3. MATERIALS AND METHODS
3.2 M ETHODS
3.2.3 DNA methods
O STB fundamenta-se na cultura e na historicidade Bororo; portanto, para adentrar no conhecimento do STB, é necessário, ao menos, breves considerações sobre a origem, história de ocupação dos seus territórios, a organização social, política e econômica e, por fim, as instituições e papéis diretamente ligados à morte e aos mortos.
Os Bororo foram amplamente estudados por muitos estudiosos brasileiros e de diversas parte do mundo. Segundo Bordignon (2001) é a tribo indígena mais estudada do Brasil e uma das mais estudadas do mundo. Ainda assim, a origem deste povo é um tanto desconhecida, pois o que se sabe provém dos mitos de fundação Bororo e de hipóteses levantadas por estudiosos.
Há uma hipótese que aponta que os índios americanos migraram, há milênios, do território asiático (ENAWURÉU, 1986) e há apontamentos de que os Bororo chegaram ao território ocupado por eles, através da descida pelos vales dos rios Negro, Amazonas, Madeira, Mamoré e Guaporé, vindo a se instalar em um território, na parte central do Brasil, de aproximadamente 350.000 Km2 (ALBISETTI; VENTURELLI, 1962). “Essa área extendia-se, desde um pouco além da divisa com a Bolívia, à Oeste, até além do rio Araguaia, ao Sul de Goiás, alcançando o Triângulo Mineiro, ao Leste. Desde as cabeceiras do rio Cuiabá e rio das Mortes, ao Norte, até às dos rios Coxim e Negro, ao Sul (ENAWURÉU, 1986, p. 2). Segundo Ochoa Camargo (2001) calcula-se que a população Bororo, até o início do século XVIII, era cerca de 10.000 habitantes.
Outra fonte relativa à origem, ou melhor, ao ressurgimento15 deste povo é a lenda Bororo da inundação. Conta-se que Meríri Póro, do clã dos Páivoe, metade Tugaregue, provocou a inundação geral, pois flechou o espírito Jaccoméa. Ninguém se salvou, exceto
Meríri Póro que, agitando um tição aceso, avançou o cume de um morro coberto pelas águas.
Dali jogou no elemento líquido uma pedra abrasada no fogo, alimentado pelo seu tição, e viu que a água começou a diminuir. Jogou outras com resultado tão prodigioso que paulatinamente as águas do rio baixaram. Nisso, percebeu que a aldeia e todos os Bororo haviam sucumbidos. Ao descer do morro e depois de muito andar, Meríri Póro, avistou uma fêmea de veado, com a qual se uniu e teve filhos e filhas. Os primeiros nascidos tinham algum vestígio hereditário da mãe; porém, os últimos eram já Bororo perfeitos. Assim, Meríri Póro repovoou a aldeia Bororo e dividiu-a como antes da inundação, nos moldes tradicionais (ALBISETTI, VENTURELLI, 1969).16
Essa lenda é relevante, pois, além de narrar o ressurgimento da nação Bororo, também justifica e legitima a complexa organização clânica, que consiste em duas metades exógamas, denominadas Ecerae e Tugarege (COLBACCHINI; ALBISETTI, 1942). Os Bororo, mesmo se dividindo nestes dois clãs, também se subdividem em oito subclãs, que têm por chefe de linhagem um totem, sendo este, um animal ou uma planta (ALBISETTI; RAVAGNANI, 2009). Os membros de cada clã se diferenciam através dos nomes próprios, das penas de aves utilizadas na fabricação dos seus adereços e nos seus cantos religiosos (SCHADEN, 1959).
Segundo Colbacchini e Albisetti (1942, p. 5) são poucas as tribos indígenas que se encontram tão bem divididas ou subdivididas e governadas por costumes e leis tão particulares, como a Bororo. As duas metades possuem obrigações mútuas para com a outra, sobretudo nos casamentos e funerais, originando, assim, vínculos de parentesco e solidariedade; já que os Tugarege casam-se com Ecerae e vice-versa; bem como os funerais são preparados pelos integrantes da metade oposta.
A sociedade Bororo é matrilinear, pois a mulher é quem transmite o nome à sua descendência. Deste modo, os filhos pertencem ao clã da mãe e habitam na cabana do clã materno e quando os homens se casam vão para a cabana de sua mulher. Os casamentos seguem regras bem definidas de exogamia, sendo vetadas as relações sexuais entre os membros da mesma metade; já que os homens e mulheres devem se casar com membros da metade oposta e, de preferência, que ocorra com os subclãs pré-indicados. Antes do casamento, são proibidos conversas e gracejos entre homens e mulheres das distintas metades. São admitidos casos de bigamia, mesmo porque os heróis míticos, Baítogago ou Birimoddo, possuíam duas mulheres, bem como é admitida a prática do divórcio (SCHADEN, 1959).
A aldeia Bororo geralmente fica estabelecida em local de vegetação baixa e próximo a algum rio. Uma vez determinado o local da aldeia, esta é construída em uma disposição
circular, sendo que as choupanas são erguidas baseadas, criteriosamente, na divisão da tribo. Assim, do lado leste ficam os Tugarege e, ao oeste, os Ecerae (ALBISETTI; RAVAGNANI, 2009).
Embora convencionou-se chamar esta etnia de Bororo, na verdade, eles se autodenominavam de Boe. Segundo os autores Colbacchini e Albisetti (1942, p. 22),
Bororo é o nome de um herói dos tempos passados e significa também pátio, praça, largo da aldeia. Parece, como nos contaram velhos índios, que os primeiros civilizados, ao chegarem à aldeia, tentaram entrar nas malocas. Os aborígines, não o querendo, colocara-se à porta e, indicando o terreiro, pátio ou largo que existe sempre em seus acampamentos, gritaram: “Ka ba boeba? ... boróro ... boróro”, o que quer dizer: “que quereis? ... na praça ... ide lá, na praça”. Com a repetição da palavra Bororo, os brancos entenderam ou interpretaram que os índios quisessem dizer que se chamavam assim. E, deste modo, ficou consignado o referido termo para indicar esse grupo de ameríndios que se chamavam “boe” ou “orari”.
O bororo, cuja tradição equivaleria ao pátio central, fica localizado na região central do círculo formado pelas choupanas e consiste em um espaço social comunitário destes índios. No centro da aldeia, é construído o baíto, a choupana central, também conhecida como a casa dos homens, pois abriga os homens solteiros iniciados e onde os homens casados passam grande parte do dia, dentre outras coisas, produzindo artefatos necessários para as cerimônias religiosas e diversões (arcos, flechas, ornamentos, redes de pesca etc.). As mulheres só podem adentrar ali em algumas situações, sendo que, caso rompam tal regra, são consideradas libertinas. No baíto são realizadas muitas festas, danças e rituais. Deste modo, a choupana central é considerada o centro social e religioso da tribo (ALBISETTI; RAVAGNANI, 2009; SCHADEN, 1959).
Os Bororo, antes do contato com o não-índio, eram semi-nômades e o sistema econômico desta etnia consistia na coleta de frutas silvestres, caça, pesca e possuíam pequenas roças de milho, fumo e algodão. Tais atividades ocorriam com base nos recursos ambientais e sazonalidade dos locais em que situavam as suas aldeias (ENAWURÉU, 1986).
Na sociedade Bororo, o ancião é uma figura importante e, de modo geral, respeitada, que compõe o conselho executivo da aldeia, enquanto membro permanente (BORDIGNON, 2001). Quando a visitamos, percebemos o quanto os Bororo respeitam seus anciãos. Isso é possível notar nas relações da Yasmin (2012), uma das entrevistadas, com a sua avó. A primeira contou que ela e seus irmãos tiveram vários ensinamentos relativos à vida e à cultura Bororo com a avó, a qual todos os familiares respeitavam muito. Pois, segundo a depoente, “ela era sábia! Nossa, meu Deus, Ninguém fazia uma coisa sem a palavra dela! Nunca falou uma coisa sem saber. Tudo que ela falava para mim foi justamente nesse caminho que eu
estou pisando. A minha família nunca se perdeu porque ela sempre contou as histórias dos nossos antepassados até hoje”.
- O contato interétnico entre os Bororo e os “civilizados”
A organização social, política e econômica e parte da história do povo Bororo foi marcada e influenciada pelo contato interétnico com os “civilizados”. O contato dos Bororo com a sociedade ocidental iniciou-se, no século XVII, com os bandeirantes (busca por ouro). No século XIX, houve a tentativa de “pacificação” dos Bororo do Rio São Lourenço por militares e “a pacificação” dos Bororo dos rios Garças e Araguaia, por salesianos (RIBEIRO, 1986; AGUILERA, 2001).
Os portugueses, no século XVIII, tinham interesse em explorar ouro na colônia brasileira, sendo que, para isso, organizaram as bandeiras, as quais se embrenhavam na mata com o objetivo de obter o ouro aluvional das terras habitadas, pelas diversas etnias indígenas, dentre elas, as terras habitadas pelos Bororo (VIERTLER, 1990).
O primeiro contato entre os Bororo e “civilizados” ocorreu em 1719, com a chegada dos bandeirantes em busca de ouro no rio Coxipó (LÉVI-STRAUSS, 1996). Essa expansão dos bandeirantes foi o disparador de inúmeros ataques mútuos que resultaram em várias mortes de civilizados e Bororo.
Segundo Viertler (1990), na última metade do século XVIII e primeira metade do século XIX, houve também a intensificação e expansão do capitalismo, que serviu de pano de fundo no contato interétnico, pois foi aberto um caminho que ligava Bahia e Pernambuco à Goiás, a fim de obter cavalos e gado, bem como foi criada a província de Mato Grosso.
Neste período, os Bororo tiveram inúmeros conflitos gerando diversas baixas entre os “civilizados”; porém, os indígenas levaram a pior parte, já que os combates resultaram na diminuição significativa da população Bororo e do seu território; bem como a divisão destes em: Bororo ocidentais e Bororo orientais. Os primeiros permaneceram e foram exterminados nas tentativas de combater as invasões dos bandeirantes. Já os Bororo orientais, os remanescentes desta tribo indígena, que atualmente vivem em diversas aldeias existentes no estado de Mato Grosso, se distanciaram das regiões auríferas permanecendo isolados até a metade do século XIX (ALBISETTI; VENTURELLI, 1962; VIERTLER, 1990).
O final do século XIX e início do século XX foi marcado pelo controle dos Bororo orientais através de ações intituladas de “pacificações”. Estas práticas, diferentes das primeiras ações dos “civilizados”, não tinham como objetivo a luta armada e a dizimação, mas objetivavam atrair e inserir os Bororo na cultura ocidental.
Os militares, tal como os bandeirantes, interferiram na vida Bororo; porém, estes tinham como finalidade “amansar” os Bororo. Para atingir tal objetivo, no ano de 1886, fundaram a Colônia Militar Teresa Cristina, localizada há cerca de 400 Km de Cuiabá, na margem direita do rio São Lourenço (BORDIGNON, 2001). Neste período, foi fundada também a Colônia Militar Isabel, situada na Foz do Piquiri. No comando dos militares, os Bororo não trabalhavam regularmente e recebiam mantimentos, mimos e a distribuição de pingas (VIERTLER, 1990).
Em 1890, iniciava a construção da linha telegráfica que conectaria Cuiabá à rede geral Brasileira e, de 1892 a 1898, ocorreu a ligação de Cuiabá ao Araguaia, sendo que o Tenente Cândido Mariano da Silva Rondon veio trabalhar nesta região dando continuidade a “pacificação” dos Bororo do Rio das Garças. Este aprendeu a língua Bororo, concedia-lhes alimentos e acatava as práticas sociais dos indígenas. Deste modo, tornou-se próximo de um grande líder Bororo, conhecido por Cadete, facilitando, assim, o contato com os habitantes da referida aldeia (VIERTLER, 1990).
No ano de 1895, um outro grupo passou a interferir na vida Bororo, os missionários salesianos, os quais foram convidados para auxiliar no processo de “pacificação”. Algum tempo depois, em decorrência do fracasso no projeto de pacificação militar, a Colônia de Teresa Cristina foi ofertada aos missionários salesianos, os quais tentaram fazer com que os Bororo, ali estabelecidos, trabalhassem de manhã até a noite e deixassem o hábito de consumir a bebida alcoólica. No entanto, em 1898, aponta Ribeiro (1970), que ocorreu tal incompatibilidade entre os índios e os missionários, e que toda a tribo deixou a colônia. Segundo Albisetti e Venturelli (1962) tal fato ocorreu devido às intrigas e calúnias contra os evangelizadores.
Deste modo, os salesianos foram dispensados da Colônia de Teresa Cristina e convidados a reassumi-la um ano depois; porém, negaram e foram se estabelecer nas proximidades da Linha Telegráfica que ligava Goiás à Cuiabá, às margens do rio das Mortes, Rio das Garças e Rio Sangradouro. Nesta área, tinham soldados para defendê-los, caso necessário (VIERTLER, 1990).
No ano de 1902, ocorreu a instalação da Missão Salesiana, denominada Colônia do Sagrado Coração, nas proximidades do Rio Barreiro, local muito frequentado pelos Bororo.
Em 1905, os salesianos se instalaram nos arredores do Rio Sangradouro, onde foi criada a Colônia São José. Os Bororo residentes nas missões, foram persuadidos pelos salesianos a desenvolver trabalhos agrícolas e manufatureiros do branco, recebendo bônus diários, alimentos ou objetos (VIERTLER, 1990).
BALDUS17 (1937 apud Viertler, 1990) aponta que, a partir das ações sistemáticas implantadas pelos salesianos, houve a decomposição dos clãs, a extinção do baíto e institucionalização da família composta por casais monogâmicos cristãos, nas quais o homem passou a ser o chefe da família.
Tais modificações na organização social dos Bororo, em grande parte, são consequências das alterações arquitetônicas na aldeia, com a construção de pequenas casas, onde, ao contrário das choupanas, abrigavam as várias famílias do mesmo clã e passaram a abrigar famílias nucleares. Tal prática tem uma consequência relevante, já que isso impedia que as práticas, políticas e cerimoniais fossem transmitidos aos jovens, dentre eles, o funeral (VIERTLER, 1990).
Apesar do esforço dos missionários em extinguir as práticas tradicionais dos Bororo, estes não pararam algumas delas; sobretudo, aquelas ligadas aos funerais, os quais, depois do ritual cristão, acabavam sendo liberados pelos missionários para realizar o funeral nos modos habituais (VIERTLER, 1990).
Há um nítido contraste entre os Bororo das missões, cuja organização social sofreu mudanças significativas, dos Bororo independentes ou tutelados que mantinham, ainda que relativamente, a organização social tradicional. Enquanto nas missões suprimia-se a ordem política clássica, à qual perdurava nas aldeias “pacificadas” por militares ou de Bororo independentes, a disposição destas últimas permaneciam nos moldes usuais, com grandes choupanas abrigando famílias extensas, uxorilocais e possíveis de serem aumentadas sempre que necessário. Cabe lembrar que a principal preocupação dos missionários era com os chefes tradicionais, os quais tinham interferência direta nas tradições relativas às alianças clânicas matrimoniais e à procriação. Um fator importante na dominação dos brancos sobre os Bororo se deu na subordinação dos seus chefes clânicos e xamãs, resultando, assim, em uma deterioração da organização política tradicional (VIERTLER, 1990).
A estratégia das “pacificações” de militares e missionários salesianos era fazer com que os indígenas absorvessem os costumes Ocidentais para depois serem inseridos no mundo do trabalho. Na busca de seduzi-los, eram distribuídas roupas, comidas, ferramentas, entre
outros materiais, por meio dos quais buscavam ganhar a sua estima e criar necessidades, a fim de que, paulatinamente, pudessem persuadi-los sobre a importância do hábito de trabalhar, meio este de manterem os costumes, as facilidades e necessidades recém-adquiridas dos “civilizados” (VIERTLER, 1990).
Em suma, os métodos utilizados pelos missionários foram superiores no aspecto de transformação dos indígenas em mão de obra, sendo que tais práticas quase resultaram na supressão da organização social tradicional Bororo, nas aldeias das missões. Já os Bororo tutelados gozavam de uma “relativa autonomia” na sua organização social, política e econômica, resultado do modelo ineficaz e pouco sistemático implantado pelas instituições governamentais (VIERTLER, 1990).
A “pacificação” por meio das missões e colônias militares permitiu o ingresso e dominação dos brancos nos territórios Bororo. Em ambas, o processo de dominação iniciou-se a partir de uma dependência econômica, já que os Bororo diminuíram a obtenção de alimentos por meio da caça, da pesca (trabalho dos homens) e da coleta (trabalho das mulheres) e passaram a depender dos barae para obter alimentos, através das doações ou da prestação de trabalhos.
As ações de “pacificações” dos Bororo resultaram em modificações significativas no modo de vida e desarranjos na organização social deste povo. Isso ocorrera em função das mudanças intensas e rápidas no modo de subsistência e nas relações com o meio ambiente geradas pela tentativa de integrar os indígenas na sociedade e economia nacional, ou seja, transformar os “selvagens” em “civilizados” (PINTO; GARAVELLO, 2002).
Em conclusão, a partir de 1901-1902, os Bororo do médio e alto rio São Lourenço não investem mais contra os brancos, os primeiros retidos pelas colônias militares, os últimos tentando obter objetos e ferramentas do branco, seja pela prestação de serviços nas fazendas, seja por trocas. Já os Bororo do rio das Garças, rio das Mortes e rio Araguaia estavam, definitivamente, sob o controle dos missionários salesianos (VIERTLER, 1990, p. 80).
- A criação da Sociedade de Proteção ao Índio (SPI) e Fundação Nacional do Índio (FUNAI)
Devido aos êxitos de Rondon do trato com os indígenas foi criado, em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), cujas diretrizes eram assistenciais, protecionistas e não
catequistas. Esta Instituição tinha como objetivo garantir os territórios indígenas e mediar os relacionamentos destes com os brancos (VIERTLER, 1990).
Em 1967 foi fundada a FUNAI, norteada pelos ideais de transformar rapidamente os índios em mão de obra ou na fabricação de artefatos comerciáveis. A FUNAI, ao contrário do que previa a Constituição e o Estatuto do Índio (BRASIL, 1973), não cumpriu suas obrigações de tutela aos indígenas. Na verdade, este tempo foi marcado por políticas omissas e por subterfúgios que pouco ajudaram na proteção dos índios em relação aos empreendimentos nacionais que conflitavam com os interesses dos povos indígenas (VIERTLER, 1990).
Nas últimas décadas, a população Bororo tem aumentado; porém, se comparado ao período anterior ao contato com os “civilizados”, tanto a população quanto o seu território foram significativamente reduzidos. Em 2001, os remanescentes da população Bororo sobrevivia em uma área de 140.245 hectares, inferior cerca de trezentas vezes se comparada com o território anterior à chegada do não índio (BORDIGNON, 2001).
- Crise e resistência da cultura Bororo
Ao que parece, embora houvesse nas aldeias uma maior ou menor desorganização social e uma relativa perda cultural, no decorrer do século XX e início do século XXI, isso não resultou na adoção total da cultura do branco, pois não se pode dizer que houve uma “[...] assimilação cultural, pois os Bororo da atualidade continuam não querendo ser barae (civilizados)” (VIERTLER, 1990, p. 173).
Se a assimilação cultural não ocorrera, as intervenções dos civilizados tiveram, como consequência, dois modos de adaptação: o padrão tradicionalista onde não se submeteram ao trabalho nas roças e mantinham-se através do comércio de artesanatos, e o padrão “progressista”, composto por índios que trabalhavam na roça e na criação de animais domésticos. Com isso, produziam uma maior independência quanto à obtenção de alimentos e dependência de artefatos manufaturados (relógios, móveis, rádios etc.) trocados pelos alimentos que sobravam. Apesar dos ressentimentos, sujeitavam-se às demandas dos parentes mais velhos.
Um Bororo progressista não abandona o seu povo por mais ressentimento que tenha contra ele. Não consegue deixar de levar em conta certos valores mágico-religiosos que persistem, lado a lado, com os traços culturais, materiais e espirituais aceitos do branco (ser alfabetizado, ter feito cursos, ter convivido com civilizados durante muitos anos) (VIERTLER, 1990, p. 174).
Segundo Viertler (1990) a conexão de aldeias Bororo junto às missões ou Postos Indígenas parecem ser tentativas de adaptação em que a cultura tradicional Bororo coexiste com a cultura ocidental, sendo que o êxito ou insucesso de tal feito é difícil de ser avaliado.