Ao início do primeiro encontro foi sugerido por mim que o grupo tivesse uma identidade. Para tal, a idéia sugerida foi que fosse chamado de Grupo Condor 1.
Coloquei para eles o motivo da escolha, ressaltando que nome CONDOR surgiu a partir de uma música de Osvaldo Montenegro que faz alusão ao grande pássaro latino-americano. Explicam os cientistas que essa ave de rapina latino- americana voa muito alto, mas consegue enxergar pequenas coisas à longa distância, o que facilita sua ação de caçadora.
Além da música, também a imagem do CONDOR (Anexo 6) foi escolhida como símbolo dos grupos, sendo utilizada nas pastas e nos papéis que cada um recebeu durante os encontros.
Além da escolha do símbolo gráfico, foi feita uma análise da letra da música (Anexo 7) para que todos pudessem entender o significado do CONDOR frente o trabalho que estava sendo iniciado.
Feita a escolha, sugeri que enviássemos um correio eletrônico ao compositor e cantor da música, relatando sua utilização como símbolo dos grupos. Como todos concordaram e julgaram procedente a sugestão, ficou estabelecido que eu enviaria a correspondência eletrônica.
Escolhidos os símbolos, passou-se para uma explanação mais detalhada sobre o trabalho que seria desenvolvido, qual o objetivo, datas e horários dos encontros. O objetivo dessa conversa inicial foi perceber no grupo se eles compreenderiam a importância e a extensão do trabalho que seria desenvolvido. Para a concretização desse objetivo, após a explicação, foi perguntado a cada um:
VOCÊ JULGA QUE O TRABALHO TERÁ IMPORTÂNCIA, QUE ESTARÁ VALENDO A PENA PARTICIPAR, QUE É IMPORTANTE UM TRABALHO DE
DISCUSSÃO EM GRUPO SOBRE OS DEVERES E DIREITOS DE CADA UM?
As respostas foram gravadas e vão aqui transcritas de forma resumida no Quadro 4.
Quadro 4: Respostas dos participantes .
Eduardo Um grupo como esse auxilia muito, especialmente para que as pessoas possam conhecer os seus direitos. Marta O grupo ajuda bastante, é muito bom.
Sueli O grupo ajuda bastante, é muito bom. Sonia O grupo ajuda bastante, é muito bom.
José O grupo ajuda bastante, é muito bom. (Acrescentou que o grupo pode ajudá-lo a procurar um emprego ele mesmo, sem precisar que
ninguém procure por ele. Relatou um caso acontecido com ele
quando trabalhava em uma floricultura e foi vítima de discriminação e preconceito. Houve, segundo ele, uma desvalorização do trabalho que realizava
como se sua deficiência o incapacitasse para tal função.) André O grupo ajuda bastante, é muito bom.
Ana O grupo ajuda bastante, é muito bom. (Acha importante por poder falar e ouvir.) Murilo O grupo ajuda bastante, é muito bom.
Carlos O grupo ajuda bastante, é muito bom. ( Acrescentou que é
importante saber dos direitos, porque quando foi procurar uma escola para estudar, não foi aceito em nenhuma delas, por causa da sua deficiência. Ele relata que a mãe ficou muito triste e chorou muito.)
Marina O grupo ajuda bastante, é muito bom. (Acrescentou que queria muito estudar, mas que também não conseguiu ser aceita em nenhuma escola,
que as pessoas falaram que ela não poderia estudar porque tem uma deficiência. Disse que quer ser psicóloga.)
Carina O grupo ajuda bastante, é muito bom.
Marcelo O grupo ajuda bastante, é muito bom. (Acrescentou que as pessoas têm preconceito e que ele sabe que isso acontece,
Percebeu-se, pelas respostas, que alguns participantes tiveram muita dificuldade para se colocar frente às questões, para expor os seus sentimentos e a sua opinião Muitos repetiram a resposta “o grupo ajuda bastante, é muito bom”.
Essa situação de repetição da primeira resposta pode ser explicada pelo fato de que estávamos no primeiro encontro e a situação de grupo ainda não poderia ser analisada com clareza. Entretanto, houve a percepção da importância da união de forças.
Encerrada a primeira parte, apresentei através de uma leitura o livro “Os camelos e o dromedário”, o qual trata de atitudes de preconceito, de arrogância e de acolhimento, salientando o valor da diversidade. O livro conta a história de um dromedário que vai parar em uma colônia de camelos. A diferença no número de corcovas desperta sentimentos de ironia, desvalorização e curiosidade. O autor exemplifica cada um deles, salientando as conseqüências. A história é finalizada com uma comunhão entre camelos e dromedários, uma história de amor e o nascimento de um animal azul com três corcovas, dando início a uma nova etapa de respeito à diferença.
Fizemos uma discussão na qual todos se manifestaram sobre o texto, colocando com que é muito importante o acolhimento e o reconhecimento das diferenças para que as pessoas possam se sentir aceitas nos grupos dos quais participam.
O conteúdo do livro parece ter conseguido desencadear uma relativa desinibição em todos, uma vez que a discussão foi bem rica, com muita participação. Para encerrar o encontro, foi lido o texto “Milho de pipoca” (Anexo 8), reforçando a idéia de que não nascemos para permanecer a vida toda igual, mas para evoluirmos.
O tema para o próximo encontro foi escolhido pelo grupo, ficando estabelecido que falaríamos sobre EU,sobre a identidade de cada um. Como havíamos discutido o texto “O camelo e os dromedários” e o texto “Milho de Pipoca”, ambos falando sobre posicionamentos pessoais diante de situações de escolha, achamos importante perceber-se individualmente. A sugestão foi feita por mim e aprovada pelo grupo.
Comentários sobre o primeiro encontro:
A reunião foi muito interessante. Alguns alunos destacaram-se por suas participações pertinentes e de certa forma até dolorosas. Foi o caso da Marina, quando falou sobre sua impossibilidade de freqüentar a escola. Impossibilidade essa causada não pela deficiência, uma vez que ela pode fazer uso de equipamentos especiais para participar, mas acredito que pela incapacidade da escola em se adaptar a uma aluna “tão diferente”.
Outro depoimento interessante foi o de Marcelo, que revelou compreensão e consciência acima de sua condição de deficiência e das dificuldades que ela acarreta. Lembro que numa entrevista realizada para outro estudo, Marcelo foi classificado por um técnico da própria instituição como um deficiente mental, como um aluno que apresenta um atraso mental significativo.
A Ana, o Carlos e o José também fizeram depoimentos significativos. Alguns integrantes não tiveram grande participação. Ficou a interrogação – será por que era nosso primeiro encontro?