• No results found

Methane

In document ACF606.pdf (3.832Mb) (sider 19-22)

3. Measurements

3.1 Instruments and methods

3.1.2 Methane

A construção identitária é derivante das relações sociais ou redes sociais dos imigrantes, assim como, “a existência de relações particulares (incluindo migratórias) geram condições de alguma continuidade, uma vez que as decisões migratórias individuais são tomadas por influência desse contexto, que elas próprias contribuem para consolidar.” (Peixoto, 2004, p.27).

Deste modo, as redes de sociabilidade estabelecidas pelos indivíduos, moldam o seu quotidiano, influenciando a sua consciência de pertença. As redes sociais do nosso objeto de estudo incidem assim em relações particulares de parentesco, de amizade e de associativismo. Esta abordagem destaca a importância das relações sociais para a (re)construção da identidade étnica, oscilando entre pertenças subjetivas e coletivas.

O novo ambiente do contexto social do país de destino, oferece aos imigrantes, novas oportunidades, mas também grandes desafios. As redes de sociabilidade e apoio, facilitam a integração social dos imigrantes, na medida em que possibilitam estratégias no seu processo de adaptação. Neste sentido, a Integração Sociocultural entra na nossa analise, tendo em conta indicadores como: fontes de apoio e diversidade das relações sociais dos imigrantes.

Dos doze inquiridos constituintes da amostra, seis afirmam ser a “família” o principal apoio, quatro respondem “amigos da mesma nacionalidade”, outros quatro respondem “amigos portugueses”, e outros quatro referem o “apoio associativo” em situação de necessidade. Apenas um

96

inquirido da Guiné-Bissau, recorre a apoios da” Segurança Social” e a inquirida do Bangladesh refere não ter ninguém, assim como o inquirido nº3 do Paquistão. (Tabela 12 - Fontes de Apoio/Ajuda)

5.4.2.1 – Estrutura Familiar

Através da leitura da Tabela 12, no inquérito realizado aos imigrantes, a família surge como principal fonte de apoio. Mesmo nos casos em que não existe reagrupamento familiar, ou seja, no caso em que os familiares se encontram noutros países, os inquiridos optam pela opção- Família. O cidadão do Bangladesh, 40 anos, nº9, inquirido na SOLIM, refere ser o irmão, que trabalha em Singapura, a sua principal fonte de apoio. Em muitos casos, como o deste inquirido, o apoio aos imigrantes advém sobretudo das suas redes de interconhecimento informais, constituída pela família.

As redes de sociabilidade familiar da nossa amostra apresentam-se fechadas, na medida em que as relações familiares são intra-étnicas. No entanto, existe abertura em relação ao estabelecimento de relações interétnicas, (que será desenvolvido mais à frente).

A estrutura familiar é um indicador fulcral na análise da integração sociocultural entre diferentes pertenças, tendo em conta que é no seio familiar que os indivíduos mantêm relações de proximidade com a cultura de origem, preservando a etnicidade, e é à família que recorrem como fonte de apoio, não só económico, mas emocional. Acresce que, a entidade mais básica das redes sociais, e a que mais influência detém, pela forte componente de interesse mútuo e de confiança, é o agregado familiar.

Acresce ainda, que a estrutura familiar é também um indicador de peso na reconstrução da vida no novo contexto social. Pois se o indicador - reagrupamento familiar, fortalece a Integração dos imigrantes, a ausência dele, está muitas vezes associada à solidão e insatisfação com a vida.

Assim, a proximidade da família junto do imigrante revela-se como uma das condições mais importantes na integração destas populações. Compreendemos por isso, que os inquiridos da nossa amostra, não se realizam na dimensão familiar, tendo em conta que a maioria refere a família como principal fonte de apoio, e que todos classificam com 10 a importância familiar na satisfação com a vida. Contudo, apenas quatro, dos doze inquiridos, têm a família junto deles.

As motivações para migrar dos dois estudantes do Paquistão, ligam-se ao reagrupamento familiar. Um foi inquirido na SOLIM (nº2), o outro (nº1), foi inquirido na Mesquita, mas em ambos os casos, vivem junto da família, o pai veio primeiro, e já apresenta uma migração permanente.

97 refugiados. Isto porque as primeiras são compostas, quase exclusivamente, por indivíduos em idade ativa, e quando são de carácter permanente, por núcleos familiares. As segundas são mais heterogéneas sendo compostas por uma grande percentagem de mulheres, jovens e crianças em situações de desenquadramento familiar” (Carmo, 1996, p.239).

De facto, na nossa amostra, os inquiridos da Ásia, em idade ativa, ou por motivos laborais precários, ou de ilegalidade, deparam-se com condições adversas à constituição de família.

O inquirido do Senegal, apesar do caracter permanente da sua situação migratória, também se encontra sozinho. A situação de pobreza culminou no regresso da sua mulher ao país de origem.

A cidadã Síria, veio com o filho de 25 anos, também este refugiado, contudo o marido ainda se encontra no país de origem, por motivos ligados à conjuntura política da região.

A cidadã do Bangladesh, 30 anos, inquirida na SOLIM, relata: “My son is in Bangladesh with his grandmother, and I cannot go there because if I leave Portugal I cannot come back and I cannot bring him to Portugal”.

Neste excerto do inquérito realizado na SOLIM, a cidadã do Bangladesh apresentava-se bastante perturbada quando me relatava a sua situação de desemprego, ilegalidade, mas principalmente a impossibilidade de acesso ao direito de reagrupamento familiar. Pois os direitos de cidadania não contemplam imigrantes que não contemplem as condições necessárias para o acesso a um visto de residência legal, como ter ou não um emprego formal.

Relativamente aos inquiridos muçulmanos dos PALOP, representativos da amostra, dos três cidadãos da Guiné-Bissau, dois dos inquiridos, um na SOLIM e outro no Largo de São Domingos, também não se coadunam com o indicador de integração, coesão familiar. São ambos solteiros e as famílias não se encontram junto deles. O inquirido nº11, refere ser a família a principal fonte de apoio, no entanto estabelece redes de apoio familiar à distância, referindo que ajuda a irmã através de remessas que envia para a Guiné-Bissau. O inquirido da Guiné-Bissau nº12, refere que vive sozinho, que “ela não gosta de Portugal”. Pelo contrário, o inquirido, também da Guiné-Bissau, nº10, responde que vive acompanhado, “e muito bem acompanhado”, pela mulher, revelando uma estrutura familiar coesa e já representada pelas segundas e terceiras gerações em Portugal.

Apoiamo-nos nos dados do INE, para uma análise mais geral da componente familiar na integração das novas minorias islâmicas no território nacional.

98

Gráfico 12 - Dimensão das Famílias Portuguesas e das Famílias de países de Cultura Islâmica

Fonte: INE, Censos, 2011: Famílias clássicas segundo a dimensão do agregado familiar, elaboração própria30

A representação gráfica das Famílias clássicas, segundo a dimensão, distinguindo por grupos, (portugueses, luso-islâmicos e não lusófonos), permite-nos aferir distinções importantes na estrutura familiar destes grupos, mas também distinguindo as nacionalidades que os constituem.

A partir da análise dos dados do INE, do Gráfico nº 12, verifica-se que o número de famílias constituídas por apenas uma pessoa é maior no caso dos estrangeiros não lusófonos, comparativamente com os portugueses ou com as populações de estrangeiros dos países de tradição luso-islâmica (Guiné-Bissau e Moçambique).

As famílias constituídas por uma só pessoa, apresentam assim, elevada concentração no caso das nacionalidades asiáticas, principalmente do Paquistão, mas também de nacionalidades africanas não lusófonas (como ilustrado na Tabela 13). Números que se devem a diversos fatores, como imigração económica temporal ou sazonal, vínculos laborais precários, ilegalidade e desigualdades de oportunidades, inerente às sociedades contemporâneas. Pois como salienta Castles (2005) ”(…) o

30 Estes valores referem-se a países de cultura islâmica significativa. Não correspondem apenas à população muçulmana

oriunda destes países, incluindo também população imigrante não-muçulmana. Não estão incluídos dados de pessoas oriundas destes países (islâmicos), que já adquiram nacionalidade portuguesa.

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 1 2 3 4 5 6 7 8 9 ou mais

99 desenvolvimento da economia global acelerou os processos de mudança, mas aumentou também as desigualdades, particularmente entre o Norte e o Sul”. (Ibidem, p.7)

Deste modo, evidenciam-se as típicas migrações económicas sul- norte, dos países do continente asiático e africano, com destino à Europa e consequentemente a Portugal.

Os dados do INE, ilustram a desagregação familiar, pois como exposto na amostra recolhida, os imigrantes não reúnem as condições necessárias à realização pessoal ao nível da constituição ou reagrupamento familiar.

Relativamente aos países de tradição luso-islâmica, verifica-se também grande concentração de famílias constituídas por uma pessoa, contudo com menor representatividade, comparativamente com as nacionalidades não lusófonas. Acresce que, os cidadãos dos PALOP, tendem com maior facilidade a encontrar laços na coesão ou reagrupamento familiar, principalmente se, a partir do Gráfico 12, analisarmos a dimensão da família com três pessoas ou mais, o que evidencia a distinção no perfil entre os dois grupos de imigrantes. Partindo destes dados, inferimos também que, no caso dos cidadãos moçambicanos e guineenses, os casais tendem a ter mais filhos, comparativamente com os cidadãos não lusófonos, mas também comparativamente com os portugueses, pois os cidadãos nacionais fazem-se representar com incidência nas famílias constituídas por duas pessoas.

Deste modo, os cidadãos da Guiné-Bissau, tendem a constituir famílias mais numerosas, comparativamente com os portugueses e com outras nacionalidades africanas e asiáticas, revelando a preservação dos traços étnicos tradicionais. A imigração da Guiné-Bissau, já sedentarizada, e por isso bem representada pelas segundas e terceiras gerações de imigrantes, encontra grande expressão nas faixas etárias mais jovens, o que no futuro poderá contribuir para atenuar os efeitos do envelhecimento da população portuguesa. É ainda relevante frisar que a imigração paquistanesa, encontra igualmente grande expressão nas populações mais jovens.

100

Gráfico 13 -Famílias de uma pessoa por Género, Nacionalidade e Grupos de Países

Fonte: INE, Censos, 201131

O Gráfico 13 apresenta com saliência a preponderância de famílias de uma só pessoa do sexo masculino sobre o sexo feminino.

No caso dos indivíduos inquiridos da Ásia, revela-se que o indicador de integração, coesão familiar, é inexistente, quando os vínculos laborais temporários são assentes nas atividades manuais mais exigentes e de menor remuneração e consequente precariedade dos trabalhadores. Os inquiridos na SOLIM, trabalhadores agrícolas da Ásia, parecem ver a constituição de família constantemente adiada e impossibilitada.

Tendo em conta os dados dos Censos 2011, as famílias de uma só pessoa são quase na totalidade representadas pelo sexo masculino, principalmente no caso de nacionalidades como a paquistanesa e países africanos não lusófonos, o que evidencia a tendência de masculinização da imigração destas duas regiões do mundo: Ásia e África subsariana (como analisado no capítulo 4.5).

31 Estes valores referem-se a países de cultura islâmica significativa. Não correspondem apenas à população muçulmana

oriunda destes países, incluindo também população imigrante não-muçulmana. Não estão incluídos dados de pessoas oriundas destes países que já adquiram nacionalidade portuguesa.

0 500 1000 1500 2000 2500

Guiné-Bissau Moçambique Outros África Paquistão Outros Ásia Total c 1 pessoa H M

101

Os Homens vêm sozinhos em busca de oportunidades profissionais, o que não se verifica no caso das Mulheres destes países islâmicos. Esta fraca participação das Mulheres, oriundas de países de cultura islâmica, deve-se à conjuntura sociocultural dos países de origem, mas também a fatores dos países de acolhimento. Assim, a débil representatividade destas Mulheres nos dados do INE, referentes à composição por género de famílias de uma só pessoa, deve-se a fatores culturais cingidos pelas referências culturais islâmicas, molde em que à mulher é relegado o espaço domestico.

Outro fator que está na base da preponderância do sexo masculino, encontra-se nas estratégias que visam sustentar e melhorar a situação da família, através da maximização dos rendimentos e minimização do risco, que passam muitas vezes pela estratégia de primeiro se fixarem os homens, e só depois de se estabilizarem, reúnem-se as mulheres e os filhos. (Fonseca et al., 2005).

No entanto, em muitos casos, como os casos particulares da nossa amostra, os imigrantes asiáticos não acolhem esta estratégia, pois a grande maioria, são solteiros e não têm filhos.

A discrepância entre géneros, deve-se ainda, a outro fator inerente à história das modernas sociedades europeias: a discriminação e desigualdade de oportunidades entre géneros, nomeadamente no acesso ao mercado de trabalho. Esta situação de precariedade, atinge também mulheres imigrantes em idade ativa, contudo, nos casos de nacionalidades como a paquistanesa, a sua representatividade é quase nula. Em 239 famílias constituídas por uma só pessoa, apenas 4 são constituídas pelo sexo feminino. No entanto, esta discrepância é menos evidente, quando analisamos outras nacionalidades. “Os dados do SEF relativos à população estrangeira residente do sexo feminino por tipo de despacho associado à autorização de residência (AR) concedida em cada ano dão bem conta do reforço de outras razões para a permanência das mulheres imigrantes (AR para atividade subordinada, AR para estudo), por contraposição à diminuição da importância relativa de mulheres estrangeiras com (AR por reagrupamento familiar).” (Oliveira e Gomes, 2016, p.38).

Estes valores contrariam a tendência de masculinização dos fluxos migratório laborais e as estratégias de reagrupamento familiar tradicionais.

Nota-se assim que a população feminina imigrante de países de cultura islâmica, é mais expressiva nos nacionais dos PALOP, comparativamente com os nacionais de países da África não lusófona e da Ásia. Sendo a nacionalidade moçambicana a que se distingue, pois, as famílias constituídas por uma só pessoa do sexo feminino, representam 187 em 396 famílias, acentuando deste modo, as diferenças entre os tradicionais e os novos imigrantes de países de cultura islâmica. Tendo

102

em conta que, nos países dos PALOP, a diferenciação de género na composição de famílias de uma só pessoa é menos evidente, aproximando os valores do sexo feminino ao masculino.

Os inquiridos representativos do nosso estudo, enquadram-se nos dados facultados pelo INE, que revelam grade representatividade de famílias de uma só pessoa, nas nacionalidades asiáticas e africanas não lusófonas. Valores que ilustram a solidão e insatisfação emocional vivida, muitas vezes, por estas populações representativas da NPI em Portugal.

Concluindo, dos doze inquiridos, apenas os dois estudantes paquistaneses, a cidadã marroquina e um inquirido da Guiné-Bissau, vivem junto da família, observando-se no conteúdo dos dados da amostra, as dificuldades de integração inerentes à importância da componente familiar. Podemos assim, inferir, por vezes, a insatisfação inerente à ausência da pertença familiar na análise das novas minorias muçulmanas não lusófonas.

Depois da família, a fonte de apoio que os imigrantes da nossa amostra mais contam são, igualitariamente, Amigos da mesma nacionalidade, Amigos portugueses e Associações. (Tabela 14)

In document ACF606.pdf (3.832Mb) (sider 19-22)