Desde a chegada da indústria automotiva no Brasil, muita coisa mudou, como o aumento da quantidade de plantas industriais, a quantidade de automóveis produzidos, a diversificação, o aumento e os avanços tecnológicos, os empregos gerados etc. Ao longo dos anos, várias indústrias automotivas foram se desconcentrando da Região Sudeste (pioneira) em busca de novos rumos, de novos lugares para se instalarem. Foi nesse processo que o estado de Goiás e a cidade de Catalão se tornaram pioneiros ao receber a primeira montadora de automóveis da Região Centro-Oeste.
Atualmente, o estado possui duas montadoras consolidadas, a MMCB - objeto de estudo deste trabalho - e a Carlos Alberto de Oliveira Andrade (CAOA) representante oficial da montadora sul-coreana Hyundai Motor Company no Brasil, porém, Catalão abriga provisoriamente representante oficial da montadora japonesa Suzuki, na qual são
nacionalizados alguns modelos de veículos importados. É no contexto das políticas públicas e decisões empresariais que Goiás se insere nacionalmente como um estado em franco desenvolvimento no setor automotivo.
A atividade automotiva e outras subsidiárias tiveram início em Goiás através da implantação da MMC Automotores Brasil S.A. na cidade de Catalão. O contexto que trouxe a montadora para terras goianas é permeado por diversos fatores que vão desde o poder das elites políticas locais até os incentivos fiscais concedidos pelo Estado com objetivos de atrair montadoras automobilísticas para a região Centro-Oeste. Sendo assim, tratar-se-á, sucintamente, quais são os fatores e seus significados no processo de implantação da MMCB em Catalão/GO. Cumpre considerar que este trabalho já foi realizado com categoria por Silva (2001).
Foi no panorama do processo de desconcentração industrial e no estabelecimento de políticas estatais que Goiás atraiu a MMCB para se instalar em Catalão (ver foto 1). Em 06 de junho de 1997, foi assinado o Protocolo de Implantação de Indústria Montadora de Veículos Mitsubishi entre o Governo do Estado de Goiás (Governador Luiz Alberto Maguito Vilela), a Prefeitura Municipal de Catalão (Prefeito Eurípedes Pereira Ferreira) e a MMCB (Diretor Eduardo de Souza Ramos). No documento, prevê-se a concessão de benefícios, incentivos e vantagens para a instalação da empresa em Catalão. Dessa forma, o protocolo está dividido entre as atribuições do Estado, do Município e da montadora. As atribuições que o Estado e o Município tomaram para viabilizar a instalação da MMCB serão discutidas na sequência, devido à densidade das informações levantadas.
Foto 1 – Vista aérea do Site da MMCB antes da construção da Central de Peças e Serviços, 2009. Autor: Paiva (2009). Linha de montagem veicular Restaurante Pronutri, Banco Real, Unimed e Posto Médico Weldmatic Automotive DuPont MVC Kata Líder Nacionalização de importados Pátio MMCB Estoque MMCB Linha de montagem de motores Engenharia e Tecnologia Pátio Transzero/Sada RCM Estoque DuPont Linha de montagem tapeçaria e bancos Linha de montagem chicotes Estoque MMCB Estação de Tratamento de Água Coleta Seletiva Serralheria
Catalão foi o município escolhido para sediar a MMCB. Desse modo, a Mitsubishi se instalou no município goiano devido à chamada “guerra dos lugares”, processo em que saiu vitorioso em relação à disputa com outras localidades. A “guerra dos lugares” é conhecida, popularmente, como uma disputa entre municípios em busca de investimentos de grandes grupos empresariais.
É com base nas vantagens oferecidas por estados e municípios que as empresas decidem onde instalar suas plantas industriais. Em geral, são concedidas através de acordo de intenções/protocolos firmados entre as partes interessadas. Os acordos envolvem grandes somas em dinheiros, isenções de tributos e investimentos na busca de atrair capital aos municípios. Geralmente, a “guerra fiscal” se transforma em uma “guerra dos lugares” devido às concessões, aos incentivos e até aos perdões fiscais que são concedidos pelos estados e municípios, demonstrando uma briga exacerbada pelo capital e desenvolvimento econômico regional. Segundo Vasconcelos e Teixeira (1998, p. 3-4):
Essas concessões, porém, nem sempre são divulgadas ao público. Uma das batalhas mais importantes pela localização da usina da Renault foi disputada pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, tendo sido ganha por este último à custa de muitos incentivos.
Destarte, “a guerra fiscal” acaba tornando um instrumento jurídico que envolve altas cifras monetárias em busca do desenvolvimento econômico regional, mas nem sempre os altos investimentos feitos pelo Estado têm retornos sociais garantidos. Nesse sentido, Santos e Silveira (2001, p. 112) assinalam que:
As mudanças de localização de atividades industriais são às vezes precedidas de uma acirrada competição entre Estados e municípios pela instalação de novas fábricas e, mesmo, pela transferência das já existentes. A indústria do automóvel e das peças é emblemática de tal situação.
Até o final da década de 1980, as montadoras automobilísticas buscavam se instalar nas áreas metropolitanas, próximas aos grandes centros comerciais, financeiros e de maior circulação de capitais. Mas, a partir de 1990, houve uma tendência para uma nova localização
da indústria automotiva no país, proporcionada, principalmente, pela desconcentração industrial e pela criação do RAB e do RAE, por parte do governo federal, que impulsionaram a disputa entre as cidades. O RAE alavancou o processo de desconcentração da indústria automobilística para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, através da regulamentação de incentivos diversos, conforme aponta Lima et al. (2002). Esse assunto já foi tratado no capítulo 1.
Com base no processo de desconcentração da indústria automotiva brasileira, é possível observar que se desenha uma nova configuração espacial da indústria automotiva no país, através da instalação de plantas industriais em regiões não-tradicionais no setor, como o Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Com base nessa configuração espacial emergente, Santos e Silveira (2001, p. 209) sustentam que:
Podemos imaginar que, nos próximos decênios, o “custo” relativo das grandes cidades vai baixar e não aumentar, uma vez que muitas indústrias hegemônicas já estão se localizando nas periferias das megalópoles, das metrópoles e mesmo das cidades médias. (destaque dos autores).
Vê-se que os autores chamam a atenção para as cidades médias como uma preferência da propagação de capitais. Nesse limiar, Ramalho e Santana (2005, p. 1), ao refletirem sobre o processo de reestruturação das atividades industriais no país, discutem que:
O processo de reestruturação das atividades industriais dos últimos anos atingiu de forma substantiva o setor automotivo mundial e brasileiro. A partir de uma política de abertura de mercado no início dos anos 1990, as montadoras multinacionais não só investiram mais na construção de novas fábricas como também saíram em busca de novos territórios fora das áreas geográficas tradicionais de produção de veículos.
Assim sendo, a indústria automotiva, no mundo e no Brasil, acaba sendo pioneira no processo de reestruturação tecnológica e produtiva, devido, principalmente, aos avanços no processo produtivo com o uso de equipamentos modernos, visando o aumento da produtividade. Essa tendência é impulsionada pela abertura do mercado nacional para a importação de veículos, sendo que a marca Mitsubishi só chega ao país neste contexto através de uma empresa importadora de veículos de Eduardo de Souza Ramos, acionista majoritário
da MMCB.
Portanto, foi com base nessas medidas estatais (RAE), que Goiás recebeu, em 1998, a primeira montadora de veículos do Centro-Oeste: a Mitsubishi. Sua implantação está envolta de diversas concessões e incentivos, tanto por parte do Estado, como por parte do município de Catalão. Tanto o processo de implantação como o de consolidação da MMCB em Goiás serão tratados a seguir por questões metodológicas e organizacionais da Tese.
Os planos de transformar Goiás em um pólo automotivo não cessaram, ou seja, as atividades iniciadas em 1997 teve prosseguimento dentro das instituições do Estado. Em meio a uma “guerra fiscal” e visando novos investimentos, Goiás entrou em uma disputa com a Bahia e acabou tirando deste estado a fábrica da Hyundai Motor Company. A disputa pela Hyundai teve início em 1997, cujas pretensões iniciais era de se instalar na Bahia, segundo dados de Vasconcelos e Teixeira (1998), mas só veio se confirmar em 2006, após decisão da empresa em instalar sua unidade montadora no município de Anápolis.
A história da Hyundai no Brasil lembra a da Mitsubishi no país (será contada a seguir). O Grupo CAOA iniciou suas atividades em 1979, quando o médico Carlos Alberto de Oliveira Andrade (fundador e atual presidente do Grupo) adquiriu uma revenda Ford em Campina Grande/PB, como forma de receber o pagamento da compra de um Landau feita na concessionária que faliu antes da entrega do veículo. Desde então, ele passou a ser sócio na concessionária e, em menos de seis anos, a CAOA tornou-se a maior revendedora Ford em toda a América Latina, permanecendo assim até 2006. (CAOA, 2008; HYUNDAI, 2008a).
Em 1992, o governo federal liberou a importação de veículos, até então proibida. Neste mesmo ano, a CAOA tornou-se a importadora oficial e exclusiva da marca Renault até a vinda da montadora para o país, que adquiriu os direitos de importação. Porém, o grupo CAOA deixou de representá-la anos depois. Em 1993, a marca caiu para o nono lugar em vendas. (CAOA, 2008; HYUNDAI, 2008a). Em 1998 o Grupo CAOA se tornou o importador
oficial da marca Subaru. As vendas da marca, antes representada por outro importador, triplicaram em menos de um ano. Em 1999, foi a vez da Hyundai, que já havia sido representada por dois outros distribuidores, sem grandes sucessos. Com a CAOA, a marca Hyundai tornou-se líder no mercado de importados com o modelo Tucson e, em abril de 2007, foi inaugurada a primeira montadora Hyundai no Brasil, na cidade de Anápolis/GO com investimentos de R$ 300 milhões. Observar a foto 2. (CAOA, 2008; HYUNDAI, 2008a).
Foto 2 - Vista parcial da montadora CAOA em Anápolis/GO ainda em construção, 2007.
Fonte: Medabil (2010).
O capital da montadora, assim como o da Mitsubishi, é 100% nacional e os sul- coreanos recebem apenas royalties pela transferência de tecnologia. (CAOA, 2008; HYUNDAI, 2008a).
Em 2007, iniciou-se as atividades da montadora com a produção do modelo de caminhão leve HR, com motor a diesel, desenvolvido para transporte urbano e no ano de 2009 passou a montar o SUV Tucson, além de alavancar as vendas de importados, como: Azera, i30, Santa Fé e Vera Cruz. (HYUNDAI, 2008b). Porém, o modelo Tucson passou a ser montado na unidade brasileira, devido à boa aceitação no mercado nacional. Segundo
informações obtidas em julho de 2010 no site da montadora, esta já possui 175 concessionárias/distribuidoras em pouco mais de três anos após instalação no país. (HYUNDAI, 2010).
Essa espacialização se deve à consolidação e ao tamanho do Grupo CAOA que atua no mercado automotivo nacional desde o final da década de 1970. A montadora possui uma estrutura capaz de abrigar cinco linhas de montagens de veículos e anuncia que, em breve, montará outros modelos, com as cinco linhas em operação os investimentos podem chegar até a R$ 1,2 bilhão26.
Dessa forma, nota-se que Goiás possui duas montadoras de origem asiática em operação - Mitsubishi (Japão) e Hyundai (Coréia do Sul) - e com negociações avançadas para a instalação de uma terceira, a SVB Automotores do Brasil S.A. (Suzuki Veículos), também de origem japonesa. O mapa 4 traz uma melhor visualização dos locais onde estão instaladas as montadoras de Goiás.
26 No mês de setembro de 2008, a Hyundai anunciou a instalação de uma segunda montadora no Brasil, na cidade de Piracicaba/SP para 2010, cujo investimento pode chegar a US$ 600 milhões e projeta uma capacidade produtiva de 100 mil veículos por ano.
A montadora Suzuki Veículos com sede provisória em Catalão, cuja concessão também pertence ao grupo empresarial de Eduardo de Souza Ramos, já assinou protocolo de concessões fiscais com o Governo do Estado de Goiás no ano de 2007, mas ainda não se decidiu em qual município goiano aportará. Apesar de, desde 2008, está em estrutura improvisada no Distrito Mínero-Industrial de Catalão (DIMIC), local onde, sediava uma ex- empresa terceirizada da MMCB (HPE), estão sendo nacionalizados os veículos importados da marca, sendo: Grand Vitara, Jimny, Grand Vitara V6, Sx4. Conforme levantamento realizado em março de 2010, a Suzuki Veículos possui 23 concessionárias autorizadas espalhadas pelo território brasileiro. (SUZUKI, 2010).
Do ponto de vista do capital, tal fato não é muito relevante, porque ainda não houve uma decisão oficial por parte da Suzuki Veículos em relação ao lugar onde fincará suas bases. As cidades goianas de Senador Canedo, Itumbiara e Catalão estão no páreo para sediar a mais nova montadora, demonstrando mais uma vez, a presença da “guerra dos lugares”. Mas, essa infraestrutura prévia de Catalão não significa a definição pelo município para sediar a montadora, pois há muitas outras questões de interesse do Estado, dos municípios e da própria empresa envolvidas.
A possibilidade da Suzuki Veículos ficar em Catalão faz parte do imaginário popular local, porém, questões técnicas e políticas devem ser consideradas para que a mesma se instale definitivamente na cidade. A respeito disso, o diretor da MMCB, o Senhor Ricardo José Tangary Ferraz de Camargo27, em entrevista (Anexo 4), foi questionado sobre a possibilidade real da Suzuki Veículos instalar sua unidade montadora em Catalão. O mesmo disse que, dentro de suas limitações e pelo fato de não poder responder pela Suzuki, mas devido a sua experiência e às dificuldades que a própria Mitsubishi enfrenta, acredita que Catalão, no momento atual, não tem estrutura suficiente para suportar outra montadora. Sendo
27 É Diretor Industrial da MMC Automotores do Brasil S.A. desde 2005, concedeu entrevista para esta Tese de Doutoramento no dia 04 de junho de 2009, na sede da montadora em Catalão.
portantano, necessário que a cidade se desenvolva mais e que qualifique melhor sua mão-de- obra.
Ressalta-se que até setembro de 2010, a Suzuki Veículos ainda não havia anunciado oficialmente em qual município se instalaria, mas, especulações em Catalão já davam conta que essa decisão já havia sido tomada, cuja cidade escolhida seria Itumbiara, localizada no Sul Goiano. Porém, os motivos pela provável decisão ainda são desconhecidos.
Essa “guerra de lugares” em busca da planta industrial da Suzuki Veículos já se tornou notícia na imprensa regional e até fez parte de programas do horário eleitoral de 2008, em Catalão, o que culminou em acusações diversas entre o atual prefeito e seu opositor. Este último alegou má fé da atual administração em negociar o terreno que a empresa requer para se instalar no município.
Catalão, diante do desenvolvimento que chegou nos últimos anos, sofre transformações constantes que são reproduzidas no lugar de formas diversas. A montadora MMCB assume papel importante nesse novo rumo pleiteado pela cidade, respaldado na reprodução do capital automotivo através do processo de consolidação da montadora em Goiás. Essa questão e outras que desdobram a partir do capital automotivo serão abordadas no capítulo a seguir.
2.4 A implantação e consolidação da MMC Automotores do Brasil S.A. em