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M ARKEDSORIENTERING

DEL 2 TEORI

2.9 M ARKEDSORIENTERING

Ao longo da vida, vamos suprimindo muitos dos nossos sentimentos para que possamos nos adequar ao meio em que vivemos, seja ele familiar, social ou profissional. Aprendemos a conter nossas expressões de raiva, de medo, de tristeza ou até de alegria, se pensarmos que elas não estão condizentes com o ambiente ou com o momento em que nos encontramos. Em conseqüência, “a inibição da expressão dos sentimentos leva a uma perda dos mesmos, e esta é uma perda da vitalidade. Os sentimentos são a vida do corpo assim como os pensamentos, a vida da mente.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 131)

É preciso, então, aprender a entrar em contato com os sentimentos, a lidar com eles e a expressá-los de maneira adequada. De acordo com o casal Lowen,

o trabalho com a expressão de sentimentos, em terapia, numa aula de exercícios ou em casa, ajuda as pessoas a entrarem em contato com parte dos sentimentos suprimidos de sua personalidade. [...] Expressar sentimentos num contexto controlado ou numa aula de exercícios, em geral, descarrega muito da excitação, de modo que o sentimento pode ser mantido dentro de limites adequados (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 131-132).

Isso significa que expressar os sentimentos através de exercícios faz com que o indivíduo aprenda a adquirir um controle consciente dessa expressão. Essa será então, por exemplo, diferente de uma explosão histérica, já que esta ocorre à revelia da vontade do indivíduo e demonstra, por parte deste, uma falta de autoconhecimento Como afirmam os Lowen,

o autoconhecimento denota uma habilidade de responder apropriadamente a uma situação. [...] Quando agir e quando falar são tão críticos quanto o que se faz ou diz. Alguns reagem depressa demais; são impulsivos e têm falta de refreamentos conscientes que caracterizam uma pessoa com autoconhecimento. Outros reagem devagar demais, geralmente muito depois da situação ter passado. Estabilidade implica em perceber bem a oportunidade. [...] Estabilidade, pois, é sinônimo de autoconhecimento, a sutil coordenação entre sentir e agir, entre movimentos involuntários ou espontâneos e voluntários ou deliberados, entre o ego e o corpo (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 58).

Assim, na Bioenergética, os exercícios expressivos “servem para ajudar as pessoas a expressar seus sentimentos, enquanto os exercícios-padrão concentram-se no contato com o corpo e no relaxamento de suas tensões, sem liberação emocional concomitante” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 131). Mas muitos dos exercícios-padrão podem funcionar como exercícios expressivos desde que a eles seja adicionada uma colocação verbal que esteja apropriada aos seus movimentos. Essa colocação verbal é chamada por Bezerra (2003) de consígnia.

De acordo com esse autor, o uso dessas colocações é um aspecto inovador da Bioenergética. Elas poderiam ser definidas como sentenças que estariam presentes em toda a execução de um exercício e

são propostas de acordo com a queixa, estrutura e a estratégia do caráter presente no momento psicoterapêutico, objetivando tornar conscientes sensações e percepções corporais que vieram à tona [...]. As consígnias ajudam os clientes a exercitarem suas potencialidades de auto-expressão, reconhecendo e expressando suas emoções, encorajando e facilitando a comunicação de suas opiniões e sentimentos de uma forma mais consciente e espontânea (BEZERRA, 2003, p. 59).

Alguns dos exercícios-padrão utilizados nesta pesquisa funcionaram como exercícios expressivos através do uso de colocações verbais a eles adicionadas. Como exemplos, posso citar a adaptação feita para o violino do exercício 5-B e o exercício 43. O uso prático dessas expressões verbais pode também ser exemplificado pelo exercício expressivo que descreverei logo a seguir.

Vários são os exercícios expressivos descritos pelo casal Lowen em seu livro. Eles realizam ações como socar, chutar, esticar lábios e braços para alcançar algo, bater com uma raquete em um colchão ou torcer uma toalha. Todos esses exercícios têm certo grau de agressividade, pois, para os Lowen, “toda ação expressiva é um ato agressivo, no sentido de ser um ‘mover-se para fora’, em direção ao mundo, apoiado nos sentimentos ou na energia pessoal” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 146).

Exercício 73 – Espernear no colchão

Nesse exercício, o indivíduo deve deitar-se em um colchão e esticar as duas pernas sem deixar os joelhos rígidos. Levantando cada perna alternadamente e batendo-a sobre o colchão, um movimento de esperneio deve ser iniciado, aumentando-se a sua força e a sua velocidade gradualmente, mas é necessário que o indivíduo tente fazer com que o movimento parta dos quadris e não apenas dos joelhos. Para aumentar ainda mais a intensidade do movimento, os lados do colchão podem ser segurados. Porém, o indivíduo também pode, simultaneamente ao movimento das pernas, utilizar os braços no esperneio em um movimento de socar o colchão. Se o corpo torna-se completamente envolvido nesse exercício, a cabeça irá se movimentar para cima e para baixo a cada chute dado no colchão.

Segundo Lowen (1984), embora esse movimento inicie-se conscientemente, pode se tornar involuntário se uma forte carga emocional dele emergir, impregnando-o. O ato de espernear evoca o sentimento de raiva, de protesto, ou outros a eles relacionados. Assim, o indivíduo, através desse movimento, deve procurar se expressar dizendo um “não” a cada batida ou um “não” prolongado enquanto esperneia várias vezes. A expressão “por quê?” também pode ser utilizada como consígnia desse exercício.

Dos vários exercícios expressivos da Bioenergética, esse foi o único utilizado pelos participantes da pesquisa em momentos em que esses precisavam entrar mais em contato consigo mesmos, deixando vir à tona os seus sentimentos110. Segundo Alexander e Leslie Lowen, esse exercício ajuda a pessoa “a avaliar seu grau de auto-expressão e autoconhecimento. [...] Além do mais, envolve a parte inferior do corpo, que em muitas pessoas é passiva.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 59).