Para compreender a importância dos equipamentos culturais no cenário contemporâneo dos centros urbanos, é fundamental primeiro perceber o significado de cultura. Willians (1976 apud Viegas, 2013) defende que o conceito de cultura pode ser interpretado a partir de três diferentes perspectivas: a antropóloga, a socióloga e a estética. Segundo a perspectiva antropóloga, o autor refere o conceito de cultura vinculado ao modo de vida de um povo, a maneira como um determinado grupo de seres humanos pensa, fala e age. Do ponto de vista sociológico, a cultura é associada a um campo de conhecimento dos grupos humanos que abrange desde a sua produção até o consumo de atividades culturais. A cultura é então entendida como espetáculo, politica, produção e consumo. Por fim, pela perspectiva estética, o conceito de cultura se refere as atividades intelectuais e artísticas, como por exemplo a música, a literatura, o teatro, o cinema, a pintura, a escultura e a arquitetura. (Viegas, 2013) A partir da definição de cultura é possível partir para a definição do termo “equipamento cultural”. Coelho (1997 apud Graeff et al, 2015) define o conceito de equipamento cultural como tanto as edificações destinadas a práticas culturais (teatros, cinemas, bibliotecas, centros de cultura, filmotecas, museus) quanto grupos de produtores culturais abrigados ou não, fisicamente, numa edificação ou instituição (orquestras sinfônicas, corais, corpos de baile, companhias estáveis, etc.).
44 Os equipamentos culturais começam a se destacar nos centros urbanos a partir do final da segunda Guerra Mundial, quando as cidades sentiram a necessidade de retornar aos valores do passado face ao choque da modernização da época. Assim, os equipamentos culturais são evidenciados com o propósito de servir como um acervo de memórias para a cidade e sua população. (Silva, 2012)
No sentido de afirmar a importância dos equipamentos culturais no contexto atual é elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2016) um Relatório Global intitulado “Culture: Urban Future”. O documento reconhece o papel da cultura no desenvolvimento urbano sustentável. Afirma que esta precisa ser plenamente integrada às estratégias urbanas para assegurar sua sustentabilidade, e uma melhor qualidade de vida para seus residentes. As principais recomendações presentes no relatório incluem uma série de medidas que têm por objetivo reconhecer e promover a diversidade cultural das cidades, integrar a cultura para combater a violência urbana, além de garantir investimentos para inserir a cultura, o patrimônio cultural e a criatividade no planejamento urbano. O relatório ainda busca demonstrar como as cidades são consideradas espaços de vida vibrantes, e sem a presença da cultura, são meras construções, propensas à degradação e à fratura social.
A Direção-Geral do Património Cultural de Portugal (2017) defende que os equipamentos culturais, especificamente os museus e os monumentos, são lugares únicos que proporcionam experiências memoráveis e uma aprendizagem indispensável à formação da identidade da população. Afirma ainda que estes espaços transmitem valores, despertam memórias e interagem diretamente com a contemporaneidade.
O contexto atual é marcado pelo aparecimento de novos valores associados às políticas de competitividade das cidades, valores ligados à promoção de uma imagem e à sua projeção para o exterior, acentuando a necessidade do marketing das cidades. Assim, se torna cada vez mais indispensável para as cidades a elaboração de uma estratégia política que aposte no setor cultural, na criação de novos equipamentos com esse carácter e que sejam polos qualificadores da cidade, além de produzirem uma boa imagem para o exterior. (Silva, 2012)
Viegas (2013) defende que a associação da cultura ao turismo gera benefícios mútuos capazes de reforçar a atratividade e a competitividade das cidades, regiões e/ou dos países, gerando importantes proveitos económicos capazes de custear a manutenção do património e a produção cultural. A autora também defende que a cultura é um elemento cada vez mais importante do produto turístico e permite criar uma posição de destaque num mercado globalizado, ganhando vantagens competitivas. No âmbito municipal, a cultura também se faz presente e é considerada umas das áreas estratégicas basilares enquadradas na Carta Estratégica de Lisboa 2010-2024 (CML, 2009). O documento pretende
45 dar resposta a um conjunto de questões que constituem os atuais desafios estratégicos no planeamento de Lisboa para perspectivar o futuro, planeando e concretizando o que se busca para a cidade. A cultura está presente em um dos eixos de revitalização e de afirmação da centralidade de Lisboa, afirmando a identidade da cidade. (CML, 2009)
Lisboa apresenta uma oferta cultural variada e significativa, que tem crescido ao longo dos últimos anos. A Câmara Municipal de Lisboa (CML), no âmbito das competências que lhe foram atribuídas, é a grande responsável pela gestão e organização de muitos dos equipamentos culturais municipais, assegurando assim as ações necessárias à proteção, conservação e restauro do património cultural do município. A rede de equipamentos culturais municipais também se faz fundamental para a concretização do Direito à Cultura, consagrado na Constituição da República Portuguesa. (CML, 2017) Como benefícios da cultura e dos equipamentos culturais nos centros urbanos é possível citar: a valorização do passado, das memórias e da identidade; o auxílio na manutenção da cidade e na coesão social; um desenvolvimento urbano sustentável; uma estratégia para a competitividade num mundo cada vez mais globalizado; um aumento das dinâmicas económicas; e um aumento da qualidade de vida da população. Os equipamentos possuem grande capacidade de atração de pessoas, são edifícios marcantes na identidade da zona, são geradores de cultura e também potencializam o desenvolvimento humano, social e econômico. A cultura assume assim uma forte relevância na vida das cidades, dos seus residentes e na sua economia.
O reconhecimento da importância dos equipamentos culturais nos centros urbanos faz com que os apoios político e financeiro de projetos com esse âmbito recebam incentivo e prestigio. Os edifícios com essa intenção começam a ser construídos de raiz para esse objetivo, e o entusiasmo dos arquitetos em relação ao seu desenho começa a crescer e resultando em edifícios inovadores no âmbito da arquitetura. (Silva, 2012)