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A nossa cidade, assim como nosso corpo, já integrou a tecnologia a sua estrutura. Goitia (1982, p. 21) desenvolveu um estudo deveras interessante sobre a cidade, em todo seu aspecto orgânico e inorgânico. De acordo com o autor, uma visão poética sobre a cidade fecha as lacunas que o pensamento lógico deixa em aberto, pois nem tudo que vemos de uma cidade faz necessariamente sentido ou segue uma regra. A cidade é por si só

desordem, por mais bem planeada que seja. Se ela tem uma alma, certamente essa alma vive uma crise existencial, ela é inacabada e vive um eterno refazer-se.

O que caracteriza a cidade contemporânea é precisamente isso, a sua desintegração. Não é uma cidade pública, à maneira clássica, não é uma cidade integrada por uma força espiritual. É uma cidade fragmentária, caótica, dispersa, a que falta uma figura própria.

Diante da ideia de uma cidade que mais pareceria uma mixórdia, o que poderíamos esperar do espaço urbano e das relações nele estabelecidas? Tais relações irão reflectir a situação referida? Como encontramos a tecnologia nessas circunstâncias? O escritor italiano Pitigrilli, já em meados do século XX asseverava que,

O mundo corre para a derrocada, porque renunciou à bela simplicidade da vida campestre, para complicá-la com a ilusão da simplicidade e, depois da série complexa de complicações – perdoem-me a tautologia – o regresso à simplicidade será o sinal de que o progresso faliu (1954, p. 30).

Será que o salto objectivado pelo progresso tecnológico foi alcançado? Como a tecnologia, de intensa presença no quotidiano, interfere nas nossas relações? Para onde caminha a metamorfose urbana com a tecnologia?

De acordo com Gilberto Velho (2003), a cidade é em grande parte responsável pelo alargamento da mesma enquanto campo de pesquisa. O crescimento do território urbano e sua valorização cultural e económica, principalmente, incentivaram a curiosidade sobre os modos de vida e suas implicações. Assim como, as redes compreendidas nesse espaço constituem um campo de infinitas possibilidades interligadas, entre economia, sociedade, cultura, indivíduos, colectivos, enfim, os humanos e não-humanos como refere Latour.

É possível observarmos, a partir das referências feitas no capítulo I que os estudos sobre tecnologia avançaram. Junto a eles, os estudos sobre os espaços urbanos também adquiriram um campo de pesquisa maior. Contudo, estudos que relacionem tecnologia e urbanidades ainda são escassos.

Os primeiros estudos, de acordo com Hommels (2005), partiam do princípio de que haveria um ponto máximo de desenvolvimento do capital urbano, “mas num mundo onde as redes de infra-estrutura devem ser encaixadas no espaço, isso é impossível”34.

34 Tradução livre “But in a world where infrastructure networks must be embedded in space, this is impossible” (Idem: 326)

Durante os anos 1980, muitos artigos foram publicados levando em consideração a tecnologia como uma força exógena que influencia directamente a sociedade. A força tecnológica seria um catalisador para a “evolução”do progresso no espaço urbano, pronto a abrir todas as janelas. Mas há um congestionamento na comunicação entre tais janelas, um ruído, ou vários ruídos que nos impedem de ouvir nossos vizinhos, mas nos proporciona ampliar nossas redes. Fechamo-nos em nossas janelas mais distantes, as quais podemos fechar a qualquer tempo.

Em meio a essas percepções forma-se a ideia de que qualquer coisa/feito é possível com a tecnologia. Surge e fortalece-se uma fé maior no seu poder infinito do que num deus. Então tal pensamento vem a ser compreendido como a salvação, ou mesmo a resolução última. A tecnologia, nos meios de comunicação dentro da cidade, amplia seu espaço virtual e torna obsoleto seu espaço tangível.

Um dos modelos conceituais de abordagem da tecnologia relacionada ao espaço urbano é chamado Frame, pois “um quadro referencial da tecnologia é construído durante as interacções entre grupos sociais relevantes” (Hommels, 2005, p.331). Na observação de tais interacções é importante dar atenção as estratégias de solução mais relevantes criadas pelos grupos sociais para seus problemas, que acabam por indicar o que os une de facto. Um outro modelo é chamado Embeddedness, pois os elementos da rede que se forma entre a tecnologia, a cidade e seus habitantes estão intimamente relacionados, encaixados, onde a mudança de um elemento incidirá sobre todo o conjunto35. O terceiro modelo é chamado Enduring, tendo em vista que envolve a persistência da tradição nas mudanças sócio-técnicas. As relações são observadas num contexto local, não chegam a ser observações estagnadas, mas pouco dinâmicas por estarem limitadas ao seu contexto de desenvolvimento urbano e tecnológico.

Com isso podemos considerar a importância da observação das relações como ponte entre o urbano e o tecnológico. Ao mesmo tempo em que, o urbano pode ser ponte para a compreensão de nossa relação com a tecnologia e esta ser a ponte para compreendermos nossas relações com o urbano. Os pontos fulcrais são as interacções e suas estruturas, naturalmente dinâmicas e fluidas.

35 Do mesmo modo que Bruno Latour refere em suas obras, jamais estivemos separados, fazemos parte de

um todo onde não somos o todo, mas contemos ele. Onde o todo não o mesmo sem qualquer um de nós, sejamos humanos ou os não-humanos.

Na perspectiva de uma etnografia urbana, Seixas, ressalta a importância de estarmos atentos aos novos itinerários que o paradigma urbano segue, em suas palavras:

Compreender a estrutura antropológica de uma cidade implica uma estratégia metodológica aberta às representações da Diferença (discursivas, espaço- monumentais, textuais e dramatúrgicas), as quais são, às vezes, metonímicas e outras metafóricas de Diferenças orgânico-estruturais internas e externas à cidade (2006, p. 41).

A cidade cada vez mais rodeada de construções sólidas e espaços físicos de concretude mostra a importância de ser observada pelo prisma do abstracto para que se possa perceber o seu reverso. Castells (2000, p. 308) propõe um esquema para que observemos também os aspectos simbólicos do urbano:

Figura 2: Esquema de determinação do processo simbólico. Fonte: adaptado de Castells, 2000. Representação dos sistemas de processos simbólicos urbanos

No esquema de Castells há uma separação dos processos abstractos e concretos que ocorrem no espaço urbano. O que acrescentaríamos seria a observação de que os processos simbólicos permeiam todos os fatos urbanos, não de uma forma linear, pensando que um causa o outro, mas complementar, os aspectos simbólicos estão presentes nos aspectos observados como concretos, vice-versa. E sob essa óptica percorremos o trajecto da cidade.

Em 1996, a antropóloga Setha Low publicou um importante trabalho sobre os estudos urbanos. Nele, Low relaciona os principais trabalhos, abordagens e contribuições da Antropologia urbana. A autora defende a Antropologia como necessária ao debate dos problemas urbanos dos nossos dias. O urbano é abordado como processo e não como categoria. Nesse âmbito, a tecnologia pós-industrial poderia ser compreendida de diversas maneiras, por diversas escolas da ciência, mas na cidade ela poderia ser melhor compreendida. Para além disso, diante das inúmeras mudanças sociais que vivenciamos neste último meio século, Low acredita que são necessárias novas formas de olhar para

Ideologia

Formas culturais

Sistemas de processos simbólicos numa estrutura urbana

Práticas - ideologias mediatizadas pela relação com o urbano

a cidade. Ao fazer referência à Jacobs, a autora afirma que “new cities require new forms of analysis in which the urban built environment becomes a discursive realm” (1996, p. 386).

De acordo com Low, e a investigação que realizou nas principais publicações sobre Antropologia urbana a partir de 1990, é nesse período em que os estudos étnicos – assim definidos pela autora - nas cidades ganham cada vez mais espaço. As mudanças trazidas pela interferência étnica trouxeram novas formas de poder, novas configurações politico-culturais. Do mesmo modo, a autora apresenta as diversas formas de abordagem do urbano e suas intervenções: sociais, económicas, dentre as quais, a cidade global. Cidade de transformação por excelência, abrem novos caminhos ao desenvolvimento sócio-económico. Isso porque, “global forces are also reshaping regional systems of cities and the formation of transnacional identities and communitie” (1996, p. 393). A ideia de globalização das cidades impõe um movimento de maior velocidade nos deslocamentos, sejam eles das etnias, dos grupos sociais, dos interesses económicos. A convergência de anseios urbanos, de melhoramentos na qualidade de vida a partir da vida urbana, enfim, a cidade como centro. Tais deslocamentos são também a base para uma comunicação cada vez mais rápida, fluida. E nesse sentido de um espaço de comunicações fluidas, Low fala-nos da cidade informacional, também extensamente abordada por Castells: “space flows, however, are organized on the principles of information-processing activies, rather than on the everyday spaces of living and working” (Idem, p. 394). Portanto, na cidade informacional, as mudanças emergem de modo que parecem atrair-nos mais.

Um dos muitos aspectos interessantes do espaço urbano é que ele recria-se constantemente, e esse processo dinâmico está directamente influenciado por quem ocupa este espaço. Logo, os muitos modelos de cidade que já foram pensados nunca chegaram a um ponto comum. A forma de expansão e desenvolvimento urbano da Europa e Estados Unidos, por exemplo, está deveras distante, política, social e economicamente da China, Japão, América Latina. Mesmo que alguns modelos tenham sido copiados, como o modelo americano do norte copiado por alguns países do sul, não satisfaz, nem ao norte e muito menos ao sul – embora não se possa negar a universalidade de alguns aspectos. Por esta razão, somos levados a pensar que a cidade é um organismo vivo, tal qual o humano e que alguns direccionamentos essenciais para

De facto, quando pensamos na aplicação de modelos urbanos de sociedades que são exemplo de desenvolvimento industrial e urbano de modo economicamente mais seguro (ao menos até certo momento do séc. XXI), pensaremos em sociedades subdesenvolvidas (apesar do termo restringir a ideia), sociedades dependentes. Por outro lado, como bem ilustra Castells (2000)36, todas as sociedades são de alguma forma dependentes, cabe então diferenciarmos que tipo de dependências e não simplesmente tratarmos daquela forma caducada: dominantes e dominados. O mais relevante disso tudo é que também não podemos separar a expansão do espaço urbano do pensamento político, das ideias e caminhos de crescimento que são objectivos dos que vivem na cidade.

É por acreditarmos na cidade como ponto de conversão e agregação que a partir dela buscamos apreender sentidos sobre nós mesmos. Como se o papel tivesse invertido, para nos conhecermos melhor olhamos para as nossas cidades e nossos itinerários dentro do conceito de cidade que temos. Isso porque a cidade não é um espaço definido com exactidão e nós não formamos uma sociedade fechada nesse conceito, aliás, para Castells,

A sociedade urbana, no sentido antropológico do termo, quer dizer um certo sistema de valores, normas e relações sociais possuindo uma especificidade histórica e uma lógica própria de organização e de transformação (2000, p. 127).

Portanto, na menor decisão que tomamos no quotidiano há interferência do espaço urbano que ocupamos, nossas relações pessoais estão permeadas por tal. Como vamos utilizar um espaço aberto de socialização, como uma praça se o nosso contexto urbano é deveras violento? Conforme já verificamos anteriormente, as relações na cidade reconfiguram-se. E tal reconfiguração não segue um processo propriamente lógico, há um encontro fabuloso entre o racional e o fantástico, que não se dá de forma apenas contraditória, mas complementar e salutar (excepto quando elevamos um dos pólos), é o

36 “Uma sociedade é dependente, quando a articulação de sua estrutura social, em nível económico,

político e ideológico, exprime relações assimétricas com uma outra formação social que ocupa, frente a primeira, uma situação de poder: Por situação de poder, entendemos o facto de que a organização das relações de classe na sociedade dependente exprime a forma de supremacia social adoptada pela classe no poder da sociedade dominante” (2000, p. 82). Ora, incrivelmente, ou pela velocidade que imprimimos aos movimentos do nosso tempo, hoje todas as sociedades são de alguma forma dependentes, seja boa parte da Europa dependente do gás produzido pela Rússia, ou os EUA dependente do petróleo do Oriente Médio.

que mantém a cidade vida. A apresentação do espaço urbano como campo aberto de estudo dar-se-á seguindo como itinerário as possibilidades que o mesmo oferece-nos. Podemos então afirmar que, para compreender a cidade contemporânea, seus fenómenos e situações, é preciso que haja flexibilidade. Além disso, que a reconheçamos como inacabada, fluida, porém sem a ideia de que a discussão das questões urbanas acabariam no facto de reconhecê-las intrincadas. No seu carácter de imbricada é exactamente onde devem ser iniciadas as discussões urbanas.