O desenvolvimento da criança é feito a vários níveis, sendo que o psicomotor (cognitivo, neurológico e motor) é o mais visível nas tarefas e atividades onde a criança participa e sobre o qual o educador incide mais.
No que concerne ao desenvolvimento neurológico da criança nos seus primeiros seis anos de vida, para Katz (2006), tendo como referência Rutter e Rutter (1992, citado por Katz, 2006) é a fase mais vulnerável da vida e desenvolvimento da criança pelo acelerado crescimento do cérebro, atingindo quase a totalidade do seu peso, estando mais frágil e suscetível a danificações. Tendo em conta resultados das investigações desenvolvidas, o desenvolvimento neurológico é caracterizado por:
Figura 5. O desenvolvimento neurológico da criança
Adaptado de Katz, L. (2006). Perspetivas actuais sobre aprendizagem na infância. Saber (e) educar, 11, pp. 12-13
Nesta perspetiva, o desenvolvimento cognitivo da criança é facilitado pela diversidade e riqueza das interações entre os seus pares. Para Lopes e Silva (2008) as crianças “ (…) têm necessidades de palavras e de gestos que exprimam o interesse por aquilo que são e pelo que fazem (…) de segurança, prazer, liberdade de descobrir por elas próprias e de se relacionar com outras crianças.” (p. 32). Por essa razão, o desenvolvimento neurológico da criança deverá ser tido em conta quando o educador proporciona um ambiente educativo, em que todas as crianças possam interagir umas com as outras, em que possa dialogar e partilhar as suas vivências.
Do ponto de vista cognitivo, as crianças em idade pré-escolar encontram-se num estádio de desenvolvimento, criado por Jean Piaget, denominado estádio pré-operatório. Piaget, com a sua perspetiva cognitiva, definida por Papalia, Olds e Feldman (2001) como a relação entre os processos de pensamento e o comportamento do indivíduo, concede uma explicação compreensiva do desenvolvimento cognitivo humano.
Para Piaget, segundo a mesma fonte, cada estádio de desenvolvimento dá-se em torno de um ciclo de três princípios de organização, adaptação (assimilação e acomodação) e equilibração. Ou seja, a criança vai progressivamente desenvolvendo-se à medida que integra e dá significado a novos conhecimento, ajustando-os e incorporando-os na sua estrutura cognitiva existente, alterando os conhecimentos anteriores, como forma de encontrar respostas às suas inquietações face ao mundo envolvente, sempre mantendo um equilíbrio entre as suas necessidades e padrões cognitivos com os novos conhecimentos e experiências suscitadas pelo meio e pelo mundo.
No que concerne ao estádio de desenvolvimento cognitivo das crianças em idade pré- escolar, o pré-operatório, é o segundo estádio de desenvolvimento definido na teoria cognitivista de Piaget, desenrolada entre os dois e os sete anos, marcada pelo pensamento simbólico, pela compreensão de identidades e da relação causa-efeito, pela capacidade de classificar e compreender o número, pela empatia e pela teoria da mente (Papalia, Olds & Feldman, 2001).
Estas características do pensamento cognitivo da criança podem ser compreendidas com o quadro 1, onde estão sucintas e explicadas a significação de cada uma.
Quadro 1: As características cognitivas das crianças em idade pré-escolar
Caraterísticas Significado
Pensamento simbólico Utilização de representações mentais para objetos e pessoas sem manter contato visual;
Compreensão de
identidades Compreensão de que as pessoas e os objetos são os mesmos, mesmo que seja alterado a sua aparência, com algum acessório ou cor, por exemplo.
Compreensão da relação causa-efeito
O mundo para a criança já não é apenas um mistério, começando a fazer sentido e estar organizado para a mesma, com o reconhecimento de que
as suas ações têm consequências e provocam acontecimentos.
Capacidade de classificar A criança é capaz de organizar os objetos, pessoas ou acontecimentos em categorias com significados, semelhanças e diferenças.
Compreensão do número A criança consegue contar, associar e comparar quantidades
Capacidade de empatia As relações de amizade e colaboração vão se desenrolando com a progressiva capacidade da criança se colocar no lugar do outro e
imaginar os seus sentimentos.
Teoria da mente Explica e prevê as ações das pessoas, atribuindo-lhe crenças, sentimentos e pensamentos.
Adaptado de Papalia, D. E.; Olds, W.S. & Feldman, R. D. (2001). O mundo da criança (8ª ed.). Lisboa: McGraw-Hill, pp. 312-314
Além das caraterísticas referidas, em qualquer um dos estágios de desenvolvimento cognitivo de Piaget existem limitações dado a idade e a experiência com o mundo. As crianças entre os dois e os sete anos ainda estão a desenvolver referências face às pessoas e ao mundo, daí que segundo Papalia, Olds & Feldman (2001) o seu pensamento é egocêntrico, com um raciocínio transdutivo, pela capacidade de focar-se apenas num aspeto e nos estados, ignorando as suas transformações, considerando que a concretização de uma situação não se dá em dois sentidos, como por exemplo a união de duas metades de uma bolacha representa a sua totalidade. Isto é, a criança entende que o mundo é pensado por todas as pessoas da mesma maneira, transpondo a sua imaginação para a realidade com a atribuição de vida a objetos e não conseguindo distinguir a aparência da realidade.
Para Papalia, Olds & Feldman (2001) estas limitações são denominadas como:
Figura 6. As limitações do estádio cognitivo pré-operatório
Adaptado de Papalia, D. E.; Olds, W.S. & Feldman, R. D. (2001). O mundo da criança (8ª ed.). Lisboa: McGraw-Hill, p. 313 E st ád io P ré -O pe rat ór io
As características e os limites aqui mencionados permitem ao educador compreender as crianças com os quais contata diariamente, mas é preciso ter em conta que são variáveis de criança para criança, dependente da estimulação a que esta esteja sujeita, pois “O tipo de treino e a idade da criança afectam a qualidade da sua aprendizagem.” (Papalia, Olds & Feldman, 2001, p. 313).
Para Teodoro (2013), no fim da educação pré-escolar a criança já se encontra preparada e apresenta características de transição para o estádio das operações concretas, onde segundo Piaget e Inhelder (1997) o pensamento progride do simbolismo e assume dois núcleos fundamentais: a causalidade e o acaso.
Do ponto de vista motor, Fonseca (1989) afirma que a evolução motora é um processo complexo, dada à sua continuidade desde feto até à fase adulta, numa relação constante e estreita entre as necessidades e os reflexos primitivos.
O desenvolvimento da motricidade e do movimento está, segundo o mesmo, relacionado com o processo duplo de fixação e libertação de estruturas, face à satisfação das necessidades humanas provocadas pelo contexto, pois “ (…) desde a motricidade fetal até à maturidade plena, passando pelo momento do parto e pelas sucessivas evoluções, o movimento é sempre projectado face a uma satisfação de uma necessidade relacional.” (p. 146).
Para Fonseca (1989) a motricidade está intimamente ligada ao desenvolvimento cognitivo e neurológico, definindo a motricidade como “ (…) um vasto problema de prolongamentos mentais”, sendo “ (…) a evolução nervosa uma evolução motora” (p. 147). A criança em contexto de educação pré-escolar, com idades compreendidas entre os três e os seis anos, apresenta na visão do mesmo autor, um controlo postural perfeito, conseguindo equilibrar-se estaticamente e manipular objetos ao mesmo tempo que realiza movimentos com os membros superiores e inferiores, visível sobretudo na alimentação e controlo dos talheres.
Teodoro (2013) acrescenta que nesta fase, sobretudo dos quatro aos seis anos, a criança encontra-se a aperfeiçoar as suas habilidades de subir, descer, pular com um ou os dois pés, pedalar e a aperfeiçoar a sua coordenação motora fina, essencial para o contato com a escrita e tarefas de enfiamento.
Para finalizar, Vayer (1992) destaca o desenvolvimento motor como produto do exercício corporal da criança na descoberta e “ (….) exercício do poder sobre o Mundo.” (p. 57), utilizando como ferramentas o diálogo com o adulto, as interações com os pares e o contato com os objetos, em diferentes formas e jogos corporais, quer orientados quer da sua iniciativa, de uma forma espontânea e livre.