7. Kilder fra bevegelsene
7.2 Futuristenes primærkilder
Uma distinção que devemos levar em conta na análise literária moderna é justamente a de que, na modernidade o que é verdade deve ser provado. Evidentemente que observamos que no mundo moderno um discurso literário necessita de uma legitimação, diferentemente da cultura antiga e ou medieval que se legitima como verdadeiro no sentido que evidencia uma verdade. Deste modo, a crítica literária moderna coaduna-se com a própria historia da literatura de um país como o Brasil. Haja vista que toda obra literária propõe de imediato uma leitura sobre si mesmo, daí a necessidade de uma percepção dialética do texto-objeto.
Para apreensão de uma leitura acerca de Machado de Assis pelo viés do mito de Fausto, apoiamos em um substrato teórico cuja organização de conceitos que de algum modo comporta uma crítica literária. A propósito, considerando a universalidade do mito, Bosi nos faz perceber que este poderia se pensado no interior de um contexto de sentido e valor. E evidentemente tal contexto varia de acordo com os momentos histórico-culturais. 42
A problematização de nossa pesquisa passa necessariamente pelo exercício da dialética, ou seja, chamamos atenção para o fato de que Aires apresenta um universo de vida e o texto não apresenta uma expressividade simples. Através de Aires observamos uma sociedade cujo processo o inclui, e ao mesmo toda a herança de colonização da qual define a realidade brasileira como nação.
A condição do personagem é de certa resignação que podemos definir como um sintoma da situação que lhe é vigente. Porém, como catalisador do plano concebido tanto em Esaú e Jacó quanto em Memorial... , isto é, por também se definir como testemunho e expressão de um ponto de vista que evidentemente lhe é próprio, Aires ao mesmo tempo se determina como uma recusa da mesma situação vigorante.
Nitidamente o Conselheiro Aires se exprime de seu gabinete de trabalho, ou de sua mesa particular, de um modo geral à noite, e as características que o faz dizer o que
42 Alfredo Bosi ainda acrescenta que “(...) pela abordagem hermenêutica, o mito poderia ser revivido e
ganhar nos significados no interior da obra de arte”. Bosi parte de uma pontuação em relação aos teóricos Ricoeur, Dilthey e arremata o argumento com a proposta de Fry no que diz respeito ao mito. Alfredo BOSI, Leitura de poesia, 1996, p. 33.
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pensa manifesta-se como um escritor. 43 O que se evidencia na advertência em Esaú e
Jacó:
“Quando o Conselheiro Aires faleceu, achararam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão (...)”. Ou ainda é
notável no capítulo XII do mesmo romance – “(...) Quando não acertava de ter
a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas, observações, reflexões críticas e anedotas, tendo para isso uma série de cadernos, a que dava o nome de Memorial (...)”. 44
Ao darmos o devido tratamento de escritor para o Conselheiro Aires de escritor torna-se inevitável apontarmos a relevância dessa condição na modernidade. E salientamos ao mesmo tempo a contraposição dialética de que somente num país como o Brasil foi possível um escritor como Machado de Assis, ao invés de especularmos a possibilidade de um gênio literário universal em terras colonizadas.
Se considerarmos um tratamento mais específico no que diz respeito a obra machadiana por parte da crítica que leva em conta uma historicização do romance, e conseqüentemente considerando a herança problemática deste gênero literário no Brasil, podemos alinhavar as idéias que sustentam nossa hipótese.
Admitindo a literatura como arte e como dispositivo que produz e inventa um sentido, ao mesmo tempo compreendendo-a como uma atividade que não busca solução de problemas, mas que aponta ou ilumina os mesmos, fazemos a menção de que seus enunciados precisam ser socialmente contextualizados.45
Torna-se necessário, por exemplo, apontarmos que o Fausto, em especial referente à obra literária de Goethe com suas respectivas traduções, recriações e críticas, enriqueceu de modo significativo o acervo intelectual das sociedades tanto de língua
43 Cabe-nos lembrar que o Fausto na versão de Goethe em sua primeira aparição na obra se dá com um
extenso monólogo, do mesmo modo que na versão de Cristopher Marlowe de 1600, e do Faustbuch de 1587. Com a diferença que em Goethe “... é alta noite. Fausto está só na quietude do seu quarto de trabalho...”, e também é aí no seu “quarto de estudos” se defronta com Mefistófeles. Delton de MATTOS,
A Linguagem do Fausto de Goethe, p. 41.
44 Machado de ASSIS, Esaú e Jacó, passim.
45 É importante ressaltarmos que essa questão da literatura moderna envolve também o problema da arte,
cuja origem remonta ao mundo com suas sociedades arcaicas. Devendo, pois ser compreendida no contexto preciso de sua elaboração. Os teóricos citados no início deste capítulo, por mais que se refiram ao Conselheiro Aires de um modo crítico e persuasivo, não se impõe no sentido absoluto do termo e, portanto não encerram o debate acerca de Esaú e Jacó e do Memorial... Assim como Afrânio Coutinho e Alceu Amoroso Lima dadas suas devidas importâncias, contribuem com a consideração da literatura em seu sentido estético, e mesmo que não demonstrem suas intenções, definem uma posição política.
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hispânica quanto para as de língua portuguesa. E naturalmente, uma obra de grande alcance representativo da literatura ocidental devido seu grau de influência, haveria de incitar alguma forma de resistência.
Ora, o mito de Fausto surge precisamente a partir da nítida percepção do indivíduo que por mais que vivesse com suas responsabilidades, era de fato uma provocação a toda uma ortodoxia, evidentemente de hegemonia social e cultural. Podendo-se reconhecer que “desde que se começou a pensar em uma cultura moderna, a figura de Fausto tem sido um de seus heróis culturais”. (Cf. Berman, 1986, p. 43).
Na medida em que ocorrem no desenvolvimento da modernidade mudanças essenciais nas ordens ideológicas, sociológicas e econômicas, em conseqüência de um processo de secularização do ocidente, a apreensão das contradições do Fausto tornam- se mais sólidas. Com esse entendimento, se não indicamos o Fausto como um protótipo do homem burguês, podemos instigar que mesmo pressupõe, contudo, um sentido do mundo e da vida que somente pode ser abarcada numa sociedade burguesa “ilustrada”. (Cf. Udo Rukser, 1977, p. 123).
A acepção que corresponde as nossas especulações a respeito do mito de Fausto, com um viés de interpretação no romance machadiano, corresponde àquela que na consciência comum se produz a mitificação, que a literatura a registra. E em muitos casos, como no Fausto goetheano, é a literatura que consagra o mito por iniciativa própria. Nesta ordem, podemos atentar para uma categoria de mitos literários, ou seja, aquilo que a literatura deu uma nova feição ou dimensão narrativa. (Cf. Brunel, 1997, p. XIX).
Ao reconhecer o elemento mítico faustiano, notadamente o Conselheiro Aires nas narrativas de Esaú e Jacó e do Memorial de Aires, verificou-se uma ilustração simbólica de uma situação humana para tal ou qual coletividade, em tese, uma conjuntura nacional. A literatura realista machadiana indica uma vocação social, e nesta face compreendemos que para uma reflexão acerca da literatura define-se assim um eixo fundamental.
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