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A história da humanidade é a história da construção de redes, já que, desde os primeiros momentos das organizações sociais, as redes foram não só instrumentos de sua articulação, mas também da construção de interesses diversos. Das necessidades de estabelecer comunidades primitivas para garantir a sobrevivência de pequenos grupos de humanos às rotas mercantis e aos caminhos carroçáveis que integraram impérios às redes de fios telegráficos, às redes de satélites e às redes de Internet, a história de cada civilização é a história de sua inserção e importância em alguma forma de rede.

Em todas essas organizações diferenciadas de redes, possibilitou-se a distribuição de mercadorias, a circulação de pessoas e o movimento e a veiculação da informação de maneira a realizar determinadas atividades e partilhar resultados. A rede, nesse sentido, não é única, pois ela acontece sobre múltiplas escalas e dimensões em cada momento da organização de qualquer sociedade.

A criação de uma sociedade rede, como definirá Manuel Castells (2004), não é resultado direto da tecnologia. Pelo contrário, a transformação da sociedade leva ao desenvolvimento da tecnologia que então se torna instrumento da sociedade rede que a concebeu. Da mesma maneira que todas as mudanças estruturais ocorridas em outros contextos históricos – a passagem de uma sociedade escravista a uma sociedade feudal, ou a passagem de uma sociedade de base agrária a uma sociedade industrial -, a gênese da nova sociedade dar-se-á na crise de uma sociedade anterior, ou seja, a sociedade rede se concebe no interior da sociedade industrial, promovendo gradualmente um novo modelo de organização social, econômica e política que marcará a sociedade do século XXI. No âmbito dessa crise, os elementos técnicos que caracterizam a nova sociedade

foram constituídos com base no desenvolvimento da microeletrônica, da computação- informática e das telecomunicações.

A transformação começa a ocorrer, segundo Castells (2000), a partir do final dos anos de 1960, quando convergem três grandes motivações que levam ao advento, vinte anos mais tarde, de uma sociedade informacional, uma sociedade rede. A primeira dessas condições está dada pela crise dos modelos estatistas. Os custos desenfreados da corrida militar e aeroespacial, a elevação dos preços do petróleo, o endividamento dos países periféricos, o endividamento público do Estado do Bem Estar Social, a obsolescência dos modelos planificados diante da velocidade da inovação tecnológica e das liberdades das economias de mercado criaram a necessidade de se constituir novos modelos de organização econômica. Esses modelos, tanto capitalistas quanto socialistas, constituíram-se sob uma hierarquia verticalizada e rígida e, apesar de organizados em rede, apresentavam limitações seja na espacialidade, seja na velocidade, seja na capacidade de mudanças e adaptações às necessidades do mercado.

Segundo Castells (2004:29), a demora e a imobilidade faziam com que as redes se constituíssem sob um fluxo único de informação e comando e, desse modo, ” las redes eran una extensión del poder concentrado en lo alto de las organizaciones verticales que configuron la hisória de la humanidade”. Estados, empresas e Instituições da sociedade organizavam-se de maneira centralizada e hierarquizada em favor da produção, da circulação e da organização social. Segundo o autor, a capacidade das organizações em rede de se modificarem promovendo novos agentes e novas formas de organização foram diretamente dependentes do desenvolvimento de uma base técnica que tivesse capacidade de se modificar, de se adaptar e de se ampliar a cada nova demanda.

Tal base técnica constitui a segunda das condições que o autor destaca para a consolidação de uma sociedade rede. O intenso desenvolvimento tecnológico, gestado no interior da corrida armamentista e aeroespacial, vive seu amadurecimento num ambiente de abertura econômica e globalização capitalista que faz com que as tecnologias da informação revolucionem os elementos técnicos da sociedade industrial vigente e que as tecnologias outrora desenvolvidas para a indústria militar sejam gradativamente incorporadas à indústria civil. Essa transformação se reflete agora na possibilidade de cada nó das redes já existentes e daquelas que venham a ser constituídas tenha a capacidade de multiplicar suas relações e, principalmente, de estabelecer um fluxo interativo – e não unidirecional como acontecia até então - de comunicação e informação. O compartilhamento sociedade-tecnologia-sociedade constitui o propriamente novo da atual era da informação. O desenvolvimento da tecnologia, segundo Castells (2004), significou, ao longo do tempo, um processo de expansão do corpo e da mente humana e, nas décadas iniciais do século XXI, com a possibilidade da acessibilidade criada pela generalização da internet e da mobilidade proporcionada pelos instrumentos sem fio, habilita cada agente social a interagir com a rede mundial em qualquer momento, de qualquer lugar e de acordo com o seu interesse específico.

A terceira das condições arroladas por Castells (2000) é o surgimento de uma intelectualidade inspirada por um pensamento libertário, alimentado pelos movimentos de contracultura dos anos de 1960 e colocado à disposição da criação de uma tecnologia que anunciava uma ideologia da liberdade. Embora tendo o seu nascedouro no Departamento de Defesa dos EUA, a criação partilhada entre Estado, Universidades e Instituições de Pesquisas e, mais tarde um pouco, a iniciativa privada permitiram que aquela intelectualidade pudesse contribuir para a construção de uma cultura libertária e informacional.

Entendendo que todo o conjunto de relações sociais é amparado numa determinada cultura, o caso das novas tecnologias de informação e comunicação não é diferente, pois a sua cultura é a dos seus produtores colocados num ambiente de liberdades. Nesse ambiente, processa-se primeiro a liberdade da criação, visto que o desenvolvimento da computação e da microeletrônica amplia a capacidade de processamento e armazenamento de informações, possibilitando novos conhecimentos e novas descobertas, fenômeno que Santos (2001) chamou de “maior cognoscibilidade do planeta”.

A liberdade dos mercados é elemento decisivo. A possibilidade da livre mobilidade de mercadorias, capitais e informações cria uma economia mundial em que a inovação nos processos de produção, circulação e consumo são o diferencial. A liberdade do compartilhamento é outro elemento a ser considerado. Através da divulgação dos códigos-fonte, as inovações são testadas, debatidas e aprimoradas. Além disso, as pesquisas científicas são cada vez mais realizadas em sistemas múltiplos e diversos de cooperação, enquanto imagens, textos, áudios e vídeos são distribuídos por uma grande diversidade de sites e páginas pessoais.

O último aspecto, constituído desse sentido de liberdade de comunicação e compartilhamento, cria uma cultura comunitária como definiria Manuel Castells, em que um conjunto de relações sociais se realizam e se modificam através das tecnologias de informação e comunicação. Novos padrões de sociabilidade passam a ser constituídos, organiza-se uma nova arquitetura social referenciada muito mais nos interesses e motivações individuais que em laços hierarquicamente estabelecidos.

Essa mudança está materializada no surgimento das redes sociais, ou seja, estruturas sociais compostas por grupos de pessoas conectadas por um ou vários tipos

de relações, tais como amizade, parentesco, interesse comum, ou que compartilham conhecimentos e ideias num espaço de liberdade de expressão.

Na direção dessa compreensão, pode haver muitos tipos de laços (conexões) entre os nós de uma rede. Castells (2004, 2003) e Cardoso (2006) apontam que as redes sociais operam em muitos níveis, desde as relações de parentesco até as redes políticas estabelecidas a partir de partidos e organizações ocupados em divulgar plataformas e reforçar a transparência dos processos políticos.

É essa conjuntura de transformações que constrói uma nova era permeada pelo desenvolvimento de uma tecnologia sofisticada, representada pelas novas TICs. O sistema tecnológico centrado nas TICs permitiu a formação de uma nova economia, um novo sistema de comunicação, uma nova forma de gestão das empresas e de serviços públicos, uma nova cultura e uma (re)estruturação das instituições políticas e administrativas. Possibilitou também uma maior democratização ao permitir que as pessoas atuem como provedores ativos dos conteúdos que circulam na rede. Em contrapartida, surgiram novos problemas sociais e diferentes maneiras de reivindicação e mobilização popular.

A sociedade rede seria então uma arquitetura global de redes de Estados, empresas, organizações e pessoas capazes de se autoprogramarem e, ao mesmo tempo, serem reprogramadas pelos agentes de cada escala de estudo que se tenha atenção. Seria ainda o resultado de diferentes interesses que modelam a vida cotidiana, influenciando motivações exteriores sujeitas à lógica global. Por fim, tal sociedade refletiria os processos de exclusão da própria sociedade rede, entendida não apenas como exclusão digital – a falta de acesso aos sistemas e instrumentos de informação -, mas como uma exclusão da dinâmica de circulação e acumulação que a rede global

organiza. Em outras palavras, sob o império da informação controlada e do processo de geração de uma mais-valia globalizada, a sociedade rede não resolve as questões da pobreza, do desemprego, da redução de políticas sociais e outras mazelas que reproduzimos.

Ao falar no paradigma do informacionalismo, Castells (2004) não apresenta a informação e o conhecimento como características exclusivas de nosso tempo, posto que ambos sejam tão essenciais ao momento em que vivemos quanto o foram em sociedades e momentos anteriores. O específico da nova sociedade é que tais tecnologias foram colocadas a serviço da criação de um conjunto de relações sociedade-tecnologia, da criação de uma sociedade rede. Se essa estrutura social dominante fosse apenas consequência do desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação, bastaria disseminar tais tecnologias pelo espaço que constituiríamos uma sociedade rede. O que se destaca é que a tecnologia por si não torna a sociedade atual diferente das anteriores, se não for acompanhada por transformações culturais, organizativas e institucionais.