CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor,
pois bondade também se aprende! Cora Coralina O objetivo deste trabalho foi compreender como se dá o enfrentamento religioso em situações de sofrimento. As descobertas dentro deste contexto foram inúmeras, mas detive-me nas mais provocadoras, aquelas que durante o processo de construção da pesquisa, amadureceram e me fizeram refletir, desalojando-me e trazendo profundas reflexões sobre minhas próprias vivências.
Fiz um diálogo teórico com a antropologia existencial humanista de Frankl (Capítulo 1) que trouxe uma visão de homem aberto a seu devir, livre e responsável diante de seus condicionamentos, homem que se posiciona perante a facticidade de seu destino. Essa teoria abriu para a possibilidade de refletir o homem sofredor e religioso que enfrenta sua dor por meio de sua espiritualidade. No capítulo 2 e 3 apresentei o enfrentamento sob a perspectiva cognitiva em interface com a religião de Pargament. Percebi que essa teoria traz bases importantes de relação homem-Deus, sem perder a essência existencial do homem.
Entendi que fazer pesquisa em fenomenologia é uma busca constante. Responsabilidade e liberdade estão imbricadas neste processo. O amadurecimento dos dados se deu por meio da reflexão, da renúncia, da paciência, da persistência, da atenção aos dados, do aguardar o fenômeno. Caminhar com Ana, e aguardar seu tempo foi algo exigente, estar com ela em meio a tantas dores e aperceber-me de seu quadro interno juntamente com suas emoções, sentimentos e significações, sentir-com, foi motivo de muita reflexão para mim. Sua dor levou-me a pensar nas possibilidades humanas, nas potencialidades e no poder da fé religiosa, na superação e na resiliência. Diante disso, destaco algumas considerações que para mim foram essenciais nesse processo.
Vivencio o enfrentamento religioso em minha vida. Em vários momentos escolho a religião e a espiritualidade para me ajudar nos reveses da vida. Essa escolha é permeada por lutas internas, muitas vezes contra os próprios desejos. Em minha vida o enfrentamento religioso não é algo simples, mágico, sobrenatural, extraordinário, fácil, “pedir e receber”, mas envolve renúncia de si, perseverança, dúvida, e às vezes crise de fé. Por isso imaginava encontrar um colaborador que enfrentasse lutas espirituais, negações, ou até desvios. Ana me surpreendeu com sua fé e aceitação.
Trabalhei e convivi com ela nessa pesquisa por cinco meses consecutivos. Eu a vi trabalhando, cuidando da casa, da loja, participando de grupos de oração. Observei como se dá seu enfrentamento, suas lutas, temores, sua fé e a importância do apoio religioso em sua vida.
Sempre que estive com Ana, ela se apresentou solícita, alegre, dinâmica, cheia de entusiasmo, desapegada e prudente. Mesmo recebendo prognósticos que alterariam indelevelmente sua vida, e que a fariam sofrer perdas inexoráveis, permaneceu constante em sua fé.
Ana enfrenta o sofrimento oncológico por meio de sua religiosidade/espiritualidade. Nos cinco meses, em que a acompanhei, presenciei como o câncer solapa o corpo e arruína a dimensão física sorrateiramente. No processo histórico de adoecimento de Ana, elenco os momentos de crise passados por ela, sua forma de enfrentá-los e as consequências destes momentos para sua vida.
Inicialmente, foi a descoberta do câncer. Assim que descobriu ficou apavorada, buscou apoio religioso e encontrou os braços amorosos de um “pai” que a acolheu e lhe deu alívio.
Em um segundo momento estava no CTI com a família reunida para as despedidas, pois, segundo os médicos não havia nada mais a fazer, ela estava com os dois pulmões infeccionados por pneumonia sem poder respirar. Por meio de orações petitórias e intercessórias perseverantes e de entrega: “eu me entreguei aos pés de Jesus”, ela recebeu um milagre: “os médicos resolveram fazer uma tomografia nos pulmões. E quando eles fizeram viram que foi um milagre”.
No terceiro momento de crise ela estava deprimida e fraca depois de dezoito dias internada: “comecei a não querer ter vontade de viver”. Então uma amiga sugeriu que fizesse a novena do Divino Pai Eterno: “quando comecei a novena eu vi o poder de todas as forças do céu ligadas... com certeza eu só saí da depressão rezando todos os dias a novena do divino Pai Eterno”. Depois deste enfrentamento, Ana relata que sentiu um chamado muito forte, uma missão, ainda teria algo a realizar neste mundo.
Outro momento de crise foi quando precisava tomar uma medicação de dez mil reais por mês. A única forma seria entrar na justiça para conseguir o remédio, o que poderia ser muito difícil. Ana teve uma experiência com o sangue de Jesus e com a misericórdia de Deus em uma Igreja, e a resposta divina não se fez esperar: ela conseguiu a medicação em poucos dias.
Outro momento difícil relatado por ela, foi quando tomou medicação pela veia do pescoço. Um tratamento muito doloroso, mas que “não pensava naquilo, entrava em um nível espiritual e não sentia aquilo me abalar”.
Todos esses momentos elencados foram tempestuosos, ela lutava com todas as forças a favor de sua vida. Mas, percebi que todos foram seguidos de uma graça em especial: um milagre, uma missão, uma vitória na justiça, uma indiferença para a dor, um acolhimento de pai. Nesta forma de enfrentamento, percebo que não há uma experiência de dor somente. Há um bem implícito no sofrimento. O enfrentamento por meio da oração, da fé e da entrega além de conter em si novas possibilidades, aumentam a esperança e a certeza, aplainando as concepções do sofrimento e a sua ressignificação.
No enfrentamento do sofrimento de Ana, não há aceitação passiva. Pelo contrário, percebi o enfrentamento como luta corajosa pela vida, uma tolerância ativa, uma esperança lotada de tensão para o futuro e, arriscada, porque há um lançar-se no vazio. Isto aponta para reflexões: a fé pode, então, abrir caminhos para uma vida saudável, mais plena diante do enfrentamento do sofrimento?
Acredito que o enfrentamento religioso de Ana, em que a fé é ponto central, fornece a base para uma vida mais plena. Pergunto como uma pessoa com câncer, em estágios avançados poderia ter uma vida mais plena? A vida plena que denomino aqui, não significa onipotência, riqueza interior, virtude, felicidade, autorrealização ou bem-estar. A vida mais plena, que se deu no enfrentamento de Ana, tratou de uma condição paradoxal e processual de apego e desapego, de morte e vida, de esperança e de abandono ao Outro, de liberdade e renúncia, de temor e fé, de criatividade e conflitos. Foi uma espiral dinâmica que sustentou o movimento do seu ser, que a fez viver em meio à dor.
Ana buscou abrir-se à experiência, não a desafiou, nem se defendeu dela e, o enfrentamento religioso sustentou esta experiência. Uma experiência de perda, de dor, de despedida, alicerçada na sua experiência religiosa, que a dirigiu para uma vida mais plena. Rogers (2009) postula que, em uma vida mais plena a pessoa tem coragem de ser, ou seja, há um mergulho na própria experiência, há expansão e há maturação de todas as potencialidades
da pessoa. A pessoa que está neste processo pode adquirir uma confiança crescente em suas reações organísmicas porque está aberta à sua experiência:
Eu conheço meu corpo, já sei quando estou boa, quando não estou aí já vejo, diminuo meu ritmo, já fico mais em casa. Quando vejo que não estou bem, entro em oração, então tudo tem um equilíbrio.
A oração além de sustentar sua fé, forneceu a ela condições de equilibrar suas reações organísmicas, e deu suporte ao enfrentamento.
Ana está em busca de uma vida plena. Em alguns momentos se atemoriza perante seus sentimentos. Em um momento da devolutiva, Ana ficou muito impressionada com a leitura que fiz de sua entrevista. Percebi em seu olhar assustado e em seu comportamento, uma dificuldade de experienciar todos os sentimentos que estava passando: “Isto tudo é comigo mesmo? Realmente é minha vida? Tantos detalhes...”.
A vida plena, da qual a religiosidade de Ana ocupa um lugar central, não está livre de tensões, lutas, desejos, paradoxos, ou seja, existencialmente não há homeostase. A homeostase existe em nível comportamental e ou psíquico na vida de Ana, mas não em nível ontológico. Ela se vê frente às maiores dores e perdas; vive na incerteza, no desamparo, na própria facticidade, mas continua a acreditar. Sua fé é mantenedora de sua vida plena. Uma fé que exige entrega e morte narcísica para se abrir a um novo saber:
Eu entendi realmente o amor, o amor verdadeiro que é Jesus Cristo. Ele sim é o verdadeiro amor. E entendi como é a vida realmente. Porque antes eu não tinha idéia.
Fé, aceitação e rendição. Estes dados da pesquisa são provocadores. Rogers (2009) se aproxima de uma compreensão sobre a aceitação. Ele diz que devemos nos abrir para a experiência e isso significa ser o que realmente se é. Ser o que realmente se é significa estar além das fachadas, do que deveria ser, do que os outros esperam, para além de agradar os outros. Estar a caminho de ser implica viver numa relação aberta, amigável e estreita com a própria experiência:
“Quero saber o que é isto. Quero aproximar-me disso”. E depois esperava, tranquila e pacientemente até poder discernir a natureza exata dos sentimentos que nele ocorriam. Sinto muitas vezes que o cliente tenta ouvir a si mesmo, tenta ouvir as mensagens e as significações que lhe são comunicadas a partir das suas próprias reações fisiológicas. Não tem mais tanto medo do que irá descobrir. Não tarda a compreender que suas reações e
experiências internas, as mensagens de seus sentimentos e das suas vísceras são amigas. (ROGERS, 2009, p. 197).
Para Rogers as pessoas que se abrem às suas experiências e as aceitam, são autorrealizadas, pois, isso implica em uma consciência superior dos seus próprios impulsos, dos desejos, opiniões e reações. Citando Maslow, estes indivíduos têm capacidade para uma maior apreciação dos bens fundamentais da vida.
Percebo que, o fato de aceitar a realidade, a insegurança existencial, a própria responsabilidade e adequar-se aos acontecimentos, às crises e frustrações exige maturidade afetiva, mental, existencial e vivencial. A busca por uma personalidade integrada e madura exige uma atitude flexível, realismo positivo, simplificação, atitude positiva, naturalidade, colaboração, compreensão, adaptabilidade, construtividade, oblação e aceitação. Esses dados se inserem no enfrentamento religioso de Ana. Posso perceber que o enfrentamento religioso positivo vai em direção do sentido, e é promotor de uma personalidade mais plena.
O enfrentamento religioso de Ana possibilitou a ela o exercício de sua liberdade. Vemos neste comportamento:
Uma pessoa que poderia estar frustrada em casa, chorando, desesperada pelo câncer e eu fiz o contrário. Falei, não vou ser esta pessoa. Não, vou ser totalmente o contrário. Já que eu era de um jeito, agora vou ser de outro jeito. Outra pessoa. Isto veio para mim para eu modificar minha maneira de ser. E foi assim que eu fiz. Eu mudei tudo
Sua vida factual, que lhe é dada, com seu sofrimento inexorável, abriu-lhe possibilidades de tomada de atitude para encontrar o sentido de seu sofrimento. Graças à facticidade da vida, ela pode exercer sua liberdade e responder aos apelos que a vida exigia. Isto significa que, além da vida fáctica, existe a vida facultativa, ou seja, nos dizeres de Frankl (2003), uma vida de missão, em que o homem se decide: “Toda decisão é autodecisiva. E toda autodecisão é simultaneamente autocriação. Enquanto forjo o destino, a pessoa que sou, plasma o caráter que tenho - assim, ’se’ cria a personalidade que chego a ser” (FRANKL, 1990, p. 250). Para Frankl a personalidade é dinâmica, o homem é livre para negar ou afirmar seus impulsos, seus condicionamentos, para decidir e posicionar-se perante a facticidade da vida.
Ana tomou uma posição. Ela exerceu valores de atitude, nas palavras de Frankl. Ela compreendeu que a vida é oportunidade para realizar algo. Ela não se deixou vitimar, se tornou protagonista respondendo com criatividade aos apelos da vida.
E o enfrentamento religioso do sofrimento tem aí sua contribuição. Ele ajuda a “forjar o destino”, e criar novas possibilidades que apontam para uma nova configuração da personalidade.
“O câncer só me fez bem”. Em se tratando do enfrentamento de Ana, por trás dessa frase podemos perceber uma gratidão, um fator de resiliência, uma recriação. O câncer mudou sua vida para melhor e o enfrentamento religioso está no cerne desta transformação. Certamente, um paciente oncológico sem enfrentamento religioso poderia também dizer assim. Mas em ambos os casos a opção fundamental é a do sofredor. Ele pode escolher como sofrer perante seu destino, com ajuda religiosa ou não, pois, eminentemente tem em si a capacidade de decidir o como e o para quê está sofrendo. A diferença entre ambos é que o homem que enfrenta o sofrimento pela religião/espiritualidade deixa-se “conduzir por um TU”. (FRANKL, 2003).
Aprendi por meio dessa pesquisa, que o sofrimento pode ser oportunidade, possibilidade, chance, chamado, aprendizagem, desafio. Tinha crenças sobre o sofrimento, como uma ameaça à vida. Diante do que nos é dado não há nada a fazer. Confesso uma crença fatalista diante do sofrimento. O enfrentamento religioso era para mim, permeado de dúvidas. Na minha concepção a pessoa religiosa teria que passar por tentações, privações, lutas espirituais, o processo de conversão seria doloroso, com caráter punitivo, de correção, e teria que passar pela dor para agradar a Deus. A aceitação e a rendição espiritual eram vistas por mim como fato passivo, como um mecanismo de defesa e não como uma atividade dinâmica do espírito humano.
Quando fui paciente oncológico tinha essas questões no meu enfrentamento religioso. Minha relação com o sagrado foi obscurecida e isso era motivo de muito sofrimento, não encontrava alívio. Perguntava o porquê e não encontrava respostas. Poderia ter chegado ao desespero, mas, por meio do enfrentamento religioso, da oração, de uma simples novena a São Pelegrino, meditando e tomando consciência do poder divino, tomei uma posição..
Diante disso desejei estudar o enfrentamento religioso. Muitas perguntas foram respondidas e pude satisfazer, um pouco mais, minhas exigências de busca, de verdade e de amor pelo humano. Convivendo com a Ana, por meio dos estudos e concluindo o trabalho, pude rever e mudar minha visão de sofrimento e de enfrentamento religioso.
Posso concluir que no enfrentamento religioso o sofrimento pode perder o seu caráter ameaçador. O sofrimento não é visto como um mal, mas como potencial de conquista, criatividade e transformação. Abre ao crente a oportunidade de ele apoderar-se de sua própria vida e de se autorrealizar. Há uma vida plena no sofrimento quando enfrentado por meio da
religiosidade. O enfrentamento religioso modula, integra e estrutura a personalidade, configura uma realidade positiva, apazigua as emoções, descansa o crente em meio às dores, exercita a capacidade da livre escolha, reveste a vida de gratidão, traz uma profunda aceitação da condição humana e promove amadurecimento existencial. Certamente, a religião e a espiritualidade não eliminam o sofrimento, mas abrem um caminho para suportá-lo, um caminho que fornece um chão firme para caminhar em meio às dores. O enfrentamento religioso positivo, como relatado nessa pesquisa, baseado na aceitação, na entrega e na fé é fonte de amadurecimento psíquico e existencial, fator de resiliência e fonte de sentido para a vida.
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