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Sendo a pesquisa de campo um processo de convivência entre pessoas, é necessário ponderar que as técnicas de “coleta de dados” não são processos mecânicos, algo a ser aplicado. Tais técnicas precisam ser acordadas entre pesquisador e colaboradores e tais negociações dependem do contexto.

As entrevistas com foco nas histórias de vida dos colaboradores aliadas à construção de percursos em campo que mostrassem seus circuitos e os múltiplos pertencimentos na cidade de São Paulo foram as estratégias adotadas em diversas pesquisas que realizamos. Partimos, assim, de uma convivência em comum: presença no Fórum de Debates sobre a População em Situação de Rua, no projeto de Moradia Provisória, em assembleias do MNPR, entre outros espaços de inserção que aconteciam em virtude do trabalho como terapeutas ocupacionais vinculadas ao Projeto Metuia/USP. Interessante notar que esses espaços eram referências para os encontros; o local da realização das entrevistas, porém, foi construído na negociação. Norteávamo-nos pela necessidade de construir um espaço de conforto e a estratégia encontrada para construí-lo foi solicitar a interlocutores e interlocutoras que sugerissem tais locais. Privacidade e silêncio, parâmetros que nos guiavam, foram compreendidos como menos importantes, em virtude de outras escolhas.

As entrevistas aconteceram em diversos espaços da cidade. Solange, por exemplo, marcava nossos encontros no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), localizado nas proximidades do Centro de Atenção Psicossocial – Caps Itapeva, pois ainda que tenha sido desligada do serviço, como veremos na reconstituição de sua trajetória no Capítulo 3, nesta região localizavam-se alguns de seus “pedaços” e circuitos. O próprio vão livre do– Masp era local de encontro com outros usuários do Caps, em especial aqueles que também haviam sido desligados do serviço. Um dos espaços eleitos para nossas entrevistas foi o Parque Trianon, local onde ela participava de atividades culturais e de lazer, como as danças circulares, e que utilizava para leitura do seu Bhagavad-Gita. Solange dizia sentir-se “em casa”, e a proximidade com a natureza era uma de suas prioridades.

A entrevista incorporava outras pessoas, amigos e frequentadores, que a própria Solange entrevistava para falar de sua história de vida. Falava-se ao mesmo tempo da dinâmica dos espaços, de seus frequentadores, daquela região e de muitos outros que compartilhavam códigos e símbolos comuns naqueles cantos da cidade.

Paulo (CCSP), espaços de referência na sua organização cotidiana. Nessas incursões, era comum encontrar conhecidos, aos quais nos apresentava e introduzia as reflexões da pesquisa; em alguns momentos, entrevistava outros colaboradores em parceria conosco. As características do CCSP propiciavam tais encontros: ali foram realizados vários debates sobre situação de rua e religião, e pude receber sugestões para pesquisar sobre organizações religiosas que se relacionavam com a população em situação de rua. Percebia que tais sugestões eram pautadas numa leitura de contexto da importância destes grupos religiosos na história das pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo, individual e coletivamente, avaliadas de forma positiva ou com críticas negativas.

Uma das reflexões de Salvador dizia respeito ao acesso a espaços culturais da cidade. Ele percebia que as pessoas em situação de rua e aquelas com quem convivia nas ocupações ligadas a movimentos de luta por moradia usufruíam pouco de equipamentos públicos culturais. A experiência do preconceito, que pudemos vivenciar conjuntamente, e o fato de não se perceberem como portadoras de direitos eram questões que avaliava como limitadoras para o acesso. Ocupar aqueles espaços era também um ato de resistência.

O CCSP, um “pedaço” nos circuitos de Salvador pela cidade, foi ponto de encontro com outros interlocutores, como Henrique, que tinha o espaço como referência para o encontro com outros jogadores de xadrez, ou Fernando, usuário fiel do acervo da Discoteca. A dinâmica que se estabelece com as pessoas em situação de rua frequentadoras do CCSP merece um estudo específico33. Pude conhecer uma série de pessoas que utilizavam este espaço para sua organização cotidiana, seja dormindo na rua, seja em albergues.

Observa-se que as entrevistas em locais significativos conduzem à partilha da experiência e, desse modo, potencializam a interlocução e o diálogo. Nos diferentes contextos em que se realizaram as entrevistas, houve, por um lado, dificuldades — como, por exemplo, as interrupções e os ruídos que prejudicaram a qualidade da gravação em áudio, situações de tensão com seguranças e policiais, entre outras. Por outro lado, por constituírem locais importantes na vida dos interlocutores, favoreceram dimensões relacionais e, também, as narrativas sobre as experiências e vivências naqueles espaços.

33Outros equipamentos culturais da cidade de São Paulo merecem atenção, como a Galeria Olido, a

Caixa Cultural São Paulo e diferentes pontos de acesso a computadores, como o Acessa São Paulo. Paugam e Giorgetti (2013) realizaram estudo sociológico sobre a presença de pessoas sem domicílio fixo (além de outros grupos sociais, considerados pelos pesquisadores, em processo de desqualificação social) em uma das mais importantes bibliotecas de Paris, localizada no Centro Georges Pompidou. Concluem que o fato de frequentarem este espaço cultural, de modo geral, é uma maneira de construir e fortalecer seus laços sociais e, desse modo, evitar o processo de desqualificação social.

As reflexões provocadas pela leitura de Geertz (2008), sobretudo o exemplo de trabalho etnográfico que realizou entre os javaneses em Bali, evidenciaram que as propostas de pesquisa entram num conjunto de significados construídos por pessoas/grupos/comunidades. O pesquisador, ao entrar em campo, é também observado e sobre ele são realizadas muitas leituras.

Ouvimos muitas críticas sobre a realização de pesquisas no universo dos adultos em situação de rua. “Como você pode saber algo sobre a rua se nunca viveu essa situação? Os pesquisadores enchem a gente de pergunta, fazem seu trabalho e depois vão embora e a gente nem sabe o que ele escreveu! Pra que serve? Não muda nada!” Essas foram reflexões que nos acompanharam (e acompanham) nesse processo de pesquisa.

Tais reflexões abordam a legitimidade de uma forma de produção de conhecimento e, muitas vezes, de pesquisas que não privilegiam a interlocução e acabam produzindo situações desconfortáveis. Resvalam nas experiências de pessoas em situação de rua com a mídia, nas quais, em muitas situações, são apenas objeto para atração de audiência. E, de fato, a expectativa dos colaboradores de que a pesquisa responda diretamente a alguma mudança concreta em suas vidas gera frustrações. Trabalha-se, assim, num campo repleto de contradições. A possibilidade de negociação favorece a superação de certas dificuldades; entretanto, a disponibilidade de compartilhar certos momentos adversos do cotidiano das pessoas em situação de rua pareceu ser um “ritual de passagem” necessário à construção da possibilidade de colaborar na pesquisa e ao estabelecimento de relações de confiança.

Ao tratar especificamente da questão da religião, uma pergunta dirigida à pesquisadora foi recorrente: qual a sua religião? Às vezes, a resposta foi decisiva para a continuidade da conversa, como no caso do Boiadeiro: “Ah, bom! Se você fosse evangélica, a conversa parava por aqui!” Em seguida, explicitou as tensões existentes entre algumas denominações evangélicas e as religiões afro-brasileiras, no seu caso, a Umbanda34.

De todo modo, a necessidade de negociação entre os interesses da pesquisadora e dos interlocutores foi constante em todas as etapas do trabalho de campo.