8. Begrepsavklaringer
8.1. Metapolitikk: Begrepsavklaring, bakgrunn og bruksområde
Antonio Candido ao tratar do triunfo do romance no Brasil, nos chama atenção para o que fundamentalmente consistem as “pesquisas psicológicas”, ou seja, “(...) em recusar o valor aparente do comportamento e das idéias, em não aceitá-los segundo a norma que lhes traçam o costume, ou os seus desvios mais freqüentes”. 46
Ora, Candido valoriza a dimensão da obra literária num plano artístico que ultrapassa a subjetividade do autor. E neste sentido sugere que “... há na pesquisa psicológica certa malícia e também uma dor, que levam o romancista a esquadrinhar a composição dos atos e pensamentos; a reconstituir as maneiras possíveis por que teriam variado, levando-os, muitas vezes, à conseqüências inaceitáveis para a visão normal”. (Cf. Candido, 1997, p. 193).
A problemática que envolve o duplo em literatura, ou seja, a duplicidade do “eu”, se refere a uma idéia bastante remota que estende às inúmeras significações. E deve-se levar em conta a conformidade do contexto em que se fala e, sobretudo de onde se fala. De acordo com Mello, o tema do duplo na literatura é recorrente por trazer a baila questões que são pertinentes ao destino humano (“quem sou eu?; o que serei depois da morte?”). E como tais se projetam na criação artística de todos os tempos, sugerindo representações do desdobramento do “eu” que pensa e, simultaneamente é objeto de reflexão. (Cf. Mello, 2000, p. 111).
Se tomarmos o Conselheiro Aires como um duplo de Machado de Assis, o personagem passa a trazer consigo o volume de trabalho que envolve a complexa expressividade do processo criativo que é próprio do escritor. E dado o zelo com que este trabalha, sua responsabilidade pode ser explicada tanto pelas idéias com que lida quanto com aquelas que ele herdou. Assim, verificamos que Aires se constitui além de personagem, um escritor. Pode-se notar a cumplicidade de Aires com o narrador onisciente de Esaú e Jacó se desdobrando em autor e personagem, o que é notável na passagem no início do capítulo XLI / O CASO DO BURRO:
“Se Aires obedecesse ao seu gosto, e eu a ele continuaria a andar, nem eu começaria este capítulo; ficaríamos no outro, sem nunca mais acabá-lo”. 47
46Antonio CANDIDO, Formação da Literatura Brasileira. Vol. II, p.193. 47 Machado de ASSIS, Esaú e Jacó, 1997, passim.
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Pode-se perceber aí, a ambigüidade característica do estilo machadiano de relacionar o leitor envolvendo a situação de seus personagens juntamente com própria narrativa, Mas, em se tratando de Aires na condição de autor ficcional, narrador e personagem, a coisa torna-se mais complexa, já que podemos observar na passagem um desdobramento intencional sublimando a angústia faustiano.
Levando em conta essa especificidade, podemos notar um esforço estilístico por parte do próprio Aires associado diretamente à sua postura esquiva, que conscientemente desdenha a sua condição periférica. Destarte, de um modo oportuno reafirmamos, pois, a noção do duplo que, neste caso, se desdobra na própria seqüência narrativa que trata da cena presenciada por Aires, ou seja, a do carroceiro que batia no burro para que este puxasse a carroça:
“(...) Vulgar embora, este espetáculo fez parar o nosso Aires, não menos condoído do asno do homem. (...); finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi andando. Nos olhos do animal viu Aires uma expressão profunda de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo de espírito invencível. Depois leu neles este monólogo; „Anda, patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim que de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu domínio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teima... ‟”.48 Enquanto que no Memorial... evidencia-se mais claramente ele mesmo, Aires, como autor ficcional e narrador. O duplo, neste caso, seria o corpus social que ele faz parte. A própria forma de diário contribui para acentuar a sua desfaçatez diante dos acontecimentos do cotidiano. Porém, em algumas passagens como, por exemplo, a datada de 31 de agosto de 1888, pode-se notar o conflito faustiano a partir de um recalque que vem a tona e, como que de soslaio ou por um ato falho, a danação em seu isolamento de escritor periférico é assumida, se manifesta:
“Como eu ainda gosto de música! A noite passada, em casa do Aguiar, éramos algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memória os presentes, vejo que éramos treze; ninguém deu então por este numero, nem na sala, nem á
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mesa do chá de família. Conversamos de cousas várias, até que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido da madrinha. (...) Fidélia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma reminiscência de Schumann (...). Eu saí encantado de ambos. A música veio comigo, não querendo que eu dormisse (...); todo o tempo da rua, da casa e da cama foi consumido em repetir trechos e trechos que ouvira em minha vida.
A música foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poético e acaso o patético, diria que é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não quis dar a ela, por causa do ofício diplomático, e foi um erro. A diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que outra cousa; não fiz tratados de comércio nem de limites, não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me à melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço aos ouros.”49
Nas duas obras que tratamos como texto-objeto Aires é o mesmo, e essa repetição marcante do personagem em questão, nos permite detectar a tendência de um processo acumulativo interno na obra machadiana. Entendemos que Aires vai adquirindo, na seqüência das obras, uma discreta autonomia em relação aos outros personagens machadianos que narram em primeira pessoa. Referimo-nos, sobretudo, à chamada segunda fase de Machado de Assis, o que reforça neste ínterim a noção de ápice que atribuímos à Aires como um personagem talhado na maturidade criativa do escritor brasileiro.
Percebemos, pois, que uma identificação faustiana em Machado deve passar pela representação Aires como escritor ficcional que manifesta a lucidez de um ponto de vista cosmopolita privilegiado, mas que é antinômico na origem por sua condição periférica. A antinomia local-universal se encontra na base da experiência criativa vivenciada por Aires, ou seja, o turbilhão que é a angústia faustiana que aí identificamos passa pelo viés interno, como um vórtice reduzido na condição do escritor, que não obstante sua desfaçatez ambiciona em se perpetuar através da publicação de seus cadernos manuscritos.
Aires narra in loco, o que intensifica a noção de duplo machadiano, que num primeiro aspecto pode se referir à própria cronologia das obras, ou seja, Esaú e Jacó é
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lançado em 1904 e o Memorial de Aires em 1908. Mas, que por sua complexidade nos parece ter consciência da decadência de sua situação e da sociedade da qual faz parte, cujo horizonte não se vislumbra mais. Temos aí, pois, a danação de Aires que nos apresenta em sua ânsia em se manifestar sobejamente através de seus manuscritos, revelando-nos fortes indícios de que as duas obras em questão foram, de fato, escritas simultaneamente:
“Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça, muita sonhou com ele, alguma dormiu mal ou nada. Aires foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio-dia almoçou; depois escreveu no Memorial as impressões da véspera, notou várias espáduas, fez reparos políticos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capítulo (...)”. (Capítulo XLIX / TABULETA VELHA). 50
E ainda, na Advertência deste mesmo romance instaura-se uma forte ambigüidade em relação à seqüência dos cadernos escritos por Aires. Sendo que além dos seis primeiros que compõe o Memorial..., enumerados cuidadosamente em série, existia um sétimo intitulado “Último” e que se tratava de uma narrativa:
Último por quê? – A hipótese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo se queria obrigar à leitura do seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra história, escrita com um pensamento interior e único, através das páginas diversas. (...)” 51
E finalmente, as menções diretas ao Fausto de Goethe, uma enfatizada no Capítulo LXXXI / AI, DUAS ALMAS... de Esaú e Jacó:
“Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do Fausto, adequado:
Ai, duas almas no meu seio moram!
A mãe dos gêmeos, a bela Natividade, podia havê-lo citado também, antes deles nascerem, quando ela os sentia lutando dentro em si mesma:
Ai, duas almas no meu seio moram!
50 Machado de ASSIS, Esaú e Jacó, passim. 51 Ibid, op. cit.
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Nisto as duas se parecem, - uma os concebeu, outra os recolheu. Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o próprio Mefistófeles no- lo explicaria de modo claro e certo. O verso basta:
Ai, duas almas no meu seio moram!”
E a outra, anotada a 10 de janeiro de 1888 no Memorial... que diz respeito ao pacto demoníaco. O que expressa, por parte de Aires, uma certa intimidade com o assunto referente a questão faustiana, que nos é central em nossa proposta de trabalho:
“Pouco depois chegamos a casa e Rita almoçou comigo. Antes do almoço, tornamos a falar da viúva e do casamento, e ela repetiu a aposta. Eu, lembrando-me de Goethe, disse-lhe:
- Mana, você está a querer fazer comigo a aposta de Deus e de Mefistófeles; não conhece?
- Não Conheço.
Fui à minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a página do prólogo no Céu, e li-lha, resumindo como pude. Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a propósito do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infalível que faria dele o astuto. Rita não tem cultura, mas tem finura, e naquela ocasião tinha principalmente fome. Replicou rindo:
- Vamos almoçar. Não quero saber desses prólogos nem de outros; repito o que disse , e veja se refaz o que lá vai desfeito. Vamos almoçar.
Fomos almoçar; à duas horas Rita voltou para Andaraí, eu vim escrever isto e vou dar um giro pela cidade.” 52
Ora, podemos observar nesta passagem a desfaçatez irônica e o descaso de Aires diante de sua irmã e, sobretudo, a ação deliberada do escritor ficcional que tem consciência e traz em si a tragédia (antinomia) faustiana. Sendo um escritor moderno periférico na acepção de um duplo machadiano que desdobra em outros duplos, percebemos em Rita a face provinciana (local) de Aires numa tensão com sua formação letrada (européia).
Entendemos, pois, a indiferença de Aires nessa passagem como uma sublimação de sua origem, que se por um lado poderia levá-lo à angústia faustiana e ambiciosa da
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criação literária, por outro lado, se esquiva através dos sortilégios mefistofélicos se afirmando por sua condição de classe. Verificamos que a Aires fez questão de anotar seu diálogo com Rita ressaltando com ironia, o detalhe de sua necessidade em simplesmente matar a fome (o outro de classe) ao invés de ter um colóquio de aspirações “intelectuais ou culturais”, não obstante a amabilidade que ela também possuía.
Na anotação do dia 12 de janeiro de 1888 do Memorial..., Aires demonstra-nos sua preocupação em manter as diferenças em relação a “pobre” Rita, frisando sua visão privilegiada de escritor, o que para nós, no caso, se manifesta como um recalque. Sem perdermos de vista que Aires na verdade está de volta ao Brasil, às suas origens, verificamos que em sua condição periférica de escritor ficcional ele se esquiva sublimando, e anuncia uma identificação com outro duplo. Trata-se da astuta, rica e viajada viúva, Fidélia. Então, escreve Aires:
“Na conversa de anteontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha mulher, que lá está enterrada em Viena. Pela segunda vez falou-me em transportá-la para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que estimaria muito estar perto dela, mas que, em minha opinião, os mortos ficam bem onde caem; redargüiu-me que estão muito melhor com os seus.
- Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro, disse eu.
Sorriu, e citou o exemplo da viúva Noronha que fez transportar o marido de Lisboa, onde falece, para o Rio de Janeiro, onde ela conta acabar (...). ”53
O desdém de Aires para com a irmã Rita torna-se mais evidente ainda quando verificamos que esta não passa de um duplo seu numa condição mais discreta e, que ao mesmo tempo se refere à sua desprezada origem periférica. O escritor ficcional, por sua vez, insiste que o considere a partir da leitura de seus cadernos manuscritos..., onde fica evidente seu interesse e, sobretudo o ponto de vista de classe. Isto nos é evidente e, pode ser observado na anotação de 12 de fevereiro de 1889 do Memorial..., cerca de um ano depois da manifestação do conhecimento e intimidade com o pacto faustiano-
mefistofélico:
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“- Bem, a viúva não casa comigo, casa com outro, segundo lhe parece: mas então você confessa que perdeu a aposta.
- Não digo que não. Tudo está nas mãos de Deus. - Lembra-se daquele dia no cemitério?
- Lembra-me; há um ano.
Repito, não me custou ser discreto; é virtude em que não tenho merecimento. Algum dia , quando sentir que vou morrer, hei de ler ETA página a mana Rita; e se eu morrer de repente, ela que me leia e me desculpe; não foi por duvidar dela que lhe não contei o que já escrevi atrás.
Leia, e leia também esta outra confissão que faço das suas qualidades de senhora e de parenta. Talvez eu, se vivêssemos juntos, lhe descobrisse algum pequenino defeito, ou ela em mim, mas assim separados é um gosto particular ver-nos. Quando eu lia clássicos lembra-me que achei em João de Barros certa resposta de um rei africano aos navegadores portugueses que o convidaram a dar-lhes ali um pedaço de terra para um pouso de amigos. Respondeu-lhes o rei que era melhor ficarem amigos de longe; amigos ao pé seriam como aquele penedo contíguo ao mar, que batia nele com violência. A imagem era viva, e se não foi a própria ouvida ao rei de África, era contudo verdadeira.” 54
A ironia e desfaçatez em relação à Rita são notáveis por parte de Aires e, confirmadas na anotação seguinte do Memorial..., isto é, 12 de fevereiro, onze horas da
noite. Onde se pode verificar certa volubilidade do escritor e autor ficcional:
“Antes de me deitar, reli o que escrevi hoje ao meio-dia, e achei o final demasiado céptico. A mana que me perdoe.” 55
Na questão do duplo em que identificamos Aires envolvido com suas personagens femininas, detectamos o traço acentuado da antinomia faustiana a partir de um amplo desejo e também um recalque. Neste sentido, nos parece a tentativa, não menos conflitante, de acentuar uma visão associada às forças conciliadora da vida, ou seja, a própria noção do “eterno feminino” em escala diminuída internamente no escritor ficcional e, que está no final do Fausto de Goethe:
54 Idem. 55 Idem.
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“Tudo o que morre e passa É símbolo somente;
O que se não atinge, Aqui temos presente; O mesmo indescritível Se realiza aqui; O eterno feminino Atrai-nos para si “56
No âmbito em que tratamos a relação do duplo machadiano (Machado/Aires), temos como prerrogativa o argumento de Antonio Candido, para quem o gênero romance deve ser visto como uma experimentação do autor com o personagem. De acordo com Candido, esta perspectiva para o gênero romance “... é que o torna tão vivo e próximo da nossa vida profunda, na qual vai provocar o estremecimento de atos virtuais, de pensamentos sufocados, de toda uma fermentação obscura e vagamente pressentida”. 57
Candido ainda acrescenta que ao considerarmos o romance neste modo de atuação, o gênero passa ter para nós “... uma função insubstituível, auxiliando-nos a vislumbrar em nós mesmos, e nos outros homens, certos abismos sobre os quais a engenharia da vida de relação constrói as suas pontes frágeis e questionáveis. Uma literatura só pode ser considerada madura quando experimenta a vertigem de tais abismos”. (Candido, 1997, p. 193.).
A maturidade de Machado de Assis como escritor é notável na criação do personagem Aires, mas em seu grau de elaboração literária que em nosso entendimento, para além de detectarmos um duplo machadiano, atinge um ápice que se confunde com a própria história da literatura brasileira. Seria como se a ficção, amparada por uma profundidade poética, e os elementos autobiográficos fundissem na tentativa de
56 Johann W. GOETHE, Fausto, 1987, p. 494. 57 Op.cit. Antonio CANDIDO, p. 193.
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acomodar um ponto de vista utópico vislumbrado num horizonte de nação (ou nacional que se formava), com as circunstâncias reais e concretas de sua própria vida.
Um dado se torna fundamental nesta questão da literatura como duplo, que enfatizamos, trata-se do entendimento da vocação que própria literatura possui de “(...) por em cena o duplo, invalidando o princípio de identidade: o que é uno é também múltiplo, como o escritor sabe por experiência”. 58 E se estamos tratando a obra
literária de um ponto de vista realista, considerando o escritor ou mesmo o poeta, a própria criação e sua autobiografia se fundem na tentativa de acomodar a visão de um mundo ideal com as circunstâncias reais e concretas de sua vida. (Cf. Nostrand, 1973, p. 30).
Atestamos, pois, que a identidade autor-personagem é mediada pela situação histórica nacional. Mesmo que sejam detectáveis traços autobiográficos do escritor Machado de Assis em Aires, não há como ser indiferente à presença de um mundo real, concreto e existente que o romance machadiano evoca no plano literário.
Neste âmbito, reconhecendo o Fausto como um mito de origem, considerando-o como um paradigma de sintoma e recusa, lembramos e retomamos a questão que desencadeia a modernidade ou a projeção de um mundo moderno, incluindo o Brasil como parte deste processo. Trata-se de levar em conta a condição periférica de uma cultura que absorve os ditames da exploração e dominação, própria da expansão da modernização européia, e que através de sua arte, especificamente a literária, faz-se notar.
Cabe-nos, pois, ressaltar que em meio aos acontecimentos progressivos da modernidade, a formação do sistema literário brasileiro foi um elemento da descolonização. De acordo com Bastos, “a imaginação literária brasileira se fez capaz de auto–referência” 59 e, isso se refere fundamentalmente a uma capacidade de
representação de si mesmo como nação. Identificamos este último aspecto movido não apenas como um clamor, mas também como uma ambição e um desejo de realização e como tais, notadamente faustianos.
58Considerando ainda este aspecto de uma poética do duplo, “(...) escritores contemporâneos liberam
seus heróis, que muitas vezes são duplos deles próprios aprisionados num eu particular, fixado no molde da personalidade” (Cf. Brunel, 1997, p.282).
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Ora, quando consideramos Aires como um duplo de Machado de Assis, ou seja, um escritor ficcional moderno e antinômico por sua condição periférica, partimos de um aspecto trágico na formação da literatura brasileira. E isso nos faz aproximar dos termos de Auerbach que dizem respeito ao processo de formação da literatura ocidental, isto é, trata-se da “consumação de uma figura”, (Auerbach apud Bastos (H), Ibid., p. 109).
Admitindo, pois, que a literatura ocidental se define “(...) na sua continuidade de figura – consumação –figura”, pode-se observar nesse desenvolvimento “... a renovação de uma promessa que entretanto, jamais se realiza”. (Ibid., op. cit.). Neste âmbito, ao apontarmos Aires como um duplo machadiano na condição escritor ficcional periférico, verificamos, pois, através dos seus cadernos manuscritos a “consumação” que nada mais é do que uma “figura para uma nova consumação”, notadamente da obra literária