5. DISKUSJON
5.2. Metode
A temática da desvalorização do diploma aparece de forma clara em dois dos sujeitos entrevistados, não diretamente como uma das razões da desistência, mas, pode-se dizer, como um elemento que contribui para uma desmotivação em relação à graduação. Cabe-se esclarecer, ainda, que esse discurso aparece nas falas de Fábio e Lucas, os quais se apresentam numa condição bem colocada no mercado de trabalho. Gostariam de ter concluído a graduação, teriam um diploma, o que seria uma opção a mais de colocação profissional, sobretudo em tempos de crises, porém consideram que estão bem e melhor do que outros, graduados.
A desvalorização do diploma aparece nos relatos de Fábio quando relembra o discurso dos seus professores da educação básica:
Que eu... por causa do meu comportamento, por causa do meu jeito rebelde... brigar, aquelas bagunça não só de arte... que eu não ia ser ninguém. [...] Porque hoje... eu tenho... graças a Deus... eu não sei se foi por merecimento ou porque foi, mas eu adquiri um patrimônio, eu adquiri/ eu construí a minha vida. E essas pessoas não conseguiram. Até um desses meninos chama Fábio também, mora na rua de trás de casa, mesma questão, desde criança, mesmo endereço, e hoje ele trabalha de servente de pedreiro, eu vejo ele todo dia de bicicletinha, todo sujo. Aí eu ficava pensando: “cara, o professor não tinha razão”. A vida é feita de oportunidades, sim. Estudar, se dedicar ao estudo, com certeza, é um passo a mais. Mas eu acho que... a garra, a perseverança, você aproveitar as oportunidades que aparecem na sua vida acho que... ajuda bem mais do que eles. Estudava... era os exemplos da escola, mas não conseguiram adquirir um status na vida ainda. Não que eu tenha um status muito grande, mas comparado com o que eles falavam...
A partir da sua experiência, Fábio deixa explícita uma crítica à ideia corrente de que todos necessariamente tenham que se graduar. Reconhece a importância dos estudos, mas indica que, diante das oportunidades da vida, a garra, a perseverança podem fazer muita diferença. Em outro momento, deixa em dúvida se uma maior dedicação aos estudos teria sido compatível com as realizações que conquistara:
Então, daí eu falo: “cara, isso porque eu não estudei...”. Ainda penso ainda: “puts, será que se eu estudasse, eu teria mais? Será que meu leque de
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opções... ia melhorar a minha vida? Ou será que, se eu estudasse, eu não teria tempo de/ de fazer tudo o que eu fiz?” Então, eu ainda sou uma pessoa que eu ainda tenho essa dúvida: eu não me arrependo de ter entrado na faculdade, e também não me arrependo de não ter concluído a faculdade. Lógico que tem aquele sentimento de... de frustração, “pô”, ‘cê podia ter um diploma, ‘cê podia ter formado, ‘cê podia ter dado uma alegria a mais “pro” seu pai, pra você mesmo. Mas hoje eu penso em “formá” meus filhos, eu já não penso mais em estudar. Eu “tô” com trinta e quatro pra trinta e cinco anos - quando eu preenchi, eu acho que “tava” com trinta e quatro...
Qual o custo de uma graduação? Quanto tempo de dedicação? Observa-se que essas questões estão presentes no cálculo deste sujeito. Suas condições econômicas, de certa estabilidade, permitem-lhe encarar com naturalidade sua própria desistência e a levantar questionamentos se teria sido positiva em sua trajetória uma maior dedicação aos estudos.
Nessa direção aparecem também os relatos de Lucas, que vem de uma história escolar conturbada, passa por diferentes escolas, acumula uma repetência e, estrategicamente, muda de escola no terceiro ano do ensino médio, para não repetir de novo. Essa atitude de sobrevivência, de uso de estratégias ou da esperteza diante do sistema escolar, parece marcar sua inserção profissional e também sua passagem pela universidade. O principal motivo para entrar na universidade foi buscar um diferencial econômico, motivo este que o levou ainda a deixar um emprego público para se inserir em uma atividade no mercado imobiliário. Tem um bom aproveitamento em disciplinas chave do curso de propaganda e publicidade, como teoria da comunicação, o que inclusive o ajudou no processo de mudança de profissão e a enfrentar as demandas dessa nova atividade profissional, sobretudo a necessidade de utilizar a linguagem adequada A seus possíveis clientes. Porém, apesar desse envolvimento com o curso, Lucas faz questão de ressaltar os limites de sua dedicação: não gostava de levar trabalhos para casa, não seria capaz de abrir mão das regalias, somente com maior maturidade seria capaz de vislumbrar um enfrentamento, de realizar um sacrifício em favor da faculdade. Eu gosto de fazer e curtir um pouco também (risos), eu tenho que ter meu descanso, eu tenho que ter minha diversão. [...] então eu tinha outras prioridades também, era sair com a mulherada, ter grana para fazer as coisas. Lucas revela um estilo folgado, mas orgulhoso. Não fazia os trabalhos, mas tirava boas notas nas provas. Levou a vida escolar a partir de escolhas, com exercício de certa autonomia; um percurso, no entanto, insuficiente para garantir a permanência até a conclusão do curso. Satisfeito com sua atuação profissional, Lucas deixa transparecer seus questionamentos quanto ao diferencial do graduado:
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Mas, eu não me vejo diferente de ninguém que tenha um curso superior. Talvez se alguém, várias... nessa expansão imobiliária de 2008 pra 2013, em 2013 já estava caindo um pouco a marcha. Mas, até 2013 o mercado da economia ainda estava muito boa, muitas pessoas migraram para a área da corretagem, teve arquitetos, teve fisioterapeutas, teve advogados, teve engenheiros, teve profissionais de todas as áreas com curso superior; talvez até pós graduação, não sei, mas não tiveram o mesmo desempenho do que eu. Então, assim, como pessoa eu não me sinto menos do que ninguém porque eu passei por ali. Você entendeu...
Nesse depoimento são questionados, tanto o pressuposto de que há empregos para todos os graduados, como também a correlação entre bons diplomas e bons empregos. Como afirma Dubet (2012a, p. 46), há limites na correlação entre emprego e diploma, pois, em última instância, “no autoriza el silogismo según el cual, dado que los que tienen más diplomas tienen un empleo, si todos tuvieran diplomas bien calificados, entonces todos tendrían um empleo que correpondiera a esa calificación”. Devem ser considerados ainda os efeitos da massificação da escola frente aos diplomas. Conforme esclarecem Bourdieu e Champagne (1999, p. 483), a ampliação do acesso aos “[...] filhos das famílias mais pobres econômica e culturalmente aos vários graus do sistema escolar, e especialmente aos mais elevados” ocorre com uma modificação profunda no “valor econômico e simbólico dos diplomas”. Uma vez que um maior número de pessoas tem acesso a um título, ele acaba perdendo o seu valor. Desse modo, as camadas antes alijadas do sistema escolar, têm garantido o acesso a ele, e nele permanecem por longo tempo. Porém, paradoxalmente, essa conquista pode não significar ocupar um lugar diferente na hierarquia social, pois o acesso a um título pode não representar o acesso aos benefícios que dele se esperam.
A desvalorização do diploma não se dá apenas em decorrência da multiplicação dos títulos disponíveis no mercado; perversamente, ocorre ainda nas condições em que ele foi conquistado. Ou seja, pode-se tratar de um título conquistado em condições precárias de estudo, em referência ao estudante e/ou às instituições de ensino. Essas condições precárias de formação se tornam propícias para a fabricação de títulos também precários, no sentido de que seu portador pode não dominar as competências e habilidades que dele se esperam.
As limitações institucionais quanto à qualidade de ensino já apareceram em alguns relatos acima apresentados, não necessariamente em uma crítica direta às instituições, mas em algumas descrições como o fato de estudar pouco, de ter frequentado mais o bar do que a sala de aula, e, mesmo assim, não repetir em nenhuma matéria no semestre. Na trajetória de Lucas, a precariedade das condições de ensino apresenta-se como sendo o motivo
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principal de sua desistência. Satisfeito com o curso de propaganda e publicidade da IES Y, mas impaciente para realizá-lo por quatro anos, tanto na dedicação quanto nos custos, ele resolve mudar para um curso mais rápido, que custava a metade do preço e estava diretamente ligado às suas atividades profissionais. Desse modo, ele muda para o curso de tecnologia de marketing e vendas da IES X. Afirma Lucas:
Só que quando eu fui para a IES foi um choque também, só que um choque de informação, eu estava acostumado a agregar muita informação, adquirir muito conhecimento, eu tive professores realmente bons, tem muita gente que critica a IES Y, mas eu acho que tive professores muito bons e quando eu fui para a IES X eu não tive... porque eu aprendi a questionar muito, eu sempre questionei demais, eu acho que se a pessoa está ali ensinando alguma coisa, se ela não falou alguma coisa tem que ter um porquê, e tem que justificar isso, e tinha professores que eles só liam o que estava ali. “Não, mas porquê? Me dá um exemplo?” “Está escrito aqui. Você não está vendo?” Daí aquilo foi me decepcionando, eu falei... “eu vou fazer um investimento aqui”...eu fui a primeira turma de Marketing e vendas também, de repente isso pode ter sido corrigido.
Lucas tenta minimizar a sua crítica: como ele foi da primeira turma, quem sabe essas condições tenham sido melhoradas... Porém, diferentemente dos outros entrevistados, os quais também passaram por condições institucionais parecidas, sua crítica é mais direta. Perguntado sobre o que significou esse tempo para sua formação, afirma: Nada, se eu falar para você o que eu aprendi na IES, eu aprendi a jogar bilhar, tipo bar todo dia (risos). E, questionado sobre o tamanho da turma, conclui: 120 alunos, alunos para caramba e... caiu demais o padrão, eu perdi o interesse em fazer aquilo e daí eu tranquei e abandonei. Enquanto nos relatos de Amanda e Beatriz, descritos anteriormente, o ensino precário se somou às escolhas frágeis enquanto desmotivação para a permanência, no relato de Lucas as precariedades institucionais se apresentam diretamente como fator de abandono do ensino superior. As descrições de parte dos entrevistados sobre as condições precárias de ensino remetem ao contexto das condições delimitadas do acesso, discutidas no capítulo II. As camadas desfavorecidas, no caso do grupo desta pesquisa, mais da metade com uma renda familiar inferior a dois salários mínimos, chegam ao ensino superior e frequentam cursos e/ou instituições menos valorizados. Refletindo sobre essas diferenças no âmbito dos sistemas educativos em diferentes países, afirmam Dubet, Duru-Bellat e Vérétou (2012, p. 41): “A segregação dos públicos entre estabelecimentos seria o parâmetro mais claramente associado à formação das desigualdades entre os alunos”. O termo segregação é mais do que apropriado, dada a distância daquilo que se oferta institucionalmente e também as próprias condições dos alunos em poder usufruir do que lhes é oferecido.
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As condições daquilo que se oferta a esses que agora passam também a frequentar o espaço universitário parece ter um paralelo muito próximo com a ampliação do acesso na educação básica, discutida por Bourdieu e Champagne, no texto Os excluídos do interior, referindo-se à experiência francesa, e na experiência brasileira, entre outros, por Patto (1992) e Penin (1995). Em seus estudos sobre a escola pública no município de São Paulo na década de setenta do último século, Penin aponta que os portadores das condições menos favorecidas acabam não tendo acesso às escolas, mesmo públicas, que reúnem as melhores condições. A autora descreve os elementos que caracterizam as escolas em piores condições como uma infraestrutura precária e maior rotatividade de professores, com menos professores efetivos, professores em processo de remoção. Registra ainda que, entre as escolas, chega a haver diferença no tempo de estudo.
Caminhando na direção de um paralelo com as condições de ensino ofertadas para parte desse contingente das camadas desfavorecidas que hoje chega ao ensino superior, não faltam elementos para ratificar que há oferta de uma faculdade pobre para os pobres. Pobre, obviamente, nas condições de ensino que oferta: pouca infraestrutura, com grandes galpões transformados em sala de aula, salas de aula numerosas, com um tempo reduzido de aulas54. Esse contexto de precariedade também se estende aos professores, pois há um limite quanto aos professores titulados e as condições de trabalho, inclusive salariais, são pouco atrativas, provocando, além da rotatividade, uma concentração das atividades acadêmicas na função ensino, sem espaço para outras atividades, tanto de pesquisa quanto de extensão. Ressaltando a equação faculdade pobre para os pobres, Almeida (2015b, p. 3) afirma, a partir de seus estudos sobre os bolsistas do PROUNI na cidade de São Paulo,
[...] que há uma relação entre bolsistas de mais baixa renda e cursos de baixíssima qualidade. A maior parte dos estudantes, geralmente os mais pobres, com maior idade, provedores familiares, moradores de bairros mais afastados, encontra-se alocada justamente nas instituições de ensino e cursos mais destituídos de qualidade.
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Quanto às condições institucionais mais precárias quanto à oferta de ensino, obteve-se informação de que, dos cinco dias da semana, um era dedicado para as Atividades Acadêmico-Científico-Culturais, também conhecidas como atividades complementares, de participação livre para os alunos, e outro era dedicado para atividades on line. Desse modo, o aluno deve frequentar efetivamente a sala de aula três vezes por semana, tendo a cada dia uma disciplina de quatro horas/aula, sendo a última aula o desenvolvimento de um projeto que pode ser realizado com outros colegas e postado em ambiente virtual. Desse modo, os alunos acabam tendo, concretamente, três horas/aula presenciais, totalizando nove semanais. Como do ponto de vista do capital, espaço vazio significa dinheiro parado, ocorre, inclusive, uma rotatividade das turmas nas salas, de modo que um mesmo espaço físico possa atender a mais de uma turma durante a semana no mesmo período.
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Apesar desse contexto, chama a atenção nos relatos a forma como as instituições e cursos são preservados de uma crítica mais direta pelos sujeitos. Com exceção da fala de Lucas, os demais podem até relatar situações de um contexto de educação precária, mas a culpa pelo insucesso escolar acaba recaindo sobre o próprio sujeito. A fala de Amanda reflete um pouco desse contexto: É, não culpo a escola de maneira nenhuma e nem o curso em si, mas eu não me identifico com o curso de administração, técnico de administração, contabilidade não é para mim. Apesar de ter cursado um semestre, de ter frequentado mais o bar do que a sala de aula, de ter feito as provas e ser aprovada, em nenhum momento ela questiona a qualidade das aulas, e nem um possível esforço da IES no sentido de tornar o curso mais atraente. Desse modo, o que prevalece nos relatos é um elogio às IES, aos professores e àquilo que o tempo passado na faculdade significou. Respondendo à questão sobre a desistência no questionário, afirmou um sujeito: Gostaria muito de voltar, porém os acordos oferecidos ainda não cabem no meu bolso, é uma ótima instituição e muitos professores capacitados... a minha desistência é devido ao valor alto de meus débitos, gostaria de ter mais tempo para pagar. Outras falas seguem na direção de uma responsabilidade pessoal. Afirma Beatriz: depende muito do que cada um quer. Desse modo, prevalece uma força legitimadora, que reconhece a importância das instituições de ensino e coloca no plano individual os principais fatores, tanto do insucesso quanto das realizações.
Por fim, a desvalorização do diploma é um fenômeno que acompanha a ampliação do acesso. Decorre da multiplicação dos títulos, mas também da precariedade das condições de ensino. O diploma vale menos porque está inflacionado no mercado, mas também porque as condições que o geraram têm efeitos limitadores. Nesse caso, importa ainda a origem do diploma, o reconhecimento do curso e da IES que o gerou. Mais uma vez as camadas desfavorecidas, que não puderam escolher os cursos e as IES mais valorizados, são prejudicadas. Compõem ainda esse quadro as condições do estudante que, além das desvantagens culturais e econômicas, tenta conciliar as exigências do trabalho com as demandas do estudo.
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