Para Aristóteles, é pelo raciocínio que conhecemos a razão de ser das coisas. Mas David Hume (1711-1776) nega que possamos conhecer, apenas pelo pensamento racional, que o movimento de uma bola de bilhar, por exemplo, pode movimentar outra. Para ele, o conhecimento da relação que se dá entre uma e outra bola do jeito que acontece só é possível pela experiência e observação, pois muitos outros resultados seriam igualmente coerentes (Tratado, 1.3.1, 2). Para o cético, a inferência feita entre causa e efeito não pode ser deduzida a partir do exame dos objetos particulares e da compreensão de suas essências, pois não há nada num objeto que implique a existência de outro (Tratado, 1.3.6). Não há nada “no gato batendo no copo” que implique a existência “do copo caindo” e nada “no copo caindo” que implique a existência “do copo quebrado” e nada “no copo ser de vidro” que implique a existência “do copo quebrado”.
Portanto, o efeito não seria ontologicamente conectado à causa e, assim, deduzido racionalmente dela, mas associado por hábito, assim sendo, a conexão entre o efeito e a causa seria meramente arbitrária. Segundo Hume, a conexão causal seria dada a partir de um critério epistêmico fornecido pela repetição observável dos eventos, que forma o hábito de ver que quando um acontece, o outro logo sucede. Três seriam os princípios que permitiriam perceber a repetição dos eventos e formar o hábito que constituiria a ideia de causação. Primeiro, a relação de contiguidade que se refere à proximidade da causa e o seu efeito no espaço e tempo (Tratado, 1.3.2). Depois, a sucessão temporal que prevê a prioridade temporal da causa em relação ao seu efeito. E, por fim, para percebermos uma relação de causação entre dois eventos, seria necessário notarmos uma conjunção constante entre eles. Tal característica seria percebida quando
Recordamo-nos de ter tido exemplos frequentes da existência de objectos de determinada espécie; e recordamos também que objectos de outra espécie sempre os acompanharam e apareceram numa ordem regular de contiguidade e sucessão relativamente a eles. (Tratado, 1.3.6)
Quando pensamos no fogo, logo lembramos as chamas. A ideia das chamas a partir da ideia do fogo seria dada apenas pela experiência passada. Mas pode acontecer de haver fogo e não haver chamas, como acontece quando o fogo está em brasas. Isso significa que as experiências passadas só nos permitem ter uma “previsão provável”, mas não uma “previsão infalível” de que, no futuro, se tivermos a impressão do fogo, teremos também a
das chamas (Cf. Tratado, 1.3.6). Entretanto, ainda essa conexão a partir da experiência passada seria rigorosa, haja vista que
[...] em todos os casos passados, [objeto/evento/causa e objeto/evento/efeito] estavam constantemente conjugados uns com os outros: e como se deve supor que um objecto semelhante a um desses está imediatamente presente na sua impressão, daí concluímos a existência de outro objecto semelhante ao que habitualmente acompanha o primeiro. (Tratado, 1.3.6, grifo nosso)
Dessa forma, dada a regularidade da conjunção, torna-se um hábito de pensamento associar a ideia de um objeto a do outro ao qual está frequentemente conjugado. Compreendida assim, a causação não poderia ser sinônimo de “produção”, pois afirmar que um objeto ou ação produz outro implica asseverar que existe uma “conexão necessária” entre os dois objetos, sendo que um teria um “poder” sobre o outro. Mesmo que um objeto da experiência passada tivesse o poder de causar outro, para Hume, nada nos daria a certeza de que objetos semelhantes no futuro teriam o mesmo poder (Tratado, 1.3.6).
Com isso, Hume pretende criticar que a conexão entre causa e efeito existiria por causa de uma essência a ser conhecida racionalmente. Para ele, essa conexão dar-se-ia por princípios que associam umas ideias as outras na imaginação. Apesar de Hume criticar o princípio de causalidade da tradição quanto ao seu aspecto racional e necessário, ele ainda considera que o raciocínio que origina a conexão de causalidade fornece uma segurança rigorosa, mesmo que ela não tenha a pretensão de ser algo necessário ontologicamente, mas apenas uma conexão necessária no nível epistêmico.
A única garantia que teríamos para afirmar uma conexão entre a causa e o efeito seria a multiplicidade dos casos semelhantes que aconteceram no passado (Tratado, 1.3.14). A semelhança que há entre os múltiplos casos é o que indica que a conexão é necessária, nada mais (Tratado, 1.3.14). Tal ideia de semelhança é resultado de uma impressão de reflexão gerada a partir de impressões sensíveis. Daí que a necessidade é algo que existe apenas na mente e não na natureza (Tratado, 1.3.14). Por isso, a causalidade, para Hume, é um princípio psicológico ou epistemológico e não ontológico como era para Aristóteles.
4.1.3.1 A participação mente-corpo em Bohm e a perspectiva humeana sobre a causação
Para Hume, a causalidade não seria uma relação entre duas coisas, na qual uma tem ‘poder’ de interferir na outra. Como vimos, na perspectiva bohmiana a respeito da participação mente-corpo, pressupõe-se que o aspecto mental interfira realmente no aspecto
material na informação ativa. Além disso, Bohm defende que os pensamentos, sentimentos e intenções modificam os processos físicos do corpo, assim como estes interferem naqueles. Tais interferências ocorreriam na realidade, não apenas na nossa interpretação dos fenômenos.
Bohm, inclusive, critica a tendência que temos de, ao tentar compreender tais fenômenos, analisarmos como independentes e separados entre si. Segundo a sua compreensão, esses fenômenos fazem parte de um mesmo processo de envolvimento da realidade. Isso, no entanto, não implica que a conexão entre eles seja necessária e absoluta. Para Bohm, as coisas estão a todo momento transformando-se e nem sempre uma mesma coisa interferirá em outra da mesma forma. Entretanto, isso não impede que tentemos conhecer o futuro, pois, mesmo que não possamos ter certezas sobre ele, ainda assim, poderemos alcançar uma segurança suficiente a seu respeito, apoiada em alto grau de probabilidade.
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A impossibilidade de obter certezas em relação ao futuro não significa que não exista uma relação de produção entre o agora e o depois, entre causa e efeito. Afinal, qual seria o sentido de pensar que a causalidade existe apenas na nossa cabeça e, de antemão, assumirmos que os fenômenos no mundo não estão conectados entre si de uma maneira tal que uns têm poder de interferir ontologicamente nos outros?