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Até hoje, Santista refere-se à Congregação como “minha religião” e se debate com a impossibilidade de ser um congregado e homossexual. Encontrou no Candomblé certo acolhimento, já que nesta religião, diferentemente da sua experiência na Congregação Cristã, não há restrições quanto à orientação sexual dos adeptos. Neste caso, era possível ser adepto e, ao mesmo tempo, homossexual.

Santista passou a descobrir os códigos “do mundo gay”, como ele dizia, e mudar-se para a cidade de São Paulo, em especial no centro da cidade, foi o caminho escolhido para experimentar-se, distante da família. Teve fortes influências de amigos, em especial o Henrique35, também nosso interlocutor, que se apresenta como pai de santo e que, no momento do trabalho de campo, era companheiro de rua de Santista, aliança que os fortalecia mutuamente. Encantou-se em conhecer a linguagem praticada no universo gay e recorda que suas primeiras aproximações com o Candomblé se deram pela linguagem que transitava entre os dois universos simbólicos. Descobrir seus significados, e apropriar-se de tal conhecimento, dava maior legitimidade nesta nova rede de relações que construía. Compartilhou alguns exemplos desta linguagem para iniciados neste circuito:

Tinzado, estou bêbado. Chanã, me dá um cigarro, papapum é revólver. Otim é bebida, quem está chapado, bebe demais. Mapoa é mulher, mas no mundo do Candomblé tem outro sentido. Vários sentidos têm em comum. Gay tem uma linguagem, a travesti já tem outra e a lésbica tem outro tipo de linguagem. Juntando tudo tem um significado só. E eu vim para São Paulo por esse motivo também, para poder me descobrir nesse mundo36.

Desde 2008, frequentou alguns terreiros de Candomblé, em especial na Zona Norte. Porém, Santista não optou pelo ritual de iniciação. As dificuldades com o transporte, com as vestimentas e com os gastos financeiros que certos rituais37demandam também são fatores que contribuem para o afastamento da prática religiosa, ainda que sua presença em alguns terreiros seja constante, em especial nos dias de festa. São espaços nos quais conhece pessoas

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Não foi possível trabalhar na reconstituição da história de vida de Henrique, apesar de responder aos critérios elencados, pois perdemos o contato com ele durante o trabalho de campo, mas suas contribuições estão referidas neste capítulo e no Capítulo 4.

36 Como refere Fernando Seffner (2012), numerosas publicações dedicam-se a mapear o vocabulário utilizado nas comunidades Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis (LGBT). Sugere a obra Aurélia, a Dicionária da Língua

Afiada, como a publicação mais densa sobre o tema.

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e compartilha uma série de símbolos e códigos comuns.

Santista avalia que, no contexto em que vive, a oferta de alimentos nas festas no Candomblé é elemento facilitador para sua participação, já que há tantos outros que o afastam da prática religiosa. De todo modo, é necessário estar dentro deste circuito para saber onde e quando ocorrerão as festas, o que tem acontecido com maior intensidade pela proximidade com seu companheiro de rua Henrique.

Encontrar formas de tomar ao menos as grandes refeições, almoço e jantar, faz parte do cotidiano de sua experiência em situação de rua. Costuma acessar o Refeitório Penaforte Mendes, receber doações de alimentos que se realizam na rua e frequentar outras bocas de rango localizadas nas mediações do centro da cidade. Deve atentar-se para os dias e horários em que as refeições são servidas, qual horário deve chegar a cada local para ocupar um lugar na fila de espera e calcular as distâncias que devem ser percorridas caminhando. Nessa situação, também é importante ter um local para guardar sua documentação e outros pertences, decidindo o que é essencial carregar consigo, o que pode ser guardado e onde38.Há uma complexa gestão a ser realizada.

Não foi possível organizar uma visita, na companhia de Santista, a alguma festa em terreiro, como ele mesmo havia proposto. Pude visitar o terreiro do pai Toninho, um dos terreiros indicados por Santista, em virtude de uma atividade prática da disciplina de pós- graduação Religiões no Brasil Contemporâneo, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humana – FFLCH/USP. As notas etnográficas desta visita estão disponibilizadas no quadro 4.

Quadro 4. Festa de Olubajé39 no terreiro do pai Toninho

A festa, um ritual público no Candomblé, está aberta à presença de não adeptos, mas nota-se facilmente quem não faz parte daquela comunidade de santo. Chegamos em grupo, acompanhados de Vagner Silva, professor responsável pela disciplina na pós e pesquisador com longo contato nesta comunidade de santo. Fomos recebidos por pai Toninho, que já nos

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O Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Proteção Social Especial de Média Complexidade), de acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, deve “promover o acesso a espaços de guarda de pertences, de higiene pessoal, de alimentação e provisão de documentação civil. Proporciona endereço institucional para utilização, como referência, do usuário” (BRASIL, 2009, p. 36), além de outras ações descritas na Tipificação. Na cidade de São Paulo, tais serviços são conhecidos pela população como bocas de rango, casas de convivência ou comunidades. Elas tiveram origem no trabalho de organizações sociais como Organização de Auxílio Fraterno (OAF), Associação Evangélica Brasileira e Comunidade Metodista. Para saber mais sobre este histórico ver Vieira et. al (1992) e Rosa (2005).

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aguardava. Casa cheia em dia de festa é motivo de orgulho! E a presença de pesquisadores também, como observou Vagner Silva (2006) em Antropólogo e sua magia, pois o pai de santo e a casa ganham prestígio ao serem estudados, e vice-versa. A aliança entre terreiro e academia é umas das questões debatidas pelo pesquisador nas transformações das tradições religiosas.

Trata-se de religião iniciática, e seus rituais envolvem segredos somente revelados para iniciados, e o ritual é repleto de significados que apenas estudiosos e adeptos poderiam explicar com maior profundidade. Desta forma, o que descreverei aqui são observações superficiais, apreensões do ritual possíveis de serem feitas com apoio de leituras e pela formação realizada por cursar a disciplina Do Afro ao Brasileiro: Religião e Cultura Nacional do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da FFLCH/ USP.

Antes de qualquer coisa, é importante dizer algo sobre este ritual: a festa. Rita Amaral, antropóloga que se dedicou a compreender com profundidade este ritual, explicou: A festa é uma das mais expressivas instituições dessa religião e sua visão de mundo, pois é

nela que se realiza, de modo paroxístico, toda a diversidade dos papéis, dos graus de poder e conhecimento a eles relacionados, as individualidades como identidades dos orixás e de “nação’, o gosto, as funções e alternativas que o grupo é capaz de reunir” (AMARAL, 2002, p. 30).

Acompanhamos parte da produção da festa, e o terreiro exalava o perfume das comidas que eram criteriosamente preparadas. Como explica Amaral (2002, p. 39), depois do sacrifício ritual e depois de limpos os bichos, “cozinham-se as carnes, separa-se o que cada orixá deseja e, no dia seguinte, são preparadas as comidas que serão servidas à assistência da festa”.

As pessoas chegavam aos poucos: adeptos, não adeptos, visitantes assíduos; alguns chegavam pela primeira vez neste terreiro e outros pela primeira vez em um ritual de Candomblé, oriundos de diferentes cantos da cidade. Nestes momentos que antecediam a festa, observava que alguns estavam no seu “pedaço”. O povo de santo trabalhava arduamente para concluir a preparação de todos os detalhes da festa.

A festa começou, ou melhor, a parte pública deste ritual teve inicio: um festival de ritmos, cores, gestos e perfumes, de beleza indescritível! Havia cadeiras dispostas para acomodar os visitantes, e era lá que nos localizávamos e assistíamos a vinda dos orixás, disparando flashes que buscavam registrar os detalhes das roupas e gestos.

A certa altura da festa, todos receberam, sem exceção, uma fartura de alimentos, no Ajeun, “refeição coletiva, compartilhada entre os deuses, os membros da casa e os convidados” (AMARAL, 2002, p. 39). Os convidados participavam ativamente da

performance, ao receber os alimentos. A pipoca, o acarajé, o arroz, o frango, etc. foram servidos na palha de mamona. Antes de jogar a palha no lixo, não poderíamos esquecer de passá-la por nosso corpo, para nos purificarmos.

A comida é um elemento essencial no universo sagrado do Candomblé. Um dos conhecimentos mais importantes consiste em saber o que cada orixá come e de que modo deve ser preparado. “A pipoca de Obaluaiê (doburu), por exemplo, deve ser estourada na areia quente e não no óleo. Quem a faz não pode falar enquanto prepara, e assim por diante" (AMARAL, 2002, p. 38).

Um aspecto interessante que observei foi a fartura de alimentos. Compartilho a reflexão de Rita Amaral. Se, por um lado, a exigência de se preparar determinadas comidas e quantidades para agradar as divindades pareça desperdício, já que implica uma série de gastos para uma população, em geral, de baixa renda,

o que se pode observar é a concentração e redistribuição dos bens durante a festa. O animal comprado com o dinheiro de clientes mais ricos e dos filhos de santo pobres (que contribuem, cada um, com uma quantia que jamais poderia comprar, sozinha, a mesma mercadoria) é comido por todos (AMARAL, 2002, p. 45).

Quando a festa caminhava para seu encerramento, tive que sair. Ao me despedir dos meus colegas, escutei, em tom de surpresa: “Mas agora você vai embora? Vai perder a melhor parte! A roda de samba, a cervejinha, as paqueras, as piadas, os comentários sobre a festa,...”. Como observou Amaral (2002, p. 55),

uma festa de candomblé só tem fim quando a outra começa a ser gestada. Até lá, servirá de assunto cotidianamente nos terreiros e entre as pessoas que dela participaram. Será avaliada quanto ao rigor ritual, quanto à fartura de comida, quanto à assistência, beleza, etiqueta, etc.