3.4.2.1. Communal ethos
Kofi Agawú (2007) percebe que em muitas sociedades africanas tradicionais praticamente todo domínio de performance é pensado de modo inclusivo e não ao contrário. Esse sentimento foi chamado por Agawú, entre outros autores, de ―communal ethos”. Pensa-
se numa irredutível e plural existência social e é aplicável a todos os modos pertinentes de expressão, quer seja de ordem espiritual ou física.
É perceptível um senso de coletividade em vários aspectos da vida cotidiana de seu
Geraldo e família. Só para ilustrar, vemos que na agricultura familiar, é comum os filhos colaborarem com a plantação do pai, ou ao contrário, serem ajudados por esse, nos períodos de plantio e colheita. Gesto recíproco que se estende a outros membros da comunidade no
entorno do referido ambiente familiar. Várias pessoas em Cabeceira são beneficiadas com doações de alimentos produzidos pela família Cosme.
Tomando por base o zambê, percebe-se que o processo de performance desse fenômeno musical implica uma ação conjunta, dada sob diversos aspectos, dos quais podemos assegurar que o canto responsorial é eminentemente coletivo; a dança soma características individuais à estruturas mais amplas de coletividade; os músicos referem-se com cumplicidade e respeito mútuo, entre si e a seus instrumentos. Percebe-se, portanto, que o senso coletivo e de interdependência dos elementos do zambê são considerados (internamente) intrínsecos a essas estruturas. Muito embora possa ser permitida a eliminação ou substituição (ainda que circunstancial) de algum dos elementos em voga no zambê como, por exemplo, a ausência da dança, o que permanece é tratado como passível de corporação e comunhão. Assim, a cada situação de performance, os brincantes fazem das partes que dispõem, o seu communal ethos.
No decorrer da pesquisa, foi-me bastante revelador perceber o quão é importante, para os músicos em questão, cada instrumento do zambê. Pessoas de outros contextos podem equivocadamente imaginar que existe uma hierarquia ou graus de importância (superior e inferior) dentre tais elementos. Porém, em contato com membros do grupo, versaram-me sobre o desempenho definidor de cada um dos instrumentos. Vejamos na sequência alguns depoimentos que atestam o espírito de communal ethos do zambê.
A lata, elemento contemporâneo incorporado ao zambê, desfruta de igual importância fronte aos demais instrumentos. Jorge e Zé Cosme, no dia em que tocaram o zambê e a
chama, respectivamente, para que eu pudesse gravá-los, falaram da função desempenhada por
esse ―novo‖ elemento: ―Falta a lata, [...] sem ela é ruim demais! A lata é quem ‗dá o centro‘‖,
afirmou Zé Cosme124; Jorge Cosme reitera que ―tocar só o zambê não presta. Apenas o zambê
e a chama também não. Tem que ter a lata!‖ (JOSENILSON COSME DE BARROS,
2010)125. Entendi que ―dar o centro‖ é manter a base, o chão, e apoiar (a partir de suas estruturas) o ritmo do zambê como um todo.
Em dadas ocasiões em que conversei e perguntei-lhe sobre a importância dos instrumentos do zambê, seu Geraldo sempre me disse: ―tem que ter a lata! E a chama
124
Depoimento oral colhido, na residência de Damião, dia 29/06/2010. Nessa ocasião, fiz registro de áudio de cada um dos instrumentos presentes no zambê.
também. [...] e o tocador tem que saber bater, se não desmantela o ritmo e não tem mais quem
aprume‖ (GERALDO COSME, 2009; 2010)126
.
Seu João Biquinha, em depoimento a Teodora Alves (2003, p. 124), menciona que ―a chama tem que acompanhar o som do zambê. A chama mesmo tem mais som do que o tambor maior que é o zambê, ela tira um som muito alto, mas que só fica bom se tiver também o zambê e a lata‖. Segundo Agawú (2007), o fato de os indivíduos nunca estarem inadvertidos da existência e participação dos outros, quer seja familiar ou não, é um sinal de communal ethos.
3.4.2.2. Valor simbólico
No âmbito familiar de Geraldo Cosme não se percebe nenhum cuidado especial, ou individual, aos instrumentos, nem mesmo aos tambores do zambê. Ao contrário, costumeiramente a instrumentação do grupo fica ―guardada‖ em meio às ferramentas de trabalho, tipo enxadas, chibancas, pás, entre outras, na sala da casa de Djalma Cosme. Quando não, permanecem embaixo dos alpendres da casa de seu Geraldo. Por vários meses, durante o tempo em que visitei a localidade, o tambor zambê permaneceu sob o alpendre da casa do patriarca Geraldo, servindo de assento a quem chegasse. Em algumas das ocasiões em que Damião botou os tambores ao sol, com expectativa de treinos, Jefferson Cosme da Silva, 14 anos, aproveitou para secar seus tênis colocando-os sobre o zambê. Percebe-se, portanto, que esses cuidados não são dignos de um tambor símbolo de uma ―entidade‖, por exemplo. Ao contrário, tal atitude ajuda a desmistificar o caso.
De acordo com a relação que o grupo em estudo demonstra fronte aos seus instrumentos musicais, particularmente os tambores, podemos inferir que esses servem, e muito bem, para auxiliar na execução do ritmo e na consequente prática do zambê, mas nada tem a ver com questões de representação mitológica, sobrenatural, e de alusão a um Deus.
Aliás, a manifestação musical, o tipo de música e dança do zambê, no atual contexto familiar de Geraldo Cosme, não apresenta nenhuma relação com religião afro-brasileira ou outra. Dácio Galvão insinua que através das vênias e de todo o conjunto de gestos corporais feitos de fronte aos instrumentos musicais, tocadores, tirador e respondentes, estaria selado o pacto ancestral e religioso dessa dança:
O dançarino vai até o local em que se posicionam tocadores, tiradores de coco, coristas e gestualiza repetidamente uma dança viril litúrgica, aos toques dos instrumentos e cantares do tirador. Nesses momentos, canto e coreografia excedem-se para deleite de quem assiste (GALVÃO, 2004, p. 98, grifo meu).
Devido aos indícios de ―afro-brasilidade‖ no fenômeno musical do zambê, e, também, por saber-se da incidência negra naquela região, desde os momentos áureos da produção açucareira127, é tentador crer que haja, via a prática dessa brincadeira, por exemplo, alguma relação com ritos religiosos. Busquei na literatura, especialmente através de leituras ao escritor Hélio Galvão (quem mais relatou literariamente, e em detalhes, sobre o município de Tibau do Sul), e em convívio com a comunidade, saber da existência de possíveis cultos afrodiaspóricos no entorno de Cabeceira, porém não há rumores de nenhuma dessas práticas subsistindo naquela localidade. O que não assegura sua inexistência de fato, apenas nada foi pormenorizado a esse respeito. O próprio Geraldo Cosme demonstra preconceito aos cultos afro-brasileiros e também ao protestantismo. Faz exceção apenas ao catolicismo.