Chapter 3: Methodology
3.6 Methods – the rhythm of abductive interpretivism
As fontes mobilizadas em nossa investigação são constituídas pelos depoimentos de sujeitos vinculados ao curso de Matemática da UNIMONTES no período alvo da pesquisa e por documentos e impressos. Para tanto, prestigiamos, em nosso trabalho, a metodologia da História Oral, com a preocupação de articular e fazer dialogar o oral e o escrito.
A História Oral surgiu em meados das décadas de 1960/70, por meio de uma abordagem do “acontecimento social” sem classificações prévias, sem o objetivo de factuá- lo, ao contrário, abrindo planos discursivos de memórias várias, atentando para as tensões entre as histórias particulares e a cultura que as contextualiza, “dando voz” ao sujeito que a si mesmo constitui-se nos exercícios narrativos – explicando e dando indícios – que possibilitarão a compreensão do contexto no qual está se constituindo (GARNICA, 2004).
Segundo Amado e Ferreira (2006), nos anos 1990, a História Oral ganhou notoriedade no Brasil e experimentou importante expansão por meio da criação, em 1994, da Associação Brasileira de História Oral. As autoras argumentam que a História Oral oportuniza a interligação da pesquisa empírica de campo e a reflexão teórico-metodológica, revelando que o objeto histórico é fruto de uma elaboração, ou seja, a história é sempre construção.
As autoras esclarecem que, devido à apropriação da História Oral no desenvolvimento de pesquisas em diferentes áreas (Antropologia, Ciências Sociais, Enfermagem, História...), emergiram três posturas distintas na configuração de seu status. Na primeira, ela é considerada como uma técnica, na qual o foco são as experiências com gravações e todo o aparato que as cerca, bem como as transcrições e a conservação das entrevistas (que podem ser eventualmente utilizadas – por pesquisadores que se baseiam em fontes escritas – como fonte de informação complementar). Nesse caso, a “chamada ‘história oral’ não passa de um conjunto de procedimentos técnicos para a utilização do gravador em pesquisa e para posterior conservação das fitas” (AMADO; FERREIRA, 2006, p. xii).
Na segunda postura, a História Oral é considerada como uma disciplina, na qual os estudiosos partilham a ideia de que ela mobiliza técnicas específicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos.
A terceira postura identificada e defendida pelas autoras é a de que a História Oral se constitui em uma metodologia. Em sua argumentação, Amado e Ferreira (2006) aceitam como válidas as ideias registradas acerca da História Oral como técnica e como disciplina e esclarecem que o que diferencia sua postura das demais é que reconhecem a História Oral como algo muito mais abrangente e complexo do que uma simples técnica e que, ao contrário dos que concebem a História Oral como disciplina com objeto próprio e capacidade de gerar soluções teóricas para questões práticas, elas entendem que a História Oral – como metodologia – estabelece e ordena procedimentos de trabalho, atuando como ponte entre teoria e prática, o que não permite classificá-la simplesmente como prática. No campo teórico, a História Oral é eficaz para suscitar questões, formular perguntas, mas não para solucioná-las ou respondê-las.
Amado e Ferreira (2006, p. xxii) afirmam que a passagem da década de 1970 para a de 1980 trouxe
transformações expressivas nos diferentes campos da pesquisa histórica, revalorizando a análise qualitativa, resgatando a importância das experiências individuais, promovendo um renascimento do estudo do político e dando impulso à história cultural. Nesse novo cenário, os depoimentos, os relatos pessoais e as biografias também foram revalorizados, e muitos dos seus defeitos, relativizados. Argumentou-se em defesa da abordagem biográfica, que o relato pessoal pode assegurar a transmissão de uma experiência coletiva e constituir-se numa representação que espelha uma visão de mundo.
Nessa perspectiva, ao ouvir os relatos de nossos colaboradores, tivemos como alvo a recuperação da memória individual e coletiva, das informações sobre fatos não registrados, associando-os a eventos da vida pública e privada que nos revelam “visões” de mundo, dos lugares, da vida e da profissão. Tivemos a intenção de construir, conforme Garnica (2007, p.21-22), “enunciações em perspectiva” por meio desses relatos, tendo a clareza de que, em nosso trabalho, a História Oral constitui-se em método de pesquisa
qualitativa, permitindo-nos “trafegar por outras cercanias, ter outros interlocutores e vizinhos”.
Cumpre-nos esclarecer que há que se evitar os seguintes equívocos quando o assunto é a História Oral: considerar que os relatos resultantes de uma pesquisa que teve como base a História Oral constituem-se na própria história que se quer contar, evitando a confusão entre memória – cujo registro, a partir de captações da oralidade, gera fontes defendidas como legítimas pelos oralistas – e História – mais propriamente a Historiografia, resultado específico de uma hermenêutica disparada a partir de fontes disponíveis ou anteriormente criadas (GARNICA; FERNANDES; SILVA, 2011). Nessa perspectiva, a entrevista é uma fonte que deve ser interpretada e não considerada como uma revelação do real, da verdade.
Conforme Garnica (2010, p. 33), ao optar pela realização de uma pesquisa que tem como metodologia a História Oral, na perspectiva exercitada pelo GHOEM, o pesquisador deve atentar para uma série de posturas, quais sejam:
(a) dialogar com fontes de várias naturezas (escritas, pictóricas, fílmicas etc), ressaltadas as fontes orais; negando que a verdade – essa onírica, imaculada e sempre ausente presença que nos assombra – jaz dormente em registros escritos, implicando, com isso, a a-historicidade da fantasia, dos sonhos humanos, da memória (sempre enganadora) que se deixa captar oralmente; (b) exercitar a pluralidade de perspectivas (interpretações) a partir das quais cada tema ou objeto pode ser realçado; (c) abraçar uma proposta de configuração coletiva – no que diz respeito aos atores sociais envolvidos na pesquisa, quer como pesquisadores ou como depoentes – de um cenário amplo, descentralizado e dinâmico (intencionalmente caótico, mas com estabilidades possíveis); (d) fazer registros cuidadosos, eticamente comprometidos; (e) atentar que o domínio na elaboração de narrativas e o posicionamento/compromisso de
que tais narrativas têm a função de reconduzir o sujeito “para dentro” das
investigações, negando toda afirmação de que a objetividade científica está radicada na neutralidade do pesquisador em relação ao pesquisado; (f) afastar-se da perspectiva historiográfica positivista, o que implica fundamentalmente neutralizar concepções absolutistas que defendem a
existência de uma “História verdadeira” e a possibilidade de aproximação
congenial com os autores de textos (quaisquer que seja a natureza desses textos).
Esforçamo-nos para assumir tais posturas no empreendimento de nossa investigação por meio do uso extensivo, mas, não exclusivo de fontes orais, buscando não somente novas versões para o processo de formação de professores de Matemática na região abordada, mas também procurando contemplar novas questões nessa área – memória, passado, fonte/documento histórico – e outros/novos olhares sobre antigas questões – ética na pesquisa, relação entrevistador/entrevistado, dentre outras (SOUZA; SOUZA, 2006).
Para Meihy (2002, p. 20-21)
a necessidade da história oral se fundamenta no direito de participação social, e nesse sentido, está ligada ao direito de cidadania. Com uma vocação para tudo e para todos, a história oral respeita as diferenças e facilita a compreensão das identidades e dos processos de suas construções narrativas. Todos são personagens históricos, e o cotidiano e os grandes fatos ganham equiparação na medida em que se trançam para garantir a lógica da vida coletiva.
Baseando-nos nessa argumentação, podemos afirmar que as narrativas orais dos sujeitos ligados ao curso de Matemática da UNIMONTES são indícios de seu processo de formação (sua identidade e o processo de construção de sua vida profissional), denotando saberes vivenciais, culturais, legitimados por esses narradores39.
Galvão e Lopes (2010) alertam-nos que, embora muitos considerem a história oral como uma forma simples de fazer história, ela nos propõe problemas.
Primeiro, há a imprevisibilidade e o não controle da situação, o que requer do pesquisador disposição e habilidade de escuta. Em muitos casos, é necessário relativizar as respostas dadas pelos entrevistados. [...] Outra questão que merece ser pensada é o retalhamento da voz do sujeito, necessário à operação historiográfica. [...] Ao lado do retalhamento necessário, é preciso manter, na medida do possível, a inteireza de cada depoimento. [...] Também merece destaque o cruzamento de fontes. Ao utilizar outros documentos, o historiador corre menos o risco de
considerar as entrevistas como a “voz” daqueles que não podem falar.
Além disso, a consulta a outras fontes ajuda a formular as questões das
39 Nesse sentido, procuramos ater-nos às recomendações de Alves-Mazzotti (2003, p. 37) no sentido de não
apenas “dar voz” aos sujeitos e valorizar sua prática, não somente reproduzir suas falas sem tentar identificar regularidades, relações e categorias. Buscamos um instrumental analítico capaz de organizar e dar sentido aos dados.
entrevistas e compreender suas respostas (GALVÃO; LOPES, 2010, p. 77).
Desse modo, procuramos compreender, interpretar e articular aos seus contextos de produção os depoimentos colhidos, e fazer o mesmo com as outras fontes documentais, por meio da busca de compreendê-los, interpretá-los e articulá-los aos seus contextos de produção.
Nosso primeiro passo foi a coleta dos depoimentos. Os trabalhos construídos a partir da metodologia da História Oral estão fundamentalmente baseados na memória, entendida como uma construção erigida no presente considerando as experiências vivenciadas no passado. Nossos colaboradores foram escolhidos por terem sido alunos e, posteriormente, professores do curso de Matemática na instituição focalizada. Também foram colaboradoras de nossa pesquisa duas professoras, cofundadoras da FAFIL, o primeiro professor da primeira turma do curso de Matemática dessa instituição e uma pedagoga, também professora do curso.
Valendo-nos da História Oral como opção metodológica central e mobilizando, também, fontes escritas, constituímos uma análise narrativa em que intencionamos articular situações específicas do contexto socioeducacional, as carências e urgências que marcam a criação dos cursos superiores, as interferências políticas, os aspectos marcantes da e na formação de professores de Matemática na região.
Era nossa expectativa (a qual foi plenamente satisfeita) que o professor Juvenal Caldeira Durães – que teve atuação significativa40 no curso de Matemática e na UNIMONTES – nos indicasse outros nomes de ex-professores, ex-colegas e ex-alunos que pudessem ser nossos colaboradores.
Os primeiros contatos foram estabelecidos por telefone e/ou por e-mail. Depois, foram agendadas as entrevistas em dia, horário e local de mais conveniência para os colaboradores.
40 Até 1983, o professor Juvenal Caldeira Durães atuou como docente do curso de Matemática da
UNIMONTES, tendo exercido as funções de chefe de departamento, componente da Comissão de Vestibulares, vice-diretor e diretor do Centro de Ciências Humanas (CCH), conselheiro dos Conselhos Universitário e de Ensino Pesquisa e Extensão.
Após a realização das 15 (quinze) entrevistas (gravadas em áudio e vídeo), que totalizaram oito horas, as mesmas foram degravadas, ou seja, passaram por um processo denominado transcrição, no qual fizemos o registro bruto e o mais fidedigno possível das falas dos depoentes, preservando os vícios de linguagem e os elementos linguísticos presentes nas narrativas e no diálogo entre entrevistado e entrevistadora.
Posteriormente, foi feita a textualização da entrevista transcrita, processo que consiste na organização das ideias numa sequência lógica, omitindo-se os vícios de linguagem, as afirmações repetidas, promovendo, desse modo, a organização de um texto coerente e articulado às questões de pesquisa. Trata-se de uma construção a quatro mãos, visto que entrevistado e entrevistador analisam-na, trocam ideias, fazem supressões e acréscimos por ocasião da verificação da textualização para, ao final desse processo, ceder o direito de publicização da mesma. É possível, também, ver a textualização como um texto de autoria do pesquisador que o colaborador autoriza (ou não) como uma narrativa ou registro seu. As textualizações produzidas são intencionalmente constituídas como fontes que não estavam previamente disponíveis.
A apresentação das textualizações na íntegra, nos apêndices de nosso trabalho, oportunizará ao nosso leitor a elaboração de sua própria compreensão das histórias narradas, concordando com ou discordando de nossa compreensão e, quiçá, identificando algum elemento que tenha escapado de nossa análise.
Cuidados éticos foram tomados em relação à realização das entrevistas e os seguintes documentos/formulários foram submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): uma carta de apresentação inicial da pesquisa (Apêndice A); um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice B); um roteiro para as entrevistas (Apêndice C); uma carta para submissão das textualizações à apreciação dos depoentes para sua aprovação ou proposta de adequações, alterações, inclusões e/ou exclusões (Apêndice D); uma Carta de Cessão de Direitos dos documentos produzidos (Apêndice E) para assinatura considerando a aprovação do material apresentado, bem como autorizando a divulgação de seus nomes.
Optamos por apresentar as textualizações em forma de narrativa, na primeira pessoa, dando voz ativa ao nosso colaborador. As questões de nosso roteiro de entrevista aparecem sutilmente respondidas no decorrer do texto, possibilitando, acreditamos, uma leitura fluida do mesmo. Esclarecemos que fizemosintervenções durante as entrevistas nos momentos em que percebíamos que alguma questão do roteiro semiestruturado que elaboramos não havia sido respondida. É oportuno salientar que todos os colaboradores receberam uma pasta contendo um texto de apresentação da pesquisa, o roteiro da entrevista e duas vias do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE)41– uma para ficar em seu poder/arquivo e outra para que o termo, depois de lido e acordado, fosse assinado pelo entrevistado(a) e devolvido às pesquisadoras.
Com o intuito de direcionar nossa atenção para as décadas focalizadas no estudo (1960, 1970 e 1980), organizamos uma tabela com os nomes dos colaboradores, o ano em que haviam se formado e/ou lecionado na instituição objeto de estudo, o vínculo com a mesma e a data de realização da entrevista (Tabela 2). Essa organização se deu à medida que as entrevistas foram acontecendo, bem como pela indicação (da parte dos já entrevistados) de nomes de possíveis colaboradores. Utilizamos, ainda, como fonte de informação, currículos publicados na Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).
41
Nesse termo, o signatário declara que leu e entendeu as informações e os detalhes descritos no documento e ainda que participará na pesquisa de acordo com os procedimentos descritos no corpo do documento. Ademais, autoriza a gravação em áudio e vídeo de suas falas e a guarda de todo o material coletado para o estudo em banco de dados. Autoriza também a sua utilização na tese de doutorado resultante da pesquisa, assim como em outras pesquisas de natureza educacional. Cada entrevistado, por meio da assinatura, concorda com essas condições.
Tabela 2: Colaboradores da pesquisa NOME DO COLABORADOR ANO EM QUE SE FORMOU/ ANO EM QUE INICIOU A DOCÊNCIA NA INSTITUIÇÃO
VÍNCULO COM A INSTITUIÇÃO DATA DA
ENTREVISTA
Dilma Silveira
Mourão 1976/1979
Ex-aluna do Curso de Matemática e ex-
professora 03/12/2012
Edson Crisóstomo
dos Santos 1988/1996
Ex-aluno do Curso de Ciências com
habilitação em Matemática e atual professor 13/06/2013 Edson Guimarães 1971 Ex-aluno e um dos fundadores do curso de
Matemática da FAFIL 28/05/2013
Francisco Bastos
Gil 1968
Ex-professor e um dos fundadores do curso
de Matemática da FAFIL 03/07/2013
Isabel Rebello de
Paula 1968
Ex-diretora da FAFIL, ex-professora (do curso de História) e uma das fundadoras da FAFIL
24/01/2014 João Barbosa de
Souza 1979/1995
Ex-aluno do Curso de Matemática e atual
professor 28/05/2013
Juvenal Caldeira
Durães 1971/1972
Ex-aluno, ex-professor e um dos fundadores
do curso de Matemática da FAFIL 29/10/2012 Maria de Lourdes
Ribeiro Paixão 1968 Ex-professora 23/05/2013
Maria Isabel Magalhães de Figueiredo Sobreira (Baby Figueiredo)
1968 Ex-professora e uma das fundadoras da
FAFIL 02/07/2013
Mariza Monteiro
Guimarães 1971/1972
Ex-aluna, ex-professora e uma das fundadoras do curso de Matemática da FAFIL
28/05/2013 Ronaldo Dias
Ferreira 1992/1993
Ex-aluno do Curso de Matemática e atual
professor 20/05/2013
Rosa Terezinha
Paixão Durães 1971/1972
Ex-aluna, ex-professora e uma das fundadoras do curso de Matemática da FAFIL
28/11/2012 Rosina Rabelo
Nuzzi Ribeiro 1977/1978
Ex-aluna do Curso de Matemática e atual
professora 04/06/2013
Ruth Tolentino
Barbosa 1975/1976
Ex-aluna e ex-professora do Curso de
Matemática 03/12/2012
Sebastião Alves de
Souza 1989/1997
Ex-aluno do Curso de Ciências com
habilitação em Matemática e atual professor 21/05/2013 Wandaik
Wanderley 1971/1972
Ex-aluno, ex-professor e um dos fundadores
O processo de transcrição e textualização das quinze entrevistas realizadas42 foi bastante trabalhoso e durou cerca de dez meses. Esforçamo-nos para manter o tom de cada narrativa e para identificar o eixo que a orientava. Nas palavras de Garnica, Fernandes e Silva (2011, p. 236),
não há regras para textualizar e essa operação depende fundamentalmente da sensibilidade e do estilo de redação do pesquisador. Uma das disposições exigidas para essa dinâmica de elaborações textuais, por exemplo, é tentar manter, tanto quanto possível, o tom vital do depoente, isto é, a construção de frases nas quais se reconheça (e o próprio depoente se reconheça em) seus modos de falar.
Após esse intenso processo, as textualizações foram devolvidas aos colaboradores para que fizessem uma apreciação do texto, mantendo sua forma, acrescentando ou suprimindo informações. Esse foi outro período de negociações intensas e de incertezas sobre a anuência ou não de cada colaborador quanto à divulgação de sua narrativa.
Num primeiro momento, três de nossos entrevistados nos solicitaram que o texto ficasse consigo por alguns dias, para revisão e ajustamento na linguagem com o uso de expressões que julgavam mais apropriadas para caracterizar sua fala. Especialmente as textualizações dos professores Juvenal Caldeira Durães, Isabel Rebello de Paula e Maria Isabel (Baby) de Magalhães Figueiredo Sobreira passaram por um processo de reedição, por esses entrevistados acreditarem que o texto inicialmente apresentado poderia ser reelaborado de maneira mais próxima de seus estilos pessoais de narrativa.
Sobre isso cabe a reflexão proposta por Bourdieu (2006) acerca da ilusão biográfica43 na qual é essencial contextualizar a ação do sujeito numa “superfície social” marcada por uma pluralidade de campos em momentos distintos, ou seja, em seus relatos, nossos colaboradores tiveram a preocupação de dar sentido, de construir uma lógica
42 Foram dezesseis os entrevistados, mas os professores Edson Guimarães e Mariza Monteiro Guimarães
foram entrevistados juntos, portanto, fizemos 15 entrevistas e 15 textualizações das mesmas.
43 Conforme Bourdieu (2006, p. 184-185), “essa propensão a tornar-se ideólogo de sua própria vida,
selecionando em função de uma intenção global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões para lhes dar coerência, como as que implica a sua instituição como causas ou, com mais frequência, como fins, conta com a cumplicidade natural do biógrafo, que, a começar por suas disposições de profissional da interpretação, só pode ser levado a aceitar essa criação artificial de sentido”. (grifo do autor).
retrospectiva e prospectiva, consistente e constante sobre suas ações, constituindo relações inteligíveis para cada etapa do desenvolvimento necessário de suas histórias e de suas contribuições para a criação e o estabelecimento da instituição que veio a ser a UNIMONTES. Nesses relatos, que deixam entrever, também, uma ilusão retórica, são produzidas histórias de vida e a vida é tratada como uma história, por meio de um registro coerente de acontecimentos em sequência, com significado e direção. O nome44 de cada um desses colaboradores revela “uma identidade social constante e durável, que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis onde ele intervém como
agente, isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis” (BOURDIEU, 2006, p. 188,
grifo do autor).
Portanto, esse movimento narrativo empreendido por nossos depoentes nos leva a crer que seus relatos aproximam-se da apresentação oficial de si, ou seja, da produção de si que nos conduz a uma “pulsão narcísica socialmente reforçada” (BOURDIEU, 2006, p. 191), como sujeitos imprescindíveis àquela época, àquele lugar, àquelas funções. Esses depoimentos com mais menções a datas e fatos do que ao cotidiano e às ações dos sujeitos, reproduzidos em um discurso racional, organizado, cuidadoso, despertaram-nos para uma escuta arguta e para as possibilidades de revisão dessas trajetórias a partir de outras versões dessa história.
Três colaboradores – o professor Francisco Bastos Gil e as professoras Ruth Tolentino Barbosa e Maria Isabel (Baby) de Magalhães Sobreira – fizeram a revisão das textualizações produzidas via e-mail, dado que não residem em Montes Claros. Os outros