Os brasileiros que chegam a Amsterdã têm de lidar com os problemas comuns da imigração, especialmente no caso dos indocumentados, neste contexto é importante receber ajuda para se conseguir trabalho, moradia, apoio e informações. Durante a pesquisa consegui contatar três pessoas101 que foram e são fundamentais para a melhor inserção dos imigrantes. São eles: o pastor Marcos Elísio, líder da igreja ―Comunidade Cristã de Amsterdam‖; Márcia Curvo; brasileira que possui também cidadania holandesa e o terceiro não revelarei o nome para não lhe causar problemas, ele próprio prefere ser chamado pelos amigos por um apelido. Vou me referir a ele pelo nome fictício de Carlos.
5.5.1 Pastor Marcos Elísio
Apesar dos atritos e discordâncias que possam haver na comunidade brasileira e no meio evangélico, o pastor Marcos é indiscutivelmente uma liderança na comunidade. Segundo os informantes; seu livro ―Batalha em Sodoma, Vitória em Gomorra‖ (ELÍSIO, 2006) e uma entrevista que ele me concedeu, esta liderança foi construída e consolidada através de seu
101 Certamente há outras pessoas que prestam ajuda, mas estes três são bastante conhecidos e as circunstâncias
trabalho religioso e social com os brasileiros além do fato dos cultos da igreja que ele lidera ser frequentado por uma quantidade considerável de pessoas102.
Proveniente de uma igreja Batista do estado de Minas Gerais, o pastor Marcos já está na Holanda há 13 anos vivendo legalmente, mas com um visto não permanente103. Ele classifica sua igreja como uma igreja pentecostal independente, mas de influência Batista, e se mostrou avesso às igrejas neopentecostais especialmente às que seguem o estilo da IURD.
Segundo o pastor, ele foi enviado a Amsterdã para substituir outro que já havia iniciado o trabalho há alguns anos mas estava retornando ao Brasil. Ele conta que antes de partir, ouviu de um pregador: ―Amigo, você está indo para Sodoma e Gomorra‖ (ELÍSIO, 2006, p. 21).
O pastor vê a cidade de Amsterdã como um local de absoluta decadência moral.
Mas de fato, chegando a Amsterdam entendi as palavras daquele missionário inglês nas ocasiões que se seguiram: vi as famosas vitrines que expõem os corpos seminus de milhares de prostitutas do ―Red Light District‖ o distrito da luz vermelha; conheci os chamados ―Coffee Shops‖ abertos para vender maconha como se vendem balas e doces no meu país; percebi jovens com apenas dezesseis anos deixando suas famílias, apoiados pelo governo, para irem morar sozinhos; observei os viciados em heroína, cocaína, craque e um monte de outras drogas pesadas andarem perambulando e roubando bicicletas pela cidade, exibindo seus corpos magros, seus sorrisos sinistros e desdentados; visitei bares apinhados de jovens bebendo e deixando o rastro do seu vômito no caminho de volta para suas casas, sem seus pais para recebê-los; pude ver os bares e boates, para homossexuais, rodeando uma praça inteira e fazendo daquele lugar um verdadeiro ponto de promiscuidade (...) ali também havia templos vazios por toda a cidade e muitos deles sendo utilizados como academias de dança, bares ou museus, conservando nas suas portas os anúncios para os cultos de domingo apenas como parte do patrimônio histórico; enfim, nestas e em muitas outras coisas confirmei que estava sendo travada uma grande batalha em uma cidade decaída em sua moral (ELÍSIO, 2006, p. 22).
Ao longo do livro e da entrevista que ele me concedeu, fica claro que a intenção do pastor é dar apoio aos imigrantes brasileiros e protegê-los dos perigos oferecidos pelas supostas excessivas liberalidade e promiscuidade de Amsterdã104. Outro ponto importante que aparece em seu livro é a ideia do fluxo reverso, ou seja, conforme a citação anterior, Amsterdã ou
102 Os cultos são frequentados por talvez umas duzentas ou trezentas pessoas, um número bastante elevado para
aquele contexto. Os cultos são ministrados em português, mas há tradução simultânea para o holandês sendo transmitido por fones de ouvido.
103 Ele possui um visto especial para líderes religiosos mas que apesar de tanto tempo não se torna permanente,
este obstáculo a permanência acontece possivelmente para dificultar a entrada e permanência de líderes muçulmanos.
104 Embora há que se respeitar a opinião do pastor e sua longa experiência, tenho que considerar que Amsterdã
não me causou impressão tão negativa. Pelo contrário, a segurança de se andar nas ruas a qualquer hora, o baixo índice de crimes violentos ou contra a propriedade contrastam muito com a realidade que vivemos no Brasil, além disso os problemas que a Holanda enfrenta com o uso de drogas legalizadas ou não são menores e menos intensos que no Brasil.
mesmo a Holanda estão mergulhadas em um ambiente onde Deus está quase ausente105 e que um dia foi um dos ―celeiros de missionários para o mundo‖ (ELÍSIO, 2006). Fica evidente em seu livro a ideia da necessidade de se travar uma ―batalha espiritual‖ internacional, comum aos missionários brasileiros no exterior (MARIZ, 2009, p. 176).
É inegável o trabalho feito pelo pastor, segundo foi relatado, ele fez uma tentativa de abrir uma casa de recuperação para drogados que foi infrutífera pela falta de condições materiais, mas ele continua ajudando os que lhe procuram. Além disso ele faz um trabalho de acompanhamento de brasileiros que são presos na Holanda por cometer crimes graves como assassinato ou tráfico de drogas ou mesmo casos menos graves como prisões de brasileiros indocumentados.
Outro trabalho que o pastor faz é intermediar o contato entre o brasileiro que quer retornar ao Brasil e uma instituição que paga pelas passagens de retorno, a IOM (International Organization for Migration). Esta instituição atua em vários países do mundo e uma de suas finalidades é repatriar pessoas, especialmente indocumentados (IOM, 2009). Muitos brasileiros usam desta instituição, embora muitos deles acabe retornando na mesma condição de indocumentado poucas sememas após ir para o Brasil.
O pastor contou em entrevista106 que a maior parte dos frequentadores de sua igreja são indocumentados e uma das atividades que ele fazia antes era usar o carro da igreja para auxiliar nas constantes mudanças que parte de seu rebanho fazia. Além disso, sua igreja é um importante ponto de encontro e lazer da comunidade, há dentro da igreja um mural onde as pessoas podem anunciar serviços ou quartos para alugar, e ouvi várias pessoas recomendando que eu fosse até lá para procurar quarto ou mesmo pedir ajuda direto ao pastor.
Todas estas atividades do pastor lhe renderam algumas críticas por parte de alguns brasileiros por considerarem que sua igreja às vezes se afasta de suas obrigações religiosas, mas por outro lado lhe renderam também um grande prestígio perante a comunidade brasileira e mesmo nos meios oficiais. Quando entrei em contato por e-mail com o cônsul brasileiro na Holanda pedindo informações e ajuda na pesquisa, ele próprio recomendou que eu procurasse o pastor Marcos, além disso, em entrevista o pastor me informou que foi oferecido a ele pelo consulado um título de cônsul honorário, que não se concretizou por questões legais e burocráticas.
105 Em conversas informais com pentecostais holandeses percebi que há um certo desconforto com a idéia da
vinda de missionários de fora para ―salvar‖ a Holanda.
5.5.2 Márcia Curvo
Márcia Curvo é uma cidadã brasileira que possui também cidadania holandesa pelo fato de ser casada com um holandês. Diferente de uma parte considerável das mulheres nesta situação, ela antes de ser casada com um holandês já possuía uma carreira na área da educação e possui formação superior no curso de língua inglesa. Além do inglês ela também fala holandês.
Ela é proprietária do website ―Brasileiros na Holanda‖ (2010), que é possivelmente o mais completo e mais importante direcionado a brasileiros, onde ela escreve a maior parte do conteúdo e faz toda a organização e atualização sozinha. Em entrevista107 ela me contou que seu marido ajuda na interpretação e tradução das complexas leis holandesas, especialmente as referentes à imigração. Seu site também traz notícias, uma espécie de guia ensinando os meandros dos costumes e burocracia holandesas e uma série de serviços informativos.
Além do site ela ajuda pessoas que a procuram por e-mail atrás de informações sobre parentes que vivem na Holanda e que não dão notícias, ou que pedem ajuda a parentes brasileiros que estão enfrentando problemas com a justiça holandesa. Um tipo de problema muito comum é o de mulheres brasileiras que se casaram com um holandês, tiveram filho e após a separação lutam pela guarda da criança.
Além dos serviços em seu website, Márcia também participa ativamente da comunidade do Orkut ―Brasileiros na Holanda‖ e lá também responde perguntas de outros membros e participa das discussões.
5.5.3 Carlos
Ao chegar a Amsterdã me deparei com um problema sério para o qual não estava preparado. De acordo com as normas do CNPq eu deveria imediatamente abrir uma conta bancária em um banco holandês para que pudesse receber as parcelas da bolsa de estudos. Após algumas informações desencontradas, descobri que para poder abrir a conta eu deveria me registrar na prefeitura com a autorização do proprietário do local onde morava. O problema era que o imóvel já era sublocado e eu não pude sequer fazer contato com o verdadeiro proprietário. Ante a urgência do problema, já estava disposto a tentar achar alguém que me pudesse registrar mediante pagamento, mas nem isso encontrei. Foi quando ao
conversar com a irmã de um dos moradores da casa ela disse que conhecia alguém que talvez pudesse me ajudar. No dia seguinte entrei em contato com ele por telefone e combinamos de conversar no domingo.
Chegamos eu, minha esposa e filha em sua casa, ele pediu para ver meus documentos com as traduções juramentadas, perguntou o que eu fazia na Holanda, quanto tempo ficaria e rapidamente concordou em nos registrar, sem cobrar nada. Detalhe importante, ele não era brasileiro, era cabo-verdiano.
O fato me impressionou. Registrar um estrangeiro completamente desconhecido em sua casa foi um ato inesperado, aos poucos nos tornamos amigos e conheci um pouco melhor sua história.
Nascido em Cabo Verde, ele trabalhou em navios mercantes e vivia aposentado na Holanda legalmente. Ele tem familiares vivendo em Cabo Verde, França e Brasil. Atualmente, realiza o trabalho de entregar panfletos de propaganda junto a outras pessoas e aluga um dos quartos de sua casa. Seus melhores amigos que conheci são um antigo colega de trabalho e seu cão.
Quase todas as vezes que o visitei ele recebia várias ligações telefônicas, muitas vezes de gente pedindo ajuda.
Por exemplo, no dia em que foi nos registrar na prefeitura, ele estava visitando uma amiga brasileira no hospital com uma história de vida bastante singular e ilustrativa. Ela vive indocumentada na Holanda há 16 anos e por conta de um problema de saúde bastante grave teve de ir às pressas ao hospital, após muita relutância por estar correndo risco de vida, após a internação de vários dias ela conseguiu sobreviver, mas teria de pagar uma quantia bem alta. Carlos então negociou com o hospital o parcelamento das custas do tratamento e a senhora pôde voltar para casa sem nenhum problema com a justiça holandesa, uma demonstração da relativa facilidade de se viver indocumentado lá.
Carlos também ajuda indocumentados que são pegos pela polícia, em alguns casos conseguiu reverter a deportação conversando com policiais na delegacia, mas estes casos são mais raros. Ele também consegue trabalho para brasileiros recém-chegados como entregadores de panfleto, geralmente eles fazem este tipo de trabalho temporariamente, pois consideram um tanto arriscado devido à exposição na rua e o consequente risco de uma abordagem policial. Além disso, ele acompanha brasileiros até o aeroporto ou os recebe quando está chegando, aliás, um momento crucial na imigração, uma vez que apesar da relativa tranquilidade em entrar, não são raros os casos de brasileiros que são barrados e têm de voltar, portanto a presença de um conhecido torna-se fundamental.
5.6 O caso do afogamento e o porquê do brasileiro ser conhecido como um povo