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3.6 Litteraturliste
Observamos, no material analisado, uma grande teia de relações que envolve todo o texto. Também verificamos que os elementos que constituem a refutação nem sempre se apresentam de maneira linear e sequencial, de forma que é possível observar os referidos elementos dispersos no texto, às vezes, de forma difusa e nem sempre ocupando uma única função, seja ela de asseverar algo, seja de contrapor ou justificar. Acontece em muitos dos dados analisados de um mesmo enunciado poder representar, em uma sequência, um desses elementos constitutivos e, na sequência seguinte, ocupar outra função. Exemplos disso podem ser vistos em (12), analisado anteriormente, e em (16), que será analisado mais adiante. Em (12), a recusa, como estratégia concessiva, pode ser desmembrada em asserção prévia e
116 recusa. Assim, temos: “[...] o quadro de funções discursivas apresentadas pelos trabalhos da área, ainda que dê conta dos tipos de função encontrados em gêneros literários e jornalísticos” (asserção); “não recobre certas nuanças de gêneros como, por exemplo, o anúncio” (recusa). Em uma análise inicial de (16), podemos identificar uma recusa no excerto “O que fica evidente é que o Brasil não teve, de fato – há raras exceções – criações de HQ genuinamente nacionais no início desse mercado no país”, seguida da justificativa “É certo que houve tentativas, mas os quadrinhistas nacionais não tiveram incentivos que fortalecessem e ampliassem seu trabalho”. Contudo, a parte que antes identificamos como justificativa pode assumir as funções de asserção prévia e recusa, também compreendida como uma estratégia concessiva, mostrando, ainda, a ocorrência de estruturas sobrepostas.
Essa fluidez entre elementos é bastante recorrente porque há uma preocupação constante em desenvolver uma argumentação que, de fato, mostre a relevância e a necessidade da pesquisa, e que também promova a adesão do interlocutor ao dito. É necessário que o interlocutor, que não mantém uma interlocução concomitante com o locutor – já que, no momento da escrita, está ausente –, se posicione favorável ao ponto de vista defendido ao ler o texto. Apesar de o interlocutor não estar presente no momento da escrita, ele é, a todo tempo, considerado, tanto no sentido de deixar o texto claro e acessível como também no sentido de envolvê-lo a ponto de persuadi-lo, levando-o a conceber um novo posicionamento diante de um determinado assunto. É uma nova visão que se lhe apresenta e que se deseja estabelecer na área de estudo.
Ao contrário do que ocorre com a conversa, na qual há turnos alternados de fala, os quais possibilitam aos interlocutores argumentar e contra-argumentar, além de permitir interrupções constantes para explicações, retificações, entre outros, na escrita, esses procedimentos não são possíveis. No caso da introdução de tese de doutorado, outros aspectos envolvendo tal escrita devem ser retomados para auxiliarem na discussão do fenômeno da refutação. O primeiro aspecto abordado trata da estrutura composicional da refutação. O papel desempenhado pelo capítulo introdutório, já que lhe cabe estabelecer o objeto de estudo com tema, delimitação e objetivos, entre outros, confere à refutação grande relevância. É neste momento que já se vislumbra algo original, exigência da tese de doutorado.
Além disso, o ato de refutar não pode ser compreendido apenas da perspectiva de um enunciado flagrado de forma pontual na superfície do texto cuja composição inclui uma asserção prévia, uma recusa e uma justificativa. A construção de sentido da refutação vai além desse enunciado, ela se dá no percurso que a antecede e a sucede, de forma que em todo o
117 discurso podemos identificar pistas indicativas de um ponto de vista que se constrói e que se manifesta de forma mais explícita em determinado ponto da materialidade linguística.
O ato ilocutório de refutação visa à transformação da realidade, no sentido de alterar um estado de coisas estabelecido anteriormente. Para Ducrot (1987), tal transformação é de natureza jurídica, uma vez que coloca em jogo uma mudança nas relações legais entre os interlocutores. Há uma pretensão do locutor de mudar um posicionamento. Nessa perspectiva, a recusa manifestada pelo locutor objetiva operar uma mudança no interlocutor quanto ao conhecimento previamente estabelecido, ou seja, o locutor busca promover uma mudança na forma como o interlocutor concebe determinado conhecimento. Com isso, seu objetivo é persuadir o interlocutor para que este perceba e aceite o conhecimento sob nova perspectiva, negando-o total parcialmente. Dessa forma, opera-se uma mudança de crença entre o que se tinha e o que se pretende estabelecer como nova verdade ou como uma ampliação ou reformulação de um conhecimento antes estabelecido.
Argumentar é se inscrever em um campo e ir contra um outro campo. Isso é interessante na perspectiva da refutação, já que, segundo Ducrot (1987, p. 202), há uma lei de discurso geral, segundo a qual, “[...] toda vez que se diz algo, imagina-se alguém que pensaria o contrário e ao qual se se opõe”. A refutação implica um falar contra, o discurso de oposição configura um discurso de refutação.
Na próxima seção, analisamos as marcas linguísticas indicativas de recusa.
5.2 Marcas linguísticas indicativas de recusa
A segunda questão que levantamos nesta pesquisa é a seguinte: quais marcas linguísticas instauradoras da ideia de recusa, de oposição, são possíveis de identificação no
corpus analisado? Diante dessa questão, propomos, como segundo objetivo, verificar, no discurso analisado, as marcas linguísticas responsáveis por instaurar a ideia de recusa, de oposição, as quais ajudam a configurar a refutação no discurso acadêmico da área de linguística. A hipótese levantada é a de que, embora seja possível identificar, com certa frequência, o uso do advérbio não como marca linguística instauradora de recusa à asserção prévia, outras formas linguísticas emergem dos enunciados, responsáveis, igualmente, por instaurar, no discurso, a recusa.
Para a discussão das marcas de oposição, retomamos, nas próximas seções, a negação (5.2.1), a concessão (5.2.2) e o léxico (5.2.3).
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5.2.1 A negação
A negação constitui um dos principais marcadores de refutação. Conforme já mencionamos, em seus estudos sobre a negação, Ducrot (1981) assinala que, muito frequentemente, uma enunciação negativa se apresenta como oposta a uma afirmação prévia, de forma que “[...] esta tenha sido efetivamente emitida pelo destinatário, ou que se lhe atribua ou que se suspeite que ela a subscreve”. (DUCROT, 1981, p. 95). O estudo sistemático do emprego da negação em um manual de geografia pelo grupo de pesquisa de Ducrot mostrou que a negação tinha uma função contrastiva, ou seja, quando se negava algo, antes disso, havia referência ao assunto em questão.
A negação, nessa perspectiva, implica algo já dito anteriormente, de forma que não se pode negar algo que não foi antes asseverado. Antes de negar, há referência ao assunto alvo da negação, seja de forma explícita, seja de forma implícita, de acordo com as pistas deixadas no texto.
Os exemplos (14), (15) e (16) mostram a ocorrência da negação com o uso do advérbio não. Entretanto, é frequente a filiação de outras marcas linguísticas como auxiliares no exercício da negação, uma vez que a língua dispõe de muitos recursos linguísticos para manifestação da negação, seja ela do ponto de vista semântico, seja do ponto de vista formal ou de ambos. Enquanto em (14) a expressão ainda não é responsável pela recusa, em (15) temos e não, que equivale à expressão mas não, também responsável por indicar oposição. Em (16), o uso do não indica posição contrária, embora a sequência seguinte possa manifestar outras possibilidades, vista sob a perspectiva concessiva, o que será discutido em outra seção.
Vejamos a negação nos exemplos (14), (15) e (16), respectivamente.
(14) Este trabalho parte da análise de textos reais com o auxílio teórico-metodológico da Linguística Sistêmico-Funcional, para descrever o funcionamento de um clítico complexo da Língua Portuguesa que tem sido objeto de muitos estudos como os mencionados. Dentre eles, ainda não foi encontrado nenhum baseado em uma análise minuciosa de textos produzidos em situação real de comunicação, com o uso de ferramentas computacionais e de metodologia qualitativa da Linguística Sistêmico- Funcional. (IT73A13)
Observamos que, em (14), a exemplo do que acontece com outros enunciados, a negação se inscreve em um movimento para apresentar uma retificação – nesse caso, acerca dos estudos da descrição do funcionamento do clítico. Com isso, o autor busca estabelecer o
119 que é, do seu ponto de vista, a verdade. A expressão ainda não e o termo nenhum servem para negar a existência de pesquisas que tratem da temática específica citada.
(15) É curioso observar que, nesse processo, “a lógica da produtividade é a lógica da repetição, e não da criação, da novidade. Como resultado, temos cada vez mais cientistas e menos Ciência, sem que aqueles estejam, inclusive, muito cientes disso.” (IT13A13)
A negação manifestada em (15), asseverando que a lógica da produtividade não é a lógica da criação, não é a lógica da novidade, mas, sim, da repetição, instaura o desacordo do autor, que critica a prática acadêmico-científica atual como mecanismo de mera repetição, que visa à quantidade em detrimento da qualidade.
(16) O que fica evidente é que o Brasil não teve, de fato – há raras exceções – criações de HQ genuinamente nacionais no início desse mercado no país. É certo que houve tentativas, mas os quadrinhistas nacionais não tiveram incentivos que fortalecessem e ampliassem seu trabalho. (IT77A12)
O teor avaliativo atribuído ao enunciado (16), em virtude das escolhas linguísticas realizadas pelo autor, evidencia um posicionamento assumido cujo ponto de vista é que o Brasil não teve produções de HQ genuinamente nacionais no início desse mercado por falta de incentivos. A análise do enunciado (16), cuja negação é marcada por meio do advérbio
não, permite identificar alguns elementos linguísticos (fica evidente, de fato, genuinamente, é certo) responsáveis por mostrar que há, sim, uma crítica, há uma tomada de posição em relação ao assunto discutido. As marcas linguísticas apontadas denunciam, claramente, um ponto de vista defendido em torno da carência de HQ com identidade nacional porque não houve investimento para isso.
Conforme analisamos, duas asserções são negadas pelo interlocutor: 1. O Brasil teve criações de HQ genuinamente nacionais no início desse mercado; 2. Os quadrinhistas nacionais tiveram incentivos. Na segunda asserção, além do advérbio não, antes disso, o uso do mas já é indicativo de oposição, já caracteriza posição contrária à asserção antecedente.
A seguir, abordamos marcas indicativas de concessão, estratégia utilizada com muita frequência nos textos analisados.
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5.2.2 A concessão
A concessão é muito utilizada no exercício da refutação no discurso acadêmico porque ela opera em dois movimentos: um acordo seguido de um desacordo, com a manifestação de uma recusa parcial. Concorda-se em parte com o dito, já que, na sequência, discorda-se de algum aspecto. Há, inicialmente, um acordo prévio e, depois, um distanciamento e uma crítica. Essa postura é bastante recorrente no discurso acadêmico, haja vista que não se pode, na maioria das vezes, negar totalmente, sob o risco de cometer excessos e de ser desqualificado diante da comunidade científica. É necessário prudência com as afirmações, bem como respeito ao outro que realizou a pesquisa em contexto diferenciado. Para se negar uma teoria ou um método em sua totalidade, é preciso que se tenha certeza daquilo que se afirma, o que não constitui tarefa fácil, já que operamos muito no campo das possibilidades e, por isso, nossas afirmações são, frequentemente, relativizadas. O que parece muito certo para o cientista hoje pode não o ser amanhã, porque fatores diversos incidem sobre os objetos de estudo, porque o ser humano é subjetivo e essa subjetividade perpassa a ciência. A concessão ajuda a relativizar, a considerar, em parte, um posicionamento e, ao mesmo tempo, a indicar um problema desse posicionamento.
De forma geral, identificamos um grande número de estratégias concessivas no ato de refutar no discurso acadêmico. Na sequência, analisamos algumas dessas estratégias, iniciando com o exemplo (17).
(17) Embora o rastreamento ocular já venha sendo utilizado como paradigma experimental no estudo da influência contextual durante o acesso lexical, não existem trabalhos que se voltem deliberadamente para a análise dos fenômenos da polissemia e da homonímia a fim de favorecer a influência do contexto no acesso desse tipo de palavras e, nesse sentido, verificando se o modo de armazenamento dessas palavras se reflete no tempo de processamento da sentença. (IT10A15)
Em (17), o locutor, por meio do uso da estratégia concessiva, manifesta oposição parcial entre dois conteúdos, quais sejam: primeiro, reconhece que o rastreamento ocular já vem sendo utilizado como paradigma experimental no estudo da influência contextual durante o acesso lexical, o que, teoricamente, aponta para a conclusão de que ele deve contemplar muitos estudos em torno desse tema; contudo, invalida a conclusão anterior e expressa uma oposição parcial entre os dois conteúdos, asseverando que não existem trabalhos que se voltem deliberadamente para a análise dos fenômenos da polissemia e da homonímia. Dessa
121 forma, com o uso de embora, o locutor mobiliza uma estratégia que está à sua disposição para manifestar uma oposição parcial entre dois conteúdos veiculados pelo enunciado.
Apesar de a ideia de contrapor argumentos já estar marcada com o uso do operador argumentativo embora, a recusa à asserção prévia se dá também por meio do advérbio não. A recusa, caracterizando uma lacuna nos estudos do rastreamento ocular utilizado como paradigma experimental no estudo da influência contextual durante o acesso lexical, aponta para uma limitação nesses estudos no que diz respeito à análise dos fenômenos da polissemia e da homonímia. A negação ocorre de forma parcial, já que se indica um aspecto ainda não pesquisado acerca do tema em questão.
Outro exemplo de estratégia concessiva pode ser visto em (18).
(18) Ainda há muito material inédito entre as inúmeras páginas depositadas na Biblioteca Pública e Universitária de Genebra, mas o mais singular é que, justamente sobre linguística geral, Saussure nada publicou. Ele apenas publicou alguns trabalhos técnicos e dois trabalhos maiores, sua dissertação de mestrado, Mémoire sur le système primitif
des voyelles dans le langues indo-européennes e a tese de doutorado, De l’emploi du
génitif absolu en sanscrit. (IT37A12)
Em (18), o enunciador se filia à afirmação de que há muito material inédito na biblioteca pública da Universidade de Genebra e, portanto, concorda com tal afirmação. Contudo, expressa desacordo quanto ao fato de Saussure ter publicações sobre linguística geral. Considerado o pai da Linguística, Saussure deixou imenso legado nessa área de estudo, já que a divulgação de seus trabalhos sobre a linguagem, no início do século XX, com a definição do objeto de estudo e de um método, conferiu à Linguística o status de ciência. Os estudos de Saussure não só atribuíram autonomia à Linguística, com contribuições relevantes, como também influenciaram, decisivamente, na mudança de como até então se estudava a linguagem, uma vez que as três fases anteriores (estudo da gramática, Filologia e a gramática comparada) não davam à linguística o caráter científico.
A crítica que se faz a Saussure em (18), sob a perspectiva de uma estratégia concessiva, pode ser assim parafraseada: embora Saussure tenha vasta publicação, ele nada publicou sobre linguística geral. Como já anunciamos anteriormente, a concessão se realiza em dois movimentos argumentativos, com a manifestação de um acordo inicial que, na verdade, representa apenas uma aprovação parcial, seguido, imediatamente, por um desacordo, ou seja, há uma retificação ou refutação. Trata-se, portanto, de um procedimento contra-argumentativo.
122 O uso da concessão, como recurso para refutar parcialmente, é bastante recorrente no discurso acadêmico. Na sequência, apresentamos mais quatro exemplos – (19), (20), (21) e (22) –, os quais evidenciam essa forma de refutar no discurso em questão.
(19) Por outro lado, o nosso trabalho assume particular relevância, haja vista que, apesar de já existirem muitos estudos que descrevem a argumentatividade em diferentes gêneros discursivos, no gênero resenha acadêmico-científica, especificamente, nada ainda foi discutido com o foco na modalização e na polifonia de locutores como fenômenos que, conjuntamente, permitem materializar linguisticamente a subjetividade de um locutor em relação ao conteúdo de um enunciado. (IT15A15)
No enunciado (19), mais uma vez, há o reconhecimento de que já foram realizados muitos estudos descrevendo a argumentatividade em diferentes gêneros discursivos, todavia, complementa, discordando, parcialmente, e asseverando que o gênero resenha acadêmico-científica não se inclui entre os gêneros estudados, além de especificar também os fenômenos modalização e polifonia, os quais serão foco do estudo ora proposto. A estratégia concessiva simula, portanto, um acordo inicial, do ponto de vista de que os estudos sobre o tema argumentatividade são muitos, o que, teoricamente, aponta para a conclusão de que, por já ter sido bastante explorado, nada resta para ser investigado acerca do fenômeno. Todavia, o desacordo aparece em seguida com a afirmação de que no gênero resenha acadêmico-científica, especificamente, nada ainda foi discutido, o que possibilita a realização de uma nova pesquisa.
Em (20), temos:
(20) [...] a linguística cognitiva, referencial teórico de base para esta pesquisa, apesar de exaustivamente se preocupar com os processos metafóricos, ainda não apontou qual das variáveis: cognitiva, lexical ou contextual, a priori, tem papel decisivo no processamento metafórico, ou mesmo qual dessas restrições (ou todas elas) afeta(m) mais esse processamento. (IT44A14)
Uma análise de (20) permite identificar o uso da estratégia concessiva, com uma crítica ao fato de a linguística cognitiva, “apesar de exaustivamente se preocupar com os processos metafóricos, ainda não apontou qual das variáveis: cognitiva, lexical ou contextual, a priori, tem papel decisivo no processamento metafórico, ou mesmo qual dessas restrições (ou todas elas) afeta(m) mais esse processamento”. Há uma preocupação com os processos anafóricos, mas ainda são incipientes as pesquisas no assunto em questão. Se há uma preocupação exaustiva, então, teoricamente, já deveria ter apontado solução para o problema
123 sobre qual variável exerce papel decisivo no processamento metafórico. Há, portanto, o acordo de que há uma preocupação em desvendar os processos metafóricos, mas há também um desacordo instaurado no que diz respeito à lacuna levantada na área da linguística cognitiva.
A mesma estratégia é apresentada em (21), embora haja uma diferença no que diz respeito ao cotexto anterior que ajuda a configurar a concessão, haja vista que a pesquisa busca, por meio de um estudo de caso, analisar o imaginário de um grupo de pessoas sobre o mito de que, no Maranhão, se fala o melhor português no Brasil, com referência a estudos prévios. Observamos que, de certa forma, é possível depreender do estado da arte algumas asserções que auxiliam no estabelecimento da concessão, assim como o objetivo citado anteriormente. Entre as asserções, podemos citar: “[...] ao tratar dos preconceitos, sustenta que há estereótipos que se referem ao „bem falar‟ [...]”, “[...] ao pesquisar sobre o sotaque como marca do dialeto falado em Brasília, percebeu que os brasileiros elegeram como bom, entre outros, o dialeto do Maranhão, caracterizado pelo uso da marca de concordância verbal na segunda pessoa do singular [...]”, para citar só alguns.
(21) No entanto, os trabalhos que se referem, de alguma maneira, à questão do Maranhão como o lugar onde se fala o melhor português no Brasil, não têm por objetivo uma investigação que se proponha explicar por que o maranhense fala melhor. (IT24A14)
Em (21), partindo da asserção prévia de que já existem trabalhos que tratam da fala do maranhense – asserção que, de certa forma, se encontra diluída em parágrafos anteriores, na apresentação do estado da arte –, o uso de no entanto já denota argumento que se contrapõe à asserção prévia. Essa mesma estratégia pode ser vista em (22), com o uso do marcador argumentativo todavia, que também indica posição contrária à asserção anterior.
A recusa parcial, com o uso da estratégia concessiva, também é manifestada em (22).
(22) Há um número considerável de trabalhos sobre a referenciação e sobre os processos referenciais. Todavia, muito do que já foi estudado sobre esses processos que participam da elaboração dos sentidos dos textos versa sobre os casos de anáfora e suas retomadas aos referentes explícitos (ou não) dentro do texto.
As pesquisas sobre referenciação até agora realizadas ora estudam uma estratégia de referenciação específica, ora sugerem propostas classificatórias para orientar as análises dos processos referenciais. (IT03A13)
124 Esses marcadores concessivos se multiplicam nos textos analisados, com uma infinidade de exemplos, apontando, recorrentemente, para o uso de estratégias concessivas, as quais, por sua vez, estão ligadas à ideia de contradição. A aprovação e o acordo prévio iniciais são restritos e, na continuação do enunciado, são suspensos, sendo algum aspecto rejeitado; consequentemente, o que parecia aproximar os interlocutores termina por distanciá-los, já que