A TESSITURA METODOLÓGICA
O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida. Cora Coralina 4.1-Objetivos
Esta pesquisa visa compreender como os pacientes oncológicos enfrentam o sofrimento por meio da religião/espiritualidade diante do diagnóstico e do tratamento.
4.2- O caminho da pesquisa
Inicialmente, a escolha temática desta pesquisa se deu por meio de interrogações pessoais sobre minha vivência de enfrentamento religioso no sofrimento. Os embates e confrontos internos na relação homem-Deus, a questão da fé provada, as indagações sobre o mal e o sofrimento e as renúncias à própria vontade, constituíram o início desta trajetória.
Naturalmente entrei em um processo de interiorização e de diálogo interior, em uma escuta pelo sentido do sofrimento e pelas possibilidades de mudanças advindas da dor. Este processo foi construído, dentre outros, no encontro com a literatura de Moustakas. (MACIEL 2004). Esse autor afirma a importância de enfrentar o problema em um encontro com a própria historicidade, abraçar o próprio mistério existencial, a partir da experiência fundamental, como também, na concepção das relações humanas como um processo dinâmico e intersubjetivo:
O pesquisador é alguém que está disponível para se deixar fecundar mediante exaustiva busca interior, diálogos e trocas com outras pessoas, especialistas ou envolvidas diretamente na experiência em foco [...] toda esta abertura dá origem a um conhecimento “compreensivo”, que se resolve em uma “exposição sistemática e definitiva” (MACIEL, 2004, p.179).
Para Ancona-Lopez (2009), a pesquisa tem uma função de fecundação para o pesquisador, pois, ao refletir sobre sua questão, ele mergulha em um mundo de significados e possibilita a sua própria recriação. Nesse sentido, a pesquisa adquire uma disposição pessoal de busca que compromete o pesquisador, consigo mesmo e com os seus colaboradores.
Massimi (2011) apresenta dados, através da autobiografia de grandes autores e escritores da humanidade, sobre a importância da fonte autobiográfica, como recurso para a apreensão do processo de elaboração da experiência e sua importância para os saberes psicológicos. A leitura destes autores contribuiu para que eu me aprofundasse em minha biografia e me deu liberdade intencional para tecer os fios desta pesquisa.
Para compreender melhor sobre o enfrentamento, mobilizei-me ao redor da questão. Fiz um levantamento da literatura sobre o tema por meio da religião, elencando artigos científicos sobre a questão. Apresentei-me para fazer um curso semestral no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, com Lotufo sobre enfrentamento religioso na concepção de Pargament. Participei do Simpósio de Psicologia da Religião na USP, com Pargament e fiz um curso de Psico-oncologia. Nesta fase, concentrei-me sobre a questão a ser pesquisada. Reuni as fontes bibliográficas, conversei com pessoas da área, registrando os dados: “o pesquisador deve ser flexível para perseguir os dados onde ele se manifesta, e, disciplinado para registrar o processo com todos os meios disponíveis” (MACIEL, 2004, p. 182).
Uma experiência fundamental na mobilização da questão é a observação participante que faço em um grupo religioso de pacientes oncológicos em uma associação de combate ao câncer. São pacientes de localidades próximas que vão se tratar no hospital do câncer da cidade e encontram, na associação, alojamento com apoio médico, social e ocupacional.
Por esta observação busquei compreender como os pacientes se veem e como constroem sua realidade. Convivi com esses pacientes, participando diretamente do tratamento e de seus testemunhos sobre o enfrentamento, por meio de suas religiões. Juntamente com evangélicos e católicos rezavam-se o terço da Misericórdia, Ave-Marias, músicas variadas, sem preconceitos religiosos. O importante neste grupo é a fé, o apoio religioso e a união de forças que os mantêm fortalecidos.
Alguns testemunhos de enfrentamento religioso que tenho registrado neste grupo, são ricos e lotados de esperança. O diagnóstico e o tratamento doloroso não fazem desanimar a fé e a motivação de cura destes pacientes. Dão testemunho de coragem, mesmo frente ao medo e às dores. Alguns que chegam desanimados e entristecidos, diante do testemunho de coragem dos demais, recobram o ânimo.
Alguns pacientes se apresentavam muito debilitados e participavam como podiam do grupo de apoio religioso. Outros chegavam desanimados, depressivos, calados, assustados e não se abriam. Mesmo assim, o apoio social que encontravam na associação e no hospital, davam aos pacientes a garantia de esperança e superação.
Esta interação tem sido importante para mim, como pessoa e como pesquisadora. Além de ver que a humildade e a aceitação do sofrimento são fatores primordiais para o enfrentamento, a observação participante coloca-me no mundo daqueles que desejo compreender.
4.3- A pesquisa em psicologia fenomenológica
Devido a essa trajetória, escolho a pesquisa de orientação fenomenológica como método para a presente pesquisa. Amatuzzi (2009) adita que a psicologia fenomenológica é como um saber que se constrói e se exerce inspirado na filosofia, mas, a partir do interior da própria psicologia enquanto um fazer científico, em uma direção descritiva qualitativa.
Segundo Mahfoud e Massimi (2008), para Husserl, fundador do movimento fenomenológico, a questão do significado da realidade ou do sentido do mundo não era abarcada pelo método científico. Husserl se interessa em encontrar um caminho para chegar a esse sentido esquecido, para além da ciência convencional, pois ele não seria alcançado por meio de experiências laboratoriais já que envolve o ser humano e sua produção de significados. O caminho para o conhecimento seria o da experiência.
Para Amatuzzi (2001), uma das razões que caracteriza uma psicologia de inspiração fenomenológica é a importância que se dá ao vivido, à vivência25
Para a fenomenologia, os fenômenos são modos de como as coisas podem ser. As coisas aparecem como elas são, e elas são como aparecem. Por meio da fenomenologia, suscitamos a questão do ser, porque começamos a olhar para elas como são dadas para nós, , sendo que o vivido: “É nossa reação interior imediata àquilo que nos acontece, antes mesmo que tenhamos refletido ou elaborado conceitos.” (AMATUZZI, 2001, p. 53). Para que se possa falar de vivido é necessário que haja havido uma experiência portadora de um sentido potencial para a pessoa, pois é a experiência que remete ao plano do significado. Ela é o acontecimento “psicológico, mental e espiritual.” (AMATUZZI, 2001, p. 54).
25 Vivência pode ser expressa nas línguas latinas também pelo termo experiência. (AMATUZZI, Mauro, Experiência: um termo chave para a Psicologia. Memorandum 13, 8-15, 2007).
precisamente como se manifestam, em sua verdade e evidência: “a fenomenologia olha para o ser humano como o lugar em que a verdade ocorre” (SOKOLOWSKI, 2010, p. 73).
A fenomenologia propõe uma alternativa para a pesquisa, um caminho diferente do método experimental, utilizado pelas ciências naturais. Ancona-Lopez (2009, 2010), ao recordar o paradigma em ciências humanas, assinala que os objetos se mostram de forma fluida, mutáveis e não se repetem. Homem e mundo se constituem mutuamente, isto é, a consciência e objeto da consciência, são indivisíveis. Não há consciência sem objeto, uma consciência vazia. Em qualquer ato da consciência encontram-se imbricados o objeto que se quer estudar e a subjetividade do pesquisador.
Assim sendo, não há possibilidade de uma total objetividade, pois, temos acesso apenas ao mundo como ele se apresenta à nossa consciência, não podemos acessar o mundo em si, como também não há possibilidade de uma total subjetividade, pois, não há consciência sem conteúdo da consciência.
O termo mais associado com a fenomenologia é a intencionalidade. Ancona-Lopez (2010), adita que o conceito de intencionalidade é a referência básica para se pensar o homem e o conhecimento. Ela lembra que, para a fenomenologia, “intencionalidade refere-se à unicidade consciência e objeto da consciência, que se constituem mútua e simultaneamente, de tal maneira que não é possível falar de consciência sem objeto, ou de objeto que não se dê na consciência. (ANCONA-LOPEZ, 2010, p. 27). O fato de qualquer fenômeno se apresentar à consciência já é um modo de conhecer, sendo potencial de infinitas possibilidades de compreensões reflexivas. Para a fenomenologia, as experiências humanas se configuram no horizonte espaço-temporal e é nesse horizonte que se configuram os pensamentos e as reflexões.
O homem imprime sentidos ao mundo, ao que vivencia em sua existência, assim, a pesquisa em fenomenologia é centrada no ser humano, o ponto de partida da investigação fenomenológica é a compreensão do viver do próprio homem. No método fenomenológico, busca-se o sentido do fenômeno, a exploração do significado da experiência, a partir da coleta de dados de colaboradores que experienciaram o fenômeno. Para Holanda: “o método fenomenológico constitui-se numa abordagem descritiva, partindo da ideia de que se pode deixar o fenômeno falar por si, com o objetivo de alcançar o sentido da experiência”. (HOLANDA, 2006, p. 371).
Essa forma de fazer pesquisa enfatiza o significado da experiência para o colaborador da pesquisa em questão, que vivenciou o fenômeno e, portanto, se encontra apto a dar seu depoimento. Para Holanda (2007), a fenomenologia estuda as pessoas como “estão sendo” em
um dado momento. Assim a situação da pesquisa não é definida pelo pesquisador, mas pelos próprios sujeitos da pesquisa.
Com o objetivo de evidenciar o fenômeno, é necessário acessá-lo tal qual ele é, isto significa abandonar temporariamente as crenças e os juízos que se tem sobre o objeto de estudo. Sokolowski (2010) diz da atitude fenomenológica, em que o pesquisador contempla, o que é ser participante no mundo e nas manifestações e, assim, ele alcança “o andar superior”, eleva-se acima do mundo natural. Essa volta a uma atitude fenomenológica é chamada de redução fenomenológica. A palavra redução significa “conduzir de volta”, reter, “voltar às coisas mesmas". Neste momento da pesquisa, o pesquisador suspende as intencionalidades que contempla, ou seja, coloca “entre parênteses” suas crenças, o mundo, as coisas do mundo. Para Bello (2006), o “colocar entre parênteses” significa assumir uma atitude de disponibilidade e assim, de honestidade intelectual. Por meio da atitude fenomenológica, entramos em um processo de esforço de compreensão que depende da responsabilidade pessoal do pesquisador.
Por meio da suspensão, o pesquisador assume uma atitude neutra, sem negar o mundo e a experiências, mas para refletir e questionar. Isso possibilita o emergir dos sentidos que não tinham sido antes adequadamente observados e analisados. Depois de colocar o fenômeno entre parênteses, o pesquisador descreve-o, procurando abstrair-se de qualquer hipótese, pressuposto, ou teorias. Busca-se exclusivamente analisar aquilo que se mostra, em sua estrutura e nas conexões intrínsecas.
Uma das características da investigação fenomenológica é a perspectiva relacional e a valorização da subjetividade consciente dos colaboradores e do pesquisador. Amatuzzi (2001) afirma que na intersubjetividade, pode-se ouvir o que move as pessoas a partir de dentro. Não basta somente uma escuta científico-clínica, ou filosófica, mas a atenção ao novo na vida, nas relações, no simbólico, nos mitos, e imagens, pois, podem ser os únicos recursos ao acesso de algo que não está dominado ou plenamente conhecido.
Na intersubjetividade se dá a participação existencial do encontro com o outro. Neste caminho de reciprocidade operativa se constrói a compreensão que vai além dos significados literais e cognitivos, além de transportar o pesquisador para o sentido: “compreender é participar do sentido”. (AMATUZZI, 2001). A compreensão é uma das noções centrais em fenomenologia, algo específico do mundo humano, da intersubjetividade. A vida humana para ser apreendida em sua essência necessita ser compreendida e, não explicada como as ciências naturais.
Desta forma, ao deparar-me com o problema da pesquisa, procurei construir um conhecimento que iluminasse o problema a ser pesquisado, buscando os sentidos da experiência. Para isto, a pesquisa é marcada com uma postura aberta à pessoa em sua totalidade, por uma compreensão da experiência e, não de uma busca explicativa do comportamento.
A atitude adotada foi uma busca compreensiva pela experiência, a fim de descobrir-lhe o sentido. (GIUSSANI, 2009). Esta busca compreensiva depende de uma participação existencial, de um ouvir que é mais que observar, mas estar em relação, e, portanto, tornar-se presente.
A atitude de estar presente não é uma técnica, mas uma postura essencial para o reconhecimento do outro. É o dispor-se completamente para outra pessoa, sem reservas:
É estar o mais completamente disponível para a outra pessoa num dado momento, sem a interferência de considerações ou reservas. É a consciência que se dirige completamente ao processo de existir da outra pessoa. Isto requer que se esteja atento à experiência do outro e atento à sua própria existência. (HYCNER, 1995).
Este estar presente exige a “suspensão” dos pressupostos, de sua própria visão de mundo e conceitos para permitir a entrada no mundo significativo do colaborador. Para se construir o conhecimento é preciso conhecer aquilo que o objeto verdadeiramente é, e não estar arraigados aos apegos, às opiniões que já formamos sobre ele. Nesse caso, o interesse é sobre o que aquele sujeito significa, a partir de sua própria perspectiva e não a partir do pesquisador. (HOLANDA, 2007; ANCONA-LOPEZ, 2009; GIUSSANI, 2009).
O contato com o colaborador será permeado pela interatividade; a intenção não será apenas buscar informações, mas criar uma situação de confiabilidade para a abertura, promovendo uma horizontalidade na relação.
Acredito que o pesquisador e o colaborador são interatuantes (Holanda (2007), na construção de um novo conhecimento através do encontro de seus mundos sociais e culturais.
Adotarei algumas posturas que considero importante neste encontro, como priorizar o foco do conteúdo pedido, escutando atentamente sem fazer digressões, estar atenta aos meus sentimentos, preconceitos e valores, considerar o ambiente da entrevista, silencioso e acolhedor, em uma atitude aberta, acolhedora, atenta e interessada. (SZYMANSKI 2010; ANCONA-LOPEZ, 2009).
4.4-O colaborador
Parto da premissa de que o colaborador da pesquisa é protagonista, juntamente comigo, na construção do conhecimento. Os seres humanos são autores das próprias ações, desafiados pela vida a responder criativamente aos determinismos que os afetam. (FRANKL, 2003; MOUSTAKAS, 1990).
Ancona-Lopez (2009) orienta que o pesquisador seleciona o seu colaborador. Ele é escolhido pelas suas características, ou seja, aquele colaborador que melhor permite acessar o fenômeno. Dessa forma, para essa pesquisa, a escolha caberia a uma pessoa religiosa, que estivesse vivenciando algum tipo de sofrimento em sua vida, e enfrentando este sofrimento por meio de sua religião/espiritualidade.
Inicialmente, pensei em estudar o sofrimento em âmbito geral, mas, ao fazer um curso de Psico-oncologia, chamou-me atenção o sofrimento advindo do câncer. A notícia do diagnóstico de câncer é comumente vivida de forma conturbada, e evoca comportamentos de rejeição, estigmas, pensamentos sobre a morte o que provoca reações emocionais que podem interferir no equilíbrio e bem-estar do paciente. Pela minha própria vivência, como paciente oncológico e, devido a diversas reações oriundas do diagnóstico e do tratamento, decidi escolher o paciente oncológico como colaborador para essa pesquisa.
Engajei-me em procurar um colaborador dentro da proposta da pesquisa. No hospital do câncer deparei-me com vários pacientes, em nosso grupo de apoio religioso. Escutei-os, fiz um “diário de bordo” das narrativas, testemunhos, e de minhas impressões e intuições, acompanhei-os, esforçando-me para colocar-me, imaginativamente, no lugar deles, para que pudesse “começar o trabalho de construção do outro e de seu mundo” (MOREIRA, 2002).
No grupo de apoio interessei-me, dentre outros, por um senhor em tratamento de câncer no cólon. Ele recebera a informação médica de que sobreviveria por duas semanas, tão avançado estava o câncer. Mas que, com a “graça de Deus” estava vivo há dois meses e já receberia alta em três meses. Este senhor, evangélico, havia depositado sua enfermidade nas mãos de Deus, e enfrentava o câncer por meio de sua fé e determinação na cura de Deus. Sempre alegre, dava seu testemunho de esperança e cativava a todos.
Mas, o colaborador não estava neste grupo de apoio. Detive-me em uma mulher que eu vira dois anos atrás em uma igreja, e sua imagem me marcou. Aquela mulher chamou-me atenção pela sua beleza e espiritualidade, mas, nunca até então, tivera contato com ela. Decidira que iria convidá-la. Soube que era dona de uma casa de artigos religiosos, e marcamos um primeiro contato.
Ana, nome fictício que adotei para preservar sua identidade, apresentou ter as características iniciais para a pesquisa. Ana conta que sua mãe era muçulmana, convertida ao catolicismo e seu pai era libanês católico. Desde a infância teve um suporte religioso graças a sua mãe que a educou no catolicismo. Ana, ao relatar sobre as nuances da transgeracionalidade familiar, relatou sobre o poder que a religião exerce em seu sistema familiar. Ela é uma pessoa religiosa, em tratamento de câncer, e o enfrenta por meio de sua religiosidade. Ana tem quarenta e oito anos, é solteira, mãe de uma criança, mora com seu filho e tem uma loja de artigos religiosos. Ela trata de câncer de mama há quatro anos ininterruptos. Trabalhei e convivi com ela nessa pesquisa por cinco meses consecutivos. Eu a vi trabalhando, cuidando da casa, da loja, participando de grupos de oração, e estive com ela, pessoalmente por sete vezes, sendo três para entrevista e outras quatro para conversa informal.
4.5- A entrevista
A adoção do instrumento para coleta de dados para análise foi realizada por meio da entrevista semidirigida, individual, com devolutiva. A entrevista é baseada na concepção rogeriana de liberdade experiencial, em que o indivíduo se sente livre para reconhecer e elaborar suas experiências e sentimentos, emoções e desejos pessoais como ele o entende, independente de normas sociais e morais. Um diálogo genuíno em que é permitido o desdobrar de idéas, pensamentos, sentimentos e imagens expressos naturalmente. Esse procedimento permite uma geração espontânea de questões e conversas em que o colaborador participa naturalmente desdobrando um diálogo com o investigador, em uma partilha cooperativa. O entrevistado pode dizer livremente o que há em seu pensamento e sentimento, o que emerge em sua consciência quando o fenômeno é focalizado. (MOUSTAKAS, 1990).
Um dos modos de apreensão do fenômeno que utilizo é perguntar: “como” você vivencia o enfrentamento religioso do sofrimento? Para Szymanski (2010), questões que indagam o “como” de uma experiência são indutivas de descrição, de abertura para a narrativa, o que permite variedades de abordagens do tema e consequentemente um enriquecimento na feitura da análise. Em fenomenologia, por meio da pergunta “como é isto?” posso perceber como o conteúdo intencional é interpretado, como se dá a vinculação entre consciência e objeto, e também como a experiência acontece, como é realizada no tempo histórico.
Szymanski (2010) ao desenvolver uma pesquisa estabelece etapas, como o contato inicial e a condução da entrevista. No contato inicial é fornecido ao colaborador os dados pessoais do pesquisador, a instituição de origem e o tema da pesquisa. É esclarecida a importância da participação do colaborador e a permissão para gravar assegurando o seu direito de anonimato.
A primeira vez que entrei em contato com Ana, para a entrevista, ela me recebeu em sua casa, apresentou-me seu filho, e deixou-me à vontade para iniciarmos. Esclareci os procedimentos da entrevista, o tema, a importância de estudar o enfrentamento em ciência psicológica, a importância do colaborador na pesquisa, e a importância de narrar a experiência em si, retornar à vivencia de enfrentamento, sem racionalizar. Lemos o termo de consentimento livre, esclarecido e aprovado pelo Conselho de Ética da PUC- SP.
Com a entrevista gravada, fiz a transcrição do depoimento, transcrevendo a fala de Ana na íntegra. Realizei várias leituras com a intenção de familiarizar-me com o conteúdo. Em seguida realizei uma síntese descritiva para apreender o sentido geral do fenômeno indagado. Feita a síntese descritiva, li e reli várias vezes, abrindo-me à iluminação. Vi a importância de devolver a síntese para Ana, e marcamos um dia para conversarmos.
Szymanski (2010), diz da importância da devolutiva em uma entrevista:
Nesse momento, há a possibilidade de se ter conhecimento do impacto da primeira entrevista no modo de perceber o fenômeno por parte do entrevistado e obter-se uma ampliação da compreensão do mesmo, por parte do pesquisador. É quando o entrevistado pode apresentar modificações eventualmente geradas pelo processo de reflexão (SZYMANSKI, 2010, p. 53).
Expliquei a Ana a importância da devolutiva e ela me disse que não conseguira ler seu depoimento. Esforçou-se para ler, mas, sozinha teve dificuldades. Não queria reviver novamente tudo o que passou. Perguntei se o problema era reviver novamente ou estar sozinha ao ler o seu depoimento. Ela me disse que o problema era que estava sozinha e precisava estar com alguém para recordar. Compreendi o pedido de Ana e sua necessidade de suporte para revisitar sua vida de enfrentamento. Li em voz alta a síntese descritiva de seu depoimento e ela ficou muito impactada. Em alguns momentos chorou.
Percebi que para Ana foi importante revisitar seu enfrentamento. Ao terminar o relato ela apresentava comoção, dizendo: “Isto tudo é comigo mesmo? Realmente é minha vida? Tantos detalhes...” Recordou que justamente nos momentos mais difíceis de tratamento e debilidade ela estava reinaugurando sua loja e viajando para a Terra Santa. Perguntou como