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O questionário aplicado revelou que os participantes percebiam tensões em várias partes do corpo, sendo os ombros e o pescoço as de maior incidência dessas tensões, tanto no seu cotidiano, como no ato de sua performance. No cotidiano, 05 (cinco) participantes relataram ter dores tanto nos ombros, como no pescoço. Já nos momentos de execução ao violino, as dores nos ombros foram apontadas por todos os participantes, e as do pescoço relatadas por apenas 05 (cinco). Lembrando que a flexibilidade e soltura dos ombros estão diretamente ligadas às ações criativas do indivíduo, pode-se concluir por essas afirmações, que o nível de performance desses participantes já estava, em maior ou menor grau, comprometido. Levando-se também em conta que o grau de desconforto dessas tensões já se

encontrava, segundo as respostas do questionário, em um patamar mediano, isso significa que o ato de tocar violino já se tornara, para esses participantes, uma ação no mínimo desconfortável.

Ainda em relação ao seu cotidiano, 04 (quatro) participantes relataram em seu questionário sentirem dores e tensões em algumas das regiões da coluna. O maxilar, a cabeça, e os pulsos foram apontados por 02 (dois) participantes como regiões de tensão, e os braços, cotovelos e pés apenas por 01 (hum). De forma geral, o nível de desconforto dessas tensões foi relatado no questionário como sendo mediano.

Já no ato da performance, a quantidade de regiões sob tensão aumentou consideravelmente. Os dedos da mão e as pernas apareceram como novas regiões de tensão, sendo cada uma delas apontada por 02 (dois) dos participantes, e a incidência de dores e tensões no maxilar, nos pulsos e nos braços aumentou para 03 (três) participantes. Já as regiões da coluna permaneceram com 04 (quatro) indicações e as tensões na cabeça, nos pés e nos cotovelos foram apontadas por apenas 01 (hum) participante.

Esse acréscimo de tensões na performance é comum, principalmente nas regiões dos braços, pulsos, dedos das mãos e maxilar, regiões estas que estão diretamente ligadas ao ato de tocar o violino. A grande questão que se põe é que, de acordo com as respostas dos questionários, essas tensões se encontravam presentes em todos os momentos de performance, inclusive no estudo individual dos participantes. Espera-se que o estudo individual seja o momento em que o estudante irá buscar e refletir sobre a forma mais relaxada e fluente de tocar o seu instrumento. É nesse momento que ele tem a condição de parar para sentir e entrar em contato com seu corpo, corrigindo sua postura e sua movimentação ao violino. Mas foi exatamente no estudo individual que houve a maior incidência de queixas de tensões musculares, sendo estas apontadas por 07 (sete) participantes desta pesquisa. Essas tensões estão tão presentes, que já são percebidas em uma média de 60 (sessenta) a 90 (noventa) minutos de estudo, mesmo tendo a maioria dos participantes o hábito de fazer durante este, pequenos intervalos, iniciados, em média, após uma hora de trabalho no violino120.

Seriam essas tensões fruto de uma falta de consciência dos participantes sobre a forma mais adequada de estudar seu instrumento? Isso se deveria a eles, ou à metodologia empregada em sala de aula? Ou seria um reflexo dos medos e inseguranças sentidos por eles em seu cotidiano de violinistas e que se manifestariam justamente no momento do treino de seu ofício? Essas são perguntas difíceis de responder em um primeiro momento e

demandariam um amplo e demorado estudo da vida particular e violinística de cada participante, o que não é o principal objetivo deste trabalho. De qualquer forma, os históricos inseridos no Apêndice B deste trabalho podem dar uma idéia mais detalhada do porquê dessa situação a nível individual.

Outro momento de performance apontado pelos participantes como sendo também de grande incidência de tensões musculares foi a sala de aula. Dos 08 (oito) participantes da pesquisa, 06 (seis) sentiam-se tensionados em frente a seus professores. As apresentações públicas, que poderiam ser entendidas como os momentos mais tensionantes para o instrumentista, foram apontadas por apenas 05 (cinco) dos participantes como ocasiões em que suas tensões eram sentidas claramente. Já as orquestras foram os lugares menos tensionantes para os participantes desta pesquisa, pois apenas a metade manifestou perceber dores musculares nesses locais.

Mas como, em sua maioria, as tensões da sala de aula, das apresentações públicas e das orquestras também se apresentam em um nível mediano, pode-se concluir que os participantes desta pesquisa possuíam um considerável grau de enrijecimento corporal em todos os seus momentos de performance o que me faz questionar sobre o nível de prazer desses indivíduos em relação àquele ofício que escolheram como profissão. Esse questionamento foi ampliado ao perceber que, segundo as respostas dos questionários, apenas a metade dos participantes sentia tensões em atividades específicas do cotidiano e que não estavam relacionadas à música como, por exemplo, o uso do computador, atividades domésticas, etc. Segundo Lowen,

dividimos o mundo entre as coisas que fazemos seriamente, com um propósito ou ganho e as coisas que fazemos por divertimento ou por prazer. No aspecto sério da vida, a atividade rítmica espontânea parece não ter lugar. Procuramos ter a eficiência fria da máquina. [...] [Mas] a máquina consegue sua eficiência por estar limitada a apenas um padrão de movimento rítmico. [...] Em contraste, o homem é dotado de um número quase ilimitado de padrões rítmicos que correspondem às suas variadas disposições e desejos. É capaz de mudar os ritmos à medida que sua excitação varia. É capaz de entrelaçar padrões rítmicos complexos para aumentar seu prazer e alegria. É, em outras palavras, estruturado biologicamente para o prazer, não para ser eficiente. O homem é um ser criativo, não produtivo. Mesmo afastado de prazeres conseguiu grandes realizações. Infelizmente, de suas realizações obteve apenas poucas alegrias, porque a produtividade se tornou mais importante que o prazer (LOWEN, 1984, p. 203).

Se a música “evoca os ritmos existentes dentro de nós” (LOWEN, 1984, p. 202) e o ritmo está diretamente ligado ao prazer, onde estaria o prazer desses participantes no seu relacionamento com a música diante de tantas tensões? Até que ponto as dificuldades

demonstradas por esses participantes em relação ao seu aprendizado violinístico não eram decorrentes da perda do prazer de tocar ou de vivenciar a música? Uma dificuldade técnica demonstra uma também dificuldade de coordenação dos movimentos necessários à realização daquela passagem musical. Movimentos descoordenados são movimentos desprovidos de ritmo e, para Lowen, tanto a falta de ritmo leva à falta de prazer, quanto o contrário.

Também até que ponto as exigências do mercado de trabalho, que busca cada vez mais intérpretes perfeitos técnica e expressivamente, não estaria influenciando na ocorrência cada vez maior do adoecimento muscular entre os músicos? Tocar é um ato criativo. A música é tão cheia de padrões rítmicos complexos quanto nós. Ter uma excelência na performance é saber traduzir esses padrões corporalmente, mas como traduzi-los se não os sentimos? Se estamos, muitas vezes, mais preocupados com a destreza técnica similar à da máquina do que com a prazerosa sensação corporal trazida pela música. Para Lowen (1984), se ignorarmos as sensações de prazer, podemos acabar nos movendo disritmicamente, o que é extremamente problemático em uma execução musical.

De qualquer forma, o que pude concluir desta sessão do questionário, é que esses indivíduos participantes desta pesquisa se encontravam tão cheios de tensões que não poderiam estar sentindo todo o prazer que pode ser proporcionado pela música. E como o nível de tensão do indivíduo está também diretamente ligado ao seu prazer na vida e, portanto, à sua vitalidade, a quarta sessão deste questionário pôde me dar uma noção de como estava, em cada um dos participantes, o seu nível de energia vital e de contato consigo mesmo.