excertos das falas transcritas dos profissionais e familiares.
Assim, pra mim, a vinda dela pra escola foi muito boa, foi mais do que o esperado... A minha filha era muito retraída na verdade, ela chorava muito, ela não se acostumava a nada, barulho, se você batesse palma perto dela, na verdade, ela se assustava, ela era bem sensível nesse sentido. Então depois que ela começou a vir pra escola as crianças... Eles aconchegaram ela bem, acolheram, na verdade, foi acolhimento, foi muito bom, todo mundo acolheu e depois que ela começou a vir pra escola ela mudou, ela é outra criança hoje. (Mãe)
A escola não é só pra criança normal ou criança deficiente, ela é um lugar certo pra criança, porque o apoio dos professores... Quando a gente vem na reunião de pais, por exemplo, a gente chega, vê o desenvolvimento da Natally, vê as atividades dela e realmente se orgulha, porque você vê que ela tá aprendendo e muito bem com os professores e é um negócio gratificante, é muito bom de ver. (Pai)
Não sei se vocês perceberam que todas as crianças gostam muito da Natally e elas procuram estar sempre onde está a Natally. É uma interação muito boa, a Natally se comunica com todas as crianças daquele jeitinho dela. (Auxiliar em educação)
Quando ela tá feliz, ela geralmente joga o bracinho pro lado, e aí a amiga entende que é pra pegar na mãozinha e geralmente ela dá um sorriso, a amiga também canta, porque nesse caso, essa outra aula fala e canta junto comigo, então elas cantam e a Natally presta bastante atenção no que a amiguinha tá fazendo, quer demonstrar, por exemplo, se ela passou um batom, se ela
trouxe uma boneca, se é dia de levar brinquedo, ela chama a atenção da amiga com o bracinho, dizendo olha, tá aqui minha boneca, tá aqui meu brinquedo, hoje é meu dia, você está me vendo aqui, então elas interagem dessa maneira, corporalmente, fisicamente dizendo. (Monitora de transporte)
Eu penso que tudo é uma questão de processo e de história, então tanto tem a história de vida individual, então de acordo com sua história de vida individual a gente vai vendo conceitos, vai vendo as coisas de forma diferente, e daí eu falo de cada profissional, então assim, dependendo daquela história de vida, do que aquela pessoa trabalhou profissionalmente quando você chega pra conversar com aquele professor ou com aquele funcionário, ele vai ter uma reação “ai tadinha dessa criança”, mas você tem que entender aquilo, não fazer um juízo de valor, mas entender que dentro daquela história ele apresentou, da mesma forma acontece com as instituições, elas acabam tendo histórias e construindo histórias que às vezes numa instituição que nem aqui [na escola], a inclusão acaba acontecendo de um jeito super tranquilo, de repente uma construção histórica que foi diferente e daí para aquela escola é mais difícil isso estar acontecendo, isso estar sendo entendido, e daí pensando nisso, eu penso que é uma questão de processo mesmo, e esse processo eu nunca penso eu sozinha, sempre quando algo está difícil eu acho muito legal ter equipe, porque daí você tem outros profissionais, tem assistente social, a fono, a psico, outros profissionais que vem compor e vem fazer a diferença que você troca, que às vezes você vai numa escola, você não vai ter uma ação isolada [...] (Terapeuta ocupacional)
Olha, eu acho que assim, eu falo pro coordenador que eu estou construindo a minha prática, porque a minha prática era de uma escola especial e agora eu tô construindo uma prática de AEE [...] As crianças pequenininhas, os deficientes, os AEE, o NEE, o aluno com necessidades, ele participando, eu acho que assim o que a gente tem que fazer é apurar o olhar e ver realmente a necessidade do aluno e tentar ajudar esse aluno o máximo possível para que ele adquira autonomia e que ele consiga caminhar com os amigos e auxiliar a professora no que for possível, porque também assim, eu acho que a gente não tem receita mágica e é no dia a dia que eu vou conhecendo ela, que eu vou vendo a necessidade dela, e que eu vou tentando ajudá- la, não tem nada pronto, quer dizer, é na discussão com [a professora] que a gente vê, ela chega pra mim e fala: olha eu queria dar tal atividade pra Natally, aí eu falo pra ela, então vamos tentar, vamos pensar, ou senão ela chega pra mim e fala: a gente precisa pensar como a gente vai fazer essa atividade pra Natally, então a gente vai pensar junto, porque é um desafio, todo dia é um desafio, porque uma pessoa que precisa que a gente pense estratégias pra ajudá-la e ela tem compreensão disso. (Professora do AEE)
Eu acho que os professores fazem esse trabalho com as demais crianças e para eles está sendo natural, eu acho que a inclusão
ajuda as crianças que estão chegando e são incluídas e ajuda também nas crianças que não tem problema nenhum e agora aprendem a conviver de forma tranquila, de forma normal, com essas crianças. [...] as crianças encaram de forma natural, os adultos que ficam meio receosos, dependendo da inclusão, mas as crianças encaram de forma natural. (Diretora)
Olha, logo que a Nat entrou no grupo, a gente tinha algumas crianças que não acompanharam ela do infantil 3, da turma da professora C. e aí eu comecei a dar voz pra Nat, de perguntar tudo para a Nat, então quando a Nat chegava, no momento da diversificada, onde você quer brincar, é aqui, é ali, então eu falei pra ela: você vai ter que dizer pra mim o que você quer e o que você não quer, em algum momento, de tanto eu fazer isso com ela, as crianças falavam assim: a Nat não fala, eu dizia: ela fala, a gente que vai ter que aprender a maneira com que ela vai dizer pra nós as coisas e aí isso eu fui trabalhando com as crianças e fui tanto dando voz à Nat que hoje, é um simples movimento dela e eu já entendo o que ela quer dizer e de eu dizer isso para os outros, então até com os mesmos colegas da sala, no ano passado gente não usava o parque e areia que a gente usa esse ano, a gente usava o parque de cima que não tem areia e ai, tem uma balança adaptada então a gente já diz, é a balança da Nat e em nenhum momento ela quis usar a balança adaptada, ela queria ir pra balança que os colegas usam, que é a balança do pneu, então se a maioria dos colegas estava no escorregador, então eu falava: Nat, você quer ir pro escorregador e ela dizia “sim”, então eu tirava ela da cadeira e eu escorregava com ela no escorregador, e aí como no espaço emborrachado a gente colocava alguns brinquedos, [...] a questão da comunicação a gente veio crescendo, além do “sim”, do “não” e aí nas atividades em si, como eu disse, a Nat não quis a balança adaptada porque ela não se vê diferente dos colegas, ela quer a mesma coisa que os colegas, então mesmo quando a atividade pra ela é diferenciada eu tenho que justificar pra ela. Então eu falo pra ela: olha Nat, a sua atividade vai ser isso, isso e isso, por isso, isso e isso, aí ela aceita. Se eu simplesmente disser a sua atividade é essa e a do colega aquela, ela já faz bico, ela começa a chorar ou ela emburra pra eu saber que ela não está satisfeita com aquilo e até mesmo isso a gente foi construindo com as atividades, porque ela adora desenhar, ela adora pintar, e aí quando chegava a hora de terminar, que a maioria do grupo terminou e a Nat tava lá e aquilo do tempo de cada um, então eu falava “tudo bem a gente vai esperar, mas a gente não pode esperar muito, então vamos lá”, e aí ela foi se acostumando, no começo quando a gente falava pronto, acabou, já é hora de terminar, aí ela já fazia o bico de choro, mas ela não chorava, então ela já fazia o bico de choro pra eu entender que ela queria permanecer naquela atividade, que ela não queria encerrar, hoje já nem tanto, hoje ela tem alguns momentos, tem, mas quando a gente faz algo que ela não quer, porque ela já sabe que a gente entende o que ela quer. (Professora)
São muitas ações, mas eu acho que o primeiro é a aceitação, dar voz a essa criança, principalmente no caso da Natally, que ela não tem a comunicação oral, então eu acho que isso é muito importante, dar voz, entende-la, esperar o tempo dela e a busca constante, porque cada criança é única, então às vezes o que dá certo com um aluno, não dá certo pra outro, então é a busca constante, a parceria, sozinha a professora realmente não consegue ter avanços nesse desafio, precisa da parceria com a gestão, com a equipe técnica. (Primeira professora)
Porque quando você me pergunta sobre aluno com deficiência, eu acho que hoje a gente já está superando isso, você não pode encarar mais aluno com deficiência porque você está falando de educação para todos, então se ele tem deficiência ou não, qual é o papel da escola, ela tem que ter estratégias diferentes para que atinja todos os alunos, em resumo, é isso. (Coordenador pedagógico)
Vencer a barreira do preconceito, até das próprias famílias das pessoas com deficiência que ainda imaginam que a segregação possa ser melhor. Eu entendo isso, na medida em que as pessoas querem proteger seus filhos, mas essa troca das crianças em escolas regulares tem sido boa pra todo mundo, eu tenho a clareza e a certeza de que a gente vai ter adultos bem diferentes porque elas convivem com essa diversidade, a gente precisa sair do discurso da importância da diversidade pra prática cotidiana que é difícil, que é custosa, que leva um investimento pra isso que não é pequeno, mas que ela é necessária pra garantir essa inclusão. (Secretaria Municipal de Educação – Entrevistada 2)