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A historiografia mais recente sobre o empresariado industrial procurou compreender melhor a atuação, de fato, desse setor no processo de consolidação de sua hegemonia no comando político do país21. Nesse sentido, suas teses dialogam com a análise mais ampla realizada por Florestan Fernandes (2005), quando se propõem a examinar o modo como o empresariado industrial construiu, de maneira ativa, seu poder. Ou seja, buscam compreender as condições que levaram os industriais a tomar posicionamentos conservadores de forma consciente.

Para Octavio Ianni (1996), em Estado e Planejamento econômico no Brasil, publicado originalmente em 1971, a partir de 1930 o empresariado industrial tornou cada vez mais constante sua presença na política nacional. Se o Estado nacional assumiu as principais iniciativas na economia, essas decisões não seriam tomadas sem o conhecimento dos industriais, que criaram diferentes tipos de canais e relações com o Estado, por meio da ocupação de cargos em setores estratégicos, da participação em conselhos, ou por meio dos

21 As considerações realizadas nesta parte da dissertação estão embasadas em artigo de Agnaldo de Souza Barbosa (2003).

grupos de pressão diretos a determinados órgãos oficias. Para Ianni (1996), portanto, a participação do Estado nacional era bem vista pela burguesia industrial, pois o planejamento econômico e a regulamentação realizada por órgãos estatais beneficiariam o crescimento da indústria. A opção pela participação e influência nas esferas do Estado seria uma decisão consciente por parte das lideranças empresariais, que viam na reorientação das políticas econômicas do Estado oportunidades para a realização de seus interesses.

Eli Diniz (1978), em Empresário, Estado e capitalismo no Brasil: 1930-1945, reforça a análise de Octávio Ianni (1996). Embora se reconheça que o empresariado industrial brasileiro não foi o maior protagonista na instauração da nova ordem econômica a partir da década de 1930, seu papel foi ativo na consolidação dessa mesma ordem. A autora indica que as dificuldades de organização dos industriais limitavam a elaboração de uma visão mais ampla sobre os desafios nacionais. Tal limitação era expressa pela própria defesa dos interesses particulares do setor, por meio da consolidação de sua influência em agências e órgãos estatais estratégicos. Essa postura desdobrou-se no estabelecimento dos interesses de classe acima das questões nacionais e, nesse sentido, explica a composição política junto aos demais setores econômicos dominantes, notadamente o agrário-exportador. A opção pelo pragmatismo, segundo a autora, foi o meio mais seguro encontrado pelo empresariado industrial para garantir conquistas diante das elites tradicionais já consolidadas.

Renato Raul Boschi (1979), em Elites Industriais e Democracia, também constrói uma compreensão sobre o empresariado industrial de forma a explicitar sua atuação em diferentes frentes junto ao Estado nacional brasileiro, concentrando-se, sobretudo, na própria estrutura estatal, ainda que as vias partidárias e institucionais não tenham disso descartadas. Se o empresariado industrial era dependente do Estado, isso não significava passividade política, pelo contrário. Nesse sentido, Boschi (1979) discorda de Diniz (1978), ao apontar o empresariado industrial como organizado e coerente em relação a sua postura ativa claramente contrária ao liberalismo político. Por outro lado, em consonância com Diniz (1978) e Fernandes (2005), Boschi (1979)22 classifica a postura política do setor industrial como autoritária, baseada na defesa da supressão dos conflitos de classe como condição para a consolidação da ordem industrial no país. Assim, para Boschi (1979), essa postura também demonstrava a ausência de uma visão nacional, que considerasse interesses dos outros setores e classes sociais. O empresariado industrial consolidou-se, então, como uma força política que

22 Boschi e Diniz (1979) compuseram, em conjunto, a obra Empresariado Nacional e Estado no Brasil. Ao longo das seções 2 e 3 desta dissertação, suas produções sobre o empresariado serão tratadas de modo mais aprofundado.

defendia a manutenção e a satisfação imediata, apenas, de seu principal interesse – o desenvolvimento industrial –, revelando o autoritarismo como forma de impô-lo diante do restante da sociedade.

O estudo das entidades de classe também se apresenta como uma perspectiva para se compreenderem as características específicas do empresariado industrial. Segundo Maria Leopoldi (2000), em Política e interesses na industrialização brasileira, a atuação política do empresariado industrial configurou-o como um grupo autônomo, que não se subordinava automaticamente aos desígnios do Estado, mas o influenciava. Sua análise das entidades patronais demonstra uma postura ativa diante do Estado, o que garantiu a autonomia de organização da classe. Desde o período do Estado Novo, os industriais procuraram não se alinhar às ideias corporativistas, embora tenham se aproveitado desses canais para construir a sua influência. Para Leopoldi (2000), o pragmatismo dos industriais justificava-se como estratégia para a garantia da industrialização do país. Compor com as forças políticas tradicionalmente hegemônicas, mesmo que isso significasse uma articulação de interesses distintos, apresentava-se como um caminho mais seguro para a consolidação do poder burguês. Dessa forma, o empresariado industrial ocupou cargos estratégicos no Estado Novo e durante o período democrático, além de estabelecer uma pressão política agressiva de controle e cerceamento da classe trabalhadora organizada. A estratégia política do empresariado industrial brasileiro, portanto, tinha como base evitar o alinhamento a projetos nacionais que ultrapassassem seus interesses.

Nessa perspectiva, Márcia Maria Boschi (2000) aponta, em Burguesia industrial no governo Dutra: 1946-1950, que a própria especificidade da formação do empresariado industrial impedia esse alinhamento a projetos nacionais que encampassem bandeiras das outras classes sociais, pois as condições nas quais o empresariado industrial se desenvolveu, junto à industrialização do país, descaracterizavam sua imagem de burguesia nacional. Segundo a autora, dado o alto grau de associação dos industrias brasileiros ao capital estrangeiro e ao setor de importação (burguesia mercantil), que estava na origem de boa parte da classe industrial, a classificação mais adequada para os empresários seria a de burguesia interna, em vez de nacional. Nessas condições, o empresariado industrial não poderia ter como prioridade o desenvolvimento da autonomia nacional, mas o desenvolvimento mesmo da indústria. Isso significa dizer que a própria trajetória do empresariado industrial brasileiro o impedia de afirmá-lo como pertencente ao campo nacionalista, na medida em que seus interesses não se contrapunham aos interesses estrangeiros, mas se complementavam. Por isso, no confronto de interesses que se dava entre os industriais e os demais setores da

sociedade brasileira, a opção do setor fabril foi compor com as elites existentes – considerando, sobretudo, o peso do setor agroexportador na economia e na política nacional – a fim de garantir espaços de influência no Estado. Essa postura conservadora consolidava-se quando conjugada ao combate travado pelos industriais contra o avanço das lutas sociais provenientes da classe trabalhadora brasileira e de setores nacionalistas do país.