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5.1 Methodology

O presente trabalho buscou analisar, inicialmente, a constituição do laço conjugal sob um enfoque histórico social, desde a época em que a escolha amorosa era feita pelas famílias dos parceiros até o desenvolvimento dos ideais românticos, da valorização do amor e da cumplicidade na escolha conjugal amorosa. Analisaram-se, assim, os impasses vivenciados pelos sujeitos na contemporaneidade, entre buscar laços mais sólidos ou vivenciar a fluidez dos relacionamentos. Embora haja um conflito dessa ordem, a pesquisa bibliográfica realizada apontou para sujeitos que, na atualidade, continuam alimentando ideais amorosos de constituírem uma conjugalidade, de encontrarem a felicidade no amor e de se realizarem através desta constituição.

Guardadas as significativas mudanças no campo da conjugalidade, dentre elas a possibilidade de vivenciar novas configurações amorosas e familiares, foi observado que, para os casais na contemporaneidade, continuam a ser significativos elementos como a fidelidade, satisfação sexual e amorosa e felicidade a dois. Associados a esses ideais, acrescentam-se a igualdade de gêneros e a preservação da individualidade na conjugalidade. Todos esses ideais e as elevadas expectativas de ambos os parceiros acabam por gerar conflitos e tensões no vínculo conjugal, o que pode contribuir para a violência conjugal.

Procurou-se, assim, desmitificar a noção de que no vínculo conjugal violento tais ideais não se fazem presentes discutindo a relação amor-violência, questionando se esse vínculo pode ser nomeado como um vínculo amoroso. O presente trabalho valeu-se, também, de um filme-documentário que traz esse mesmo questionamento: “Amor?”, do diretor João Jardim, enriqueceu a discussão ao pontuar, no discurso das “personagens” apresentadas, que a configuração amor-violência se faz possível nas relações violentas.

Nos casais entrevistados e analisados sob o enfoque da Psicanálise foi possível observar, através de seus discursos, reservadas as particularidades, que a nomeação amor foi designada, ou ao menos a expectativa de que componentes amorosos, como a compreensão, a fidelidade, o carinho e a ternura, sejam presentes no vínculo conjugal.

Investigou-se a constituição do vínculo conjugal violento e os desdobramentos deste. Além dos ideais ditados pela contemporaneidade, elementos inconscientes se fazem presentes na constituição do vínculo conjugal, demonstrando assim, que no espaço psíquico vincular se inter-relaciona o intrasubjetivo, o intersubjetivo e o transubjetivo. As primeiras relações vivenciadas no início da vida psíquica servem como protótipo da escolha amorosa, assim como, o modelo parental de ambos os parceiros e as configurações edípicas. Foi também analisado que as heranças transgeracionais, como vivências que não puderam ser elaboradas, fizeram-se presentes na escolha conjugal e no desdobramento do vínculo conjugal violento. Em dois dos três casais entrevistados as heranças psíquicas foram cruciais para a violência instalada. Inter-relacionada a essa questão, a dificuldade desses casais em formarem uma identidade conjugal revelou processos simbióticos difíceis de serem rompidos, que invadiram a dinâmica do casal de forma avassaladora.

Na dinâmica conjugal de dois dos três casais entrevistados observou-se o desamparo como elemento psíquico constituinte do vínculo, intervindo no desdobramento da conjugalidade. Identificados no desamparo, esses casais demandavam suprir faltas afetivas que diziam respeito aos primeiros anos de vida, buscando no outro o reconhecimento narcísico e subjetivo que não foi possível vivenciar nas relações parentais. Em um dos casais, se deu ainda a formação de um pacto denegativo Kaës (2005) , que diz respeito ao que é negado no vínculo e traduziu a

impotência do casal em se constituírem como sujeitos autônomos e independentes, mantendo o vínculo violento.

O efeito de presença como elemento que diz respeito ao que não está inscrito previamente, mas sim às afetações que o outro provoca, também foi observado como elemento que se relaciona a violência. Seja pela presença de se ocupar uma posição autoritária e de não ouvir o outro, ou ainda, pela presença do parceiro alcoolizado ou drogado, são demandas dirigidas ao outro que não consegue lidar com essa presença de outra forma senão com violência.

No desdobramento do vínculo conjugal violento, as questões de gênero também foram evidenciadas, através da idealização de um discurso naturalista de gênero. Os homens esperavam que suas mulheres cumprissem expectativas reservadas a elas, tais como não trabalhar fora de casa, responsabilizar-se pelos filhos e problemas cotidianos de casa. Idealização também presente, quando um dos entrevistados considerou que o fato de uma mulher beber é motivo de uma vergonha ainda maior.

No discurso das mulheres a vitimização esteve presente. Com exceção de uma delas, que reconheceu ser violenta no vínculo, as outras duas entrevistadas não consideravam que o fossem, parecendo reconhecer a violência somente na atuação violenta (violência física). Por outro lado, negar a própria violência é também se posicionar em um lugar confortável, de não reconhecimento das próprias atuações no vínculo conjugal.

Como dito, observou-se neste trabalho que considerar a mulher enquanto vítima favoreceu a criação de importantes políticas públicas no sentido de proteção dessas mulheres. No entanto nota-se que, de forma paradoxal, alimentar a posição da vítima é aprisionar estas mulheres, além de favorecer a possibilidade de não implicação com a violência no vínculo.

Considera-se que reconhecer a dinâmica conjugal violenta e se implicar com ela são posturas essenciais para ambos, homens e mulheres enredados na trama conjugal violenta, sendo este reconhecimento uma possibilidade de reconfiguração do vínculo violência-amor, abrindo a possibilidade de elaboração de conteúdos tão difíceis e complexos. Elaboração que não implica necessariamente o rompimento do vínculo, embora esta possa ser uma possibilidade. Nos casais entrevistados, embora todos tenham pontuado que já pensaram no rompimento, não se percebeu essa possibilidade realmente evidenciada.

As estratégias de enfrentamento diante da violência vivenciada por esses casais podem ser consideradas precárias, visto que, dois dos três casais entrevistados estão juntos há mais de dez anos, nos quais a violência conjugal sempre se fez presente. Apenas uma denúncia formal foi feita, por uma das mulheres. A busca de ajuda profissional também demorou a acontecer para dois dos três casais entrevistados, o que demonstrou resistência em lidar com algo tão complexo. Além disso, diz também de um funcionamento vincular da ordem da repetição.

A repetição da violência, que, instalada no vínculo conjugal, muitas vezes nem é mais reconhecida como violência, parece ser um elemento que dificulta sobremaneira novas possibilidades na relação. Como na música que introduziu esse trabalho, “Quotidiano”, de Chico Buarque, esses casais parecem enredados numa trama repetitiva, onde a mudança parece não acontecer. Os elementos apresentados contribuíram para que esses casais permanecessem em suas histórias de amor-desamor e violência.

Realizar as entrevistas causou num primeiro momento, certo incomodo à pesquisadora, que receava “mexer” em histórias e abandonar os casais sem dar-lhes o devido suporte. Entretanto, conforme as entrevistas iam acontecendo pude perceber que,

para os casais certa demanda era formulada com as entrevistas. Os sujeitos puderam refletir sobre suas histórias, ouvirem um a outro e se questionarem sobre o vínculo. Nos três casais entrevistados, quando se deu a realização da segunda entrevista pude observar que alguma mudança havia ocorrido, seja porque estavam conseguindo conversar melhor, como foi pontuado por dois casais, ou ainda, porque uma crise havia emergido, conforme foi observado em um casal. Tal reflexão evidencia que novos sentidos foram produzidos a partir das entrevistas, o que nos leva a pensar que a clínica psicanalítica, não esteja tão distante da pesquisa, mas a ela se inter-relaciona na medida em que, produções transferenciais e contratransferências são produzidas no vínculo entrevistador-entrevistado e configuram um campo a ser pensado e trabalhado na pesquisa.

As experiências proporcionadas pela pesquisa, pelo trabalho na ONG, pelas entrevistas e por escrever esta dissertação possibilitaram o entendimento de que, no campo da conjugalidade, as possibilidades vinculativas são diversas. Os sujeitos, enredados na trama vincular inconsciente e afetados pelo contexto sociocultural, constroem vínculos atravessados pela violência, mas também por histórias de amor e dor. Amor, violência, dor, prazer são afetos possíveis no campo da conjugalidade. A Psicanálise possibilitou, ao dar voz aos sujeitos e ouvi-los na sua singularidade, o entendimento de que tal configuração vincular é possível. Isto não significa dizer que se compactua com a violência, mas que homens e mulheres enredados na trama conjugal violenta precisam sim ser ouvidos e acolhidos em suas dores e sofrimentos, de forma que se possa abrir caminho a novas possibilidades vinculares.

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