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Miguel Rojas Mix, diretor de Investigação, do Instituto de Altos Estudos de América Latina (Sorbonne, Paris) trabalhou com os conceitos de identidade e integração e de forma bastante esclarecedora mostra que esta questão somente passou a existir quando da chegada dos europeus na América, porque antes os po- vos da mesma não tinham nenhuma preocupação em se sentir ou não americanos. A história da América com a chegada dos europeus foi desde o início um encon- tro e um choque entre as duas culturas, “não se pareciam, mostravam-se incompatí- veis: os valores de uma não permitiam a sobrevivência dos valores da outra”.

Esta questão foi resolvida de formas diferentes: “os ingleses mataram todos os índios por não considerá-los seres humanos e os espanhóis decidiram integrá-los, mas à força”. Em síntese destruíram toda a cultura do índio, seus valores, sua história.

Com a chegada do negro nas Américas a confusão foi ainda maior. O termo hispânico não nos cabia. Rotulavam-se como latinos os índios, os negros e os mulatos do Caribe e do Brasil.

Para Bolívar em seu discurso de Angostura, 1819:

[...] não somos europeus, não somos índios, mas sim uma espécie média entre os aborígenas e os espanhóis. Americanos por nascimento e euro- peus por direito, nos descobrimos no conflito de disputar com os nativos

os títulos de posse e de nos manter no país que os viu nascer, contra a oposição dos invasores ‘espanhóis’, assim a nossa história é a mais extra- ordinária e complexa13.

Rojas Mix se aprofunda em conceitos e na história sobre a temática integração e identidade, passando pela ideia de nação, território; as diversas colônias existen- tes na América, mostrando que o que ficou foi o sentimento de americano.

Fala ainda dos vários projetos de integração, sendo o primeiro de Bolívar, com o seu hispano-amercanismo, que se define pela língua.

Bolívar é quem vai convocar o primeiro Congresso de Lima (1847/48): o Con- gresso Continental de Santiago do Chile, em 1856; e o Segundo Congresso de Lima, em 1864/65. Bolívar é considerado o precursor do pan-americanismo. Não obstante é o cubano Martí quem, no terreno intelectual, vai terminar de definir a personalida- de deste primeiro hispano-americanismo, com o chamado “Nuestra América”.

É sabido, no entanto que o pan-americanismo surgido em 1889, durante a Primeira Conferência Internacional Americana, tem sua origem na Doutrina Monroe, um projeto dos Estados Unidos e que implica em uma hegemonia e interesses dos Estados Unidos.

Mix14 revela ainda outras buscas da “integração”:

– 1948, após a Segunda Guerra Mundial o pan-americanismo se transforma em inter-americanismo para os EUA impor-se junto aos países latinos americanos; – O sistema baseia-se em três realidades jurídicas fundamentais: o TIAR-Trata- do Inter-americano de Assistência recíproca, chamado também de Tratado do Rio de Janeiro (1947);

– O Tratado Americano de Soluções Pacíficas (Pacto de Bogotá,1948)

Todos estes tratados por parte dos EUA são criticados principalmente o pan- -americanismo, considerado sem identidade frente ao hispanismo que é um projeto de identidade, mas sem integração.

Todas as tentativas de denominação hispano-américa e ibero-américa, segundo Mix “não são outra coisa do que tentativas de recuperar no cultural o desaparecido

13. Mix, Miguel Rojas, diretor de Investigação, do Instituto de Altos Estudos de América Latina (Sorbonne, Paris).Identidade e integração na América latina. IV Encontro Ibero- -americano de Comunicação,SP, 1989.

império espanhol”. A denominação Ibero-América somente vem aparecer depois da Guerra de Cuba, em 1904 quando se publica a Revista Unión Ibero-Americana.

Mix deixa claro também que: Índios e negros terão semelhantes projetos…

Aqueles da Indo-América e da Afro-América, destinados a responder a uma identidade hispânica, na qual eles não se sentem abrangidos. Só que o projeto da Indo-América implicará três ideias de integração: a ar- queológica de Valcárcel; a aprista, com a criação de uma burguesia indo- -americano ; e a socialista de Mariátegui15.

Mix fala ainda da APRA- Aliança Popular Revolucionária e dos vários mo- vimentos culturais na América Latina para se buscar a tão sonhada integração e identidade cultural, por exemplo, no Brasil dos anos 50/60.

A reflexão dos cientistas sociais desses anos vai representar uma variação impor- tante na ideia de identidade, quando vai insistir na definição de identidade mais como uma identidade socioeconômica do que como uma identidade linguística.

Mauro Marini e Darcy Ribeiro são exemplos disto. Para Marini:

uma constante na ideia de unidade da América Latina é a hipótese de in- terdependência das nações que a compõem e seu desejo de integração… A novidade nesta ideia, que já existia com Bolívar, é que renasce a partir dos anos 50 e que, diferentemente da antiga noção, vai incluir o Brasil no mesmo patamar em que se compreendiam os países na antiga ideia continental. A noção se redefine, deixa de ser uma herança puramente linguística, e a unidade surge da identidade da condição socioeconômi- ca própria aos países latino americanos, e também da necessidade, para liquidar, o subdesenvolvimento, da complementaridade destes países.16

Já Darcy Ribeiro lança como questão se existe uma América latina:

No terreno da cultura, ele abandona as ideias de indigenismo e negritu- de tradicionais, para afirmar que só se pode responder afirmativamente a esta pergunta se entendermos por cultura “uma entidade complexa e fluida que não corresponde a uma forma dada, mas sim uma tendência em busca de uma autenticidade que jamais se logrou alcançar […]

15. _________Idem, SP, 1989. 16. __________Idem, SP, 1989.

Darcy entende, a identidade como um processo e uma unidade de um pro- duto. A tese de Ribeiro é que a expansão ibérica vai homogeneizar o mundo: “já não existem nem índios, nem europeus, nem africanos, são todos neoameri- canos. Ainda se abandonarmos o plano linguístico e cultural, a América latina continua existindo no plano socioeconômico”17.