Mário Bunge (1919 -) apresenta um contraexemplo à afirmação de Hume que a causa é uma questão de conjunção constante, ao lembrar que os braços de uma alavanca estão sempre unidos e um não é a causa do outro.139 Isso mostra que o critério da conjunção constante não é adequado para caracterizar uma causa. Conforme Bunge (1978, p. 58), a causação precisa ser uma categoria genética de produção de coisas novas a partir de outras. A perspectiva humeana deixa de lado o caráter dinâmico da causação que tem a ver com a
139 Segundo Osvaldo Pessoa Júnior (em diálogo pessoal durante o VIII Colóquio Internacional de Filosofia da
Mente entre os dias 11 a 13 de abril de 2016 na UFMG), esse contraexemplo de Bunge não é adequado. Mas
não nos aprofundaremos nesse aspecto aqui, porque acreditamos que as outras críticas são suficientes para minar a ideia de que causa não é um critério ontológico.
produtividade da causa eficiente, única das quatro causas aristotélicas a permanecer na modernidade.
Quanto à contiguidade, outro princípio indicado por Hume como responsável pela formação da ideia de causa e efeito, ela seria, de fato, um critério relevante para caracterizar a causação? Nem sempre, pois basta notar que a ação da gravidade é uma ação à distância e, ainda assim, “produz” consequências; por exemplo, afirmarmos que os objetos caem, quando os jogamos para cima, por “causa” da gravidade. Bunge (1978, p. 71-74) contra- argumenta, dessa forma, baseando-se em Newton, que nem toda ação ocorre por contato e que a causação não implica contiguidade, embora seja compatível com ela.
Restaria, por fim, alguma importância para o princípio humeano da sucessão
temporal? Quanto a isso, já Aristóteles havia defendido a possibilidade que a causa e o efeito
fossem simultâneos, apresentando como exemplo: enquanto o pintor pinta, o pintor é a causa e a pintura é o efeito e eles são simultâneos, enquanto que o pintor como causa e o quadro como efeito não o são (Fís., II 3, 195 a – 195 b). Da mesma forma, para Bunge, basta que a causa seja existente para que o efeito efetive-se, mas isso não implica pré-existência temporal. Segundo ele, a causação é compatível tanto com acontecimentos simultâneos quanto com acontecimentos distantes no tempo140 (BUNGE, 1978, p. 100).
Assim, a sucessão temporal, embora não seja estritamente necessária, é importante para caracterizar a causação? Não é o que pensam Bohr e Heisenberg,141 que sustentam, com base nas observações quânticas, que uma mesma situação física pode ser sucedida por uma infinidade de estados diferentes e isso leva ao fim da pretensão da causalidade determinista, ou seja, a possibilidade de predizer com certeza o futuro com base nos acontecimentos passados. Porém, para Bohm, assim como para Bunge, a interpretação comum da mecânica quântica não elimina a causação, apenas a ideia de uma conexão mecânica rígida entre as causas e os efeitos (BOHM, 1957, p. 140-143; BUNGE, 1978, p. 26). Na teoria quântica, não haveria mais a causalidade mecânica newtoniana que permite determinar com precisão os eventos posteriores tanto espacial quanto temporalmente em relação aos anteriores (BUNGE, 1978, p. 27) e não há por uma impossibilidade metodológica que faz com que se determinarmos com precisão o espaço (ou lugar) do evento, não conseguimos precisar o
140 Como vimos em Bohm, haveria uma causalidade não-local entre partículas, por exemplo, que antes
formavam um único sistema.
141 Werner K. Heisenberg (1901-1976) foi um físico teórico alemão e um dos pioneiros da mecânica quântica
que, por essa descoberta, recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1932. Em 1924, trabalhou com Niels Bohr (1885-1962) no Centro Universitário de Göttingen. Bohr contribuiu decisivamente para a compreensão da estrutura atômica e para o desenvolvimento da física quântica.
tempo, e vice-versa. Sem esquecer que o observador também interfere no resultado observado.
Portanto, a partir da física contemporânea, toma lugar um novo tipo de conexão entre causas e efeitos, não mais rígida e necessária, mas apenas altamente provável, baseada em resultados da observação que seguem leis estatísticas definidas (BUNGE, 1978, p. 28). Isso não elimina a importância da sucessão temporal, apenas não a coloca como critério imprescindível para que haja uma relação causal; o critério imprescindível é que haja uma relação de produção entre eventos. Além disso, mostra que a relação causal não é tão rígida como se pensava no sentido de um único evento causar apenas um único efeito. É importante ressaltar que a própria matéria ou natureza não é necessariamente indeterminada, é a nossa observação dela que interfere nos resultados, gerando possíveis ilusões de indeterminação.
Bunge (1978, p. 344) considera a previsibilidade um critério gnosiológico, portanto, a incerteza que deriva das formas limitadas de conhecer o mundo hoje não impede que talvez, no futuro, tenha-se um conhecimento mais seguro. Assim, diferentemente da previsibilidade que é um critério epistêmico, a causação é um critério ontológico de produção de coisas
novas a partir de outras já existentes.
4.1.4.1 A participação mente-corpo em Bohm e a causação em Bunge
Segundo a interpretação que temos feito da participação entre os aspectos mental e material em Bohm, pode-se compreender que o aspecto mental, entendido como potencial atividade da informação, produz, pela sua comunicação com outras informações ativas, uma nova ordem a partir de outras ordens preexistentes. Neste sentido, parece que poderíamos aplicar o conceito de causação apresentado por Bunge à participação mente-corpo em Bohm. Dessa forma, haveria nessa conexão uma produção de novas ordens implícitas a partir de outras que estão em comunicação constante. É o que parece, de fato, existir quando Bohm afirma que a ordem gerativa, ou a totalidade indivisa no movimento fluente, é a fonte de ordem na realidade.
...
Nossa tentativa de responder o epifenomenista, que não acredita especificamente no ‘poder causal’ do mental, não é em vão, pois, pelo menos, está salvaguardado o poder causal na realidade. Mas, então, quer dizer que a participação mente-corpo seria uma relação de
causação, na qual a mente produz modificações no corpo e/ou o corpo produz modificações na mente? Essa produção permite a novidade qualitativa?