1 Introduction
1.4 Method
O material didático escolhido da década de 70 é a coleção Nossa Cultura, para o segundo grau, de Geraldo Mattos. As edições consultadas são as seguintes: 1ª série, de 1975 (Anexo A); 2ª série, de 1974 (Anexo B) e 3ª série, de 1973 (Anexo C).
É interessante lembrarmos que neste momento os livros didáticos não eram regulados por normas específicas e propostas curriculares para o segundo grau ainda não estavam fixadas. Teoricamente, os estudos textuais, ou as concepções linguísticas que tomavam o texto como unidade mínima da língua também não estavam difundidos, assim como as investigações da Linguística Textual não eram amplamente desenvolvidas no Brasil, não nos deixando a escolhas de critérios propriamente de produção textual (como as etapas de elaboração que pautarão nossa análise nos anos 2000).
Contudo, procuraremos analisar se há atividades que peçam a escrita de textos e, quando houver, se são apresentados elementos que ajudem o aluno no exercício. O interesse está, então, em vermos o espaço dado ao texto e a concepção subjacente a esse trabalho, a título de posterior comparação com as propostas do segundo momento.
Nossa Cultura 1ª série (Mattos, 1975)
Não encontramos, no livro referente à primeira série, exercícios que proponham textos aos alunos. Há, muitas vezes, frases a serem terminadas, textos incompletos, pedindo por exemplo para que o aluno dê um título a ele, entre outras
variações. Apenas no livro da 3ª série encontramos exercícios de escrita de textos e, na 2ª série, não há nem lições teóricas nem propostas de exercícios, focando quase completamente em Literatura, questões de interpretação (referentes aos textos literários) e Gramática.
Trouxemos, então, para que possamos ter uma ideia da postura adotada, alguns conceitos explicados no livro da 1ª série.
Quanto ao conceito de mensagem, vemos que está calcada numa influência estrutural de comunicação, primeiramente vinculando as ideias de texto e mensagem, sendo a mensagem o conteúdo (semântico) a ser transmitido e o texto a materialidade linguística usada para transmiti-lo. Como nos explica Batista (2013b, p.63): “o texto (visto como veículo de informação) e suas mensagens eram examinados, ambos codependentes um do outro, na perspectiva de que a forma veicula um sentido”. Depois, para a interpretação, focando no nível semântico, o autor aponta a interdependência, que podemos entender como um tipo de coerência global dentro do que é dito, como ordem de fatos contados. Nas palavras do autor:
Um texto precisa de uma mensagem, para ser texto; uma mensagem precisa de um texto, para ser mensagem. Quando dois elementos, como texto e mensagem, precisam um do outro para existirem, dizemos que entre eles se constitui uma relação de codependência. […]
Para compreender exatamente a mensagem, é preciso interpretá-la. A mensagem não é inteiriça: tem partes que se podem determinar por uma relação de independência. (Mattos, 1975, p. 10)
Quanto à ordem geral do texto, o autor divide em prólogo, trama e epílogo, organização geral a diversos tipos de texto, lembrando-nos, particularmente pelo termo “trama”, da estrutura narrativa. Observemos:
[…] tem uma introdução, que chamamos prólogo; um desenvolvimento, que chamamos trama; uma conclusão, que chamamos epílogo. (Mattos, 1975, p. 11) [grifos do autor]
Mais à frente, em outra seção do livro, intitulada Teoria: técnica de redação, recortamos os itens elencados, a fim de comentarmos os conselhos dados pelo autor para que o aluno faça uma boa redação:
[…] mensagem se constitui num conjunto de assunto e tema.
[…] A redação é difícil porque o impulso é artificial: uma exigência do professor. Assim, para fazermos uma boa redação, devemos encontrar outro impulso e, com
ele, descobrir um tema e um assunto, embora este seja comumente fornecido pelo próprio professor.
[…] Torna-se difícil dar regras para criar: é alguma coisa que vem de dentro de nossa alma e brota quase espontaneamente. É possível, contudo, indicar alguns critérios fundamentais para evitar os erros mais comuns.
1. Tema 2. Assunto
a) Não devemos transmitir informações já conhecidas. b) Convém apresentar fatos, nunca julgamentos. c) A sensação penetra mais forte que o pensamento. d) A economia da informação é fundamental
e) A força da informação se mede pelo impacto causado no receptor f) A linguagem deve adequar-se ao assunto.
g) A figura de linguagem anima o assunto 3. Qualidades de mensagem a) originalidade; b) impacto. 4. Criatividade a) Sensação b) Sentimento c) Intuição (Mattos, 1975, p. 41-46)
Depreendemos, ao observarmos a sucessão dos itens, que deve haver um objetivo para que nos comuniquemos com outro, chamado pelo autor de tema. O conteúdo transmitido a nosso receptor é chamado de assunto. De acordo com os comentários de Mattos, entendemos que é preciso convencer o outro, conquistá-lo para que ele coopere conosco.
Sobre a redação em sala de aula, o autor destaca uma características sempre presente nessa atividade: a artificialidade, pois na vida cotidiana temos impulsos para produzirmos um texto, não partimos de temas previamente dados. Concebendo a redação como criação, o autor ressalta ser “difícil dar regras”, mas nos mostra, no entanto, que há alguns critérios (ao menos para evitar os erros).
No primeiro item, o autor afirma que não devemos expressar o tema, mas deixá-lo claro para que o receptor crie conosco e seja estimulado. Vemos aqui uma influência Behaviorista, como nos lembra Batista (2013b), ao mostrar as propostas de tratamento da linguagem em pesquisas de Mattos juntamente com Back, no mesmo período deste livro em questão. Ao lermos as considerações acima, da linguagem como expressão do pensamento e resultado de impulso que nos faz agir, vemos que, nessa concepção, somos condicionados por fatores prioritariamente biológicos, respondendo a eles por meio da comunicação.
No segundo item, considerando a redação como comunicação, e o assunto como informação que transmitimos, seguimos os subitens, lendo que é preciso apresentar novidades e mediar o já conhecido. Atentemos, nesse caso, que as informações já conhecidas, conforme inferimos de exemplos dados pelo autor, dizem respeito a informações geralmente compartilhadas por todos, são, assim, supostas. Ao aconselhar que apresentemos fatos, e não julgamentos, o autor defende que devemos descrever fatos para que o receptor imagine e conclua o que desejamos expressar. Aconselha-nos, também, a usar verbos que transmitam sensações, por causarem maior efeito, assim como os próximos itens, todos relacionados mais ao estilo do que critérios de fato para a construção da redação.
Preocupado com o envolvimento do receptor, o autor nos aconselha a não entregar toda a informação, por exemplo, mas causar pequenos impactos que mantenha o interesse do leitor até o fim do texto. Depois, estabelece uma relação entre o ritmo dos acontecimentos e a construção sintática; relaciona a criatividade com escolhas semânticas e lexicais para expressarmos pensamentos; e ainda atribui a criatividade a nossa apreensão das coisas externas, ao usarmos os sentidos para experienciarmos o mundo e adquirir a cultura.
No último conjunto de itens, o autor, buscando a psicologia, traz a ideia de intuição, segundo ele “necessária à previsão do comportamento de outra pessoa, em resposta aos nossos estímulos” (Mattos, 1975, p. 46). Assim, para que consigamos nossos objetivos na comunicação, o autor aponta alguns passos ao elaborarmos nossa emissão:
De um modo muito geral, podemos guiar-nos por estas normas mínimas: a) as indicações do código subjacente do receptor;
b) as possíveis ações que eu faria em lugar dele; c) as sugestões fornecidas pelo passado dele;
d) o estudo das consequências de cada uma das respostas prováveis. (Mattos, 1975, p. 47)
Nossa Cultura 3ª série (Mattos, 1973)
No volume referente à 3ª série não temos partes sobre teoria da redação, com na 1ª série. Encontramos, no entanto, propostas de redação ao final de quase todos capítulos. Convém lembrarmos que nas lições iniciais do livro há uma sugestão de atividade denominada discurso, a qual pede para o aluno elaborar um
discurso como se fosse o orador da turma na formatura. O autor retoma, nesta sugestão, alguns tópicos transcritos anteriormente (na 1ª série), caracterizando como objetivo convencer e manter o receptor interessado. Observamos que quase todos os exercícios pedidos tratam de textos dissertativos. Abaixo trazemos o primeiro exercício de redação escrita:
O roteiro da dissertação pode ser o mesmo que tornamos para o discurso, porque também o discurso pretende provar alguma coisa e levar os ouvintes a concordar com o orador. Portanto, a dissertação deve apresentar:
1. Prólogo. 2. Trama: 2.1. Assunto. 2.2. Argumentação. 2.3. Refutação. 3. Epílogo (Mattos, 1973, p. 84)
Agora, a sua. Escolha um destes assuntos: a) A escola e a integração nacional
b) Estradas, ou escolas? (Mattos, 1973, p. 85)
Em vista da estrutura geral apresentada, pressupomos que os próximos assuntos sugeridos devam segui-la. Julgamos importante ressaltar, como leremos transcritos em seguida, que os exercícios apenas apontam assuntos (nos termos de Mattos) sem outros critérios que guiem os alunos.
F) Dissertação
1. Bondade e justiça
2. A vida social. (Mattos, 1973, p. 95) F) Dissertação
1. A reação do homem perante a novidade. 2. A ética da propaganda
F) Redação
1. A pessoa mais importante da família.
2. Um amigo inesquecível. Obs: ou uma amiga! F) Dissertação.
Volte ao que dissemos sobre a dissertação e lembre-se: agradamos apenas na medida em que transmitimos notícias originais, ou inesperadas. A notícia original provém do fato nunca visto, a acontece pouco, porque a maioria dos acontecimentos são antes variantes de outros fatos; a notícia inesperada resulta de ligações novas de fatos velhos. Um bom exemplo de Fernando Sabino: "Era uma londrina moderninha. exótica, sofisticada e estapafúrdia. Vestia uma saia preta até os pés, tinha o rosto praticamente caiado de branco, Falávamos em índios, e ela me perguntou se era verdade que eles andavam completamente nus, mesmo em plena cidade, em meio aos civilizados. Disse-lhe que sim, acrescentando que no Brasil era comum os próprios civilizados andarem nus — os pobres por falta de roupa, os ricos por excesso de calor, A inglesinha fez uns olhos enormes e ficou absolutamente deslumbrada."
Pensando, portanto, nessas características de qualquer mensagem, tente uma destas dissertações: 1. O ciúme. 2. O namoro. 3. O carnaval. 4. O turismo. 5. O preconceito racial. (Mattos, 1973, p.135)
F) Dissertação.
Devemos estar em plena semana da Pátria. E o costume pede que um aluno diga algumas palavras sobre a significação dessa data. Desgraçadamente, aborrecemo- nos de tudo o que é comum e previsível e nada é mais previsível e comum que as palavras que professores e alunos escolhem para homenagear os heróis brasileiros: é a falta de tempo de uns e a falta de outra coisa de outros, mas o resultado é o mesmo! Seguem-se alguns assuntos para a sua escolha:
a) A mendicância. b) A hora presente. (Mattos, 1973, p.143) F) Dissertação.
1 . O preconceito religioso. 2. O preconceito racial. 3. A Igreja de hoje. 4. A Igreja de ontem.
Obs: Nestes dois últimos assuntos interessa-nos apenas o fato de que a Igreja pertence à nossa cultura e, para estarmos aptos a enfrentar a elite social do nossa gente, compete-nos conhecer alguma coisa sobre ela, independentemente do credo religioso a que pertençamos.
5. Uma guerra pacífica: escolha um colega e, juntamente com ele, elabore duas dissertações sobre a mesma profissão, de preferência a que você pretende seguir. Um de vocês aborde o lado positivo, enquanto o outro comente o lado negativo, exagerando muito, até chegar ao burlesco. E as ponham em julgamento!! Não é nada difícil: o médico está muito sossegado dormindo, quando o telefone… O engenheiro, com o seu jipe numa estrada barrenta... O professor, deixe a gente em paz, sim?? (Mattos, 1973, p.158)
F) Dissertação.
1. A descoberta da Amazônia. Obs.: A atual, entenda-se. 2. Aspectos característicos da minha terra.
3. A crítica do trabalho alheio. 4. O trabalho.
5. O calor humano. (Mattos, 1973, p.166) F) Dissertação.
1. O diálogo: comando ou entendimento? 2. A necessidade do outro.
3. A vida social. 4. O serviço militar.
5. O caminho da arte. (Mattos, 1973, p.183) F) Criatividade.
1. Pai pobre, mas honrado e culto. Que testamento poderia deixar para os filhos? Tente reproduzi-lo. (Mattos, 1973, p.194)
F) Dissertação.
1. Drummond de Andrade e Manuel Bandeira: dois caminhos para a poesia. 2. O problema moderno da participação.
3. A solidão.
5. O homem e a terra. (Mattos, 1973, p. 206) F) Dissertação.
1. A opinião pública. 2. A família.
3. Um pensamento de Guimarães Rosa: “Esperar é reconhecer-se incompleto.” 4. Um pensamento do padre Vieira: “O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor.”
5 . U m p e n s a m e n t o d e C a m õ e s : “A grande dor das cousas que passaram…” (Mattos, 1973, p. 216)
Pudemos perceber, após a leitura dos exercícios, que apenas temas são dados, para a escolha do aluno e posterior escrita. Muitos deles incentivam a criatividade, fazendo-nos entender que subjaz uma concepção de língua como expressão do pensamento. Ou seja: o aluno escolhe um dos assuntos e, diretamente escreve o texto, dependendo unicamente dele ter o “impulso” para escrever, pois usa tudo o que tem coletado da experiência e, mecanicamente, coloca no papel.
Pelo fato de os exemplos mostrados pelo autor serem constituídos de textos narrativos, entendemos que este é o tipo predominante, comparando-se com os textos literários que iniciam cada capítulo. Consequentemente, a dissertação é, no fundo, a função a ser desenvolvida: convencer. Podemos lembrar do primeiro guia curricular da década de 70, comentado no segundo capítulo, quando afirma que um dos objetivos do ensino da língua é fazer com que o aluno a use como instrumento de comunicação. Neste momento, diminuindo um pouco do foco no ensino de língua principalmente como conhecimento da gramática normativa (numa concepção estrutural), a disciplina enfoca a comunicação, e concomitantemente na gramática gerativa, cujos preceitos também mostram a preocupação com a criatividade e são influenciados por pesquisas biológicas. Assim, com a ideia de podermos criar inúmeros significados tendo internalizadas as estruturas da língua, são proporcionados os temas acima citados como estímulos para que o aluno expresse seus pensamentos, numa visão mecanicista de comunicação (cf. Batista, 2013b), em que expressar implica diretamente em ser entendido.