tradução nossa).

Essa conjuntura levou ao diagnóstico do que psicólogos chamam de “A síndrome de Truman”, em referência ao filme The Truman Show (O show de Truman, 1998), no qual a vida inteira de um homem é na verdade um reality show, sem que ele tenha consciência disso. Os pacientes com essa síndrome acreditam também fazer parte de um reality show, no qual câmeras capturam todas as suas ações, sofrendo de nervosismo e ansiedade por pensarem que são alvos de perseguição do governo. A doença é mais comum em países com grandes tecnologias de vigilância (CNN HEALTH, 2008). Curiosamente, esses sintomas foram percebidos por um estudo psicanalítico feito por Regina Abeche, professora da Universidade Estadual de Maringá, que analisou os efeitos da vigilância nos participantes da segunda edição do Big Brother Brasil.

[...] ele constrói uma imagem a ser transmitida pela mídia acima da sua própria imagem. Estes são os absurdos comportamentais de Cida, a depressão de Rodrigo e o pânico vivido por Manuela. É também o discernimento da Tarciana quando, depois de uma conversa com o apresentador do programa, ela comenta: “por que ele falou das minhas corridas? Eu corro como quase todos aqui fazem”. Isto prova que o sentimento de perseguição paira sobre o grupo. (ABECHE, 2003, p. 15)

Ser vigiado, no entanto, torna-se progressivamente menos incômodo, aceito como algo natural. Em “Big Brother: the Series that Made Surveillance Acceptable” (“Big Brother: a série que tornou a vigilância aceitável”), matéria publicada no jornal inglês The Independent em 2010, John Walsh comenta o efeito de onze edições do Big Brother na sociedade britânica. Segundo Walsh, os ingleses haviam se tornado o povo mais vigiado (inspecionado, seguido, marcado, monitorado, questionado etc.) do oeste europeu, além de terem se tornado espectadores inveterados uns dos outros.

                                                                                                                         

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O reconhecimento público trouxe consigo uma cultura de vigilância que está perto da perseguição. Houve uma época em que celebridades se preocuparam com jornalistas e paparazzi. Agora, todos são repórteres e disseminadores de conteúdo. Eles podem dizer qualquer coisa sobre qualquer um, sem regras. Esse é o real legado do Big Brother. Os inspecionados tornaram-se os inspecionadores. “Eles” se tornaram “nós”. Dez anos assistindo a cobaias humanas vivendo sua prisão de três meses em um inferno pré-fabricado gerou em nós um gosto por bisbilhotar uns aos outros e dramatizar os detalhes triviais da nossa vida ao tornar tudo público em telas eletrônicas.43 (The Independent, 2010, tradução nossa)

O Big Brother, conforme sugerido por Peter Weibel, prepara o espectador para o futuro dos sistemas de vigilância: “Observação não é uma ameaça. Observação é entretenimento” (WEIBEL, 2002, p. 217). Weibel é um artista ucraniano e pesquisador das mídias que, além de ter discutido a surveillance em um livro e em uma exposição da ZKM (Center for Arts and Media Karlsruhe),