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1. INTRODUCTION

1.4 ERAP2

Embasados pela análise dos constituintes e funcionalidades realizada acima, buscar-se- á esclarecer alguns aspectos das definições, delimitações de campo e terminologia oferecidas pela bibliografia disponível acerca daquilo que, até este momento, estamos chamando de “sistemas de lida com a morte”. Estes esclarecimentos, por um lado, apresentam-se como contribuição para se aprofundar a compreensão destes sistema; por outro lado, representam o instrumental que permitiram, ao longo do estudo, as análises dos sistemas de lida com a morte linense e Bororo, tal como são apresentadas em capítulos posteriores desta dissertação.

Existem poucas publicações tratando especificamente sobre as organizações coletivas de lida com a morte. Em uma pesquisa realizada no dia 18 de julho de 2013, na biblioteca eletrônica, denominada Scielo – Scientific Electronic Library Online, enviando ordem de

busca em todos os índices, foram pesquisadas (uma por vez) as seguintes palavras-chave3: necro-sistema(s); sistema(s) mortuário(s); sistema(s) funerário(s) e sistema(s) tanatológico(s). Nas pesquisas feitas na plataforma Brasil, a resposta obtida foi que não havia documentos referentes àquelas buscas.

Em algumas publicações, encontramos a terminologia sistema mortuário e/ou sistemas fúnebres, porém, sem nenhuma definição, delimitação do tema ou justificativa do uso de tal termo (p.e. ABBEG; BASTOS; MENEGHEL, 2003; SANTOS, 2009).

Cunha (1978), na sua obra, “Os Mortos e os Outros: uma análise do sistema funerário e da noção de pessoa entre os índios Krahó”, embora utilize o termo “sistema funerário” no subtítulo, não discute a escolha deste termo e também não realiza uma definição do mesmo. Já quanto à delimitação do campo, através da estruturação do seu trabalho, fica claro estar tratando das tarefas funerárias que antecedem à morte (p.e. presságio, últimas disposições etc.) e tudo o que lhe sucede (enterro, luto etc.).

No livro “Psicologia da Morte”, Kastembaum e Aisemberg (1983) nomeiam de diferentes modos os conjuntos integrados de lida com a morte: Sistema mortuário, tanatológico, fúnebre e necro-sistemas. Embora não discutem sobre o uso dessas terminologias, parece que os autores entendem que elas sejam sinônimas. No entanto, ao contrário do que fora encontrado na literatura específica, os autores se preocupam em definir este fenômeno, que neste ponto da sua obra nomearam de sistemas mortuários4 e sugerem que as “[...] palavras e ações concernentes à morte sejam consideradas como constituindo, juntas, um sistema. Todas as sociedades desenvolveram um ou mais sistemas fúnebres5 pelos quais podiam se entender com a morte nos seus aspectos pessoais e sociais” (KASTEMBAUM; AISENBERG, 1983, p. 151, grifo nosso). Ao tratarem de alguns sistemas mortuários particulares, estes apontam que tais sistemas oferecem ao membro do grupo uma indicação relativamente integrada sobre o modo mais apropriado e eficiente de pensar, agir e sentir diante da morte. Esta definição coincide, de modo geral, com a concepção de sistemas de lida com a morte adotada nesta pesquisa; porém, com base no percurso feito até aqui, verifica-se a necessidade de retomar alguns de seus elementos, no intuito de aprimorar a compreensão de suas especificidades.

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Estes são os termos que possuem aproximações com o que nominamos até aqui de sistemas de lida com a morte.

4 Reforçando a discussão acima sobre a terminologia, esta definição encontra-se em um subtítulo denominado

Sistema Mortuário; no entanto, quando definem o mesmo utilizam o termo sistemas fúnebres.

Primeiramente, Kastembaum e Aseimberg (1983) apontam que os sistemas mortuários são compostos por “ações”. Hannah Arendt (1981) reflete sobre a palavra ação, desmembrando-a em duas outras: fabricação e práxis; sendo que fabricação, denominada de

téchne, traduzida em português por técnica, consiste em um modo de ação sobre algo que não

reage. Já práxis consiste em um modo de agir diante de alguém que igualmente reage. Assim, caberá atentar para que os sistemas de lida com a morte devem compor-se de dois modos distintos de ação, a serem utilizados nas tarefas junto aos mortos (não reagem) e aos vivos (igualmente reagem): técnica e práxis. Cabe destacar, sobretudo, que as especificações destas ações enformam em larga medida o desempenho dos atores sociais (“leigos” e “especialistas”), sem contudo eliminar as possibilidades de desvios. Assim, as atuações concretas podem divergir até certo ponto do modelo de sistemas de lida com a morte instituído, já que os desvios poderão ser julgados como: normais, excêntricos e puníveis. Por exemplo, em uma sociedade na qual se espera que um filho expresse o pesar pela morte do pai de modo contido, um choro mais acentuado pode ser tolerado como excêntrico, porém, ter-se- ia como inadmissível perder o controle emocional durante o funeral. Com base nas proposições de Berger e Luckman sobre a dialética social, conforme expusemos páginas atrás, compreende-se que tais desvios podem ser “corrigidos” mediante os efeitos de repreensões explícitas ou implícitas, na direção da manutenção e até do fortalecimento do modelo vigente, como podem disparar alterações neste modelo, porém isso sempre envolverá algum nível de conflito.

Quanto ao apontamento de Kastembaum e Aseimberg, supracitados, de que os sistemas mortuários seriam compostos por “palavras concernentes à morte”, parece-nos mais adequado reportar sua composição, tal como é feito por Berger e Luckmann (2001), ao “universo simbólico” - expressão mais abrangente, que melhor indica o amplo conjunto teorias, abstrações, mitos, enfim, de todo tipo de símbolos relativos à morte e, portanto, expressa melhor a consideração das “duas metades” da linguagem, o lógos e o mythos, destacadas por Junito Brandão, conforme apresentamos no tópico “simbolizar a morte”, no Capítulo 2.

Tudo considerado, e no intuito de ampliar e refinar a conceituação, propõe-se6 que os sistemas de lida com a morte consistem em modelos sociais institucionalizados, ou seja, entendimentos coletivos de enfrentamento da morte. Estes possuem pré-indicações dos modos de pensar, sentir e comportar-se, bem como dos atores sociais, papéis e funções a serem

6 Tal proposição tem como inspiração o conceito de modelo social (MAISONNEUVE, 1977), institucionalização

exercidas nas situações de morte. Tais modos são legitimados por um universo simbólico, transmitido pela socialização, tornando-o reconhecido como válido e comum a um determinado grupo, por meio de identificações e negações. Desta maneira, funcionam como um organizador social, oferecendo um sentido à morte e meios para a “(re)organização” nas esferas psíquicas e sociais dos membros do grupo. Para isso, indicam métodos supostamente eficazes para lidar com a morte, evitando o colapso do indivíduo e do grupo e favorecendo a estes a retomada da vida cotidiana.

Interpola-se aqui uma questão de fundo: recuperando as discussões empreendidas atrás, quanto à condição humana frente à morte e ao morrer, deve-se reconhecer que a lida com a morte tende a abranger toda a existência humana; não obstante, reconhece-se a necessidade e a possibilidade de identificar um conjunto relativamente restrito de atividades mais diretamente ligadas ao defrontamento de indivíduos e coletividades com a morte, conjunto este que, ademais, de fato apresenta propriedades sistemáticas. Assim, cabe sublinhar que esta restrição não deve obscurecer a compreensão de que a lida com a morte espraia-se por quase todas (se não todas) as esferas da vida humana - evocando a visão de homem heideggeriana (ser-para-a-morte) adotada até aqui. Inspirados em Munné (2012), diríamos que, na delimitação dos sistemas de lida com a morte, deve-se ter em mente que, como todos os fenômenos humanos, também este “sistema” deve apresentar certa nebulosidade, interpenetrando-se com outras facetas da realidade humana. Em outras palavras, diríamos que podemos recortar, de entre o emaranhado de pautas sistemáticas que organizam a “vida e morte” do homem, uma porção enquadrável na categoria acima definida, que corresponderia a um sistema de modelos sociais institucionalizados, voltados ao enfrentamento das ocorrências de morte numa dada sociedade.

Finalmente, entendemos que também os termos utilizados para nomear tal sistema precisam ser revisados, à luz das três categorias que, conforme expusemos no tópico anterior deste capítulo, resumem os constituintes e funcionalidades dos sistemas de lida com a morte: não deixar morrer (salvamento/adiar a morte), preparação para o morrer e o morrer propriamente dito (quando o adiamento não é possível) e as ações humanas pós-morte (aos defuntos e entes queridos). Assim, parece-nos que os termos: sistema fúnebre, sistema mortuário ou necro-sistemas, não são suficientemente apropriados para nomear este campo, embora tais termos nomeiem bem as ações humanas direcionadas ao momento da morte (agonia, funeral, sepultamento, honras fúnebres etc.) e do pós-morte (escatologia). Parecem, porém, insuficientes para nomear as atividades humanas que tentam evitar a morte (os resgates, rituais de cura, modos de proteção contra a morte violenta etc.) e que também,

segundo a explanação acima, entendemos pertencer ao campo dos sistemas de lida com a morte.

Nesta direção, e embasados no estudo dos símbolos da morte em nossa cultura, tal como foi apresentado atrás, no Capítulo 2, parece-nos mais pertinente que estes “sistemas de modelos sociais institucionalizados, voltados ao enfrentamento das ocorrências de morte numa dada sociedade”, nomeado indiscriminadamente na literatura científica e que temos referido até aqui pela expressão “sistemas de lida com a morte”, sejam intitulados de “Sistemas Tanatológicos (ST)” 7. Entendemos que o termo “Tanatológico”, remetendo-nos ao

universo mítico dos gregos no qual, conforme vimos, Thanatos busca o moribundo no mundo dos vivos para conduzi-lo ao mundo dos mortos - busca à qual os homens defrontarão a mais encaniçada resistência; resistência que, fadada ao insucesso, cederá lugar, afinal, aos rituais funerários e às ricas construções escatológicas.

7 Cabe esclarecer que o estudo dos “Sistemas Tanatológicos”, conforme aqui se definiu, não se confundem com

os estudos empreendidos pela Tanatologia, embora com ela se relacione intimamente. Valendo-nos dos apontamentos de Carvalho (2003), temos que a Tanatologia se consolidou no universo científico, consistindo no estudo interdisciplinar da morte; no entanto, relaciona-se as ocorrências ligadas à morte e o morrer e estão conectadas com a finalidade de compreender estes fatos.

4 CONSIDERAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICA:

“Toda estrutura de uma sociedade encontra-se incorporada no mais evasivo de todos os materiais: o ser humano” (MALINOWSKI, 1984, p. 40).

No campo das ciências humanas as divergências teórico-metodológicas se dão principalmente em função das peculiares visões: de mundo, de ciência e de homem presentes em cada epistemologia e que interferem, direta e indiretamente, no modo de estruturar e dinamizar a produção de conhecimentos relativos ao homem e às interações humanas.

Segundo Figueiredo (1995) estas divergências se acentuam bastante na Psicologia; isso ocorre de tal modo que o autor defende que não há uma ciência Psicológica única, mas Psicologias, pois, neste campo do saber, há divergências quanto à delimitação do campo, do objeto e validação do conhecimento. Segundo autor, a produção de conhecimento na modernidade é pautada, basicamente, em duas epistemologias. De modo geral, uma tem como meta a objetividade plena e busca as verdades universais, com base em explicações relativas às causas e efeitos dos fatos investigados. A outra surge da falência da primeira, já que o seu campo passa a ser aquilo que era expurgo da epistemologia que tinha como meta a objetividade, ou seja, os fatos ligados à subjetividade, tais como: sentimentos, pensamentos, necessidades, sendo estas, muitas vezes, inconscientes.

Nesta perspectiva, há que se dizer que a investigação foi fundada a partir desta segunda modalidade de epistemologia, modalidade que corresponde melhor às verdadeiras possibilidades de busca e de alcance do conhecimento no campo da Psicologia Social propiciando uma proposta condizente com o objeto que se propôs a estudar.