• No results found

Este é um dos temas mais delicados e recorrentes nos debates virtuais, às vezes em tópicos específicos ou disperso em outros tópicos.

Já se tornou lugar comum ouvir (ou ler) dos brasileiros, tanto homens como mulheres, indocumentados ou não que ―as brasileiras só querem saber dos holandeses‖ ou ―são todas interesseiras, só querem saber do passaporte‖. A maior parte delas relataram ter adotado o sobrenome do marido e o exibem nas suas páginas do Orkut. Uma trajetória relativamente comum entre parte delas são os casos de moças na faixa dos vinte e poucos anos de idade, de classe média e instrução superior completa ou não que foram para a Holanda trabalhar como au-pair e após alguns meses lá iniciaram um relacionamento com cidadão holandês que resultou em casamento e consequentemente, após um processo burocrático que dura cerca de quatro anos ou mais, elas conquistaram a cidadania holandesa.

Por outro lado, não são raros os casos de mulheres não tão jovens, na faixa dos trinta anos ou mais, provenientes de extratos sócio econômicos mais baixos e que foram para a Holanda seguindo o perfil básico do brasileiro, ou seja, ganhar a maior quantidade de dinheiro possível. Mas, chegando lá, após algum tempo (às vezes anos) iniciaram um relacionamento com holandês e após o mesmo longo processo mencionado anteriormente, que envolve

também idas e vindas ao Brasil e aprendizado obrigatório da língua holandesa, finalmente conquistaram a cidadania.

Este processo é tão comum que já se criou entre os brasileiros um jargão próprio para se referir a estas situações. Por exemplo, aquelas possivelmente menos instruídas quando se referem ao conjunto de procedimentos burocráticos e à conquista da cidadania, geralmente usam o termo ―passaporte‖ de forma genérica ou ―os papel‖, ambas com o mesmo sentido amplo de cidadania holandesa. Estes termos também são usados pelos homens ao se referirem às mulheres que passam por este procedimento.

O que pesa contra a reputação das mulheres brasileiras dentro da própria comunidade é o fato destes arranjos serem bastante frequentes e a quantidade bastante desproporcional em relação à quantidade de brasileiros homens que passam pela mesma situação.87 Numa discussão do Orkut (2010a), certa vez um participante usou o termo ―Maria Passaporte‖ para se referir às mulheres que ele entendia serem oportunistas: ―Que existem marias-passaporte por aí que fazem filhos para garantir a aposentadoria precoce com dólares/yens/euros das pensões dos incautos estrangeiros, ah, isso existe sim hehehe‖, houve várias reações de apoio a ele, mas as reações em contrário também não tardaram a aparecer.

Espero que os tais ―machos‖ que surgem na comunidade dizendo asnices sintam-se tão bem lendo isso quanto eu me senti nas tantas vezes que li a forma "respeitosa" que eles gostam de falar das brasileiras em geral. Pelo menos já seriam um sinal de um pouco de vergonha na cara.

(...) Me incomoda já ter visto aqui na comunidade comentários sobre "maria passaporte" (lembrando o quanto é "fácil" conseguir um, especialmente na Holanda) e vc não foi o único. E claro que a gente sabe que existe alguns casos assim - independentemente da nacionalidade da pessoa, pois acredito que não temos registrado o "golpe da barriga" como invenção brasileira, tampouco recebemos royalties por isso. Mas a questão é essa, sempre escrito de forma generalista e como se fosse exclusividade brasileira. E, no final das contas, se são algumas poucas que fazem isso, pq sempre lembrar, como se fosse a regra e não a exceção? (ORKUT, 2010b).

Por outro lado fica perceptível na fala (escrita ou oral) de muitas mulheres o orgulho de terem se tornado cidadãs holandesas. O próprio fato de fazerem questão de exibirem o novo sobrenome holandês e de usarem expressões como ―minhas holandesinhas‖, ―minha loirinha‖, ―meu loirinho‖ para se referirem aos filhos88 e filhas bem como ―meu loiro‖, ―meu blond‖ e

87 Só para se ter uma ideia, homem nesta situação eu conheci apenas dois, um era casado com uma surinamesa,

portanto não nativa e outro era homossexual que viveu uma relação estável com um holandês nativo, enquanto que do lado feminino contatei cerca de 15 ou 20 mulheres.

88 Saindo do mundo virtual para o cara à cara do mundo real, uma delas contou-me bastante orgulhosa que seu

―meu holandês‖ para se referirem aos maridos, são indícios de que dão valor à nova identidade europeia.

No âmbito das relações de gênero as discussões são acaloradas e entram novos elementos que tornam o debate mais complexo ainda. Um dos elementos que entram em cena são os estereótipos a respeito da mulher brasileira do ponto de vista do homem brasileiro e do estrangeiro. Os mais citados inclusive pelas próprias mulheres são: a suposta beleza ímpar e multirracial da mulher brasileira; sua ―competência sexual‖; sua afetividade e capacidade de ser carinhosa e sua maior capacidade de criar filhos e constituir família, por supostamente ter uma base familiar mais sólida e vir de uma cultura (a brasileira), que no entendimento delas é menos permissiva e dá mais importância a valores morais em contraposição a uma suposta libertinagem holandesa.

Por outro lado, as brasileiras são quase unânimes em criticar os homens brasileiros ao compará-los com os holandeses. O estereótipo básico do homem brasileiro propagado por elas parece ter saído das músicas de Sidney Magal. As características são basicamente: pai irresponsável que não assume os filhos (menos frequente); agressivo com as mulheres, mulherengo e infiel no casamento, não divide as tarefas domésticas com a esposa e é machista. Fazendo um contraponto, boa parte delas afirma que os holandeses são ótimos maridos, por serem fiéis no casamento, serem liberais e curiosamente uma das qualidades mais apreciadas é o fato dos holandeses ajudarem nos afazeres domésticos, sendo o ápice cozinharem para suas esposas. Já o defeito mais criticado por elas nos holandesas é a avareza.

Não podemos deixar de mencionar uma situação delicada que acomete muitas brasileiras: a separação e a guarda dos filhos.

Diferente do Brasil onde quase sempre a justiça cede a guarda dos filhos à mãe, inúmeras brasileiras narraram no Orkut casos de amigas, conhecidas ou delas mesmas que perderam a guarda dos filhos por que a justiça holandesa decidiu dar a guarda do filho ao pai holandês nativo. Há casos dramáticos onde algumas ficam totalmente desamparadas e recorrem ao Orkut pedindo ajuda à comunidade brasileira