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3.3 Metode

Outra manifestação da refutação no corpus aponta para uma estrutura em que algum elemento está implícito. A identificação, nesse caso, é possível por meio das pistas deixadas no cotexto e das inferências feitas pelo leitor com o objetivo de identificar e compreender aquilo que o autor deixa nas entrelinhas, ou seja, aquilo que não está explícito na superfície do texto.

É por meio de informações explícitas e implícitas que atribuímos sentido ao texto. Ao ler, recuperamos as informações implícitas fazendo inferências, ou seja, identificamos o sentido a partir de deduções, tirando conclusões com base no nosso conhecimento prévio e nas correlações engendradas que se dão pelas articulações possíveis depreendidas em função das marcas linguísticas e da situação comunicativa.

No que diz respeito à asserção prévia, é necessário verificar as condições que permitem identificá-la quando esta não se encontra na superfície textual. Uma dessas condições é que a asserção, embora ausente, seja passível de identificação, uma vez que pode ser deduzida a partir do co(n)texto. No caso do discurso acadêmico, mais precisamente da introdução de teses de doutorado, a identificação da asserção, na maioria das vezes, não gera grandes dificuldades porque há um grande investimento por parte do autor na construção do

107 objeto de estudo, construção que se dá de forma gradativa ao longo do texto, com idas e vindas sobre o tema e, por isso mesmo, havendo referência, de alguma forma, ao conteúdo alvo da refutação.

Embora seja bastante recorrente, no discurso acadêmico, a explicitação da asserção que será recusada, observamos que em alguns casos ela pode estar implícita, como ocorre em (08).

(08) Asserção

prévia Implícita

Recusa A prática pedagógica em sala de aula do PBA-CG (incluindo materiais didáticos) não reflete nem os objetivos e nem a avaliação do Programa Brasil Alfabetizado [...]

Justificativa [...] levando em conta o processo de formação do professor, os materiais disponibilizados, a prática didático pedagógica e os mecanismos avaliativos do PBA. (IT11A11)

Todavia, por meio de inferências, é possível identificá-la. O próprio enunciado que antecede a negação – “O Programa Brasil Alfabetizado (doravante PBA) foi criado com o objetivo de acabar com o analfabetismo” – já deixa claro o objetivo geral do programa, que, por sua vez, se desdobra em objetivos específicos. Há, também, o conhecimento de que os programas criados pelo Ministério da Educação e Cultura, além dos objetivos, apresentam, regularmente, mecanismos de avaliação para verificar sua eficácia em resolver ou minimizar graves problemas da educação pública. De forma geral, identificamos elementos cotextuais e contextuais que possibilitam inferir a asserção foco da negação, a qual pode ser assim parafraseada: a prática pedagógica em sala de aula reflete os objetivos e a avaliação do Programa Brasil Alfabetizado.

Os estudos de Ducrot (1981), em colaboração com Barbault, chamam a atenção para a função contrastiva da negação, uma vez que os estudiosos observaram que sempre que se negava algo, antes disso, já havia referência ao assunto alvo da negação, o que não ocorria com as frases positivas, ou seja, não havia, necessariamente, referência ao assunto antes dessas frases. Ducrot (1987) assevera que muitos dos enunciados negativos põem em confronto duas atitudes antagônicas e propõe uma lei de discurso geral que explica esse antagonismo, uma vez que todo dito, do ponto de vista de uma proposição, pode ser contradito.

108 (09) Asserção

prévia

Implícita

Recusa O tema da nossa investigação é o fenômeno da compreensão responsiva ativa [...] fenômeno que, a nosso ver, necessita aprofundamento [...]. Justificativa [...] que torne possível uma compreensão ainda maior, de modo a

contribuir para o aparelho analítico disponível na Análise de Discurso. (IT04A14)

A recusa se dá por meio do léxico; neste caso, pela expressão necessita

aprofundamento, que argumenta que as discussões em torno do fenômeno da compreensão responsiva ativa não são aprofundadas, ou seja, são superficiais. A asserção que é negada, a exemplo de (08), também implícita e inferível a partir do co(n)texto, pode ser assim parafraseada: o tema do fenômeno da compreensão responsiva ativa já foi investigado.

Além dos elementos já identificados (asserção prévia, recusa e justificativa), observamos que a refutação manifestada nas introduções de teses analisadas nesta pesquisa se constrói, quase sempre, de forma gradual, com elementos que dialogam na tessitura do texto e que aqui denominamos de encadeadores e ratificadores. São, também, esses elementos que, articulados, ajudam a atribuir sentido e a configurar o ato de refutação. Nesse sentido, é possível identificar um fio condutor com elementos encadeadores e ratificadores, responsáveis, igualmente, por atribuir sentido ao posicionamento desencadeado. Esses elementos são discutidos na próxima seção (5.1.2).

Antes disso, porém, retomamos alguns aspectos relacionados às funções da asserção prévia, da recusa e da justificativa, já mencionados na parte final da seção 3.2, bem como acrescentamos algumas considerações acerca dos elementos encadeadores e ratificadores, na tentativa de esclarecer o papel desses elementos na estrutura composicional da refutação. Assim, sob uma perspectiva enunciativa, temos os seguintes elementos:

1. Asserção prévia: consiste no reconhecimento de um conteúdo p, manifestado por meio de uma proposição afirmativa ou negativa, passível de ser verdadeira ou falsa, enunciada previamente e alvo da contraposição que se instaura, na tentativa de se estabelecer uma nova visão acerca de determinado conhecimento;

2. Recusa: diz respeito à manifestação de um posicionamento contrário, oposto a determinada proposição;

3. Justificativa: refere-se ao ato ou efeito de apresentar razões para explicar e/ou confirmar determinada asserção, apresentar fundamento para determinado posicionamento;

109 4. Elementos encadeadores: dizem respeito a menções relacionadas diretamente ao tema,

ao objeto de estudo, que se deixam flagrar na superfície do texto e que são anteriores à asserção prévia e à recusa, funcionando como elementos interligados, cujo objetivo é auxiliar na configuração de um posicionamento que se materializa mais adiante no texto/discurso;

5. Elementos ratificadores: referem-se aos elementos posteriores à asserção prévia, à recusa e à justificativa e têm como objetivo reafirmar o posicionamento assumido no texto/discurso.

Na verdade, a construção do objeto de estudo, que, neste caso, se dá no capítulo introdutório da tese de doutorado, requer, muitas vezes, esse exercício constante de afirmação/reafirmação. Nesse sentido, é possível identificar essas menções recorrentes ao longo do texto/discurso, uma vez que, para muitos autores, não basta justificar a recusa diante de um conhecimento já estabelecido, é necessário reafirmá-la em um jogo argumentativo que se constrói em toda a tessitura do texto.